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Do Terrorismo e do Estado/Prefácio à edição portuguesa

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Do Terrorismo e do Estado
Gianfranco Sanguinetti


«"A vitória pertencerá aos que

tiverem sabido provocar a

desordem sem a amar."»
(Guy Debord, Internationale Situacionniste, número 1, 1968.)


A inteligência é talvez a coisa melhor distribuída no nosso país: todos pensam ser tão bem dotados que mesmo os que, como os nossos dirigentes, são habitualmente dificílimos de contentar em tudo o resto, não desejam ser mais inteligentes. E visto não ser verosímil que todos se enganem a este respeito, é pois necessário perguntar-se como, e por que razão ou misteriosos interesses, esta inteligência possuída por um tão grande número aparece tão pouco neste nosso país — e sem dúvida que em nenhuma ocasião, nem mesmo excepcional, naqueles que, seja por estarem no poder, seja por procurarem alcançá-lo, nos dizem continuamente que se são incapazes é por nossa culpa e que se a Itália caminha para a ruína, não é por culpa deles.

É um fato que este país, que se autoproclama livre e democrático, é na realidade dirigido por algumas centenas de heróicos imbecis, os quais temem muito mais as conseqüências da inteligência dos outros do que as da sua própria estupidez, travando aquela a todo o custo para melhor darem livre curso a esta, e isto ainda agravado por a sua estupidez não correr sequer o risco de ser publicamente sancionada nas nossas esporádicas feiras eleitorais, embora quotidianamente a usem a seu bel-prazer. Numa tal organização social e política, que tão oportunamente estes senhores talharam à sua própria imagem, parece-me perfeitamente normal que qualquer voz que se eleve da mediocridade dominante e com ela em nada transija, seja naturalmente reduzida ao silêncio graças a uma multiplicidade de mecanismos quase automáticos, que talvez constituam a única coisa ainda relativamente eficaz no meio desta ineficácia geral.

Pela minha parte, nunca me julguei mais perfeito do que qualquer outro: pelo contrário, muitas vezes desejei ter a inteligência e a imaginação tão prontas e vivas como outro qualquer. Apenas desfrutei a boa sorte de me embrenhar, desde muito jovem, num caminho ao longo do qual encontrei algumas das melhores inteligências que estes tempos, contra a sua própria vontade, produziram; e não me custa admitir que isto já me permitiu ser nocivo a este mundo, ou seja, aos seus proprietários, não tanto como o desejaria mas certamente muito mais do que a modéstia das minhas forças, só por si, me teria permitido esperar.

Naturalmente não exagero estes primeiros resultados pois não me contento com eles; sei também que ninguém será suficientemente injusto para atribuir a uma só ou a algumas pessoas a falta ou o mérito de terem lançado a nossa sociedade de classes numa guerra, em que as forças multicolores da conservação se encontram, doravante, na defensiva e numa situação cada vez mais precária. Para isto contribuíram inicialmente, para além de circunstâncias históricas favoráveis, inumeráveis jovens proletários que, muito embora não sejam conhecidos pelos seus nomes e apelidos, não deixam de ser os seus principais protagonistas.

Posso ainda afirmar, sem temer ser desmentido, que estes últimos dez anos de lutas de classes já nos permitiram colher tais frutos e tanto nos mostraram a incapacidade e a abjeção dos nossos inimigos burgueses e estalinistas, que não podemos deixar de considerar com extrema satisfação os recentes progressos da subversão de toda a ordem dominante; e é-nos permitido esperar tais encorajamentos do futuro que, se entre as ocupações dos homens existe hoje uma que seja séria e tenha um porvir sólido, ouso crer que é a mesma que já escolhera numa época menos propícia do que a atual para certas escolhas.

Trabalhar contra este mundo, obtendo resultados palpáveis — isto é, não nos contentando com essa principal compensação ideológica que consiste na "oposição" impotente —, eis uma tarefa de grande fôlego de que também advém alguns inconvenientes. Mas trabalhar para este mundo não é muito mais fácil e, quer objetiva quer subjetivamente, cada vez mais se torna quase impossível; e quando digo isto não penso apenas no novo desemprego seletivo para onde o nosso capitalismo em bancarrota lançou toda uma geração de jovens proletários, dando prova de uma imprudência e de uma imprevidência das quais ainda não mediu todas as conseqüências. Na realidade a questão ultrapassa tanto as nossas fronteiras como os erros grosseiros dos nossos políticos e dos nossos economistas. Todos os pretensos "gravíssimos problemas do nosso tempo" derivam unicamente de um fato muito simples: de para cada um e para todos ter chegado o tempo de se resolver todos os problemas e de os resolver diretamente, cada um por si, e portanto também coletivamente.

Que isto seja de fato possível, eis o que é demonstrado pelo terror que a crueza desta perspectiva é capaz de provocar no seio de todos os atuais patrões da alienação e dos seus lacaios políticos e sindicais. Que isto seja presentemente necessário, e para além disso urgente, eis o que, pelo contrário, não carece de nenhuma demonstração específica, pois a nossa sociedade de classes, que já era essencialmente inabitável, agora é o de forma visível, e quem não compreender isto deve renunciar a compreender o resto.

Os políticos, os economistas, os psicólogos, os sociólogos, os intelectuais, os especialistas em opinião pública e todos os outros imbecis que abrem as pernas ao poder evocam incessantemente estes "gravíssimos problemas", recusando-se contudo a designá-los pelo nome: eles que, frenéticos, se babam de gozo sempre que os donos lhes pedem para farejar um novo fenômeno através do qual se manifesta a mesma crise, eles que tanto amam as definições e os rótulos, ei-los agora que encontram mil pretextos para nunca designarem pelo nome aquilo que a sua ciência não pode resolver, mas que não gostariam ver resolvido por outras pessoas. Na realidade, o seu ofício é agora sobretudo o de se mostrarem necessários aos seus empregadores, e é precisamente esta a sua preocupação dominante neste período em que o proletariado pensa que tanto eles como os patrões não são necessários. Apesar de um tal fenômeno poder parecer curioso, não se poderá contudo afirmar que é esse fenômeno que determina a novidade da época, porque não passa de uma conseqüência dela, e nem sequer é a mais interessante; e se há qualquer coisa de surpreendente neste fenômeno de debandada geral, é tão só o crédito extravagante que estes especialistas continuam a merecer dos que lhes continuam a dar emprego, esperando deles não se sabe bem o quê. E nisto, como em tudo o resto, confirma o velho adágio: tal senhor, tal servo.

Perante um semelhante panorama de decomposição do velho mundo, a falsa consciência que ainda reina, mas que já não governa, tem a sem-vergonha de acusar a jovem geração proletária, que relançou a ofensiva contra a sociedade do espetáculo, de não estar à altura de resolver as questões que se encontram na origem da sua revolta e na raiz da crise com a qual se debatem todos os poderes constituídos, mas a verdade é precisamente o contrário, pois aquilo de que na realidade a jovem geração proletária é acusada é de levantar questões que o poder não pode resolver, uma vez que é o próprio poder que é posto em questão.

E os tais famosos "problemas", silenciados ou falsificados por todos os pensadores escravizados, em que é que eles efetivamente consistem? O que é que eles precisamente são? A sociedade dividida em classes, o trabalho, a propriedade, as próprias condições em que se é obrigado a sobreviver e a produzir, da mesma forma que tudo o que se deve produzir e consumir, as mentiras da "democracia" e da "liberdade" burguesas, bem como as mentiras burocráticas do "comunismo" e da "igualdade", em suma, a sociedade do espetáculo na sua globalidade, começam a não funcionar a partir do próprio momento em que a sua realidade é posta universalmente em discussão e é atacada por uma recusa que não é momentânea ou parcial, mas permanente e total.

Todos os proletários puderam, à sua custa, verificar que trabalhar para este mundo significa muito simplesmente trocar a sua vida e o seu tempo por um miserável salário que no entanto garante a sobrevivência e a sua precariedade perpétua. E é precisamente o trabalho assalariado que hoje em dia é posto em questão e, posteriormente, recusado por mil diferentes maneiras e em mil diferentes ocasiões. O operário italiano, sempre mais dialético do que os seus patrões, redescobre hoje uma verdade, que o velho "Hegel" havia candidamente referido, sem ponderar as suas conseqüências ou prever o seu seguimento: "Trabalhar significa: aniquilar o mundo ou maldizê-lo". Até ao presente, os operários limitaram-se a maldizer este mundo; trata-se agora de o aniquilar.

"Nunca trabalhem!", podia ler-se nos muros de Paris há dez anos, durante a revolução; e em fevereiro de 1977, esta mesma palavra de ordem reaparecia nas paredes de Roma, tendo nesse entrementes sido reforçada pelo simples fato de haver sido traduzida para polaco pelos operários de Stettin, Gdansk, Ursus e Radom, em 1970 e 1976, e também para português pelos operários de Lisboa, em 1974.

A superação da economia encontra-se por todo o lado na ordem do dia, e os proletários, recusando o trabalho, mostram que sabem perfeitamente que este é agora sobretudo um pretexto para os manter permanentemente sobcontrole, obrigando todos os operários a ocuparem-se sempre com outras coisas que não os seus verdadeiros interesses: É preciso que façam desaparecer do seu pendão a divisa conservadora: "Um salário equitativo para um dia de trabalho equitativo" e inscrevam a palavra de ordem revolucionária: "Abolição do salariato!" - Marx. Aliás, até Lord Keynes teve de admitir, no seu célebre Tratado da Moeda, que "o problema econômico não é, para quem tiver os olhos postos no futuro, o problema permanente da espécie humana" — e nisto mostrou-se menos obtuso do que os seus atuais epígonos e ardentes e serôdios zeladores. O fato fundamental já não é o de existirem todos os meios materiais para a construção da vida livre de uma sociedade sem classes, como presentemente acontece, mas antes o de "o subemprego cego destes meios pela sociedade de classes, não poder nem interromper-se, nem ir mais longe. Nunca uma tal conjuntura existiu na história do mundo." - Debord.

Conheço muitos operários que se ocupam de economia política de forma bastante mais séria do que o desgraçado Franco Modigliani [1], e com sucesso bem maior do que o inepto Giorgio Napolitano [2], mas fazem-no na perspectiva oposta, ou seja, adia sua destruição. Esses operários põem em prática as suas descobertas teóricas, e a sua crítica do sistema econômico ultrapassa e invalida a tão injustamente célebre crítica que Piero Sraffa [3] julgou fazer-lhe. E, inversamente, estes operários começam a teorizar os primeiros resultados práticos das suas experiências diretas sobre a fragilidade da economia. Lêem o panfleto de Paul Lafargue, O Direito à Preguiça, que, muito embora tenha sido escrito em fins do século passado e seja portanto ignorado pelos nossos ignorantes economistas, permanece seguramente a obra de crítica pura da economia política mais importante e mais moderna surgida após Marx. Lafargue prediz com grande antecipação, e com ainda maior lucidez, as razões que conduziriam o capitalismo ao consumo moderno, bem como as características mais relevantes daquilo que designa por "a era da falsificação", que nós hoje podemos contemplar, indica as suas irremediáveis contradições e, por último, aquilo que as resume e as resolve todas: a recusa do trabalho e a superação da economia.

Os operários foram finalmente obrigados a aperceber-se que as cores de que o espetáculo dominante se serve para camuflar a sua monstruosa face são as mesmas funestas cores produzidas pela fábrica de cancro de Cirié: uma fábrica que, como todos sabem, destruía os operários ao mesmo ritmo que produzia corantes. Esta fábrica pode ser, com propriedade, considerada a admirável quintessência de todas as outras: a única diferença é que neste caso, o ciclo destrutivo das forças produtivas era ligeiramente mais veloz e mais radical do que nas demais. Mas todas as fábricas possuem uma semelhança íntima com a fábrica de cancro.

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O capitalismo deve reinar ou desaparecer, como outrora se disse de Luís XVI. Mas para reinar deve agora saber prever constantemente, e constantemente evitar o ponto de ruptura do equilíbrio instável que existe entre tudo o que o mesmo capitalismo deve impor e infligir todos — as renúncias, os sacrifícios, os constrangimentos, o tédio, os danos — e aquilo que todos objetivamente podem e subjetivamente estão dispostos a tolerar. Hoje em dia, o próprio desenvolvimento do capitalismo é tal que, enquanto o limiar de tolerância tende a baixar, tanto por razões históricas como por razões puramente biológicas, a quantidade de tudo o que este tipo de sociedade tem de nos impor devido às suas próprias necessidades particulares de sobrevivência tende, muito pelo contrário, a subir sem cautela nem discernimento e, por assim dizer, pela sua própria inércia, de forma absolutamente autônoma e independente das necessidades reais dos homens e até das suas mais primordiais e irredutíveis exigências de sobrevivência. A sociedade espetacular-mercantil, esse imenso motor imóvel, necessita agora de obrigar toda a gente a movimentar-se para a sustentar e defender a sua própria imobilidade anti-histórica. Mas as Colunas de Hércules da alienação, o limiar que nunca ninguém deveria transpor, já não se encontram em paragens remotas, no cabo do mundo e do conhecimento humano, mas sim junto de cada um de nós, seja qual for o sítio onde nos encontramos. E cada um de nós deve ser capaz de transpor esse limiar, senão quiser "negar a experiência do que está por detrás do Sol, do mundo sem gente" [4] — ou seja, a experiência do negativo em ação, que é já a negação prática de todas as limitações arbitrariamente impostas à maior parte da humanidade, ao proletariado obrigado a viver no embrutecimento, sem nunca conferir a mínima realidade aos seus talentos, às suas capacidades mutiladas, aos seus desejos não reconhecidos.

Descartes asseverava: "a minha terceira máxima é a de procurar sempre... antes mudar os meus desejos do que a ordem do mundo". Hoje em dia os tempos mudaram, e com eles os homens e os seus desejos e aspirações, e é preciso que se abandone toda a incerteza e todo o escrúpulo; e a nossa primeira máxima será portanto a inversão da do filósofo: procurar sempre antes mudar a ordem do mundo do que os nossos desejos. E, desta vez, o proletariado deve tentar não fracassar, mas vencer, pois só um violento desejo de vitória pode assegurar a vitóriados seus desejos mais autênticos, que são também os menos confessados.

Todo o mundo industrial desenvolvido assemelha-se agora a um subúrbio sinistro e sem fim, de que Cirié, Seveso e os seus arredores são simultaneamente o centro anti-histórico e a imagem do seu porvir, se este mundo continuar ainda por algum tempo sob a direção dos que se autoproclamam os seus "responsáveis" políticos e econômicos. E o capitalismo espetacular moderno pode já contemplar o seu rosto nas imagens, em geral censuradas, das crianças monstruosas nascidas recentemente em Seveso, como num espelho mágico que lhe revelasse o seu futuro próximo.

Os nossos burgueses filantropos bem podem lamentar que isso seja assim; mas dentro em breve lamentarão ainda mais que isso não seja assim, pois a quantidade de tudo o que esta sociedade nos impõe e nos inflige já ultrapassou o limiar para além do qual qualquer equilíbrio penosamente arquitetado é destruído com violência, e não pode ser restabelecido senão pela violência, mas, de uma forma sempre mais provisória.

Em tais condições, quando o desenvolvimento da sociedade de classes, em todas as suas variantes burguesas e burocráticas, se opõe não só aos interesses da grande maioria mas também às mais elementares condições fundamentais da simples sobrevivência da espécie e dos indivíduos, e, sobretudo, à sua própria vontade; para o proletariado a questão não é a de retardar ou, ainda menos, a de evitar uma guerra social que já começou; também não é a de se empenhar, esgotando-se, numa multiplicidade de pequenas escaramuças, incessantemente renovadas por incessantemente condenadas ao malogro, escaramuças "pela defesa" de não se sabe bem o quê "do salário, do emprego, do país", como ladra em pura perda a canalha sindical e estalinista; a questão é, muito pelo contrário, a de os operários contra-atacarem passando à ofensiva, e a de vencerem em toda a extensão do teatro da guerra, que é mundial, com o mundial é a atual crise de todos os poderes, pois o que hoje está em jogo não é senão o destino do mundo. No entanto, não é de forma alguma em nome duma qualquer pretensa "missão histórica", mais ou menos inevitável e profetizada, que o proletariado é chamado a tornar-se a classe da consciência histórica, mas porque só a partir desta posição de superioridade fundamental pode atacar e combater com sucesso o conjunto das forças da inconsciência, que se encontram todas, e apenas elas, representadas "democraticamente" no capitalismo atual e, neste momento, as principais manifestações destas forças são as suas derrotas, os seus desastres e as suas infâmias.

O capitalismo, desde os seus primórdios, foi combativo, e por muito tempo foi-o contra as outras formas retrógradas de poder e de organização social que se opunham à sua expansão: o capitalismo impôs-se e saiu vitorioso das guerras em que se empenhou, porque e enquanto a sua atividade de desenvolvimento e de conquista correspondia a necessidades e possibilidades históricas determinadas — das quais, aliás, nenhum dos seus ideólogos jamais esteve verdadeiramente consciente, da mesma forma que hoje em dia nenhum deles está consciente de que a tarefa do capitalismo se encontra historicamente terminada. Agora que ele já conquistou o mundo, encontrando-se esgotado pelos seus próprios êxitos e gerido pelos herdeiros balofos dos conquistadores de outrora, cabe-lhe defrontar-se de novo com aquilo que precisamente lhe permitiu alcançar um tal poderio: o proletariado. A paz social em que portanto tempo, desde o malogro da revolução na Rússia e em toda a Europa, repousou, quase lhe tinha feito esquecer a existência do seu velho inimigo; além do mais não há dúvidas que, nos tempos modernos, o capitalismo perdeu já completamente a sua combatividade de antanho. E todos os seus esforços visam doravante impedir uma guerra Social para a qual não se tinha preparado, e que já duvida ganhar, mas da qual o seu próprio desenvolvimento precedente, tão exaltado ainda há pouco, criou todos os pressupostos.

O proletariado, ao contrário, sempre esteve no centro de um conflito quotidiano e permanente, por vezes aberto e mais freqüentemente surdo, mas sempre violento, que dura, há já um século e meio; mas agora a classe que esteve continuamente em guerra contra as condições da sua própria opressão, deve necessariamente perecer ou sobrepor-se a todas as outras classes que, intermitentemente em guerra e paz, nunca estão tão prontas a atacar ou tão preparadas para se defenderem. Por outro lado, a própria natureza desta guerra exige que as classes proprietárias nunca possam aniquilar o seu inimigo, ou seja, abolir o proletariado, sem simultaneamente abolir as estritas condições da sua própria supremacia, elas têm necessidade do proletariado, este não tem necessidade delas. Eis o fundo da questão.

Como se tudo isto não bastasse, é preciso notar que a lógica de um tal conflito também encerra o fato de que, enquanto as classes proprietárias são obrigadas a considerar cada uma das suas vitórias como provisória, e cada trégua que o proletariado lhes concede como incerta, o proletariado é obrigado pela sua própria condição a nunca poder aceitar qualquer paz, a menos que essa seja a paz do vencedor. E é precisamente este fato que obriga hoje os proletários a aumentarem cada vez mais as suas imensas pretensões, em contrapartida às suas derrotas passadas, as quais também eram provisórias: e assim os operários do mundo inteiro precipitam hoje no mais profundo dos desesperos, e com uma freqüência cada vez maior, essas mesmas forças que se lhes opunham e que acabavam de obter a vitória; é precisamente assim que os proletários se impõem a si próprios a necessidade superior de ganhar, não esta ou aquela batalha individual, mas toda a guerra.


Marx afirmava que os homens não enunciam problemas que não possam resolver, e eu acresento que hoje chegamos ao ponto em que não é possível resolver-se um único problema sem os resolver todos. Eis a razão pela qual este panfleto se intitula Remédio para Tudo.

A nossa força reside justamente no fato de nos defrontarmos com todos os problemas, e de termos tanto a necessidade como a possibilidadede os resolver todos. A fraqueza dos nossos inimigos, burocratas e burgueses, consiste no fato de também eles se encontrarem confrontados com todos os problemas, mas na necessidade imperativa de não os resolver todos — quer dizer, na verdade não se acham em condições de dar remédio a problema algum. Eis pois exatamente qual é hoje a sua situação: não são capazes de resolver quaisquer problemas, já nem sequer estão em estado que lhes permita impedir os outros de os resolver, nem se encontram na posição de poderem continuar a coabitar com todos estes problemas. Não nos devemos pois espantar com o pavor e a confusão que agora reinam nas suas fileiras.

Até há cerca de dez anos, a maioria dificilmente conceberia que o que quer que fosse pudesse mudar; hoje em dia todos consideram impossível que o que quer que seja continue como dantes. E no entanto ainda não se passaram dois lustros sobre a altura em que os resignados pensadores da esquerda impotente pomposamente decretaram que este mundo tinha, a partir desse momento, atingido o seu ordenamento definitivo, e que não havia outra "escolha" senão entre as mentiras russa, chinesa ou cubana, que nessa altura balofamente alimentavam as suas desonestas controvérsias. Marcuse, o iludido, pretendia ainda demonstrar-nos o desaparecimento do proletariado, que alegremente se teria dissolvido na burguesia; e Henri Lefebvre, o desiludido, já perorava sobre o "fim da história". Confundiam os seus pobres sonhos com a realidade, confessando assim canhestramente que a realidade de então era tudo o que sonhavam. Mas a partir de 1968, tiveram que submeter-se à percepção dolorosa da estupidez de que enfermavam : Marcuse resignou-se ao silêncio, e Lefebvre resignou-se a voltar ao redil, falando por conta dos estalinistas franceses.

Hoje, quando o tempo das desordens começa, por todo o lado, a perturbar o sono das classes dominantes, todos estes patéticos ideólogos em crise de idéias até o público perderam , mas quase sempre obtiveram em troca um emprego inesperado como advogados de defesa do velho mundo. Em Itália, onde a crise é mais grave, esses ideólogos perderam depois toda a compostura e, a cada avanço da subversão, ei-los que envergam, pressurosos, a toga dos pais da pátria, ei-los que desbobinam, como um velho relógio de cuco, as mesmas ininterruptas banalidades sobre a defesa da ordem republicana e as costumeiras trivialidades em favor das instituições democráticas com a convicção afetada e repleta de auto-suficiência dos pregadores de uma igreja em crise de fiéis, pois não há quem acredite no milagre que prometem, o de a história parar como por encanto perante as suas fórmulas mágicas.

Sempre que tais ideólogos se mostram na televisão, ou que na primeira página dos jornais nos convidam sem pejo algum a apreciar as delícias desta "democracia" nascida, o caralho, da resistência, como eles nasceram da estimável boceta da mãe, os Valiani, os Amendola, os Asor Rosa, os Moravia, os Bobbio, os Bocca, etc., demonstram continuar a não querer compreender que os sobressaltos violentos e contraditórios que alimentam crônicas da imprensa provam unicamente que a sua época chegou ao termo e que um mundo novo se encontra em vias de nascer. Estas velhas cariátides que esperam suster por mais algum tempo o templo dessacralizado e em vias de desmoronamento das mentiras e dos abusos dominantes, estes extremistas do consenso e fanáticos da legalidade sabem que as suas leis já não comandam o futuro e que antes de se julgar os homens novo surge julgar as velhas leis; e, aliás, a "democracia" e a "liberdade" que estes senhores apregoam a ponto de nos foderem o bicho do ouvido, e o resto, para eles são o que as cores são para um cego de nascença, e a prova disto é simples, pois se conhecessem o verdadeiro sentido destes termos, de certo que deles não se serviriam com tanta leviandade, aplicando-os à nossa miserável República. Mas quando a verdadeira democracia se impuser — ou seja, quando todo o poder de decisão e de execução pertencer aos Conselhos Operários Revolucionários, onde cada delegado possa a todo o momento ser demitido pela base —, nessa altura verem os que todos estes cavalheiros, que hoje nos falam a torto e a direito de democracia, combatê-la-ão ou, ainda mais provavelmente, pôr-se-ão em fuga como é seu costume. Mas perante os apelos peremptórios e insolentes com que hoje nos importunam, os jovens proletários são obrigados a concluir que estes mistificadores respeitados são tão solidários na corajosa defesa de todas as mentiras e abusos correntes, tal não se passa por acaso, mas por disso lhes advirem elevadas remunerações.

Quantos milhões recebe mensalmente, ou semanalmente, o honesto Leo Valiani para escrever o que escreve? E o que é que ele escreveria se tivesse uma vida e um salário de operário? E Bocca?

E os outros todos? Lichtenberg dizia não conhecer um único homem no mundo que, tendo-se transformado num canalha por mil táleres, não tivesse preferido continuar honesto por metade da soma.

Desaparecei, palhaçada grotesca, charlatães de males incuráveis: vós temeis coisas demais para serdes temidos, e respeitais demasiado para que vos respeitem! Julgais tudo erradamente, enquanto as pessoas começam a julgar-vos acertadamente: não vos dais conta de que metade do país ri de vós e que a outra metade vos ignora? Sabei ao menos que perante a farsa tragicômica que é a vossa própria existência, a corte marcial da nossa crítica vai celebrar as suas saturnais! E que nem sequer se me exprobre o recorrer à invectiva: desde Dante, todos os que consideraram de forma imparcial os nossos poderosos do momento foram sempre obrigados a recorrer à invectiva, pois não basta julgar os atos e os discursos dos homens; é também necessário julgar os homens pelos seus discursos e pelos seus atos.

Até ao presente momento, o conjunto do país nada mais foi do que um mero espectador dos seus ministros e de todos os que o enganam e lhe falam em seu nome; a partir de agora, o país tratará de julgá-los e de dar a César o que é de César: vinte e três punhaladas.


Nas épocas em que reina a inteligência, os homens podem ser julgados com base no uso que dela fazem; nos séculos de decadência, mas contando, no entanto com pessoas hábeis, é preciso julgá-las segundo os seus interesses e o seu mérito, naqueles em que, pelo contrário, uma extrema mediocridade esbarra com grandes dificuldades, como este em que nos encontramos, devemos considerar as condições gerais em que os homens vivem, as pretensões dos que se encontram no poder, seus pavores, os seus interesses particulares, fazer desta mistura a regra do nosso juízo valorativo. Se hoje assistimos ao espetáculo edificante que quotidianamente nos é oferecido por todos advogados defensores do velho mundo, que tomam a palavra com ardor e precipitação para ejacularem rotativamente ou em conjunto a sua argumentação, é justamente porque tais advogados temem que essa sua oportunidade seja a última e também porque sentem confusamente, mas não sem razão, que o tribunal da história está prestes a mandar executar uma sentença que já tardava. E se nas suas vãs perorações estes mercenários defensores de todos os abusos se mostram por vezes temerários isso deve-se unicamente ao fato de, tendo o pavor ultrapassado um certo limite, a coragem e a covardia poderem produzir por alguns instantes mesmos efeitos.

Se por uns tempos os políticos e intelectuais tanto se agitaram à volta da palavra coragem, principalmente para perguntarem uns aos outros qual o significado preciso da mesma. E se depois de um semelhante clamor nem sequer conseguiram estar à altura de dar uma resposta, não será preciso irmos muito longe para encontrarmos a razão disso: regra geral, os homens, do que mais falam é daquilo que mais carecem, sobretudo nas situações em que mais sentem essa necessidade. Assim, enquanto um pedinte falará de dinheiro, Franco Rodano fala de coragem. Lama, Moravia, Arpino, Calvino, Vasco Pratolini, Elio Retri e cem outros também parecem disputar a primazia nesse campo e até o repugnante Antonalio Trombadori dissertou sobre a questão — e, pelo menos neste caso, mostrou-se bastante temerário, falando de corda em casa de enforcado. E quase todos falaram assim para acusarem de covardia Montale e Sciascia, que pelo menos tiveram a coragem mínima de manifestarem publicamente o desinteresse e o asco que este Estado lhes inspira, Estado que o estalinista Amendola teme ver desmoronar-se antes de conseguir compartilhá-lo com os democratas-cristãos.

Tudo isto demonstra que se pode dizer da coragem o que Marx dizia da consciência: não é de certo a coragem dos homens que determina a sua condição social, mas, inversamente, a sua condição social que determina a coragem ou a covardia; e basta considerar o caráter provisório e a presente fragilidade da posição social que estes usurpadores ocupam numa sociedade de classes tão pouco segura de si como a nossa, para se ficar suficientemente a par da sua pretensa "coragem". Para além disso, escusado será dizer que ninguém lhes pede para serem corajosos.

A covardia existiu sempre, mesmo se nem todas as épocas tiveram a oportunidade de a ver no poder; no nosso século, a covardia gostaria de estar em maioria mas, já se encontrando majoritária no governo, tem os seus heróis e atribui-se publicamente as dignidades e todas as honras que em outros tempos eram reservadas para a coragem. Esta controvérsia político-intelectual sobre a coragem não fez outra coisa senão salientar ainda mais a profunda covardia de todos os que nela participaram, pois se não é possível dotar alguém de coragem, também não se lhe pode retirar a covardia, e nem sequer escondê-la, pois não conheci nenhum covarde que tivesse a simples coragem de admitir sê-lo, ao menos para melhor se esconder.

Estas balofas e aborrecidas "polêmicas" periódicas, que constituem o principal passatempo de todos os eunucos do poder, ou seja, dos intelectuais, demonstram uma vez mais a incurável pusilanimidade dos que nelas participam: as armas da sua "crítica" não cortam pois encontram-se, como diria Camões, "recobertas pela ferrugem da paz" social de que por demasiado tempo esses intelectuais beneficiaram, tendo isso terminado numa data ainda recente. E sabe-se bem que a fraqueza é talvez o único defeito impossível de se corrigir, precisamente por os seus efeitos serem inimagináveis, e ainda mais prodigiosos do que os das mais ardentes paixões.

O arcaísmo das instituições que estes corajosos senhores pretendem defender, possivelmente até para evitarem a infelicidade de terem que se defender eles próprios, instituições que no entanto eles já nem sabem fazer funcionar, o seu caráter arcaico, dizia, nem sequer é de molde a fazê-las respeitar ou a torná-las veneráveis; muito pelo contrário, elas desacreditam-se de dia para dia, envelhecendo ainda mais depressa do que os seus corifeus. E, à medida que a sua decadência se vai tornando mais e mais evidente, inspiram um desprezo mais e mais universal, pois já nem sequer têm a capacidade de ser nocivas. O mundo político caiu assim numa imbecilidade desastrosa, e isto no presente momento em que a globalidade da sociedade se tornou mais inteligente. Presentemente, esta inteligência e esta imbecilidade são igualmente nocivas ao poder que, destarte, se encontra sob constante ataque vindo do exterior, e minado no seu próprio interior.

A guerra social que se prepara já movimenta todos os indivíduos e todas as classes da sociedade porque, ao pôr em jogo os interesses de todos, atribui a todos um interesse no combate e apela a cada um no sentido de escolher o seu campo: de um lado todos os que hoje temem uma guerra que já não conseguem evitar, caso dos capitalistas e dos burocratas do partido dito comunista, e do outro, todos os que não têm qualquer poder sobre as suas próprias vidas, e o sabem.

Nos capítulos que se seguem falarei portanto contra a ordem de coisas vigente, mas fá-lo-ei numa desordem relativa: tratá-lo com ordem seria conceder demasiadas honras ao meu tema, pois quero demonstrar que disso é ele incapaz — Saint Just já o afirmou: "a ordem presente é a desordem coligida em leis". E antes de concluir este prefácio direi que, como é evidente, Remédio para Tudo não quer nem pode ser um remédio para todos, pois na verdade esta obra propõe-se ser nociva a muitos e procura vir a ser útil a um maior número; a utilidade de um tal panfleto será pois medida com base nos prejuízos que o mesmo for capaz de causar, direta ou indiretamente, de imediato ou dentro de pouco tempo, aos proprietários da alienação, pois tudo o que é nocivo não é ipso fato inútil; só tudo o que é inútil é sempre nocivo. Espero ser claro, mas se houver quem persista em não me compreender, isso preocupar-me-á menos do que deveria preocupar a pessoa em questão: alguém disse que nesta época não se pode mais permanecer insensível a nada do que ela produz, e, se ela produz certos livros, tal significa que também produziu quem os saiba ler.

Os proprietários deste mundo, bem como os seus "críticos" assalariados, ficarão exasperados, despeitados por terem de reconhecer que só os seus inimigos absolutamente irredutíveis se encontram em condições de o compreender realmente e a classe dominante verá com justificada inquietação os seus verdadeiros problemas, expostos unicamente por aqueles que trabalham com vista à sua subversão. Os nossos ministros e todos os políticos inquietar-se-ão, e não sem razão, por terem de ler os nossos escritos para se poderem enfim contemplar com realismo, mas na perspectiva da destruição de todos os seus poderes. Os chefes dos serviços secretos da burguesia, dedicando-se há uma dezena de anos às provocações, aos assassínios e ao terrorismo de Estado, ficarão justificadamente furiosos por verem as suas manobras sempre desmascaradas precisamente por aqueles contra quem as mesmas são sempre concebidas; e mesmo a morte de Moro aparecerá enfim na sua verdadeira e sinistra luz. Os grandes burgueses em decomposição não me quererão, é claro, perdoar nem este panfleto nem o resto, e alguns deles pretenderão acusar-me de traidor à sua classe, como já o fez há cerca de dois anos Indro Montaneffi [5], pois assestei todas as minhas armas contra a dita alta burguesia donde provenho: ora bem, tenho muita honra em que me seja feita uma tal acusação, pois não há humilhação que essa burguesia sobejamente não mereça; e a classe operária, que foi vítima de inúmeras traições de classe por parte dos seus pretensos representantes, terá uma certa razão em se felicitar considerando que um pouco da mesma sorte também coube à classe adversa.

Remédio para Tudo será portanto também um ajuste de contas com toda esta malavita que a classe dominante democraticamente impõe à classe dominada, bem como um acerto de contas com tais ou tais indivíduos concretos que até ao presente abusaram por demais impunemente da paciência da classe explorada, ou antes, do silêncio a que a mesma se encontra reduzida. Como no inferno, também aqui haverá uma diversidade de fossos, precipícios e condenados, desde os burgueses aos estalinistas, desde os mentirosos profissionais aos burocratas sindicais, desde os políticos aos intelectuais, e por aí afora — de modo que no fim poderei também eu dizer ao leitor: Podes agora julgar as pessoas que acima acusei, e as suas faltas, que são a causa de todas as vossas desgraças.


Referências

  1. Economista estúpido apreciado pelos americanos estúpidos (N. do T.).
  2. Chefe da extrema direita estalinista, (N. doT.)
  3. Velho economista teórico (N. do T.)
  4. "Negare l'esperienza di retro al sol, del mondo sanza gente" (Dante)
  5. Jornalista burguês de direita, diretor do Giornale Nuovo (N. do T.)
Do Terrorismo e do Estado
Do Terrorismo e do Estado/Dedicatória aos Maus Operários de Itália e de Todos os Países Prefácio à edição portuguesa Do Terrorismo e do Estado/Capítulo X — Do Terrorismo e do Estado

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