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Manual de Contra-História na Antimodernidade
Eduardo Antonio Bonzatto


«Sou um dissidente da verdade. Desenvolvo uma teoria irônica cujo objetivo é formular hipóteses. Lanço mão de fragmentos e não de textos unificados por uma lógica rigorosa.»


No princípio tínhamos um problema, aqui apresentado pelo antropólogo norte-americano David Graeber, aliás demitido da Universidade de Yale por nutrir questões como estas e falar contra a permanência da ordem com tanta coerência:


Muitas vezes ouvimos o argumento de que o capitalismo existe há 5.000 anos e que, portanto, é tolice queixar-se da existência do McDonald’s ou Starbuchks ou outras óbvias emanações do capitalismo. Se você definir o capitalismo como, digamos, “pessoas ricas usando seu dinheiro para ganhar mais dinheiro”, então certamente pode afirmar que ele existe há muito tempo. Mas nesse caso, você também teria de admitir que o capitalismo conseguiu existir por pelo menos 4.950 anos sem criar algo remotamente parecido com uma franquia de lanchonetes. Usar esse argumento para considerar esse fato como inevitável parece muito estranho. Mesmo fazer uma versão mais sofisticada desse argumento – digamos, definir o capitalismo como um sistema mundial em que a economia global é dominada por financistas e industriais privados movidos pela necessidade de continuamente expandir suas operações e conquistar lucros sempre maiores – e dizer que, portanto o capitalismo existe desde 1492, ou talvez 1750, também significaria que uma economia mundial capitalista ainda pode encontrar espaço para fenômenos como o Império Otomano, a União Soviética ou as elaboradas redes de troca de porcos na Papua Nova Guiné. Em outras palavras, quase qualquer coisa. Ainda há espaço para experiências sociais. Alternativamente, se definirmos o capitalismo como uma vasta máquina movida por enormes corporações e consumo de massa determinado a abraçar todo o globo, então estaremos lidando com uma criatura que existe em uma parcela minúscula, quase infinitesimal, da história mundial. Honestamente, qual é a probabilidade de que um sistema que existe há apenas algumas décadas dure pelo resto da história humana? Realmente acreditamos que, se a China, por exemplo, tornar-se a hegemonia global no final do século, o mundo será conduzido exatamente da mesma maneira? Qual a probabilidade de que daqui a 50 ou cem anos o mundo seja dirigido por corporações maciças empregando trabalhadores assalariados, vendendo seus produtos por meio de redes de consumo e envolvidas numa expansão interminável em busca de lucros? Colocada nesses termos, a pergunta torna-se óbvia. A questão não é se o capitalismo em sua forma atual será substituído. A questão é pelo quê: uma forma diferente de capitalismo? Um sistema totalmente novo? Um conjunto heterogêneo de sistemas econômicos? E, é claro, alguma coisa que substitua o capitalismo será melhor ou ainda mais catastrófica para a maioria da população mundial? Ao insistir que o capitalismo em sua forma atual é o fim da história, estamos efetivamente nos excluindo do que provavelmente será uma das mais importantes conversas na história humana.


Estou disposto a enfrentar o escotoma, fenômeno pelo qual a mente só vê o que está preparada para ver, ou aquilo que escolhe ver.

Existem quatro pontos que nos permitem evidenciar um outro olhar sobre a história. O primeiro fundamento é de que o historiador sempre indagará do passado segundo os seus problemas no presente, o que equivale a dizer que todo historiador é, em última instância, anacrônico; a segunda constatação refere-se à qualidade do tempo: ele não é linear nem evolutivo, mas pode ser refém de nossos apetites; o terceiro ponto consiste na certeza de que vivemos numa sociedade de controle e o quarto refere-se a uma história vista da perspectiva dos indivíduos e não dos sistemas político-econômicos. Talvez um ponto extra, elementar, seria importante destacar: tudo o que importa realmente é a relação entre duas pessoas, todos os sistemas de poder são construídos a partir dessa relação básica e todo o restante é sustentado por ela e nela se fundamenta.

Da forma como a entendemos hoje, a história da modernidade tem sido um caminho pertinaz contra a tirania, uma busca, sobretudo pelo consenso. Dos reis absolutistas aos burgueses, dos estados totalitários aos democráticos, a trajetória humana nesse período especial é a história da luta contra a opressão. Para todos aqueles que percebem dessa forma a história, o sintoma mais imediato deveria ser a sensação de liberdade que hoje experimentamos.

Para que essa sensação apareça, talvez devamos saber o que é a liberdade. Em algum momento deste trabalho voltarei a esse assunto. Por hora, poderemos pensar no escravo que trabalha obrigado. Afinal sabemos com todos os nossos sentidos que ele não é livre.

No entanto, se um arqueólogo do futuro, de um futuro quando esse sistema for alterado, pudesse retornar a esse nosso tempo, uma das questões que mais o intrigaria, sem dúvida, é nossa relação com o trabalho.

Ele certamente ficaria desconcertado em constatar que somos nós mesmos a colocar o despertador que nos desperta, a tomarmos a condução abarrotada e enfrentarmos o trânsito impossível que nos carrega lentamente para nossos empregos. E tudo isso como? Voluntariamente. Ninguém nos espanca ou nos obriga. Fazemos isso aparentemente sem nenhuma forma de coerção, por nossa própria vontade.

Esse personagem do futuro há de se indagar: Como?

E não é somente ele que deveria se espantar: há menos de cento e cinqüenta anos, tanto escravos como não escravos eram obrigados ao exercício do trabalho e seu sentimento era, como será ainda possível perceber, aterrador, tanto que deu a esta atividade o nome de trabalho, um instrumento de tortura.

Todavia, há outra forma de entendermos esse caminho: a história da modernidade é a história do empoderamento do homem comum, é a história, portanto, da introjeção do tirano na alma do homem comum. É, nesse sentido, a história da intolerância e de como ela se tornou a ferramenta de convívio de todas as sociedades ditas civilizadas. Pois devemos sempre fazer uma distinção entre aqueles que detêm o poder “de fato” e os que o detêm “de direito”, já que é na morte que reside toda a questão do poder. Quem a gerencia, o detêm.

É a história de uma emulação, ou de um simulacro, como querem os pós-modernos . Mas quem, afinal, está sendo emulado? Quem tem o poder, que no princípio estava na mão de um só (Estado Absolutista/autocrático), depois será dividido entre uns poucos (Estado Classista/aristocrático), depois ainda entre muitos (Estado Burocrático/plutocrático) para, finalmente, ser distribuído entre todos (Estado Democrático). Os privilégios, contudo, serão sempre restritos a uma ínfima parcela. E, como veremos, não há contradição entre essas duas afirmações.

Eis que chegamos ao fundo do paradigma: todos aqueles que desejam ardentemente servir, podem rebelar-se; mas todos que desejam subverter, estes devem ser o mais possível dóceis. A invisibilidade é seu cantinho mais eficaz. Devem, sobretudo, ficar atentos aos seus direitos. Pois este é o segredo do poder, sua tatuagem, sua aderência profunda à carne.

A mecânica deste empoderamento foi a distribuição de direitos que, aparentemente, era fruto de lutas e demandas políticas em nome do dissenso. O direito dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos pobres, dos cidadãos, dos consumidores, das crianças e dos adolescentes, dos velhos; direito à saúde, à habitação, à dignidade, à alimentação, aos remédios, aos transplantes, etc. No entanto, tantos direitos jamais fizeram refluir as injustiças, que sempre foram se agigantando mais e mais, os pobres foram mais e mais se avolumando até a adjetivação de excluídos, de miseráveis. Recentemente (ago/2008) o Banco Mundial concluiu que a pobreza é maior do que se supunha. Como critério bastou elevar de um dólar para um e vinte e cinco o patamar mínimo/dia de indicador de miserabilidade para conquistar um aumento de 400 milhões de novos pobres. Se elevarmos esse número para um e meio, para dois dólares como indicador de pobreza a que um ser humano dispõe por dia, então chegaremos ao número de miseráveis: dois terços da humanidade! Claro que partindo dessas premissas, a questão que nos vem imediatamente à cabeça é a questão da verdade. Comecemos por fundamentar um princípio: a verdade não nos importa. Aqui não se rastreará nenhum vestígio da verdade. Não a perseguiremos e se porventura ela existe em algum recôndito lugar, deixemo-la descansar de suas batalhas inglórias. A história a que nos propomos é um amontoado de escombros. Todas as ruínas, todos os dejetos, todos os cacos, o esfacelamento, o caos, eis a aparência da matéria da história antes da interferência brutal dos historiadores. Nem mesmo a clareza ponteará a narrativa (do grego, saphes = clareza = verdade ), já que será pela complexidade que nos aproximaremos da idéia. Tudo é história? Para que a resposta seja adequada, havemos de saber o que é história? História é o passado? Aquilo que aconteceu e que mereceu ser narrado? Se aconteceu, é a expressão da verdade? Portanto, aquilo que está fixado nos livros é a história? Podemos lê-la, ensiná-la, aprender com ela? Ela orienta o presente, na esperança de que não cometamos os mesmos erros, portanto é uma história pedagógica? É a mestra da vida?

A história é mudança, mudança e permanência, trama, num vasto território de temporalidades entrecruzadas. Se história é mudança, então o passado não poderia estar fechado sobre si mesmo, mas deveria estar aberto ao presente, às indagações do presente. Para que possamos diferenciar estas duas histórias poderíamos afirmar que a história do parágrafo acima é a-histórica, é uma não história, na medida mesma que foi fixada, engessada pela política que a impõe às gerações seguintes, história exemplar que não admite questionamentos. Quanto à segunda, chamaríamos de histórico, pois sim, tudo é histórico, tudo muda, tudo se transforma, embora em ritmos diferentes, o presente altera o passado, a forma como o vemos.

E a história que escolhemos fazer aqui é a nossa, a minha, aquela que me define por escolha. Outros poderão tecer outras conexões que não serão, por isso, menos válidas.

O passado é uma grande feira em que vamos em busca de nosso alimento cotidiano. Escolhemos as frutas, os legumes, as verduras, as combinações várias e preparamos nossa salada de acordo com nossas necessidades e nosso paladar, assim como escolhemos as memórias.

O que passou, realmente, não pode ser resgatado. O que ficou foram vestígios comprometidos, tendenciosos, políticos e o uso que fazemos desses vestígios há de ser igualmente comprometido, tendencioso e político.

Tomemos Darwin como exemplo. A teoria sobre a origem das espécies é uma verdade? Uma mentira? É falsa? Não é? É histórica! Darwin a produziu segundo sua época, nem mais, nem menos. Atualmente, seus defensores mais renhidos afirmam que onde houver vida, em qualquer ponto da galáxia, a teoria darwinista pode ser aplicada com sucesso. Eles tornaram tal teoria a-histórica. Tomaram-na como verdade, portanto como crença, como fé.

Em meados do século XIX afirmar que o mais forte sobrevive, que há uma disputa pela sobrevivência na natureza, fazia todo o sentido com o liberalismo que se firmava como experiência social, com o socialismo que propunha uma alternativa.

Também ali, na realidade cotidiana, o mais forte oprimia, cada vez com maior legitimidade, o mais fraco socialmente e queria convencê-lo de que sempre havia sido assim.

Isso significa que as espécies disputam palmo a palmo, antagonicamente, o espaço para sobreviver o vencedor, o mais apto? Sei lá! Segundo o equilíbrio de Nash, sim, segundo Kropotkin, não.

Hoje as questões são outras. Hoje, quando o homem, com seu egoísmo, está levando o planeta à ruína, quando as empresas empregam o sentido de cooperação no mundo da produção como elemento fundamental para erradicar os conflitos, quando a solidariedade é palavra de ordem a resgatar os milhões de deserdados da terra que se recusam à quietude de sua miséria e que o terceiro setor expande sua condição de amortecedor do choque entre os diversos grupos atuantes nessa sociedade de precariedade, pensar numa teoria que reforça a disputa como natural é um problema.

A cooperação aparece como um dado importante a ser investigado num passado remoto.

Filmes como A Marcha dos Pingüins são exemplares de como, dentro de uma mesma espécie, só a cooperação produz vida. Mas mesmo se considerarmos entre as espécies distintas, tal questão se sobrepõe. Um aligátor devora muita energia, um cervo, por exemplo, mas põe quinhentos ovos, dos quais apenas um sobreviverá. O resto, tanta energia, servirá para alimentar um sem número de espécies. Morcegos hematófagos da Amazônia carregam uma característica especial. Os mais experientes e que se alimentam com maior incidência de sucesso são os mais velhos, e não os mais novos, como indica a teoria darwinista. Quanto a esses morcegos, a privação de alimento por mais de sessenta horas pode matá-los. Então, os mais velhos absorvem mais do que precisam e regurgitam entre aqueles mais necessitados. Eles têm uma mania de coçar a barriga um do outro. Assim podem atestar aqueles que têm necessidades e reservas. Cooperar é sua condição de sobrevivência como espécie. Outros exemplos estão aí, para quem quiser interpretar.

Na Origem da desigualdade entre os homens Rousseau refere-se aos caçadores neolíticos para exemplificar a condição eminentemente egoísta do ser humano (ainda que o pressuposto seja que a sociedade o corrompa).

Segundo Rousseau, quando das atividades de caça, a armadilha era preparada para animais prioritariamente grandes, capazes de alimentar todo o grupo. Uma vez posicionados, cada caçador cuidava de um lado do território onde a caça deveria estar. Ainda segundo ele, se alguma caça menor, um coelho, por exemplo, estivesse à mão de algum dos caçadores, ele imediatamente deixaria a formação de ataque para saciar a SUA fome, com mais certeza do que a imprevisível presa para a coletividade, portanto, pensaria primeiramente em si do que no grupo.

Ora, um dado é fundamental para questionar a interpretação que esse autor faz dos caçadores do neolítico: a permanência; foi um grupo bastante adaptado a seu modo de vida. Esses grupos ficaram em atividade por aproximadamente 10.000 anos, o que atesta sua adequação (só para lembrar, nossa sociedade tem pouco mais de quinhentos anos e já degradamos de tal forma o planeta que é urgente uma mudança em nosso paradigma). Se tivermos que nos perguntar a que se deve tanta longevidade, eu poderia facilmente interpretar como sendo a condição de colaboração grupal desses caçadores.

Portanto é simples: se duraram tanto é justamente porque operaram em grupo. Se um caçador privilegiasse sua individualidade e seus interesses em detrimento dos interesses do grupo seria banido ou morto. Não fosse assim, tais caçadores teriam desaparecido tão rapidamente que não deixariam nem vestígios de sua passagem pela terra. Aliás, a própria existência humana só pode ser explicada por sua condição de sinergia constante. Foi essa sociedade que criamos nos últimos quinhentos anos que tornou a-histórica a desigualdade, a hierarquia e o egoísmo. E Rousseau “leu” o passado segundo sua própria ótica e seu próprio tempo.

Recentemente, pesquisadores do MIT descobriram uma forma de atuação comum a insetos sociais e, por extensão, à espécie humana: o movimento da emergência, ou seja, movimento de conexão não hierárquica, que ocorre “de baixo para cima”, imperativo comunitário que a modernidade tenta a todo custo invalidar.

Este livro é uma tentativa de colocar esse confronto: emergência versus poder.

Nesse sentido, este livro pode ser lido como história ou como histórico. Se seus conteúdos forem fixados como verdades, então será a mais deslavada história. Se não, se for entendido como um livro cuja única validade seja levantar questões do presente e que modificam o sentido do passado, mas que supõe que outras questões encontrarão outras respostas, então é um livro plenamente histórico.

Da mesma forma as objeções quanto à sua possível linearidade. Se existe um movimento aqui chamado de emergência, qual seja, de que há uma tendência sempre forte de as pessoas operarem conjuntamente para o enfrentamento de seus problemas mais elementares, a modernidade vêm se esforçando para abafar tal tendência.

Sua própria e contínua reordenação, sua mudança, sua aparente eficácia simplesmente reforça a tese de que a força da emergência é tremenda e que o poder, para efetivar-se, deve continuamente se refazer, se recompor. Aí, as ocorrências fenomenológicas mais visíveis, tais como a revolução francesa, serão movimentos nesse sentido, assim como a primeira e a segunda guerra mundial, ou a revolução russa, esforços que necessitaram de muitas mortes a tentar anular os caminhos da emergência.

A modernidade tem seguido um caminho aparente de evolução, de progresso, de melhoria geral da espécie humana, enfim, de uma teleologia. Aqui teremos a oportunidade de encetar um caminho inverso, caminho que esgarça um projeto que reduz o homem a uma coisa e sua vontade a um desejo insaciável de consumo; um caminho cuja resultante é o ódio do homem pelo homem e a naturalização de sua inimizade, de sua iniqüidade.

O que significa, afinal, ser sujeito da história. Em primeiro lugar, significa que é muito difícil sujeitá-lo, submetê-lo. Pensar nos homens como sujeitos da história é sensibilizarmo-nos para a dificuldade em subjugá-los. E ainda assim, essa sujeição jamais se completará, necessitando sempre de reconfigurar-se na mesma medida que suas idiossincrasias também se transformam.

E onde estará a esperança? Na possibilidade de cooperação, no respeito à alteridade e na definição de que nossa espécie sobreviveu até agora graças à sua convergência para a conexão, à sua habilidade de enfrentar os desafios coletivamente, numa comunhão que a modernidade teima em erradicar, luta para destruir a qualquer custo, embora mais recentemente essa mesma modernidade venha capturando o movimento da emergência para propagar sua própria longevidade (pensemos no trabalhador como colaborador). Mas esta esperança deve realizar-se primeiramente na intimidade da primeira relação, com nossos pais, nossos filhos, nossos estudantes, nossos professores, nossas namoradas e namorados, nossos irmãos, hoje.

Então, e só então, o trajeto desse livro não será linear, mas cíclico: emergência como tendência e força e/ou ideologia como reação, e novos argumentos do poder a impedir sua composição, e aliança com os movimentos da emergência e elasticidade da força ao encetar uma comunhão de direitos, de poderes, vale dizer.

Portanto, resumindo o sentido do título, a contra-história é a própria historicidade, expressão de um começo, de um meio e de um final para a dominação que nos envergonha e a antimodernidade é aquela que não leva ao progresso e ao bem estar, mas à tragédia, à irresponsabilidade e ao fim de qualquer possível humanidade, daí a necessidade de buscarmos respostas de ação que comprometam as gerações atuais com as futuras e erradicarmos de vez a crença de que se nada fizermos esse mundo naturalmente caminhará para o futuro. Simplesmente não há futuro compatível com a crença na dominação como natural, no progresso e no desenvolvimento. Aí, Mefistófeles terá vencido.

Um último alento. É voz corrente que a história é escrita pelos vencedores. Este livro é a história escrita pelos perdedores , ou ao menos na perspectiva destes, de uma humanidade derrotada, ou de uma civilização, da qual extraíram, em pouco mais de quinhentos anos, com uma grua, a compaixão.

Tomemos um ditado como exemplo: “Até que os leões possam contar suas próprias histórias, as histórias de caça sempre irão glorificar o caçador”. Não é africano esse dito; a razão dessa assertiva é que caçadores e leões são sempre caçadores e todos aqueles que contarem as histórias o farão segundo a sua ótica, segundo a sua perspectiva.

Este o problema desses tempos em que vivemos: aparentemente, o projeto liberal venceu e os mais aptos refestelam-se no butim. Não desejo observar a história deste ângulo; interesso-me pelo azeite que faz mover a máquina formidável da dominação; pelas motivações que levaram milhões para as guerras e pelo lenitivo que os fizeram esquecer da opressão. Assim, quero entender por que caçadores e leões são tão semelhantes, por que é tão difícil discerni-los em meio a tantas bugigangas, tantos penduricalhos, tantos espelhinhos coloridos.

Precisamos urgentemente quebrar as novas correntes que nos atam à indiferença e nos conservam no clorofórmio da sensatez e da parcimônia, qual delicadas ornaturas de cristal.

A tempo: tenho uma dívida de gratidão impagável com os estudantes que tão generosamente compartilharam comigo seu pensamento insurgente, sobretudo os de primeiro ano, ainda não contaminados pelo desencanto acadêmico, embora todos sempre estivessem abertos às polêmicas que minhas aulas pretendiam, durante os últimos 8 anos, em encontros cuja dialogicidade impede que eu assuma isoladamente essas idéias.

Muitos dos artigos aqui apresentados foram demandas de estudantes que queriam ver como tais idéias funcionavam na escritura, enquanto outros me desafiavam quanto ao rigor que a escritura impunha ao volátil movimento da oralidade e do diálogo.

É mais provável que o material aqui apresentado tenha sido o resultado de uma frustração. No início de meu trabalho docente, procurei operar fora dos rigores programáticos, alimentando as aulas com muita conversa e pouco ou nenhum conteúdo.

No entanto, e com o tempo, os estudantes foram pressionando cada vez mais para que as “provas”, ou seja, as ferramentas que autenticavam o diálogo e minhas hipóteses fossem apresentadas. Portanto, exigiam, em última instância, algum conteúdo substituto.

Minha atitude foi, então, caminhar num sentido inverso. Criava um problema contemporâneo e saía em busca de material que autenticasse minha hipótese. Assim e para deslegitimar o conteúdo, fui construindo uma vasta rede de materiais que, ao mesmo tempo, contradiziam o conteúdo formal enquanto desconstruia a verdade da história oficial.

Isso tinha uma dupla função: de um lado, demonstrava que o conteúdo, afinal, era não inútil, mas político, enquanto de outro, restituía ao diálogo seu potencial de fortalecimento de relações respeitosas, vale dizer, não desiguais.

Além disso, como diz a máxima da obra 1984 de Orwel, “quem controla o passado, controla o futuro; e quem controla o presente, controla o passado”, pretendia esgarçar o conteúdo até que esse ponto ficasse bastante explícito.

Insisti em apresentar os fragmentos em sua amplitude, pois assim outros podem utilizá-los como bem lhes aprouver. Essa intertextualidade é rica em possibilidades e me parece muito a propósito divulgar esses mesmos fragmentos cujo levantamento foi exaustivo e que consistiu em pesquisa de materiais muito incomuns.

Por isso, sua forma final, além de transitória, foi fruto de um processo cujo início foi a minha vontade de conversar, de trocar idéias, colocando a mim mesmo na berlinda de uma situação de incerteza, em que pude, em vários momentos, reconhecer minha incompetência diante deles e estimular que o resultado, qualquer que fosse, os incluía como co-responsáveis pelo ponto de chegada.

Esse ponto de chegada deveria ser apenas outro ponto de partida, num caminhar discreto e incessante que jamais pretendeu estacionar nem conformar-se.

Ao professor que utilizá-lo, os fragmentos estão disponíveis, descolados de minhas hipóteses, o que permite a todos interpretações livres e ousadas.

Por fim resta que eu me apresente: sou um homem simplório, por isso acredito que a explicação mais adequada é a mais simples. Sempre! O problema é que, normalmente, a explicação mais simples está inserida numa ordem pedagógica incomum, naquilo que um amigo chamou pedagogia do Exu, essa entidade Iorubá que adora confundir.

Com simplicidade quero afirmar que sou um homem basicamente intuitivo, o que obriga o leitor a buscar interpretar as conexões profundas que por vezes, confesso, nem mesmo eu percebo completamente. Talvez por isso, acredito, meus textos são, por vezes, difíceis e exige do leitor uma paciência muito maior do que seria esperado. Ainda assim, creio ser do simples que trato.

Um inconveniente a mais diz respeito à minha forma de escritura. Por vezes ela é muito mais sonora que explicativa, como um puzzle em que as peças não se encaixam perfeitamente. Recomendo que não se detenham nos detalhes, pois ali habita o capeta: nesses momentos preocupe-se de se situar na amplitude dos olhos da águia em substituição à minuciosidade dos olhos da galinha. Este é um exercício de puro jogo e brincadeira que impressiona os acadêmicos quase como um neologismo ou um maná, mas que também deve ser simplesmente ignorado quando necessário.

Pois o simples não é o antípoda do complexo, mas sua fundamentação, já que complexo, do grego, quer dizer “tecer juntos”, fazer junto com os outros. E isso pode ser difícil, mas é muito simples. Como um abraço!

Por fim devo confessar um pecado: como esse livro deseja ser um manual didático herético para o terceiro grau em história, nutro uma íntima pretensão: que esses textos possam municiar os estudantes de história contra a apatia e a arrogância de professores que se escondem por detrás de seus títulos na tímida postura em que estão ausentes os problemas, as perguntas, a ânsia de um tempo que não combina mais com esse academicismo impotente e auto glorificante e com essa perversa forma de masturbação mental cuja única finalidade é menosprezar e reduzir as pessoas a uma inadmissível condição de “apagados”, de “sem luz”, enfim, de alunos.


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