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Educação para a Comunidade

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Aqueles que dentre os senhores que já me ouviram antes e já discutiram comigo esse tema, sabem a importância que atribuo ao fato de não precisar falar, por assim dizer, de cima para baixo, de não me sentir obrigado a apresentar uma série pronta de pensamento. Ao contrario, importa, sim, poder estabelecer autêntica interação, isto é, ouvir, conhecer as questões, dúvidas e dificuldades relativas ao tema, presentes no espírito daqueles que estão reunidos comigo.

Há muitos anos tornou-me consciente disso sempre que encontro, para falar sobre esse assunto, um número grande de pessoas, sobretudo se muitas me são conhecidas. Este sentimento é particularmente forte hoje quando quero falar sobre algo que, como tema, é novo, inclusive para mim. Isso me parece novo, sobretudo quando se procura tratar de sua realidade, como eu tento fazer. Devo, então, pedir-lhes que me permitam apresentar agora somente o esboço geral deste problema, e solicitar-lhes a cooperação no sentido de me dizer que pontos específicos devemos discutir. O tema é tão vasto que o que posso e devo fazer, de início, para que nos possamos entender e saber do que falamos, é circunscrevê-lo, isto é, dizer o que significam e o que não significam as noções de “comunidade” e “educação” sobre as quais desejo falar. É no sentido do esclarecimento do problema que gostaria que entendessem estas minhas observações preliminares.

Fala-se muito, atualmente, sobre educação comunitária. Notei tudo o que se disse a respeito, tanto quanto me foi possível conhecer, e percebi que tudo isso nada tem a ver com que entendo por comunidade.

A educação comunitária, tal como encontramos na literatura existente, consiste em qualificar ou equipar o homem em desenvolvimento com a capacidade de se orientar diante de grandes objetivos, tais como, sociedade, Estado, partido, associações nos quais a vida irá situá-lo. A educação comunitária fará com que o homem se torne um membro útil, produtivo no seio diverso dessas modalidades de associações, social, política, vale dizer que ele não seja simples roda que só gire em torno de seu eixo, mas uma pessoa, uma roda equipada com dentes e, assim, esteja apta a engrenar em outras rodas deste enorme aparato e seja capaz de participar deste imenso e complicado movimento global. No entanto, tudo isso, em minha opinião, tem muito pouco a ver com comunidade. Não posso convencer-me de que as associações, sobre as quais se fala aqui, a saber, o Estado atual, a sociedade atual etc., têm a ver com a comunidade. Ou, em outros termos, há redutos de comunidades no Estado, na sociedade etc. E mais, em nossos dias a vida humana ainda não se tornou um mecanismo de modo a não existir comunidade em lugar algum, nem mesmo em todas essas assim denominadas imensas associações mecanizadas – embora não seja um termo feliz – (eu diria antes associações objetivadas). Porem, na realidade, se procurarmos uma autêntica vida comunitária nestas grandes associações, não a encontraríamos em nenhuma delas. Notamos isso claramente em épocas de crise ou de catástrofes, épocas nas quais o caráter dessas associações poderia parecer em mudança...como se algo soterrado quisesse ressurgir. Isso nunca me pareceu tão claro como em 1914, quando muitos jovens possuidores de entusiasmo especialmente grande e autentico, perceberam que este Estado que conheceram como algo oposto à comunidade, como desprovido de comunidade, era, no entanto, como uma comunidade viva pela a qual valia a pena não só viver, mas também morrer... Porem, de qualquer maneira, me é difícil explicar o que chamo comunidade, cujos os resquícios ainda perduram nas comunidades contemporâneas. Nos círculos de pessoas, essencialmente jovens, era como um anseio, um desejo... Talvez seja melhor utilizarmos conceitos da sociologia moderna. Há obras sobre a relação entre sociedade e comunidade. A obra de Toennies opõe sociedade à comunidade quando afirma que a sociedade é uma associação de homens unidos por um determinado propósito, que possuem interesse comum e se congregam a fim de servirem a esses interesses comuns e atingirem este fim. Trata-se, então, de uma convenção fundada sobre uma decisão. Por outro lado, comunidade é a união de homens ligados pela própria essência e pela própria vontade essencial, uma união que é resultado de um processo natural e não algo imposto; é baseado em sua origem comum, costumes, propriedades etc. De fato, o homem nasce na comunidade. Ela é sua condição, ele vive, respira nela, ela o sustenta. A sociedade é algo que, por assim dizer, ele reconhece sem cessar e aceita como algo essencial para a orientação de sua vida, para os fins que ele se propõe e deseja atingir. Por isso ele se insere na sociedade. estes confrontos entre os conceitos de sociedade e comunidade funda-se, como se pode ver, à primeira vista, numa perspectiva histórica. O que se denomina aqui comunidade é uma condição social primitiva. São, de fato, categorias históricas que se sucedem umas às outras no desenvolvimento da humanidade, no desenvolvimento das culturas individuais. Porem, a partir desta perspectiva, não é possível definir o que se entende, na vida moderna, por comunidade. Sentimos que esta primitiva comunidade de comunhão de costumes, de propriedades etc., não abrange o que conhecemos por comunidade. Alguns filósofos modernos (Schmalembach) tentaram completar essa concepção, acrescentando um terceiro conceitos aos dois anteriores – sociedade e comunidade – a saber, o conceito de aliança.

Ele disse: comunidade é aquilo que se tornou comum, é onde o homem nasce, aquilo que, por assim dizer, se relaciona com seu subconsciente. Não é resultado de sua escolha e decisão conscientes; Schmalembach denomina, a meu ver adequadamente, de “aliança” aquilo que ao em vez de conduzir à formação de sociedade, conduz à autentica união orgânica (de homens), à formação de um verdadeiro circulo de homens.

Sabemos a partir de nossa época, o que significa. Diria mesmo que na Alemanha, onde vivemos, se espalham diversos tipos de aliança, religiosa e outros. Porem, se observarmos nossa época e o curso da História, veremos que ela se diferenciou em algo essencial. Schmalembach não notou isso. Não compreendeu a sociedade moderna, de fato, não se levantou contra a comunidade primitiva, e que, de outra parte, não contem o tipo de “comunitariedade” (Gmeinschaftlichkeit) que pode ser concebido e aspirado pela vida moderna e ultrapassa os limites da comunidade primitiva. Com isso, entendo ser a aliança algo que não engloba toda a vida orgânica do homem – e isso não por mera causalidade, mas pela sua própria essência. Ao contrario, é algo que acompanha a vida orgânica e natural do homem ou enfatisa somente uma dimensão dela. Se a aliança é de caráter político, inclui homens que aspiram alguma mudança; ou, se é de caráter religioso – não, porem, uma parte da vida, no sentido moderno de “religioso” –, ela é um tipo de consagração de algumas horas que seria, por isso, separada da vida e que assim transcenderia a vida cotidiana. A aliança é algo que não engloba a quotidianidade e a regularidade da vida. Ela pretende organizar as maiores aspirações do homem – tomando-se isso não pejorativamente.

É típico da “aliança” que os homens saiam de suas casas para irem ao local onde pertencem à aliança; afastam-se de suas ligações com a regularidade da vida a fim de atingirem a consagração. A aliança tem duplo fundamento. Não é algo jamais que engloba toda a vida natural do homem: a vida domestica, a vida na rua, no trabalho... Engloba homens que se recolhem, se retiram da vida agitada e se associam para esta existência em comum, separada essencialmente daquela vida, tanto num sentido espacial quanto temporal.

Agora, quando falo de comunidade, entendo algo que abrange toda a vida, toda a existência natural do homem, não excluindo nada dela. Ou a comunidade é isso, ou, então, deve-se renunciar à idéia da existência de uma comunidade autentica. Que a comunidade possa ser realizada ou não, depende muito desta união total. Entendo que comunidade que se erige ao lado da vida não é comunidade. Com isso não quero prejudicar, de algum modo, a existência das alianças, mas sinto e devo dizer que todas são somente pressentimento ou antecipação de alianças. As alianças realizam-se na separação da vida, o que não pode ser realizado aqui e agora na plenitude e no trabalho da vida, ou que é considerado irrealizável. Esta resignação ou este conhecimento, esta renuncia, este elemento negativo encontra-se no fundo da “aliança”. Esta constrói um plano sobre o qual será realizado aquilo que não pode ser realizado no plano da vida. A aliança apresenta um modo consolador para se sair da impossibilidade de realização na plenitude da vida vivida, criando experiência de comunidade. Esta experiência de comunidade, porem, não entra na vida vivida, não preenche todas as fendas e poros, não se estende por toda a parte, para, tão somente, erigir-se como vida, mas é um pacto negativo firmado, um muro erigido: ela é reconhecida como: “até aqui e não adiante”. E este “até aqui”, se observa atentamente, é o inicio da verdadeira vida não-patética, da autentica vida.

Pode-se dizer, então – e, de fato, já encontrei varias vezes tal assertiva – “certo, mas isso não é uma necessidade, e muitas vezes uma necessidade trágica?”. Existe , então, pode existir neste mundo em que vivemos, neste mundo humano, outro tipo de comunidade se não a aliança? Aquela comunidade que engloba tudo não é, na verdade, uma condição primitiva, uma condição de uma diferenciação menos pessoal? Não é uma condição na qual os homens não podem viver realmente em comunidade, porque não estão ainda separados uns dos outros pela personificação, como os homens de hoje, e por que eles não se confrontam mutuamente nesta multiplicidade? Os homens cresceram na diferenciação da sociedade contemporânea, a partir precisamente destas ligações naturais e é puro romantismo pretender voltar à comunidade, que, na forma de um englobante de toda a vida, está perdida para nós. Tal questão me parece central: se a comunidade (ignoremos a aliança como associação que não engloba a totalidade da vida) é, de fato, idêntica a sociedade subcomunal. Na realidade, creio que a comunidade, considerada pela sociologia em contraste com a sociedade, é sem duvida de tipo subcomunal. Diz respeito à comunidade a partir da qual a ordem individualista se desenvolveu como fundamento da sociedade contemporânea. Eu não só admito isso, mas quero simplesmente assinalar que o desejo de retornar aquém desta diferenciação da ordem social moderna é uma tendência sem esperança. Tudo depende da possibilidade ou não de um desenvolvimento posterior da comunidade, isto é, se existe não só uma comunidade subsocial, mas também uma comunidade supra-social, vale dizer, se é possível suas realização com os preconceitos e meios da situação e da ordem atual. Peço que não considerem esta colocação em termos de “ou-ou”. Ou se pode transformar, através de um artifício, a sociedade em comunidade, ou não... É particularmente difícil de se considerar as coisas sob esta forma disjuntiva; pois as coisas podem realizar-se, assim penso – tanto quanto as coisas podem realizar-se na ordem humana – na relatividade de toda a realização, de modo que o amanhã parece um pouco diferente do hoje, isso é suficiente. Isso é, para mim, prova suficiente, pois, se isso é realmente assim, se entre as horas, entre as épocas, os períodos de tempo, existe um acréscimo, uma alteração em uma determinada direção, isso basta. Esta é uma prova humana, nada mais necessário. É este o pressuposto que estabeleço para isso de que estou falando.

A questão que nos ocupa hoje é a seguinte: que a educação de pessoas, a educação de pessoas em desenvolvimento, hoje tem que ver com o advento de uma comunidade supra-social, isto é, com a penetração da comunidade, com um novo sentido de comunidade? Pretendo analisar este sentido novo de comunidade, pois é um domínio que pode prestar-se a interpretações errôneas. Este novo sentido de comunidade não repousa mais sobre o “ter em comum” (Gemeinsamkeit), sobre propriedades objetivas, como costumes, ligação legal ou outra coracteristica da comunidade primitiva; não se baseia o “ter em comum” como fundamento necessário, ao contrario, este sentido de comunidade pode fundamentar-se sobre um tipo de “comunidade”. Em termos mais claros, não se baseia em um “estar-com” estática, mas dinâmico; não sobre homens semelhantes, feitos, formados e ordenados de modo semelhante, mas sim sobre pessoas que, formadas e ordenadas diferentemente, mantêm uma autentica relação entre si. Partimos desta diferença como essência da ordem atual e perguntamos: como pode haver comunidade que não seja dinâmica, de modo que a comunidade seja algo que aconteça entre homens, entre Eu e Tu? Na verdade, se eu pretender – sem duvida de modo insuficiente – deduzir um autentico conceito de comunidade a partir da situação da humanidade contemporânea, então comunidade significa, aqui e agora, multiplicidade de pessoas, de modo que sempre seja possível para qualquer um que a ela pertença estabelecer relações autenticas, totais, sem finalidades... de modo que exista tal relação entre todos os membros. O importante são as centelhas, o acontecimento verdadeiro. Porem, o estatuto, a estrutura desta multiplicidade de pessoas deve ser tal que nada reprima este tipo de relação entre estas pessoas ou que torne essas relações impossíveis. Devo afirmar, mais uma vez, que ante de tudo tal relação deve ser imediata, isto é, que os homens se encontrem mutuamente na ação mutua, sem que algo de pessoal ou objetivo se interponha entre eles. Isto quer dizer que eles se relacionem não pelo fato de possuírem algo em comum (interesses, negocio, trabalho ou qualquer ligação pratica ou uma realização), mas, ao contrário, que se relacionem imediatamente sem intermediários. As centelhas da relação cintilam daqui e dali, de pessoa a pessoa. É isso que entendo por imidiaticidade.

O segundo ponto é a totalidade da relação. Isto que dizer que a relação de um homem com o seu semelhante não envolve somente uma parte de seu ser, como é freqüente hoje, quando os vários domínios da vida espiritual são separados, cada um com sua própria lei, sua própria estrutura, sua própria contabilidade. Há determinadas relações espirituais entre homens de tipo muito peculiar: algumas pessoas se encontram, certa noite, para discutir assuntos de grande interesses para elas como se tivesse realmente algo que ver umas com as outras, sem que, na realidade, o tenham. Nenhuma delas se prendeu por algum compromisso, uma com a outra. Há relações eróticas que, em vista da totalidade da vida do homem, não têm existência. Esta divisão do homem em conjunto de esferas atinge também a realização do inter-humano. O que quero dizer é o seguinte: a totalidade da relação é componente importante da comunidade. O homem encontra-se com os outros com todas as suas qualidades, habilidades, possibilidades e entre eles algo acontece, nada mais! Não estou falando de coisas extraordinárias; pode ser qualquer evento – mesmo algo altamente negativo – que ocorra entre os homens, um evento real, imediato, do qual participam com a totalidade de seu ser.

E o terceiro ponto, não sou capaz de explicá-lo; é o seguinte: que um homem não seja um meio para outros conseguirem um fim, que um não use o outro, mas que o considere um ser vivo que está diante de si, vale dizer, um ser para o qual eu estou aqui, do mesmo modo que ele está aqui para mim. Portanto, este me parecer ser o conceito de comunidade que se pode deduzir de nossa situação, a saber, que alguns homens da “multidão” estabelecem relações entre si.

Agora, pode-se negar a possibilidade de que isso ocorra em nossa situação, isto é, que seja possível introduzir tais conteúdos de comunidade no seio destas grandes associações objetivas, nestes enormes mecanismos de nossas vidas. O quanto isso é possível? Sem duvida, pode ser negado teoricamente, embora não tenha sentido fazê-lo. A questão que aqui apresento, só pode ser respondida, na pratica, experiencialmente, por pessoas. Se, de fato, existe este anseio, este desejo pela comunidade do qual se fala muito hoje, se tal desejo existe como força real, que regenera e constrói a vida, se isto é entusiasmo ou realidade, só pode ser evidenciado quando os homens que possuem este ideal cessem de considerá-lo como ideal, quando tais pessoas com a realidade de sua vida, nos contextos nos quais se inserem – seja família, profissional ou social – levem a sério sua vida, somente sua própria vida. Nada mais há que ser levado a sério.

Esta é a única realidade que, na verdade, possuímos. Somente aqui podemos construir algo. Esta vida vivida, quotidiana, esta profissão, este contexto que cada um de nós está inserido pelo destino; esta realidade totalmente pessoal, é este o elemento para a construção da comunidade.

E, então, quando me refiro à Educação para a comunidade, entendo comunidade neste sentido. Assim, educação é a preparação para o sentido de comunidade, na vida pessoal e com a vida pessoal, introduzido a partir desta vida naquilo que existe hoje, na sociedade, neste mecanismo ou como queira se chamar. Estas sombrias descrições da atual condição têm, no entanto, para mim algo de desencorajador, na medida em que facilmente nos levam a ignorar o “aqui e agora” da experiência, da possibilidade, do momento, toda a fecundidade do momento.

Este é um dos inúmeros mecanismos de fuga que ocupam a vida do homem contemporâneo. Tais mecanismos lhe proporcionam uma consciência tranqüila, levando-o a contestar-se, na melhor das hipóteses, com realizar algo, com defender algo politicamente. É, pois, nesse sentido especifico que entendo Educação para a Comunidade. Proponho que discutamos isso hoje.

Com efeito, uma coisa me parece resultar do que foi dito: a educação para a comunidade não pode ser teórica, ou em termos mais claros, a educação para a comunidade só pode ocorrer através da comunidade. Este é um ponto. Talvez devamos esclarecer as implicações do problema.

O que educa? Quem educa? Os educadores que estão entre nós, irão, assim o espero, em grande parte, concordar comigo quando digo que aquele que quer educar não educa! O que educa é, em ultima análise, o espontâneo. O melhor exemplo de educação é a natureza. Ela educa através da luz, do ar, da floresta, dos animais e tudo o que se pode experenciar. Na cidade isto ocorre, mas em menor grau. Assim é educado o homem adulto. Não imaginamos o quanto uma criança é educada pela luz. Eu próprio observei isso em crianças. A criança é a que está menos consciente disso, e os adultos que cuidam das crianças, também sabem, infelizmente, muito pouco a respeito do efeito inconsciente do ambiente natural. O que educa mais? Pode-se dizer que a comunidade educa na medida em que ela está presente. Pode-se também dizer: o individuo educa, na medida em que está presente. Considerem o seguinte: uma pessoa chega e as crianças estão sentadas para serem educadas; então, pensam os senhores, que a seguinte situação não penetra a mente das crianças: “Agora vamos ser educados”!?... Consideremos novamente a influencia do professor sobre os alunos. Como o professor exerce realmente influencia sobre o aluno? Na medida em que não existir esta resistência, na medida em que não houver entre ele e o aluno esta seguinte situação: “Ah, agora vamos ser educados!”. Em outras palavras, quando as relações entre professores e alunos forem espontâneas e estes não o saibam e nem o percebam. Quando ele educa, o faz com sua existência pessoal, e se ele se acha incapaz de ensinar assim, é recomendável que mude de profissão.

Na verdade quero dizer o seguinte: a espontaneidade é fator preponderante na educação e educar para a comunidade só é possível na medida em que existe comunidade que educa para a comunidade. Desejo esclarecer isso, tomando como exemplo a educação na família. Creio que se é educado na família. Sou suficientemente conservador para acreditar que a família educa, se ela é realmente uma família, do mesmo modo que a verdadeira pessoa educa através de sua existência... De um modo semelhante a família autentica educa através de sua existência, uma vez que ela é a menor célula da comunidade, indispensável para a construção desta comunidade. Uma autentica comunidade que engloba toda a vida jamais será construída por indivíduos, mas por células comunitárias, apesar de todas as crises pelas quais elas sempre passam (e eu não menosprezo as crises da família). Reputo-as necessárias, não importa como se comporta nessas crises. Estas pequenas células são indispensáveis à construção da comunidade a esta célula educa para a comunidade na medida em que ela é realmente uma comunidade; não o faz, entretanto, através de propaganda consciente para a comunidade... As pessoas são educadas para a comunidade pela simples vida comunitária na qual nasceram e cresceram. Daí pode-se perguntar: e a escola, admitindo-se que se é através da própria comunidade que as pessoas são educadas para a comunidade?

Que possibilidades são reconhecidas à escola para esse tipo de educação? Pode-se afirmar, à primeira vista, que as denominadas escolas particulares têm as maiores possibilidades. As escolas comunitárias são essencialmente comunidades. Isso parece ser basicamente assim... Surge, entretanto, um duplo problema. Experimentei e observei, em primeiro lugar, que nas escolas particulares – podemos retomar minuciosamente durante a discussão – não há, surpreendentemente (talvez eu generalize) quase comunidade entre os professores e entre os membros da administração. Isso é de suma importância. Quando vejo que numa escola não há comunidade entre o pessoal administrativo e o corpo docente, que o corpo docente é composto de indivíduos solitários, como pode surgir uma comunidade entre os professores e os próprios alunos? Como pode crescer um senso de comunidade e um conteúdo de comunidade entre estas pessoas e se entender na vida pela qual irão entrar? Tal problemática deve ser analisada juntamente com as grandes oportunidades da escola particular. Há um tipo de escola que, presumo, apresenta um aspecto essencialmente favorável: é a escola municipal... Não pretendo, com isso, supervalorizar a atual escola municipal; conheci algumas muito interessantes... Apesar da degradação do campesinato, existe ainda nele um conteúdo de comunidade natural, incólume e provisoriamente imperturbável, e isso é, ouso dizer, vestígio de comunidade primitiva. Não me refiro à comunidade primitiva no sentido daquela sobre à qual falei anteriormente, a comunidade dinâmica. Mas vestígios de primitivas comunidades em comunhão, de antigas comunidades rurais, existentes ainda no meio rural, entre os mesmos camponeses que aceitam o sistema de dois filhos, vestígios de autênticos sentidos de comunidade... Alguns indivíduos descreveram os povoados onde ainda hoje vivem, nesta época de declínio. Estou dizendo ainda. Porem, embora insista nessa ainda – comunidade é comunidade, isto é, este elemento que lá existe pode nutrir-se do novo, do que esta em desenvolvimento, creio que não se pode abstrair-se disso. Isto não significa que, de um lado, temos o romântico e de outro o moderno, de um lado o antigo e de outro o novo. Na verdade, ocorre que esta deterioração que se prepara deve passar de modo que a substancia orgânica ainda permanece; alguém penetra através do abismo da deterioração levando para outro lado a substância orgânica. E o que resta ainda do autentica campesinato é parte disso. Por isso para o professor da escola rural, existe algo concreto a que ele pode referir-se. Se ele assim não o fizer, é sua a decisão. Há, porem, uma situação análoga no que se refere a escola pública urbana.

As escolas públicas, tanto a primária quanto a secundária, não possuem nem o que a escola particular tem, a saber, ao menos uma possibilidade de uma comunidade, nem a possibilidade de se referir a uma antiga tradição de comunidade como a escola rural. Creio, contudo, ser possível, na escola pública, a educação comunitária neste sentido, embora somente através de algo que é possível na vida moderna, somente através da iniciativa pessoa, na qual o homem moderno, em sua profissão frequentemente não costuma investir. Gostaria de falar mais sobre isso durante a discussão. Parece-me que a situação na escola pública (urbana) só pode ser resolvida através da iniciativa pessoal do professor. Os professores que, atualmente, apesar de todas as dificuldades, arriscam a iniciativa pessoal e conseguem promover a educação comunitária, tais professores, creio eu, serão considerados pioneiros na época em que se ousar lançar um olhar retrospectivo para a experiência sobre a qual falo hoje.

Agora, o que significa, em ultima analise, que a educação para a comunidade acontece através da comunidade? Que é, realmente, educação para a comunidade? Concretamente, em termos pessoais, que é realizado? De que se trata? Que significa dizer de alunos – individualmente – que de indivíduos educados eles se tornam comunidade? Que é educado neles? Que é realizado neles? Que alteração se dá em sua estrutura espiritual e na estrutura de suas relações com o ambiente?

Creio que educação é relação, é capacitação. Por esse termo relação entendo relação direta, isenta de propósitos, sujo o fim é ela mesma, isto é, a capacidade para tal relação com as pessoas com as quais se convive. É para isso que a educação para a comunidade educa. Ela conduz, pois, dos contatos indiretos entre os homens, às relações diretas, dos contatos movidos por interesses para as relações cujos o fim são elas mesmas, pois todo os falsos relacionamentos que mencionei não acontecem somente entre os adultos, mas também entre as crianças. Observem as crianças de hoje. Embora todo esse mecanismo aparentemente não esteja presente pelo fato das crianças brincarem juntas e não possuírem um objetivo, na realidade... tudo que existe naquele mecanismo está também no meio das crianças.

Desejo descrever mais detalhadamente. O que significa isso? Que é necessário para que uma pessoa entre em relação com a outra? Que é indispensável, acima de tudo? Não sei se consigo deixar-lhes claro, por meio de conceitos, o que tenho em mente. Não posso descrevê-lo com outras palavras a não ser por esta simples expressão: “voltar-se para o outro”, vale dizer, estabelecer relação autentica e genuína com o outro. Para isso é essencial voltar-se para o outro como ele é... para a face vital da outra pessoa com à sua própria face; que dois seres se tornem presentes mutuamente. Este “voltar-se para o outro” eu denominei “dizer-Tu”, e é a ultima exigência. Um homem pode considerar o outro como uma soma de propriedades cognoscíveis, utilizáveis, ou então, ele pode conhecer o outro... reconhecê-lo, experenciá-lo naquele sentido específico, como a relação amorosa que as vezes é descrita como conhecimento. Nesta interação entre seres ele aprende a conhecer o outro não como soma de propriedades, mas como esta pessoa determinada, com um nome, que vive diante dele. Se se toma toda essa soma de propriedades não se tem nada dela, esta voz, esta pessoa. Refiro-me a esta pessoa que se defronta com uma verdadeira pessoa, única, com este nome. Chamá-la pelo nome, endereçar-lhe o “Tu” é voltar-se para esta unicidade. Expresso isso por meio de conceitos porque é algo esquecido, perdido. Mas, na verdade, o que quero dizer não é conceitualizável, é profundamente real. É a realidade sobre a qual se fundamenta a autentica vida comum entre os homens. Tudo o mais não passa de mera aglomeração, um conjunto de indivíduos. Não quero falar dos estágios mais elevados onde se conhece não somente a partir de sua própria situação, mas também a partir da situação do outro. Desejo somente expor aqui os pressupostos para toda a ação comunitária. Este “voltar-se” recíproco de pessoa a pessoa não é algo que exige esforço ou reflexão; é algo muito simples, a saber: o encontro do homem com seus semelhante. Acontece , porem, que isso foi esquecido e desprezado. Não é algo que devemos fazer, conquistar; devemos encontrar, sem cessar, no seio de dificuldades e pesadas condições da vida contemporânea que nos deixa tão poucos momentos e atmosfera, tão pouca oportunidade para meditação, tão poucos momentos para o encontro conosco mesmos e até com o outro. Quando o homem se encontra mutuamente deste modo, haverá, sem duvida, uma ruptura no mecanismo... É necessário, no entanto, que se desejo o que é positivamente real e simples; é mister consentir que isso aconteça. Porem, não quero, em suma, com isso dizer que se trata de egoísmo... É o oposto de egoísmo. Não existem egoístas. O que afeta e incomodo nossa época não é o egoísmo, mas o egotismo. Não significa que o homem queira toda a sorte de coisas para si mesmo ou que relacione a si próprio tudo o que experimenta ou que ele experiencie o outro como algo que viva diante dele, mas que ele considere o outro como sua própria vivência. O propblema está na apropriação do outro, não no amor próprio. O problema esta na internalização do mundo, em não se considerar o mundo como uma realidade com a qual a gente se defronta, que se experiência como algo diferente, mas em se incluir o mundo na alma. São processos em uma única alma e nosso tempo conseguiu, inclusive, transformar Deus em vivência. Considero essa espiritualização como algo negativo como a completa reificação...

Há pessoas que se ocupam de coisas com o intuito de tirar o melhor proveito delas e colher experiências. Tais são as formas de afastamento do mundo simples e natural. Na realidade, tais obstáculos são algo peculiar, abstrato, pois, de algum modo, se rompe a concretude do vivido...

Tais são os princípios gerais que de inicio desejei expor. Tudo que acrescentar fá-lo-ei por indicações. Poderemos discutir estes pontos posteriormente.

Já indiquei o que entendo por educação para a comunidade e afirmei que isso só pode ser realizado através da comunidade. Quero, a maneira de títulos de capítulos de uma obra, indicar que tipos de relação comunitária são capazes de atuar deste modo e que estão presentes na própria escola. Repito fá-lo-eis brevemente.

Já o disse: relação comunitária que, alias, quase sempre está ausente, é um vinculo entre professores: comunidade entre os docentes, entre as pessoas que devem realizar esta obra mais difícil e mais séria de nosso tempo. É um verdadeiro elo entre pessoas. Admito que não é a totalidade do corpo docente, de autênticos professores, que irá arriscar e assim venha a ter algo em comum.

Em segundo lugar: a relação comunitária entre professores e alunos: que o professor esteja relacionado com o aluno com o espírito comunitário para o qual ele quer educá-lo. De outro modo ele não poderá fazê-lo se o aluno – naqueles momentos calmos e não em instantes agitados – não o sentir como o professor, se o aluno não perceber sem cessar (murmurando): “sim é isso”. Assim a relação comunitária ocorre. Isso surge a partir deste fundamento, a saber, quando o professor tem o senso natural de comunidade, de acordo com o seu ser, e o transmite a seu aluno, então ela surge, só então ela se irradia.

Um outra exigência importante, que intervém na organização da escola, é a interação entre as classes etárias. Estas classes são muito separadas. Algumas escolas particulares procuram solucionar isso, introduzindo aulas comuns. Isso é apenas um começo. Eu assisti algumas destas aulas. Têm ainda um caráter provisório. Derver-se-ia encontrar uma possibilidade de se estabelecer um contato com as classes de alunos de maior idade, assim elas teriam de realmente construir os interesses da vida pata permutar... Isso, porem, deveria ser tarefa dos professores, dos educadores, daquelas pessoas que trabalham na escola.

Outra questão é a seguinte: uma real interação entre os sexos. Muitas pessoas que lidam com isso, encaram a questão de tal maneira que, de fato, tratam as meninas como se fossem meninos. É importante que as crianças de ambos os sexos sejam educadas juntas, isto é, que não seja instituído um terceiro sexo durante o período escolar, mas que haja uma verdadeira relação entre as pessoas que se desenvolvem de diversas maneiras, precisamente pela sua diversidade. De mesmo modo, é extremamente importante que, hoje, as pessoas com cinqüenta anos de idade se entretenham com as de vinte, não com ar de condescendência, mas que se relacionem com elas livremente, sem reservas, revelando-se elas...

Esta problemática que aqui se descortina, tornou-se para mim especialmente clara nas escolas particulares. Elas são com que oásis singulares, verdadeiras ilhas, clareadas. Este pequeno paraíso é alienado da sociedade moderna. Conheço escolas particulares cujos alunos desconhecem que indústrias existem na vizinhança. Este contato absurdo com o meio ambiente condiz com esta característica de oásis própria desses pequenos paraísos; e quando estas pessoas saem, chegam a um mundo para o qual não foram preparadas, então, ou são arruinadas, ou se adaptam de modo estranho, aderindo às regras da economia moderna, tanto quando a elas possam conformar. Conversam, no entanto, em suas casas, um santuário e horas sagradas durante as quais relembram o paraíso perdido. Tal comportamento é antidivino, é uma aceitação do absurdo que nada tem de comum com esta vida. Uma escola deve estar relacionada com a sociedade tal como é e, cabe à escola, preparar os alunos para conhecer esta sociedade e inserir-se nela com algo que deve ser penetrado com conteúdo de comunidade. As diversas instituições da sociedade devem ser conhecidas como são formadas em sua receptividade, isto é, cada segmento desta sociedade é considerado carente de comunidade, que necessita de comunidade e como algo que pode ser realizado com a comunidade. E isso é plenamente possível.

Neste aspecto a escola particular, aparentemente, está numa situação melhor e mais simples, uma vez que ela desconhece o lar. Os senhores sabem, porem, que as escolas particulares estão mais comumente relacionadas com lares destruídos... A influencia destes lares com as crianças, durante as férias na escola particular, internato, é menos apreensível do que a influencia do lar sobre as crianças em horas livres do dia nas escolas públicas.

As escolas públicas possuem uma instituição que até hoje não se tornou plenamente ativa, embora exista aqui e acolá. Terá, no entanto, enorme força no futuro. Trata-se dos “conselhos de pais”. Há lugares onde existem realmente os conselhos de pais, isto é, uma comunidade de certo tipo, onde os pais se relacionam mutuamente, e não se limitando cada mão falar de seu próprio filho, mas onde cada um se preocupe com o outro, formando um verdadeiro grupo coeso, onde os pais se encontram com os professores e com estes tratam de assuntos comuns. Devo mencionar que tais “conselhos de pais” são mais freqüentes em meios proletários do que em meios burgueses. O proletariado tem esta capacidade do contato solidário, de união de interesses, do tratamento comum.

Em meios burgueses isso é muito raro. A escola, penso eu, ou talvez os professores, deveriam atribuir-se a tarefa de levar a questão da comunidade para os lares, atrair lares para a obra, para o trabalho educacional na comunidade. Embora isso seja difícil, não é impossível. Não esqueço por um momento que é difícil exigir tudo isso do professor, tomado já por seus próprios deveres. Sei o quão é difícil é para ele cumprir as tarefas exteriores e – digo isso com coração pesado – não conheço outro caminho. Não conheço outra pessoa que pudesse realizar esta obra. Esta tarefa deveria ser levada também para o seio das famílias. Diria mesmo que deveriam colaborar na construção da família, pois os “conselhos de pais” iriam de sua parte influencias a família.

Poder-se-ia ainda perguntar: o ensino? Posso tratar desse assunto brevemente há domínios do ensino onde é possível a formação do conhecimento sobre a comunidade. Por exemplo: a história. Ela pode ser ensinada não como a história dos Estado: que Estado se levantou contra o qual, como se a história fosse a história do sucesso, como se Deus fosse, por assim dizer, o verdadeiro representante do sucesso. Ao contrário, quando se ensinar história, dever-se-ia partir da questão: quantas comunidades em certa época, foram destruídas entre os homens? Como, de que modo, com que dificuldades, sob que resistências estas batalhas subterrâneas – que são expressivamente mais importantes para a humanidade do que as batalhas abertas, visíveis, sobre as quais, aliais, se tem falado tanto – aconteceram? Refiro-me a batalha empreendida pela humanidade em se tornar uma comunidade. Creio que a história pode ser ensinada assim.

Ou tomando outro exemplo: as línguas... Tive conhecimento, muitas vezes, de aulas de línguas que realmente eram ensino de línguas, isto é, um ensino no qual o aluno aprendia algo sobre a vida da língua, vale dizer, sobre a língua dos homens em suas fala mutua... um ensino onde ensina a língua como uma verdadeira fala entre os homens, um tipo peculiar do falar, relações pessoais que aí são expressas e que são influenciadas pela língua. Como as relações humanas são influenciadas pela língua? Cada alteração de sentido de uma palavra tem provavelmente importância para a história das relações humanas[1].

É necessário tomar a língua como fala, como uma realidade que acontece e abrir todo este, por assim dizer, herbário de línguas que podem ser ensinadas, e dizer como que cada planta, onde vive e cresce – do mesmo modo a “elocução” desta palavra e a jistória desta “elocução”. É mais importante aprender 20 palavras desta natureza do que 500 de qualquer outra...

Sem duvida, embora tal ensino seja importante, o seu caráter é muito mais importante que seu conteúdo de comunidade... Em outras palavras, do fato de o educador-educando ensinar comunidade de modo comunitário, “comunialmente”, ou, então, que ele faça, acima de tudo, aquilo que é o alfa de toda a educação, o contexto educacional que ao invés de ser uma tarefa que o educador-educando se impõe é algo que ele revela.

Nenhuma comunidade pode existir sem isso. Todas as associações políticas são anticomunitárias na medida em que cada uma delas acredita que apenas pode integrar uma comunidade através da força ou de outros meios de persuasão para que possa trazer vida para o seio delas, enquanto que o homem de fé acredita que os homens, em sua essência, pertençam uns aos outros, são todos de uma raça – uma raça divina, diz um poeta – que os humanos são, em sua essência, ligados uns aos outros, e que basta compreender o humano verdadeiramente, deixá-lo crescer na verdade, educá-lo na verdade, para que esta ligação se torne manifesta e efetiva. Sem duvida o educador-educando deve encontrar-se realmente com o educando-educador, deve dar-lhe o que tem, assim como a gente encontra o outro no Tu, oferece-se ao outro sem, no entanto, impor-se a ele, revela-se a ele estando disponível. Este tipo de encontro é a vida humana.

E, por ultimo: as varias maneiras de os educandos-educadores estarem juntos: jogos, música, religião. São diversas maneiras de convivência que não tem outro objetivo senão a tensão que é a própria essência do conviver. O ensino jamais pode ser despojado de finalidade, uma vez que as pessoas se congregam todas aí justamente para esta finalidade. O jogo, porem, assim como a musica, é algo diferente, é descanso. Penso estas reuniões comunitárias de educandos-educadores muito importantes. Não pretendo falar das reuniões de caráter religioso, na realidade raramente elas existem. Tomemos estes exemplos. São importantes, mas encerram um perigo que deve ser apontado nesse contexto. Há uma tentação, um perigo que afasta o humano da comunidade como tarefa. É o sentido de “ter uma comunidade”. Em algumas situações, o humano está engolfado em uma multidão de indivíduos pela qual é levado. O exemplo mais claro é a massa em grandes momentos de época revolucionária. Este imenso sentido do individuo em ser levado pelo movimento das massas é um sentimento em se ter em comunidade. O mesmo acontece aqui ao transferirmos para a vida cotidiana, uma grande tensão do dinamismo da comunidade, de entrar na comunidade...

Todavia, este sentimento no jogo ou na música, de ser parte de uma multidão pela qual é conduzido de modo que permita integrar-se a outrem, é uma tentação estética. Por exemplo, se as crianças fazem musicas juntas, ou então, se em uma escola se formou um quarteto, e então ensaiam juntas, é sumamente importante que cada um dos membros conheçam a contribuição dos outros integrantes, isto é, que cada um observe o que o outro deve fazer, e que ele próprio não faz; que observe o outro, perceba sua contribuição, que estabeleça relações nesta comunidade. E, dessa forma, o educar-educando possa e deva influenciar algo assim, introduzir isso nessa organização estética. Ele pode conduzir a relação direta, tanto quanto é possível nesta situação. Pode conduzir do sentimento de se ter uma comunidade para a realização da comunidade, para o estabelecimento da comunidade, para o entrar em comunidade[2].

Não ventilei grande parte do assunto por ser demasiado vasto para ser incluído aqui. É a questão da realização da comunidade pelas pessoas que saíram da escola. Como entram na vida as pessoas que foram educadas assim? Em que medida levam um sentido de comunidade no âmbito da vida contemporânea? De que maneira, que conflitos, que lutas? Que aconteceria entre esta geração que se desenvolve desta maneira e o mundo contemporâneo? Algo aconteceria, algo muito diferente, essencialmente diferente do movimento da juventude.

Os humanos que entraram no mundo egressos do movimento de juventude se perderam. Posso achar um e outro. No entanto, o encontro de uma geração que foi educada para a comunidade com o mundo contemporâneo seria muito diferente. Nada de heróico aconteceria, nada que seria escrito com letras garrafais teria a visão do cotidiano, da realização humana. No final há muito na potencialidade deste momento, desta multidão humana, uma multidão que se coloca nesta verdadeira situação na qual se inseriu ao sair da escola e para a qual esta escola a preparou.

Palestra proferida em 6 de abril de 1929

Referências

  1. Por esse motivo tratarei de escrever nesta palestra de Buber não mais os termos “professor” e “aluno”, termos dos quais estão carregados da perspectiva “bancaria”, como dizia Paulo Freire quando se referiria a um ensino onde o iluminado (professor, ou seja, aqueles que professa) deposita um conhecimento naquele que não possui luz (aluno). Mas sim por educador-educando e educando-educador, numa ação de mutualidade dialógica. Assim quando diz a palavra “homem” para designar a todos, homens e mulhers. Utilizarei aqui o termo humano
  2. Fica claro aqui o medo de Buber da e na ascensão de regimes fascistas na Europa de então.


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