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E a Galera Delira

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Espere Resistência
CrimethInc


Eu voltei à universidade dois dias depois da minha primeira visita, e novamente dois dias depois disso. Primeiro eu disse a mim mesmo que estava me mantendo a par da história para uma segunda matéria; enquanto a situação se intensificava, eu decidi tomar notas para um possível livro. A maior parte dos manifestantes, especialmente os que não eram estudantes, me olhavam com certa suspeita, mas graças ao acolhimento de Kate eu não fui escurraçado como os outros repórteres.


Eu nunca assumiria isto na frente dos meus colegas de trabalho, mas quanto mais tempo eu passava com os bárbaros, mais simpatia eu tinha pela sua cruzada quixótica. Eu mesmo não odiava a mídia e o mundo corporativo mais do que esses jovens jamais conseguiriam, tendo desperdiçado os melhores anos da minha vida num labirinto para ratos? A duplicidade da administração da universidade não era terrível o suficiente para justificar quase qualquer coisa? E ao mesmo tempo, eu estava feliz que eram eles que estavam lutando esta batalha impossível enquanto eu ficava olhando e fazendo anotações. É preciso mais energia emocional do que a maioria das pessoas têm para investir tudo em uma luta que você só pode perder.


Eu perdi a evacuação de incêndio e o despejo, embora àquela altura eu já participava das reuniões e mesmo assumindo um eventual turno na lavagem de pratos. Naquela noite eu contribui com algumas centenas de dólares para fiança e esperei fora da delegacia com uma dúzia de outras pessoas para servir sopa quente e cidra de maçã para os presos quando fossem libertados. O bárbaro que eu supunha ser o namorado de Kate, um selvagem jovem e magrelo com nariz aquilino e uma sobrancelha sempre contraída, ainda se recusava a olhar para mim mesmo quando eu lhe servi um copo de isopor fumegante. Aquilo me feria, e o ferimento fez eu me dar conta de que eu estava mais emocionalmente envolvido com o objeto de trabalho do que jamais deve se permitir.


Depois daquela noite, o impulso que havia começado no campus explodiu e se fragmentou numa greve de trabalhadores da universidade, uma nova onde de ativismo estudantil, uma renovada campanha contra maquiladoras no campus e ataques esporádicos por toda a cidade causado por um vandalismo politizado. Estava claro que algo estava acontecendo, mas esse algo era mais difuso e mais difícil de acompanhar. Alguns dos aspectos das semanas anteriores que mais me interessaram, como a relação entre os bárbaros vestidos de preto do acampamento e o funcionários negros e latinos da universidade, pareciam ter desaparecido completamente em um reino subterrâneo.


Eu fui ao concerto beneficente com esperanças de reencontrar a meada. Uma banda estava tocando para arrecadar fundos para os processos legais, e trabalhadores do campus iriam falar lá também. Eu fiquei chocado como o local se encheu rápido; se todas essas pessoas eram parte de um movimento emergente, havia um futuro para o meu livro no final das contas.


Canetti sugere que todas exigências por justiça e todas as teorias sobre igualdade derivam em última instância da experiência de verdadeira igualdade familiar a qualquer um que tenha participado de uma multidão. De fato, la eu não senti nenhuma pontada de exclusão, apertado no escuro com centenas de estranhos. Universitários manifestantes que eu não via desde os últimos dias da ocupação me cumprimentavam como seu eu fosse um deles; era a primeira vez em muito tempo em que troquei abraços sinceros com conhecidos. Espremidos juntos, ouvindo Walter falar sobre a greve e o poder do povo que não pode ser abafado, eu tinha certeza que aqueles que não tinham ouvido falar da ocupação até aquela noite se sentiam parte de algo maior que eles.


Tudo isto evaporou quando passamos pelas portas de saída; de repente todos estavam nos seus celulares, dividindo-se em pequenos grupos indo em direção a seus carros. O relógio bateu meia-noite e, como no conto de fadas, os outros voltaram a ser jovens consumidores de música e eu era novamente repórter. O concerto tinha sido uma anomalia, uma espécie de conserva de natureza no qual ainda se permitia que a união andasse por aí, livre ― sob supervisão e com um preço.


Mas ali, de repente, as pessoas estavam distribuindo baquetas e baldes de plástico transformados em tambores e desdobrando um enorme rolo de tecido pintado. Mais tarde, eu não sabia com certeza quem eram, apesar de ter tido a impressão de que eu conhecia alguns deles; eu tinha certeza que eles estavam no meio da multidão durante o concerto ― de outra forma, quem os seguiria? De qualquer jeito, eles não ficaram sozinhos por muito tempo: o grupo que se dissipava se reagrupou ao redor deste novo foco, e outros começaram a pegar os tambores e se juntar ao grupo.


A principal via pública do bairro ficava do outro lado do estacionamento. Talvez alguns dos radicais na platéia pensaram em bloqueá-la ou ocupá-la, mas isso nunca tinha acontecido antes, logo não deveria ser possível. Todos sabiam que a rua era para o tráfego de carros, assim como a calçada era para pedestres consumidores; a questão de se essas limitações eram opressivas ou limitadoras nunca passou pela cabeça da maioria dos cidadãos, pois sua tarefa não era negociável.


Mas mesmo assim algum dos percussionistas meteram o pé na rua, bem no meio dela, parando o tráfego; a eles se juntaram três bárbaros mascarados carregando uma grande faixa. Agora a rua também era local de percussão, de gritos, de dança e de marcha. O restante de nós observava da calçada, para ver o que aconteceria com aqueles que cruzaram os limites.


Mais tarde, eu lembrei deste momento crucial. Primeiro parecia que as coisas não iriam muito longe ― a multidão estava dispersa, alguns apressados na frente e todo resto devagar atrás, e parecia que íamos nos dividir e dispersar ― mas então no embalo dos primeiro a pisarem na rua nós fomos atrás, o que era um fluxo de consumidores voltando para seus carros se tornou numa manifestação.


Aconteceu uma transformação sutil depois que pisamos no asfalto. Obviamente, ocupar a rua era possível sim, e era possível porque uma massa crítica o tornou possível. Mais uma vez, como antes no show, estávamos conscientes de sermos uma força coletiva; só que aqui, do lado de fora das paredes, tínhamos os poderes mágicos de renegociar a realidade.


Desta nova perspectiva, era como se estivéssemos atravessando uma cidade diferente. O tráfego estava condensado atrás de nós até onde eu podia enxergar, uma sinfonia cacofônica de buzinas, mas o som apenas se fundia com os tambores e colaborava com o clima. Aquilo lá na frente eram realmente tochas? Quando voltei ao mesmo local alguns dias depois, eu tive a incrível impressão de não encontrar as ruas pelas quais passamos naquela noite: as distâncias pareciam mais curtas, a iluminação menos dramática, os prédios menos imponentes.


Uma viatura da polícia chegou, seguida de mais duas com suas luzes piscando, mas elas se mantiveram à distância, supostamente esperando por mais instruções ou apoio. Se dez pessoas tentassem bloquear o trânsito aqui a esta hora da noite, elas certamente seriam presas; mas quando duzentas pessoas o fazem, as leis se dissolviam. Outro policial apareceu à nossa frente, deixando seu carro de lado, bloqueando a via. Cheios da confiança que nos encheu nos últimos minutos, nós simplesmente o contornamos, deixando o motorista bufando, impotente, atrás do volante. Quando eu vi o carro aparecer novamente no próximo cruzamento, um de seus faróis havia sido chutado e um risco de tinta spray estava pintado na sua lateral.


Quando nos aproximamos da viatura novamente, um foguete d'água voou no céu e explodiu em cima de nossas cabeças. Isso devia ser o trabalho de um indivíduo, ou talvez de uma dupla; mas o sentimento era que ele partia do contexto que nós criamos juntos, toda multidão gritou em aprovação. Vários outros foguetes zuniram sobre nossas cabeças, um deles ricocheteando na fachada de tijolos de um banco. Viramos repentinamente à esquerda, seguindo a faixa por um lado da viatura desta vez, e aceleramos o passo. Um novo sentimento de urgência e de expectativa se espalhava pela multidão; olhando ao redor, eu vi que várias pessoas ao meu redor haviam vestido seus capuzes ou tapado seus rostos com panos.


Estávamos entrando um dos bairros comerciais mais nobres da cidade; um após o outro, passamos por cafés, joalherias, restaurantes e butiques corporativos. Eu já dirigi por essa rua inúmeras vezes, até fiz compras aqui ― mas de dentro da multidão eu a percebia como algo alienígena, uma manifestação de um sistema que explorava, despejava e policiava. Dobramos novamente, e novamente o nosso passo acelerou; eu quase tive que começar a correr para acompanhar. Agora não se via nenhuma viatura de polícia à vista. De repente, enquanto virávamos em outra esquina, surgiu a fachada de uma loja que ocupava metade da quadra. Letras de dois metros de altura proclamavam o nome da corporação envolvida no escândalo das maquiladoras na universidade.


O tempo congelou por um segundo. E então as vitrines começaram a implodir, grandes placas de vidro em queda livre e espatifando-se no concreto. Eu recordo que isso me lembrou das filmagens dos glaciares nas calotas polares derretendo, enormes placas verticais de gelo soltando-se em câmera lenta e caindo no mar.


Há algo singular em olhar um ato ilegal à vista de todos. Ninguém parece mais decidido que uma pessoa mascarada arremessando um pé de cabra contra uma vitrine. Normalmente, as ações de alguém ganham significado através da aprovação de toda a sociedade; naquele único momento de transgressão, o vândalo parecia totalmente auto-governado, suficiente, infinitamente livre e poderoso.


Um segundo depois estávamos correndo por uma rua lateral, o vidro ainda tilintando atrás de nós. Ainda não tínhamos assimilado o medo, apesar de eu ter certeza que a maioria de nós havia ido mais longe além dos limites do que jamais imaginamos que iríamos. As únicas sensações que eu tive naquele momento foram euforia e a impressão de que eu estava voando sobre o concreto abaixo de mim, sem tocá-lo. Me senti conectado com estranhos ao meu redor como se tivéssemos crescido juntos, caçando em uma floresta ― eu estava infinitamente grato por eles estarem lá comigo, por tornarem aquele momento possível. A minha determinação de me identificar com as parte insurgentes do meu ser estava finalmente dando frutos.


Agora ouvia-se sirenes à distância ― elas estavam se aproximando por várias direções ao mesmo tempo. Antes que pudéssemos chegar no fim do quarteirão, duas viaturas de polícia passavam em alta velocidade à nossa frente; quando chegamos no cruzamento, policiais estavam saltando para fora de seus carros de ambos os lados. Grupos de mascarados estavam se separando da multidão e desaparecendo em becos, chamando uns aos outros através de códigos. O resto de nós congelou com indecisão e angústia.


Quando uma multidão toma uma rua ou põe em prática algo igualmente impossível, toda a sua força vem do sentimento de que eles podem contar uns com os outros, toda sua confiança como indivíduos depende da moral coletiva. O que o grupo acredita ser possível se torna possível; o que alguns acham ser impossível se torna impossível, e logo ninguém consegue acreditar naquilo para torná-lo realidade. Tão logo algumas visivelmente duvidaram de que poderíamos manter a coesão e o poder que vinha dela, todo resto também duvidou e fugiu, como se obedecessem ordens.


Na fuga, a maioria permaneceu junta, mas agora éramos uma multidão muito diferente. Não estávamos mais ligados por um sentimento compartilhado de poder, mas por medo da polícia ― e, mais importante, da responsabilidade por nós mesmos. Em uma situação perigosa, nenhum risco pode ser mais assustador que o fato de que todo indivíduo é, em última instância, responsável pelas decisões que o levarão à segurança ou à desgraça. É por isto que as pessoas quase sempre fogem em massa quando podem, quer ou não essa seja a decisão mais sábia: ao fazer isso, todas esperanças de fugir da obrigação de tomar decisões inteligentes, colocando-a sobre os ombros daqueles ao seu redor ― que fazem o mesmo, infelizmente. Uma multidão assustada pode ser exponencialmente mais assustada que um indivíduo assustado, assim como uma multidão corajosa pode ser mais corajosa que um indivíduo corajoso: é por isso que é importante para todos que se aventuram a participar de multidões saber como sair do pensamento grupal em um instante.


Eu não sabia disto naquele momento, mas felizmente eu não conseguia acompanhar os outros. Eu segui uma dúzia deles por um beco e quando eles partiram em uma direção eu me saí por outra caminhando rapidamente, tentando projetar uma calma profissional e me desinteressar: Eu, eu sou um jornalista. O que você quer dizer com o que estou fazendo aqui? Eu sou um jornalista! Meu peito estava pesado. Três viaturas da polícia passaram rápido por mim na direção que os outros haviam ido. Eu sou um maldito jornalista, estou lhe dizendo, jornalista JORNALISTA! Foi a coisa mais segura que eu poderia ter feito, além de ter me escondido numa lata de lixo, como depois fiquei sabendo que a Kate fez.


Uma tensa quadra além eu cheguei num parque. Estava fechado para o público, mas eu me surpreendi pulando a cerca. O ruído dos helicópteros enchia o ar da cidade atrás de mim. Eu me encolhi nas sombras atrás de uma fileira de arbustos e expirei.


Enquanto meus olhos se acostumavam com o escuro, eu me dei conta de que não estava sozinho atrás do arbusto: a alguns metros de distância, havia uns homens sem-teto dormindo na grama. Eu senti a mesma familiaridade anônima com eles que senti com os outros durante o concerto e depois na marcha; eles também estavam se escondendo, eles também eram fugitivos. Eles nunca iriam me denunciar aos policiais ou me desprezar por estar nesta situação.


As pessoas que deram início à marcha não deram nenhuma ordem ― eles simplesmente abriram uma janela de possibilidades ao realizarem ações que abriam espaço para os outros participarem. Não tinha nenhum líder com um megafone, nenhum porta-voz, apenas os diversos desejos e objetivos de cada indivíduo levado às ruas. Ao mesmo tempo, nem todos estavam prontos para para participar no mesmo nível em uma ação como esta. Foi irresponsável da parte daqueles que chutaram o farol da viatura de polícia ou quebraram as vitrines da grande loja terem me colocado em perigo? Ou fui eu o irresponsável por não estar preparado para me portar sabiamente nesta situação, por não assumir meu desejo de ser parte disto?


Uma coisa era certa ― tudo parecia muito diferente de trás daquele arbusto do que eu estava acostumado a ver da minha escrivaninha na redação. Eu não estou escrevendo a droga de um livro, eu disse para mim mesmo. Isto está realmente acontecendo, e eu não vou perder um só minuto a mais. Meu pulso estava acelerado como um trem de carga. Eu me belisquei: Isto realmente está acontecendo.

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