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Ele é o Eleito

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Zo d'Axa
(Original em Francês - Versão em Inglês)


O texto abaixo é parte da revista La Feuille; publicada em Paris, no ano de 1900.


Ouçam a história edificante de um belo jumentinho branco, candidato na capital. Não é uma rima da Mamãe Gansa,[1] ou uma estória do Le Petit Journal.[2] É uma história verdadeira para os meninões que ainda votam:

Um burro, filho do país de LaFontaine e Rabelais, um asno tão branco que o senhor Vervoort glutonicamente quase o devorou, aspirante - no jogo eleitoral - a um cargo como legislador. O dia das eleições havia chegado para aquele burro, o tipo perfeito de candidato, respondendo pelo nome de Ninguém, colocou pra fora no último minuto uma estratégia.

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Nesta quente manhã de domingo de maio, quando as pessoas partiam para as piscinas dos clubes, o burro branco, o candidato Ninguém, desfilava no carro triunfal, empurrado por seus eleitores, atravessando Paris, sua boa cidade.

Sobre seus cascos, orelhas ao vento, orgulhosamente emergindo de seu veículo gaudilicamente decorado com cartazes eleitorais - um veículo em forma de urna - a cabeça altiva entre o copo de água e o sino presidencial, ele ultrapassou a raiva, os bravos e as zombarias.

O asno foi visto em uma Paris que o encarava.

Paris! A Paris que vota, a multidão, a soberania popular a cada quatro anos... o povo suficientemente tolo para acreditar que soberania consiste em nomear seus próprios mestres.

Como se estivessem parados em frente das prefeituras onde rebanhos de eleitores, os confusos, fetichistas que carregam pequenos cartões através dos quais dizem: Eu abro mão.

Senhor Qualquer-Um irá representá-los. Ele os representará a todos melhor é que nisso ele representa a nenhuma ideia. E tudo ficará bem. Nós faremos leis, nós equilibraremos o orçamento. As leis irão significar mais cadeiras; o orçamento significará novas taxas...

Lentamente o asno atravessava as ruas.

Ao longo do caminho as paredes haviam sido cobertas com cartazes por membros do seu comitê, enquanto outros distribuíam suas proclamações à multidão:

"Pense com cuidado, queridos cidadãos. Vocês sabem que seus representantes estão enganando vocês, tem enganado vocês, e ainda os enganarão - ainda assim vocês vão votar. Então votem em mim! Elejam o asno!... Eu não sou tão idiota quanto vocês."


Esta franqueza - um pouco brutal - não era para o gosto de todos.

“Estamos sendo insultados,” alguém disse entre eles.

“O sufrágio universal está sendo ridicularizado,” outros mais acuradamente gritaram.

Alguém furiosamente brandiu seu punho para o asno e disse:

“Maldito Judeu!”

Mas uma gargalhada sonora se irrompeu. O candidato estava sendo aclamado. Corajosamente, os eleitores ridicularizavam a ambos, a eles próprios e a seus representantes eleitos. Chapéus eram arremessados, bengalas. Mulheres atiravam flores...

O burro passava.

Ele descia por Montmatre ao lado do Quarteirão Latino. Ele cruzou os grandes boulevards, a Croissant na qual sem sal, a coisa era cozinhada e as gazetas se punham a vender. Ele viu os arcos sob os quais os famintos - o Povo Soberano - fuçavam em pilhas de lixo; os portos, onde os eleitores escolhiam a parte de baixo dos piers para servirem-lhes casas...

O coração e a mente! Isso era Paris! Isso era democracia!

Somos todos irmãos, velhos vagabundos! Pobre do burguês! Ele tem a gota... ele é seu irmão, gente sem pão, homem sem trabalho, mãe desnuda que, esta noite, irá pra casa para morrer com seus pequeninos...

Somos todos irmãos, jovens recrutas! É seu irmão, o oficial lá embaixo, com sua garota de corpete e cabeça coberta com barras. A sua Saúde! consertem as baionetas! Em linha! O Código vos espera - o código militar. Doze balas em sua pele para cada aceno. É a taxa republicana.

O asno chegou em frente ao Senado.

Ele foi rolou ao longo do lado de todo o palácio, onde os guardas se acotovelavam para sair. Ele continuou do lado de fora (alas!) dos jardins verdes demais. Então ele alcançou o Boulevard Saint Michel. Dos terraços dos cafés as pessoas aplaudiam. A multidão, aumentando sem parar, agarrou cópias de suas proclamações. Estudantes se enganchavam no carro. um professor empurrava as rodas...

Então quando soaram as três horas, a polícia apareceu.

Desde às 10 da manhã, na delegacia, o telégrafo e o telefone assinalavam a estranha passagem destes subversivo animal. A ordem para levá-lo para dentro foi emitida: Prendam o burro! Agora os vigilantes da cidade bloqueavam a rota do candidato.

Perto da praça de Saint-Michel o fiel comitê de Ninguém foi evocado pelas forças armadas a levar o candidato até a delegacia mais próxima. Naturalmente, o comitê ignorou essa ordem: bem acima do Seine, onde o vagão logo parou em frente ao Palácio de Justiça.

Mais numerosos, os policiais cercaram o burro paralisado. O candidato foi preso no portão do Palácio de Justiça de onde deputados, golpistas e todos os grandes ladrões saíam como homens livres.

O carro guinou com a movimentação da massa. Os agentes, o brigadeiro na liderança, fechou a passagem e colocando seus homens como barreira. O comitê não insistiu; Eles foram barrados também por policiais.

Foi quando o burro branco foi libertado por seus mais ferventes partidários. Como um político qualquer, o animal foi na direção errada. A polícia renovou com ele seu compromisso, e as autoridades lhe guiaram o rumo... Daquele momento em diante, Ninguém era nada além de um candidato oficial. seus amigos não mais o conheciam. A prefeitura abriu suas portas, e o asno entrou como se aquela fosse sua casa.

...Se falarmos sobre isso hoje que faça o povo saber - o povo de Paris e do interior, trabalhadores, camponeses, burgueses, cidadãos orgulhosos, caros senhores - que o burro branco Ninguém foi eleito.

Ele foi eleito em Paris. Ele foi eleito nas províncias. Juntando os votos brancos e nulos, adicionando as abstenções, as vozes e os silêncios que normalmente se juntam para significarem desgosto ou desdem. Trace algumas estatísticas, se você preferir, e poderá facilmente verificar que em todos os distritos o senhor que fraudulentamente foi proclamado deputado não recebeu um quarto dos votos. Disso decorre a imbecílica locução "maioria relativa". Você também pode bem dizer que a noite é relativamente dia.

E dessa forma o Sufrágio Universal, brutal e incoerente, que é baseado em números - e nunca teve sequer isso - vai perecer no ridículo. Em se falando de eleições na frança as gazetas de todo mundo, sem qualquer malícia, trouxeram juntas dois dos mais notáveis fatos deste dia:

“Na manhã, cerca de 9:00, O senhor Felix Faure[3] foi votar. Na parte da tarde, às 15:00, o burro branco foi preso.”

Li essa notícia em trezentos jornais. Recebeu cobertura de muitos periódicos, do Argus ao Entregador da Imprensa. Havia reportagens em inglês, wallaquiano e espanhol... às quais eu jamais compreendi.

Cada vez que eu lia Felix Faure, tinha a impressão de que estavam falando do asno.

Nota do Editor: Durante o período eleitoral o programa no cartaz foi realmente colado nas paredes, e no dia da votação o candidato satírico realmente atravessou Paris, de Montmartre ao Quarteirão Latino, passando através da multidão entusiasmada ou escandalizada que ruidosamente se manifestava. No Boulevard du Palais, o asno foi a seu próprio tempo apreendido pela polícia, que o arrastou a pauladas. Conforme os jornais da época reportaram, se não houve uma briga entre os partidários do asno e os representantes da ordem foi graças ao editor do La Feuille que gritou: “Não façam isso; ele é agora um candidato oficial!”

Leia tambémEditar


Referências

  1. Esteriótipo de Mulher camponesa que inspirou a personagem fictícia, memorável contadora de estórias que tenta entreter seus muitos filhos para que não chorem nem briguem entre si.
  2. Jornal ilustrado publicado na capital francesa no final do século XIX, início do século XX que tinha como linha editorial apresentar curiosidades, fofocas sobre a vida das famílias reais da Europa e perseguir os anarquistas sempre que possível, defendendo políticas de repressão mais severas conforme a vontade das elites a qual ele pertencia.
  3. Félix François Faure (1841 – 1899) foi um político francês. grande xenófobo, pedante elitista e vergonhoso antissemita. Foi Presidente da França de 1895 até sua morte. (N. do T.)


Textos

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