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Dominação, uma invenção moderna: historicidades e limites

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Manual de Contra-História na Antimodernidade
Eduardo Antonio Bonzatto


«Sujeito é um ser que dá valor à imagem que tem de si mesmo. A preocupação com essa imagem pode levá-lo a desobedecer, a revoltar-se, mas pode também, e é o quesucede mais frequentemente, levá-lo a obedecer ainda mais.»


Não sei se existiu dominação anterior à modernidade. Penso que no sentido como hoje a conhecemos, tal experiência jamais foi tramada em outros tempos. O poder, uma de suas configurações, certamente que houve, mas não esse poder que aspira à totalidade, da alma ao estômago, do olho à pele, esse domínio que não impede de pensar, mas faz pensar de uma única maneira. Nem mesmo aqueles que estudam Roma, que desconheço, pensam num poder expresso dessa maneira. Segundo esses estudiosos, Roma estava interessada nos tributos, deixando os povos conquistados à sua própria sorte e regras. Esta será a principal hipótese deste trabalho: a dominação é moderna.

Para garanti-la precisamos estabelecer uma ruptura muito mais profunda na modernidade do que fora indicado até o presente.

Hoje, as coisas relativas à dominação expressam ódios aparentemente irrefletidos e trajetórias sem idade.

Hunter Thompson era um desses caras enfezados (Tigre? Com fezes na cabeça?) cujo vaticínio da contemporaneidade parece traduzir todo infortúnio de viver num tempo de desesperança. Embora ele se refira ao mundo e ao século pós americano, sua ira me serve também para refletir sobre os fracassos de toda uma civilização, de lá, de cá, de todo canto:

Agora estamos sendo arrebanhados pelos anos 90, que aparentemente serão uma verdadeira geração de porcos, uma década governada por policiais sem senso de humor, com heróis mortos e expectativas reduzidas, uma década que ficará na história como uma Zona Cinza. Ao final da década, ninguém terá certeza de nada, a não ser de que você deve obedecer às regras, de que o sexo acabará com a sua vida, de que os políticos mentem, de que a chuva é venenosa e de que o mundo é governado por mercenários. São certezas horríveis de se ter na vida, mesmo quando se é rico .


Este é, com pouquíssimas variações de localidade, o tempo de nossa existência.

Senão, vejamos uma notícia comum de jornal desses tempos:

Fala de assessor sobre 11 de setembro põe Mccain na berlinda. Charles Black disse que novo ataque favoreceria candidatura de republicano; veterano do Vietnã diz que idéia “não é verdade”. A teoria de que um novo atentado terrorista nos EUA favoreceria o republicano John McCain na disputa pela presidência do país, com a qual concorda grande parte dos analistas, se voltou nesta semana contra o candidato, ao ser mencionado pelo estrategista-chefe de sua campanha. Charlie Black declarou à revista “Fortune” que um ataque renderia “uma grande vantagem” nas urnas para McCain, ex-piloto da Marinha vindo de família de militares e ex-prisioneiro de guerra no Vietnã. O comentário causou polêmica e foi condenado ontem pela campanha do democrata Barack Obama. Cerca de 3000 pessoas morreram nos ataques de 11 de setembro, em 2001. “O fato de o principal conselheiro de McCain dizer que um ataque terrorista em solo americano seria uma ‘grande vantagem’ para sua campanha política é uma vergonha e exatamente o tipo de política que precisa mudar”, declarou o porta-voz Bill Bourton. “Barack Obama vai virar a página dessas políticas falidas para que possamos unir esta nação e terminar a luta contra a Al Qaeda” .

Importante frisar que esse Black era o assessor estratégico de Bush filho quando da época dos atentados de 11 de setembro. Pavoroso?

No mesmo jornal, apenas uma página depois, leio o seguinte:

Consumo é vilão ambiental, diz americano. Para antropólogo Emilio Moran, nascido em Cuba, é preciso “aprender a desligar a televisão” e dizer “não” aos mercados. Para resolver o problema ambiental nº 1 do mundo, a receita do antropólogo Emilio Moran, 61, nascido em Cuba, mas morador dos Estados Unidos desde os 14 anos, chega a ser prosaica. “temos que aprender a desligar a televisão. Ela é a principal ferramenta do consumismo”, afirma o especialista em América Latina, que há mais de 30 anos investiga o desenvolvimento humano da Amazônia brasileira. Estudioso da Amazônia, pesquisador cobra estímulo à indústria regional; “em 30 anos, PIB da população da região subiu menos de 1%”.

Eliminamos o consumismo e investimos na indústria regional na Amazônia. Durma com essa contradição.

E não pense que as coisas não estão ligadas:

Documentos mostram como Lula se aproximou dos EUA. Registros diplomáticos mostram que preocupação foi enviar mensagem de confiança a investidores e negar possíveis ‘surpresas’. Documentos liberados pelo governo norte-americano mostram que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva priorizou a relação com os Estados Unidos, desde que foi eleito em outubro de 2002. Os bastidores dessa aproximação com a administração de George W. Bush está em telegramas diplomáticos divulgados ontem pelo jornal “Valor Econômico”. A primeira preocupação de Lula foi enviar uma mensagem de segurança aos investidores estrangeiros. Depois ele assumiria papel de moderador na América do Sul, buscando amortecer o impacto da retórica antiamericana do presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Apenas três dias depois de ser eleito, Lula se reuniu com a então embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak. A conversa foi relatada por ela ao Departamento de Estado norte-americano. “Lula salientou repetidamente que queria trabalhar com os Estados Unidos, em geral e na Alca”, escreveu Hrinak. Ao presidente, ela salientou que seria importante evitar “surpresas desagradáveis”, especificamente uma mudança da política econômica herdada de FHC. “Lula imediatamente respondeu que não haveria ‘nenhuma surpresa’. Que não seria ‘ideológico’, observou a embaixadora” .

Tudo muito ligadinho! A realidade não é um dado apriorístico, mas uma conexão elaborada com a justa cumplicidade do sujeito seja incluindo-o ou não. Egoísmo e cooperação são pressupostos de sua enunciação. Tratar dessa enunciação é tratar do poder. Essa tal de realidade dada só é possível pela experiência direta, não dual, entre homem e natureza, entre homem e homem. Quando não há separação, a inserção no mundo e na realidade se dá pela experiência, com os seus semelhantes, com as forças vivas que impelem a dinâmica do tempo circular, reencenado a cada dia, a cada estação, a cada colheita. A lua, as marés, os ciclos longos e curtos que ligam os homens não ao tempo, mas a linhagens expandidas, a caprichosas alianças, pode nos oferecer uma imagem aproximada da experiência de homens que jamais se deixaram abater pela cisão interior e exterior com o mundo, com a vida.

E se há um símbolo dessa cisão é o aparecimento da instituição. A instituição é produtora de discurso por excelência. Apareceu erradicando o diálogo da experiência e colocando em seu lugar a retórica, a maiêutica, o convencimento, a voz da autoridade.

A instituição cindiu homem e vida, homem e natureza, homem e homem.

Entender essa cisão, ou o resultado dessa cisão, carece de um conceito fundamental, o conceito de epistemologia.

A epistemologia é o dado que nos informa sobre o que é o real. Foi uma construção institucional e, portanto, operou pelo crivo intenso da ideologia. E o que vem a ser a ideologia? É um conjunto de crenças, valores e parâmetros de um grupo social que é imposto para toda uma sociedade. Nesse sentido, não existem ideologias, mas somente uma ideologia.

Bem sucedida, todos se submetem a ela, e mesmo o grupo que a encetou, entende que ela sempre existiu. Embora seja um projeto de dominação, a ideologia funciona naquilo que ela não enuncia, em suas lacunas, daí sua eficácia. As lacunas serão preenchidas por cada um, tornando-se co-autor da ideologia, como se dela tomasse posse e a fizesse sua.

Ideologias aparentemente contrapostas não serão mais que configuração da mesma e única ideologia. A epistemologia é explicação para essa afirmativa.

A epistemologia solipsista foi cautelosamente elaborada para instrumentalizar essa única ideologia. “Conhecer o conhecer”, eis o seu imperativo. Como entendemos o mundo e a realidade? Como podemos emitir juízos a todo instante? Como temos a certeza de que o real é o que entendemos dele?

Foram os valores e conceitos e pré-conceitos que apreendemos pelas instituições que nos garantem que o real é isso que acreditamos que seja.

Projetamos sobre o real esses valores, a todo instante. Capitalismo, rico, pobre, homem, mulher, criança, velho, socialismo, revolução, sociedade, mãe, tomate, natureza, urbanidade, etc., etc. Sabemos tudo isso, e sabemos mais, sabemos a história da Grécia antiga, sabemos a Roma dos césares, sabemos a mentalidade dos cavaleiros medievais.

A cada vinte anos o mundo muda tanto que fica difícil explicar alguma característica da infância de um adulto para seu filho; no entanto, nossa empatia histórica ou conceitual é tão precisa que sabemos tudo. O que garante todo esse conhecimento? A epistemologia solipsista. Ela é impositiva, gerando certezas sobre tudo. Tudo o que vemos, tudo o que sabemos passa a ser verdade. Passa a ser a expressão direta da realidade. Ela aposta no nosso egocentrismo.

Mas essa epistemologia não conquista esse estatuto sozinha. Necessita de fundamentação, principalmente de fundamentação teórica. Teoria não significa pouca coisa: estar no lugar de deus, eis seu significado. É a teoria, supostamente objetiva, que submete nossa subjetividade à sua força coercitiva.

Se nos restringirmos unicamente às teorias historiográficas, marxismo, positivismo, historismo alemão, escola dos annales, história das mentalidades, dentre outras similares percebemos que operam de acordo com a mesma epistemologia, ou seja, imprimem ao real suas configurações.

Todas pressupõem uma arquitetura fundamental, qual seja, o quadripartismo histórico, ou seja, que há não somente uma evolução linear entre as partes, mas que uma determina a outra: pré-história, idade antiga, idade média, idade moderna, idade contemporânea; ou então, modo de produção hidráulico, modo de produção escravista, modo de produção servil, modo de produção capitalista.

Não somente o passado é dado, mas o presente está dado. As relações capitalistas caracterizam a realidade. Ricos, pobres, patrões, empregados, etc., todos organizados numa dinâmica tal que seus papéis estarão garantidos antes mesmo que nasçam.

As instituições que garantem tal convicção são a família nuclear, a escola uniforme para todos e o trabalho, além de outras, menos estruturais mas não menos fundamentais.

Dentre estas, a escola é a principal veiculadora dessas certezas, embora não seja privilégio seu a produção de discursos, o que nos leva imediatamente ao método utilizado para que tais pressupostos se realizem.

A didática, essa simplificação, e os discursos, enunciados sempre por aqueles que sabem, são os caminhos de materialização dessa epistemologia.

Ora, tal ocorre sobre uma precisa objetivação dos enunciados. Colocados em movimento, orientam nosso olhar organizando os elementos, simplificando-os, naturalizando-os de acordo com essa orientação, que é lenta, progressiva, espiralada segundo Brunner, que se aprofunda lentamente com o avançar da idade.

Justamente a estas certezas chamamos História, com esse agazão, aquilo que aconteceu, que pode ser provado pelos documentos, que está escrito e contra a qual não há refutação, exceto desdobramentos. As pesquisas, nesse sentido, partem desse pressuposto e aprofundam o já enunciado.

No entanto, essa história nos ajuda apenas a entender o futuro, e não ao presente. Afinal, o futuro é tão engessado quanto o passado. O presente, ao contrário, é fluídico, é dinâmico, somente é percebido como passagem, como estranhamento. O presente não pode ser enquadrado pela epistemologia solipsista. Suas urgências, toda a sua emergência requer outra postura perceptiva.

Essa postura perceptiva, no entanto, deve ser proporcionada única e tão somente por uma exigência assumidamente política. É decisão pessoal, num mundo já tão avançado nas certezas do egoísmo e da atomização, do individualismo mais empedernido.

Epistemologia representacionista significa abrir-se para o mundo e deixar entrar o real, com todas as suas contradições, suas sensaborias, sua inextricável composição.

Segundo essa epistemologia, os homens não estão sujeitos a julgamentos prévios, às limitações de ordem moral nem às ambigüidades singelas de nossos preconceitos. Tudo é complexo e tudo é processo, interação com os níveis mais abstratos da percepção tanto quanto com aqueles mais concretos e, no entanto, tão extravagantes da materialidade disponível e exibida.

Sugiro dois documentários em que tais epistemologias podem ser melhor entendidas. O primeiro chama-se Ilha das Flores, de Jorge Furtado e é a expressão da epistemologia solipsista, com todos os seus conceitos prontos, seus determinismos objetivistas. O segundo é Boca de Lixo, de Eduardo Coutinho, em que sua câmera se abre para a complexidade, aceitando sem julgamentos todo um universo de percepções subjetivas e dando ao espectador o direito de tirar suas próprias conclusões.

Frase de Jean Baurillard define absolutamente o meu trabalho: “Sou um dissidente da verdade. Desenvolvo uma teoria irônica cujo objetivo é formular hipóteses. Lanço mão de fragmentos e não de textos unificados por uma lógica rigorosa”.

Tampouco acredito na verdade e estabelecerei uma teoria irônica que serão não mais que hipóteses, com o apoio exclusivo de fragmentos. Aqui estão, na seqüência, a epistemologia que abraço, a teoria que aceito e a metodologia que utilizo.

Os fragmentos permitem múltiplas conexões e, por sua vez, encaminham inúmeras hipóteses e erradicam qualquer possibilidade de um centro, de um núcleo de onde brota a verdade.

Aqui, apresentarei minhas hipóteses, o que não deve ser confundido com alguma verdade. Os mesmos fragmentos estão disponíveis para outras tantas possibilidades, dependendo unicamente do universo do leitor.

Suas idiossincrasias possibilitam outras interpretações. Sua subjetividade anuncia outros universos mentais de criatividade e cada um pode encontrar coerência na manipulação dos fragmentos e que, da mesma forma, podem ser outros, desde que cada um aceite o método como válido.

Aqui, as escolhas podem ser ousadas, e não apenas sobre qual lanche comer, qual roupa comprar, qual carro legitima o meu sucesso.

Podemos, então, traçar o seguinte quadro:

EPISTEMOLOGIA: COMO SE CONHECE O CONHECER

TEORIA: ESTAR NO LUGAR DE DEUS

METODOLOGIA: CAMINHO


EPISTEMOLOGIA SOLIPSISTA

TEORIA:

POSITIVISMO MARXISMO HISTORISMO ANALLES

METODOLOGIA:

DIDÁTICA, DISCURSO

-VERDADE -DESIGUALDADE -CERTEZAS -OBJETIVIDADE -RACIONALIDADE -HISTÓRIA

-HISTÓRIA PARA ENTENDER E MUDAR A SOCIEDADE NO FUTURO (TELEOLOGIA):

-QUADRIPARTISMO HISTÓRICO

NATURALIZA A DOMINAÇÃO EPISTEMOLOGIA REPRESENTACIONISTA


TEORIA: HERMENÊUTICA EMERGÊNCIA

METODOLOGIA:

DIALÓGICA, COMPLEXIDADE (TECER JUNTOS)

-PERSPECTIVA -SEMELHANÇA/ DIFERENÇA -INCERTEZAS -SUBJETIVIDADE -SENSIBILIDADE -HISTORICIDADE

-HISTORICIDADE PARA ENTENDER E DESTRAMAR

O PRESENTE:

-RECONFIGURAÇÃO DO ESTADO NA MODERNIDADE

HISTORICIZA A DOMINAÇÃO Pressão, obediência, ordem Comprometimento, responsabilidade



A dominação é uma invenção da modernidade. “Eu tenho o poder!”, pronunciada por um indivíduo é uma expressão nunca dantes cogitada. E é certo que essa experiência dita por todos os homens da terra é tão surpreendente, tão fantástica, que devemos nos obrigar a desvendar sua emergência.

No fundo, a dominação é estabelecida por uma relação básica, elementar, entre duas pessoas; é a situação de desigualdade entre duas pessoas em que se ancora todo um sistema. Pai e filho, professor e aluno, patrão e empregado, homem e mulher, adulto e criança, rico e pobre, valentão e covarde, alfabetizado e analfabeto, com etiqueta e grosseiro, forte e fraco, bem sucedido e fracassado, etc., embora essas relações, hoje, tenham duplo trânsito. A todo dia, a todo instante, somos dominadores e dominados.

Dominação, exploração e produção são etapas que condicionam um processo de apagamento. O que nos encaminha para um espelhamento no indivíduo. Nele deve haver submissão, adesão e aceitação, nessa ordem, embora, devido à atuação eficaz da ideologia, tal aceitação não seja somente voluntária, mas as vezes é também compulsória. Daí decorre que estamos no âmbito da suspensão de liberdade, já que ao termo liberdade podemos entender como sendo a possibilidade de escolha, mas de escolher um outro modo de vida que, diferente deste, prescinda da hierarquia e da desigualdade que dela escorra, um mundo sem iniqüidade, portanto.

No entanto, a julgar pelos elementos constitutivos da dominação no vezo de nosso cotidiano, há uma permanência de seus fundamentos que se escondem na parte mais empanada do tempo, de tal sorte que quase podemos acreditar numa espécie de primeira natureza humana. Dominador e dominado se nos apresentam como condições inescapáveis de nossas relações e, por vezes, excedem mesmo a natureza humana e se instalam como condição da vida: a dominação dos predadores, dos leões na pradaria, a dominação do macho alfa entre os gorilas, enfim, espécies diversas correspondendo a essa fatalidade da vida. As formigas, abelhas e cupins, chamados insetos sociais justamente por sua condição hierarquizada, correspondem a espelhos diminutos de nossa agressividade e opressão.

Não só isto. Também em nosso organismo a dominação do cérebro hierarquiza nossas funções biológicas numa rede neural que demanda comandos por todo o corpo e é, de certo modo, a morte cerebral que determina, hoje, legalmente, a hora do falecimento.

Da mesma forma, a história humana é um “catalogar ordenado de cicatrizes e contusões”, na feliz formulação de Ivan Lessa, fruto de nossa exitosa condição de luta dialética entre dominadores e dominados.

Já no raiar dos tempos, os construtores de canais hierarquizaram funções para melhor executar seus trabalhos de sobrevivência no retalhamento da natureza. O crescente fértil da Mesopotâmia ainda guarda as rudes cicatrizes desses tempos em que a aurora metaforizava sua forma piramidal, manifesta tempos depois no Egito e naquilo que séculos depois há de se chamar, hierarquia semântica, de América central.

Na Grécia, cidadãos oprimem conjuntamente escravos, mulheres, crianças, a despeito de serem tão poucos que fica difícil entender como se dava a dominação. Mas afinal, os textos gregos aí estão a confirmarem a supremacia dos filósofos sobre a impagável cretinice dos dominados.

Em Roma não se deu diferente. Um império que cobria toda a terra, avançando com suas máquinas de dominação sobre continente após continente. Escravizando todos que se colocavam diante de seus potentados.

A Idade Média apenas confirmaria essa verdadeira metodologia do regramento: a igreja dominava as almas que não sabiam o latim enquanto os senhores dominavam os servos e, por intermédio de contratos, dominavam outros senhores vassalos.

Finalmente a modernidade, com seus imensos recursos, impôs a dominação de toda a terra sob a ótica da cultura ocidental, européia, cristã, capitalista. Reduzidos todos a patrões e empregados, burguesia e proletariado, a única escapatória a essa determinação a-histórica ficou reservada à revolução, caixa de pandora que guarda em seu interior, depois de todos os infortúnios liberados, a esperança de um mundo de igualdade contraposto à iniqüidade da história humana.

Ironias à parte, tal simplificação tem valor pedagógico: não encontramos escapatória para a humanidade, crentes seguidores de um destino de precipício.

Para entendermos as tramas dessa construção histórica necessitamos de um conceito cada vez mais adequado à elaboração de novos problemas: a historicidade, essa verdadeira invenção que pressupõe que todos os eventos históricos devem ter começo, meio e fim.

Considerando que a história é a fricção entre permanências e mudanças, ou seja, existem fenômenos que permanecem diante de fenômenos que se modificam, perspectiva que é pletora da historicidade; afinal, tudo muda, tudo tem começo, meio e fim, como sempre entenderam os budistas, os hinduístas, os xamãs das sensibilidades.

Historicizar a dominação é necessidade imperiosa para enfrentar os desafios da construção de sociabilidades mais justas, respeitosas e que respeitem as diferenças.

Para enfrentarmos o desafio devemos entender como se deu a construção de uma percepção unívoca (unidimensional, segundo Marcuse) do real. Para tanto devemos compreender o conceito de paradigma. O paradigma, que segundo Kuhn pode ser representação, ou rede epistêmica, como em Foucault, ou imaginário, como em Castoríadis, ou hegemonia, como em Gramsci, não deixa de referir-se a valores, idéias sedimentadas como ponto de partida para concepções teóricas. Do grego, para-deigma, ou seja, “aquilo que se mostra ao lado”, são singularidades que se apresentam sempre ao lado de onde são esperadas e que inebriam a visão, deslocando-a sutilmente do foco central. Einstein , nos termos de uma parábola:

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: - Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui...

Poderíamos questionar que tal exemplo é infeliz na medida em que coloca os homens numa condição ridícula de espécimes irracionais (embora os macacos deveriam sentir-se insultados). Contudo, aponta para o ocultamento dos confrontos e das lutas que resultam em hegemonias e se nos apresentam como condições “naturais” das regras de convívio humano e social. Embora limitante, o conceito de paradigma aqui utilizado terá uma expansão inusitada: pois atrelado à percepção, a uma “weltanschauung”, uma visão de mundo. Ora, uma visão de mundo unívoca só é possível considerando o estabelecimento de instituições. Portanto, cabe aqui alguma definição. Instituições são estruturas baseadas na produção de discursos. Nesse sentido, como, aliás, afirmava Marx, são eminentemente modernas e levam séculos até se hegemonizarem. A igreja se institucionaliza a partir de sua mais contundente ferramenta de discurso: a inquisição. É assim que ela há de erradicar sua pluralidade, chamada ali de heresias, enfim, inúmeras formas de entender o sagrado que perpassou, fragmentado, as múltiplas experiências por um extraordinário território. O que vem a ser discurso? O discurso é convencimento, é “surdo” a qualquer argumentação, é pedagógico e exemplar e retórico em sua natureza dura e impositiva. O discurso é moral na medida em que impõe certas atitudes enquanto proíbem outras. O discurso cria uma centralidade que irradia determinismos e erradica potencialidades difusas. Pode assumir a forma de simbologia e de truculência até impor-se e ser aceito como “normalidade”, naturalizando suas prescrições. Quando ganha o estatuto de cultura torna-se um tesouro do espírito e não é mais sentido como discurso. Três exemplos muito caros à nossa experiência podem ser apontados: a família nuclear, a escola e o trabalho. Instituições modernas por excelência e que nos parece tão naturais como a fisiologia humana. Existem três pontos fulcrais sobre a afirmação de que a dominação é uma construção histórica eminentemente moderna: o sistema prevalecente nos últimos quinhentos anos é um sistema de produção, de exploração ou de dominação? Neste caso, a ordem dos fatores altera profundamente o resultado. Como devemos priorizar sua caracterização? Ora, o trabalho moderno tem como característica fundamental a separação do homem dos meios de produção, ou seja, a instituição do trabalho moderno se consolidou como exploração do homem pelo homem por intermédio da propriedade dos meios de produção, da disciplina e do controle do tempo nas mãos de uma parcela dos homens. Indaga-se como teria sido, portanto, antes. Nas terras comunais que a modernidade cansou de destruir, as funções eram executadas por todos e a etnologia ainda nos apresenta semelhantes sociabilidades em diversos grupos étnicos seja na América, seja nos Montes Urais, seja entre os esquimós ou nas estepes da Mongólia, sem esquecer a África ou os desertos do Oriente Médio. Neste retalho de considerações problematizadoras, vejamos outras perspectivas. Numa passagem retirada de Prigogine podemos ler o seguinte:

Os túmulos do neolítico eram em geral túmulos comuns, ou túmulos relativamente iguais para todo mundo. E depois, houve a pirâmide do faraó, e a vala comum para o povo .

E Petra, verdadeiramente entalhada nas montanhas e nos desertos da Jordânia, muito provavelmente no século II ou III de nossa era, todos concordam, realizada não por escravos, poderia ser nossa referência epocal rumo ao Egito.

Tal afirmação nos remete ao tema do poder. Um dos vestígios mais importantes para a leitura de um passado tão distante quanto o neolítico ou a civilização egípcia podem ser os túmulos, quando pensamos em hierarquias.

De modo limitado, o acesso ao arsenal cultural egípcio só foi possível graças à tradução da chamada Pedra de Roseta por Champolion, em meado do século XIX. Os hieróglifos, então, tornaram acessível toda uma civilização. Mas os comprometimentos relativos à tradução serão doravante esmiuçados, o que nos leva aos vestígios tumulares.

Enterramentos em sociedades hierárquicas correspondem aos juízos conservados pelas experiências vividas. Como explicar a afirmação de Prigogine?

O faraó poderia ser uma divindade viva, que acreditava tão completamente em sua natureza divina quanto aqueles que o adoravam e cuja função poderia ser a de manter as regularidades do Nilo e, portanto, da vida. Emissário de deuses solares cuja função é preservar a vida, o ciclo ininterrupto da existência.

Se este for um caminho plausível, então não havia intermediários construindo uma ponte hierárquica entre o Deus vivo e seus adoradores. Sociedade sem hierarquia pode ser representada por enterramentos comuns. Os caipiras da Paulistânia ainda hoje produzem sua sobrevivência com larga autonomia e muito tempo livre. Os cercamentos na Inglaterra dos setecentos são exemplos radicais de como a luta pela erradicação de todo um modo de vida foi oportunidade para o aparecimento do mundo do trabalho na fábrica, com suas regras e disciplina próprias . Portanto, para atingirmos o sistema de produção normatizado como hoje se apresenta o mundo do trabalho, foi necessário o estabelecimento de uma estrutura de dominação que fosse anterior inclusive do sistema de exploração, que pressupõe as lutas sociais dos séculos XIX e XX. Desorganização de um modo de vida, confinamento, violência e resistência no mundo da fábrica e naturalização do trabalho como condição inata do homem a partir da segunda metade do século XX (“quem não trabalha é vagabundo”, “trabalho para sobreviver”). Outro ponto fulcral dessa naturalização se deu na própria trajetória dos textos escritos anteriores à invenção da prensa tipográfica, quando as línguas vernáculas modernas, que desembocarão nas línguas nacionais, exigirá uma outra centralidade, qual seja, a do texto escrito.

O primeiro problema diz respeito à tradução, que merece algumas palavras e algumas considerações.

A primeira vez que se consolidou na Europa um espaço de todo o conhecimento oriundo do grego e do latim foi com o aparecimento da chamada Biblioteca de Fabrícius, no século XVII.

Talvez fosse interessante recordar que os textos gregos de Aristóteles a Platão chegaram à Europa via Oriente. Foram, portanto, traduzidos do grego clássico escrito há dois mil e seiscentos anos, chegou à Pérsia, traduzidos para o árabe, chega, pelas cruzadas, às mesas dos copistas beneditinos em que são traduzidos para o latim e depois traduzidos para o alemão, o francês, o italiano e o saxão do século XV, XVI.

Essa trajetória nos garante, dado os conhecimentos e os procedimentos inerentes à tradução de qualquer texto, que não podemos mais garantir o que havia escrito Platão, Aristóteles, os gregos e, talvez, nem mesmo Santo Agostinho. Hoje, não se questiona o fato de que possamos ler o grego clássico do século V antes de cristo no português do século XXI, dois mil e seiscentos anos de distância, sem nenhum problema.

Em O Espelho de Heródoto, Hartog afirma:

Ele vai bem, o velho Heródoto. É lido (pelo menos se supõe), editado, glosado e interpretado. Estará satisfeito com isso? Swift lembrava como Gulliver, de passagem pela Ilha dos Feiticeiros, tinha, de início, observado a que ponto Homero e Aristóteles ignoravam a multidão de seus comentadores. Em seguida, não demorou a compreender como, na realidade, ambos absolutamente não a conheciam. Finalmente, um fantasma confirmou-lhes que, de fato, “os comentadores não se aproximavam jamais dos infernos em que estavam os autores que eles tinham glosado, por vergonha e por remorso de ter tão horrivelmente deformado seu pensamento, ao explicá-lo às gerações posteriores” .

Esta deveria ser uma atenção óbvia e não apenas uma ação intencional de deformar o pensamento original, mas uma contingência das limitações empáticas com outros tempos, outros lugares, outras culturas.

Diria Otávio Paz com alguma incerteza:

A obra sobrevive aos seus leitores; ao final de cem ou duzentos anos é lida por outros que lhe impõem diferentes sistemas de leitura e interpretação. Os temíveis leitores desaparecem e em seu lugar surgem outras gerações, cada uma dona de uma interpretação distinta. A obra sobrevive graças às interpretações de seus leitores. Elas são na verdade ressurreições: sem elas não haveria obra. A obra transpõe sua própria história só para se inserir em outra. Acredito que posso concluir: a compreensão da obra de sóror Juana inclui necessariamente a de sua vida e seu mundo. Nesse sentido, meu ensaio é uma tentativa de restituição; pretendo restituir seu mundo, a Nova Espanha do século XVII, a vida e obra de sóror Juana. Por sua vez, elas nos restituem, seus leitores do século XX, a sociedade da Nova Espanha do século XVII. Restituição: sóror Juana em seu mundo e nós em seu mundo. Ensaio: esta restituição é histórica, relativa, parcial. Um mexicano do século XX lê a obra de uma freira da Nova Espanha do século XVII. Podemos começar .


O gosto de uma época pode definir o que deve ser preservado e o que deve ser esquecido. O texto poderia ter sofrido intervenções em seu próprio tempo? Antes de fixar-se para a posteridade? Nas diversas traduções epocais, dessas que ocorrem na transformação da língua em que foi escrito? Cada tempo tem sua própria moralidade? Melhor, cada grupamento humano tem seu próprio ethos? O trânsito trans-epocal, ou diacrônico, e o trânsito trans-cultural, ou sincrônico, interferem ambos os movimentos nos riscados de um texto? Os problemas inerentes às traduções nos garantem, pelo menos, a incerteza sobre suas enunciações e a historicidade de seus conceitos. Dizem, portanto, muito mais do presente em que foram traduzidos do que do passado a que se referem.

Exemplo prosaico dessa tradução é o Mito da Caverna de Platão. Sua formulação iluminista nos obriga a pensar se houve, afinal, dois momentos em que a função do intelectual, do filósofo, era iluminar o mundo com seu conhecimento. Tal mito apareceu na Europa em tradução francesa exatamente no momento em que os iluministas tramavam sua máxima do “saber é poder”.

Último ponto fulcral dessa explanação, o aparecimento da história com sua ambição de cientificidade no século XIX, local tanto das histórias nacionais quanto do chamado quadripartismo histórico, narrativa coerente, cronológica, etapista e evolucionária da linha do tempo eurocêntrica: História Antiga – História Medieval – História Moderna – História Contemporânea. Seu correspondente do materialismo histórico pouco inova: Modo de Produção Hidráulico – Modo de Produção Escravista – Modo de Produção Feudal – Modo de Produção Capitalista.

Lembro que por essa gênese da produção histórica era o documento escrito, o registro tal e qual do passado, a fonte da verdade sobre o que foi. O motor da história que se buscava, daí sua cientificidade, era dado pelos padrões das ciências naturais, ou seja, a regularidade observada pela empiria.

Dois autores-historiadores-demiurgos podem nos guiar para os problemas de sua contribuição para a naturalização da dominação como a-histórica: Michelet e Fustel de Coulanges.

O século XIX constitui-se no ponto mais alto deste paradigma. As elaborações e abstrações ali construídas ganharam legitimidade rapidamente e nas instituições primordiais do paradigma, dentre elas a escola, a despeito de suas muitas transformações, continua respondendo basicamente à mesma estrutura.

O objetivo aqui é estabelecer uma rede de referências que nos possibilite compreender que a história construída no século XIX acabaria por atingir a condição de verdades consagradas ou conhecimento socialmente construído, desconsiderando que os homens e os historiadores observam o passado, seguindo os constrangimentos próprios de seu tempo. Em outros termos, a história construída no século XIX diz muito mais a respeito do século XIX que daquilo que se propunha a estudar, compondo uma história basicamente eurocêntrica:

As diferentes formas deste etnocentrismo escondem-se por trás de uma história geral que é, aproximadamente, a mesma em Malet e Isaac, em França, La Storia dell’Uomo, na Itália, e por aí adiante. Nestes casos a história ‘nasce’ com o Egito antigo, a Caldéia e Israel, e desenvolve-se com a grandeza da Grécia e de Roma. A ‘Idade Média’ começa com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, com as grandes invasões e conclui-se com a queda do Império Romano do Oriente, em 1453, e com a conquista turca. As grandes descobertas, o humanismo e a Reforma protestante dão início aos ‘tempos modernos’, os quais, por sua vez, cedem lugar à época contemporânea que se inicia com a revolução de 1789.

Quando pensamos na naturalização da dominação como um processo civilizador, ou seja, presente em toda a história ocidental, por vezes esquecemos que a “história intelectual da humanidade pode ser considerada uma luta pela memória”, nas palavras de Lotman e que tanto a história romana quanto a grega foram escrita basicamente após a constituição das chamadas Bibliotecas de Fabricius: biblioteca latina (1697), biblioteca grega (1705-1728) e biblioteca latina média (iniciada em 1734) e que podemos inserir o alerta oriental de que, ao contrário dos historiadores, “os literatos não tomam por modelo o presente e só estudam a Antiguidade para denegri-la” , o que equivale dizer que o estudo da antiguidade só tem sentido para (e na medida em que pode) justificar o presente em que aqueles autores dos séculos XVII, XVIII e XIX produziram os textos sobre a história ocidental como sendo a história da dominação que era o que experimentavam então .

Quando pensamos no caráter relativamente subjetivo das pesquisas, hoje já bastante aceito, esquecemos que esta subjetividade já estava colocada. Lucien Febvre, em curso no College de France ministrado entre fins de 1942 e meados de 1943, propôs-se a demonstrar como Michelet inventara o conceito da Renascença e o apresentara neste mesmo College cem anos antes. E essa invenção não era mais que um mito:

Velho mito sempre vivo, a despeito de tantas críticas. A princípio, a Antiguidade e a ciência dos antigos, a invenção fecunda dos helenos criando a geometria de Euclides, a mecânica de Arquimedes, a medicina de Hipócrates e de Galeno, a cosmografia e a geografia de Ptolomeu, a física e a história natural de Aristóteles: todo um saber que, dos gregos, pôde passar aos romanos. Depois disso, um mergulho na noite – a profunda noite da Idade Média. O tesouro antigo extraviado, se não perdido. E nada, durante séculos, além do raciocínio silogístico e da dedução estéril; nenhuma aquisição doutrinal fecunda, nenhuma invenção técnica importante. Até o dia em que, novamente, no fim do século XV, inicia-se uma revolução – em que os homens, tomando consciência de sua miséria intelectual, põem-se em busca dos tesouros desaparecidos, redescobrem-lhes uma a uma as peças esparsas nos sótãos, e, para utilizar tantas riquezas, reaprendem a ler, por um esforço soberbo, o verdadeiro latim, o grego clássico e mesmo, por outro lado, o hebreu, inútil para o conhecimento científico, indispensável para a exegese bíblica. Então, enlevo: empanturrados de todas as provisões antigas subitamente postas ao seu alcance, esses humanistas põem-se novamente em marcha. Valem-se da imprensa que acaba de nascer. Valem-se de mapas geográficos novos que acabam de adquirir e que, bruscamente, alargam tanto seu horizonte espiritual como seu horizonte material. Copérnico enxerta-se em Pitágoras. E Kepler em Copérnico. E Galileu em Kepler. Enquanto Andries Van Wesel acrescenta aos frutos da experiência os da tradição hipocrática...

Quem constrói esse “mito”? Os historiadores do século XIX. Os do XX apenas tornam o ilogismo lógico ao estender, ao pavimentar por toda a Idade Média, a naturalização continuada da herança greco-romana. Como? Criando uma Idade Média “iluminada”, diuturna, solar e igualmente mítica.

Assim, não foi somente a Renascença objeto de invenção. Também a Idade Média.

De ser que nasce e, debruçando-se atentamente sobre o nascimento da Idade Média, procura-se-lhe a data precisa, as circunstâncias e os antecedentes. De ser que vive: e fica-se preocupado com as fases sucessivas dessa existência. De ser que declina e que morre: e descrevemos o outono da Idade Média, o declínio da Idade Média, o fim da Idade Média, em livros inumeráveis. Assim, existem as idades da Idade Média; as estações da Idade Média; as idéias da Idade Média. Há os homens da Idade Média. Da Idade Média que parece não sei que força obscura, poderosa e coercitiva, que modela os homens à sua maneira, amolda-os, comunica-lhes caracteres comuns, dotados das mesmas virtudes e das mesmas deficiências.

Uma teoria ganha estatuto de verdade, quando vence as resistências de duas, três gerações. Outros projetos que, uma vez consagrada essa teoria, serão arremessados para o fundo do baú, local de esquecimento. A história ocidental prevalecente foi uma disputa de discursos que se hegemonizaram até atingir a condição de verdade. Alguns conceitos se tornariam tão hegemônicos que hoje ainda vibram de vitalidade . O primeiro é o de evolução, de progresso , afinal, “poucos de nós não o consideraríamos como uma melhoria potencial ou concreta” . Tal postura nos coloca, sempre, como os privilegiados do tempo e, por extensão, nossa própria sociedade como a resultante “natural” dessa evolução.

Falamos freqüentemente da máquina que criamos e que nos escraviza. Não há máquinas só de aço: as máquinas intelectuais que forjamos nas oficinas do cérebro impõem-se a nós com a mesma tirania. E, de resto, vivem uma vida tenaz, de outro modo. Porque não há exemplo de que alguma vez naufraguem .

A data, os fatos e a cronologia. Esta parece ser a seqüência que, no magnífico caldeirão de meados do século XIX com Augusto Comte, Spencer, Darwin e outros, conferiu à teleologia toda a centralidade de um pensamento, criando uma wertanschauung absolutamente hegemônica.

O historiador Nelson Werneck Sodré comenta:

Nada empresta um caráter mais falso às narrativas históricas do que a apresentação pura e simples dos seus diversos episódios, sem o encadeamento que os liga na continuidade que é o dogma da evolução das sociedades. Desse modo, quando estudamos o colapso do império romano nos livros didáticos parece-nos, à primeira vista, que as invasões bárbaras se processaram pela violência e pela brutalidade, num rápido avanço sobre a península. Ora, a decadência romana é um acontecimento que evolui em decênios. As invasões bárbaras se fizeram pela infiltração e pela extensão do direito aos adventícios. Eles se enquistaram no império cujas instituições iriam derrocar. Entre o fim do poderio romano e o início do medievalismo paira o tempo, em cujo ventre se desenrolaram as transformações da sociedade, culminando com a ruína das instituições antigas e com o advento de novos padrões humanos.

A despeito de seu alerta acerca das temporalidades estendidas que caracterizam as passagens históricas, segundo o autor, devemos aceitar o vaticínio da evolução das sociedades sem questionamento. Afinal, a quem serve o conceito de progresso , de evolução?

Dizer que a ideologia não tem história significa apenas dizer, em primeiro lugar, que as transformações ocorridas em um discurso ideológico não dependem de uma força que lhe seria imanente e que o faria transformar-se e, sim, que tais transformações decorrem de uma outra história que, por meio da ideologia, a classe dominante procura escamotear; em segundo lugar, e mais profundamente, significa que a tarefa precisa da ideologia está em produzir uma certa imagem do tempo como progresso e desenvolvimento de maneira a exorcizar o risco de enfrentar efetivamente a história.

Daí se infere que o caráter evolutivo e progressivo com o qual o século XIX revestiu o real tem um princípio de dominação e que essa dominação, engendrada por uma classe historicamente determinada, clama pela História justamente para furtar-se a um confronto com a história.

No prefácio à edição de 1868 de sua História da Revolução Francesa, escrevia Jules Michelet:

A história contestada dos velhos tempos esclareceu-se por si mesma, de ano em ano, por um grande número de documentos dados a público. Mas nós, historiadores, fizemos alguma coisa por isso. Adotando cada um seu ponto de vista, nós a pusemos (por nossos próprios exageros) em plena luz. É interessante ver quanto essa diversidade foi útil. Desejaria que uma mão hábil esboçasse a história da história, quero dizer, o progresso feito em nossos estudos sobre a Revolução.

De alguma forma, em 1868 já estava plenamente consagrada uma “evolução” no fazer histórico em relação a Guizot, Sismondi, Barante, Augustin Thierry. Mas a palavra evolução não pode ser entendida sem o seu forte conteúdo político.

Porque a palavra evolução não é uma vã palavra para o historiador das civilizações... História, ciência do homem, ciência da perpétua mutação das sociedades humanas, do seu perpétuo e necessário reajustamento a novas condições de existência material, intelectual, moral, religiosa, econômica, política e social.

O conteúdo político do termo evolução fica mais claro ainda quando Pierre Leroux, contemporâneo de Michelet, que em 1840, na obra l’Humanité, escrevia:

Há uma primeira maneira de classificar os homens: é dividir os homens no tempo, vale dizer, não reconhecer a cada um por antepassados senão os seus antepassados naturais, negar qualquer reversibilidade de uma família sobre outra; estabelecer, pelo contrário, a absoluta reversibilidade de cada família, atribuir tudo ao nascimento, subordinar o filho ao pai que o concebeu, e fazer do homem um herdeiro. Há uma segunda maneira de classificar os homens. É dividir os homens no espaço, compor agregados de homens, não somente distintos entre si, mas hostis uns aos outros, sob o nome de nação, subordinar o homem à nação e fazer do homem um súdito.

A família nuclear burguesa e a nação serão as resultantes “naturais” desta “evolução”. Tal “evolução” não pode ser escamoteada pelos atores que a engendraram. Numa carta escrita em uma de suas inúmeras viagens, Michelet se pronuncia em 1830:

Vejo muitos ingleses que viajam com sua família e eu estou longe da minha: isso me faz sentir duramente a minha pobreza. E digo-me muitas vezes: que queres tu, se queres atingir a mesma cultura intelectual que a dos ricos, não será senão ao preço de grandes sacrifícios.

Se é certo que a geração de 1820 (Guizot, Victor Cousin, Villemain, Mignet, Quinet e o próprio Michelet) consagra alguma reação à escolástica de um Voltaire, à severidade de uma cultura aristocrática e que a revolução francesa e principalmente o período pós-napoleônico exigiram a presença dos pobres na história, é igualmente certo que a centralidade da cultura escrita havia se tornado irremediavelmente hegemônica e a máxima do saber é poder ainda prevalecia e ganhava novos contornos. É preciso lembrar que Michelet criou o conceito de Renascença e o fez segundo sua própria convicção e suas idiossincrasias. Conjunto explicativo coerente, a Renascença, contudo, fora a consagração de uma história. Lucien Febvre aponta que o século XIX francês ansiava por criar uma tradição, produzindo documentos duvidosos, como o Précis, de Crapelet, sobre a Idade Média:

Isso não era um documento histórico, mas um verdadeiro código de honra, válido tanto para o homem do século XIX, quanto para o homem do século XIII, tanto para o francês da Restauração, quanto para o francês do tempo de São Luís.

Assim, será através de Turgot, que em 1751 publica Plan de deux discours sur l´histoire universelle, que uma massa documental há de amparar o fazer histórico. Por essa mesma medida, e seguindo os historiadores do século XIX francês, “houve a Esparta de Napoleão, pregada nas escolas; houve a Roma de David, triunfante nos ateliês, nos salões de pintura” . Mas não será, justamente, por uma impossibilidade empática, ou seja, uma incapacidade que temos em compreender não somente o “outro”, mas outra cultura, quanto mais outra temporalidade, que a história, mesmo eivada de documentos, seria, acima de tudo, subjetiva? Ainda Febvre: “Daí o caráter necessariamente subjetivo de toda história por mais objetiva que diga ser e que possa ser. No fundo, só uma forma de história é objetiva (e ainda!): a cronologia.” . Michelet, de quem Febvre faz apologia, ignorou “os falsos mestres e os vãos pedagogos” para criar a Renascença:

Mas o homem cria um nome, e eis que este lhe escapa, põe-se a viver a sua própria vida, e já não se contenta em servir de etiqueta: põe-se a constituir, a engendrar um sistema de noções que logo assume figura de realidade, de ser de razão, de verdadeiro ser dotado de todos os atributos da existência.

A História de Jules Michelet foi também a dos homens do seu tempo, a História dos seus contemporâneos, que a adotaram e que a propagaram. E assim se compreende por que o conceito elaborado por Michelet em 1840 tem tido vida tão longa e carreira tão brilhante: Michelet, envolvendo-se por inteiro no assunto, nele envolveu concomitantemente todos os homens do seu tempo, fê-los participar da sua criação, e tornou o conceito, ao mesmo tempo, forte, vivaz e fecundo.

Eric Hobsbawm atualiza o papel do historiador:

Os historiadores são o banco de memória da experiência. Teoricamente, o passado – toda e qualquer coisa que aconteceu até hoje – constitui a história. Uma boa parte dele não é da competência dos historiadores, mas uma grande parte é. E, na medida em que compilam e constituem a memória coletiva do passado, as pessoas na sociedade contemporânea têm de confiar neles.

Como chegamos a essa legitimidade e qual a responsabilidade que daí decorre? Responde Hobsbawm:

Por que (...) todos os regimes fazem seus jovens estudarem alguma história na escola? Não para compreenderem sua sociedade e como ela muda, mas para aprová-la, orgulhar-se dela, serem ou tornarem-se bons cidadãos dos EUA, da Espanha, de Honduras ou do Iraque. E o mesmo é verdade para causas e movimentos. A história como inspiração e ideologia têm uma tendência embutida a se tornar mito de autojustificação. Não existe venda para os olhos mais perigosos que esta, como o demonstra a história de nações e nacionalismos modernos.

Fustel de Coulanges, por seu turno, compreende parte desse processo de ocultamento e suas denúncias acabarão por torná-lo um paria entre seus próprios pares. Afirmava ele sobre os limites daquela história que se estava construindo:

Há uma ilusão de ótica a que nós, nascidos entre 1815 e 1830, estamos submetidos. Não vimos grandes coisas; portanto, nos reportamos para tudo à Revolução: é o nosso horizonte, nosso fim do mundo; mas o que acontece é que este horizonte é uma montanha; mensuramos tudo a partir desta medida. Isto é enganoso... .

A barreira colocada por Coulanges pode apenas nos dar a entrever outras barreiras, talvez até àquela que dividiu a História, assim com H maiúsculo, em desdobramentos unívocos da modernidade. Em meados do século XVII, quando publicou seus Pensamentos, Pascal (1623-1662) nos envia a mensagem que pode ser a ponte para o desaparecimento dos primórdios da dominação e ao mesmo tempo o restabelecimento de sua historicidade:

[O povo] não deve sentir a verdade da usurpação: ela foi um dia introduzida sem razão e tornou-se razoável; é preciso fazer que ela seja vista como autêntica, eterna, e esconder o seu começo se não quisermos que logo tenha fim .

É preciso esconder o seu começo, eis o imperativo da legitimação. Que melhor forma de esconder o começo senão colocá-lo no remoto passado? Quando não é mais possível encontrá-lo exceto com a imaginação? Ora, então a imaginação pode igualmente ser uma ferramenta útil para evocá-lo, só que próximo o suficiente para acreditarmos que podemos lhe por um fim. Em 1698, Algernon Sidney publica Discursos sobre o governo e sua tese principal sobre as condições deletérias deste organismo que caracterizará toda a modernidade é esta:

Sabemos que perfeição não se encontra entre os homens. Buscamos a forma de organização humana que contenha o menor número de embaraços, ou os mais perdoáveis .

A sincronicidade destas afirmações é mais do que perturbadora. A dominação agora se apresenta como apaziguamento para o julgamento do futuro, já que aquilo que é escrito também é uma memória prospectiva, uma memória arremessada ao futuro, ao olhar de futuras eras.

Todos aqueles fenômenos aparentemente fixos que quase sempre pressupomos como naturais (o dinheiro, o Estado, o poder: estão ali, sempre estiveram, sempre estarão, assim é a natureza humana, ou não?) se revelam agora como campos de batalha devastadores, sangrentos. É mais ou menos como tomar um montinho de pó inofensivo e olhá-lo através de um microscópio para descobrir que sua “inofensividade” ancora todo um micromundo em que milhões de organismos microscópicos vivem e morrem na luta diária pela existência. Mas, no caso do dinheiro, a indivisibilidade da batalha que encobre não tem nada a ver com a dimensão física, é mais o resultado dos conceitos através dos quais o olhamos. O papel moeda que mantemos em nossas mãos parece algo inofensivo, mas olhemos mais detidamente e veremos todo um mundo de pessoas que lutam para sobreviver, algumas dedicando sua vida a obtê-lo, algumas (muitas) tratando desesperadamente de se apoderar dele como modo de sobreviver no dia seguinte, algumas tratando de fugir do dinheiro pegando o que querem sem pagar ou construindo formas de produção que não passam pelo mercado e pela forma dinheiro, pessoas matando por dinheiro, muitas morrendo todo dia por falta de dinheiro. Um sangrento campo de batalha em que o fato de que o poder fazer existe na forma de dinheiro produz miséria, doenças e morte implícitas e está sempre em discussão, sempre em luta, sempre imposto, frequentemente com violência. O dinheiro é uma batalha devastadora de monetarização e antimonetarização .

Essa dominação tem um rigor cujas diretrizes podem ser melhor entendidas se enunciarmos sua configuração com exatidão: é dominação eurocêntrica. E, embora afirmar tal coisa possa erradicar seu processo interno, qual seja, transita pela modernidade em constante aprimoramento com seus próprios súditos, europeus para, só depois, incidir sobre o restante do globo, vapor que umidifica todo o planeta. Desde a bomba atômica, desde Einstein ou, mesmo, Nietzsche, a fé cega na ciência vem sofrendo sérios ataques. A medicina holística e a visão sistêmica ganham cada vez mais terreno. A instituição da família nuclear sofre seus mais sérios revezes, enquanto a escola, como uma instituição que veicula o paradigma iluminista se mostra em frangalhos, embora resista. O neoliberalismo parece funcionar como o baluarte mais severo em defesa do paradigma iluminista, levando a racionalidade a um verdadeiro paroxismo. A descoberta do neutrino joga a versão clássica do átomo na lata do lixo. Cientistas se voltam para a busca de Deus e de suas manifestações. Os fractais e a teoria do caos, a teoria de Gaia dentre tantos outros fenômenos apontam para o esgotamento do paradigma da dominação . Apesar de todas as teorias econômicas e sociais, se indagarmos a um trabalhador a razão pela qual trabalha, certamente receberemos como resposta: “Ora, porque preciso!”.

O resgate desse início possibilita uma atitude política em relação à dominação, à condição de desigualdade entre as pessoas, à iniqüidade: pôr-lhe um fim!

Quando tratamos da dominação não existe um “foi”; sempre “é”, pois seu mecanismo precisa constantemente recompor-se, atualizando novos projetos, reconfigurando as velhas doutrinas em adornos reluzentes. Outro historiador será nosso guia neste percurso pela busca de outros termos do contrafluxo: Reinhart Koselleck. Sua obra Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos , está entre as raras preciosidades para todos aqueles que recusam a naturalização dos eventos históricos. Sobre o termo “naturalização” busco, sobretudo, inferir sobre as premissas que quase todas as escolas históricas se assentam. Sua condição de historiador metido no centro mesmo da história européia, com dinheiro e disponibilidade para freqüentar arquivos preciosos, para atuar em ambientes ricos em disputas e energizados de polêmicas que possibilitam frutificares e amplidões inimagináveis nos ambientes mesquinhos que historiadores periféricos enfrentam. Por aqui, a aridez e a egolatria é nosso tecido cotidiano; por aqui, a miséria distribuída pelo Estado é disputada por meio de favores rançosos e de débitos espúrios; por aqui, a miséria intelectual deixa sujeira onde quer que toque. Por isso, talvez só nos reste ecoarmos como batráquios em lagoas de lama, incapazes do menor índice de originalidade, exceto, obviamente, de nossas próprias pertinências, de nossa história singular. Ainda assim, quase toda documentação importante sobre a escravidão, por exemplo, está resguardada aos pesquisadores de elite na Biblioteca do Senado norte americano. Daí nos valermos de informações de segunda mão, reinterpretando-as, é o único método que nos resta, se não quisermos seguir a longa fila dos repetidores, dos reprodutores dos discursos prontos que nos chegam do centro do mundo e aqui fincam raízes. Vale a pena repetir, este é um trabalho exclusivo de interpretação.

Um homem rico estava muito mal, agonizando. Pediu papel e caneta. Escreveu assim: “Deixo meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres”. Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava a fortuna? Eram quatro concorrentes:

1.O sobrinho fez a seguinte pontuação: Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres

2.A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito: Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3.O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele: Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4.Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação: Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será para a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres. Moral da história: A vida pode ser interpretada e vivida de diversas maneiras. Nós é que fazemos sua pontuação. E isso faz toda a diferença.


Então, este é um trabalho de hermenêutica dos termos históricos. Dominação, poder, violência, cultura, educação, política, ideologia, instituição, racismo, preconceito, genocídio, sujeito, heurística, tempo, neurose, normose. Uma busca por seu início. Mas é também um trabalho de intertextualidades, ora no confronto, ora no reforço, sempre em diálogo amalgamado por minhas hipóteses, ligados por minha subjetividade.

Enfim, procuro, nos textos, esse algo que “fala involuntariamente” através dos autores. Contudo, afirmar que o homem pré moderno não opera hierarquicamente não carrega nenhum juízo de valor, já que a moral não é absoluta, mas cultural, histórica e social.

Para compreendermos a dominação como algo moderno, antes precisamos desvendar os limites e o logro do anacronismo.


Manual de Contra-História na Antimodernidade
Do título e a título de apresentação Dominação, uma invenção moderna: historicidades e limites Anacronismo

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