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Do Terrorismo e do Estado/Prefácio à edição francesa

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Do Terrorismo e do Estado
Gianfranco Sanguinetti


Muito embora na Itália se publiquem numerosos livros sobre o terrorismo, poucos foram tão lidos e nenhum tão ignorado pela imprensa como este. Editado em fins de Abril de 1979, distribuído lentamente por um número restrito de livrarias, Del Terrorismo e dello Stato esgotou-se ao fim dos três meses do Verão, e até hoje não foi reeditado na Itália devido a algumas dificuldades que me foram criadas por uma estúpida e grosseira perseguição jurídico-policial, da qual falarei mais tarde. Para já, é mais interessante interrogarmo-nos sobre a razão do silêncio quase completo que envolveu um livro abordando um assunto de que se fala quotidianamente, mas sempre do mesmo modo falso, nas primeiras páginas de todos os jornais italianos, bem como na rádio e na televisão de Estado. Esta última fê-lo muito em especial numa rubrica ad hoc que precedia o telejornal, mas, como muitas pessoas no referiram, unicamente para que uma amálgama heteróclita de peritos em terrorismo convocados para o efeito dissesse que as teses deste livro "não são convincentes". O mais curioso é que nem a televisão nem os jornais em causa ousaram evocar essas famosas "teses" sobre o terrorismo italiano, "teses" que, no entanto, a televisão e os mesmos jornais se esforçaram por qualificar como "não convincentes". Receariam antes que o fossem, para tão zelosamente as escamotear? Temeria nesses jornais e a televisão que os meus argumentos pudessem ser considerados pelo público mais persuasivos do que as suas canhestras fantasias sobre o terrorismo, pois todos fizeram da sua omissão um dever? E porquê tantas precauções? Que diabo de tão escandaloso se encontrará escrito neste livro para que até os que se sentiram na obrigação de falar nisso o mantenham secreto? Ou será que Do Terrorismo e do Estado revela mesmo segredos de Estado?

Na verdade assim é: este livro contém segredos de Estado. O fato de serem os seus próprios serviços secretos quem organiza o terrorismo e puxa os seus cordelinhos não constituirá o principal segredo do Estado italiano? E é precisamente isso que se encontra sobejamente demonstrado em Do Terrorismo e do Estado.

O que efetivamente não é convincente, não são de certo os meus argumentos, mas sim ocomportamento contraditório do Estado e dos seus fiéis servidores em relação ao meu livro, pois se por um lado falam nele sem nada dizerem, nem que seja para fazer com que os italianos pensem que o que digo "não é convincente", por outro, e alguns dias após a "recensão" televisiva, a polícia política e um magistrado, conhecido pelo seu mal sucedido zelo em tentar tornar verosímeis todas as mentiras oficiais sobre o terrorismo, iniciavam uma complexa e tenebrosa perseguição jurídico-policial de que eu constituí ao alvo. Deverei pois pensar que cometi o crime de não ser "convincente"? Se o nosso Código previsse um tal delito, todas as prisões da Europa não seriam bastantes para encerrar os nossos políticos, os nossos jornalistas, os nossos magistrados, os nossos polícias, os nossos sindicalistas, os nossos industriais e os nossos curas. Não, não foi disso nem por isso, que me acusaram, mas antes por ter sido demasiado convincente ao acusar o Estado dos seus crimes, fato que levou o dito Estado a tentar vingar-se mas, como se verá, com o inepto embaraço dos culpados que se querem fazer passar por inocentes. Os homens que governam este Estado são, como é sabido, os mesmos que, desde a época do massacre da Piazza Fontana e para não serem inculpados, se vêem por assim dizer perpetuamente obrigados a acusarem outros dos seus crimes e de todos os crimes, como se quisessem efetuar uma demonstração suplementar da teoria de Madame de Staël segundo a qual "a vida de qualquer partido que tenha cometido um crime político fica para sempre ligado a esse crime, quer para o justificar, quer para o fazer esquecer à força de poder".

Uma série de acusações disparatadas, tão grosseiramente abusivas e arbitrárias que ruíram uma após outra praticamente sem que os meus advogados tivessem de intervir, sucederam-se ao longo de seis meses e, ao sabor dos caprichos de quem as imaginou, iam do delito de contrabando ao de terrorismo, passando naturalmente pelos de posse de armas e de associação subversiva.

De todas estas acusações que, a ser seguida a letra da lei, me podem valer de vinte a trinta anos de prisão, ou, pelo contrário, cobrir de ridículo quem as congeminou, há duas que, com algum esforço e certa boa vontade, poderiam encontrar um a base de sustentação na realidade, enquanto as demais são completamente falsas e extravagantes.

Contrabandista, de certo o fui, o que muito me honra, pois não terei sido eu quem, a partir de 1967, contrabandeou de França as idéias motrizes da revolução moderna, as idéias da Internacional Situacionista? E também admito que, tendo em vista as condições em que se encontra o Estado italiano desde o contrabando do mal francês, esse meu delito não lhe foi proveitoso, pois no nosso país a propagação do mal deu-se de forma mais rápida e profunda do que em outras paragens, sendo a doença doravante inextirpável. Infelizmente para os meus acusadores, os termos do nosso Código, bem como as disposições do Tratado de Heisínquia, não prevêem sanções para o contrabando de idéias e, com o todos muito bem o sabem, quando o Estado italiano se ocupa com idéias não é decerto no fito de as desalfandegar. Assim, a acusação de contrabando soçobra miseravelmente, mesmo que se tenha procurado desesperadamente, mas sem qualquer sucesso, camuflá-la por detrás de outros pretextos de direito comum.

Quanto à acusação de associação subversiva, e muito embora ignore o que o velho código fascista, ainda em vigor, entende precisamente por isso, confesso que também ela poderia ter um certo fundamento, pois pertenci, mas aberta e não clandestinamente, à Internacional Situacionista até à sua dissolução, ocorrida no já remoto ano de 1972. Este inquisitio post mortem contra a IS só me parece risível porque, a seguir os mesmos critérios, um magistrado mais a mante da equidade deveria também abrir um inquérito contra a Liga dos Comunistas de Marx, a Associação Internacional dos Trabalhadores e emitir mandatos de captura contra os descendentes de todos os que albergaram Bakouníne durante a sua permanência em Itália.

A acusação de posse de armas não tem qualquer fundamento, e não é por ter sido várias vezes dirigida contra mim, sempre sem sucesso, que a mesma passa a ser mais verosímil. Contrariamente ao que o presidente Pertini afirma em seu delírio senil, parece-me que a guerra civil ainda não começou — e a prova é ele ainda ser presidente desta coisa que se assemelha a uma República — sendo pois inútil possuir armas. E, de toda a forma, quem me acusa de posse de armas deveria primeiramente encontrá-las ou, ao menos, introduzi-las em minha casa, e tal ainda não aconteceu.

Mas onde o arbitrário se alia à mais obtusadas arrogâncias é quando o mesmo procurador da República pretende que "segundo o conteúdo dos documentos das Brigadas Vermelhas existem estreitas relações entre a ideologia deste grupo e a da Internacional Situacionista da qual o dito Sanguinetti é representante". Para além do fato de a secção italiana da Internacional Situacionista já não existir desde 1970, não podendo eu, portanto, ser o seu "representante"; também para além do fato, ignorado apenas por ignorantes, de a IS nunca ter tido uma ideologia, porque as combateu todas, inclusive a da luta armada, é ainda necessário assinalar pelo menos duas coisas: para já seria menos infrutífero que os magistrados se instruíssem antes de acusar-me, em seguida, que é bastante mais fácil fazer sobressair as relações estreitas entre a ideologia policial do supracitado procurador e a das Brigadas Vermelhas, do que as existentes entre esta última e a teoria situacionista. E nada neste mundo é mais radicalmente oposto ao que escrevi sobre as Brigadas Vermelhas do que aquilo que elas nos contam sobre si próprias com o apoio de toda a imprensa burguesa e burocrática. Por último, recordo, para não me alongar numa argumentação por demais cômoda, que em Itália facilmente se encontram publicações da IS e que numerosos são os que as conhecem, contrariamente à voz deste ou daquele Autônomo encarcerado; e todos podem verificar que em nenhum caso existem relações estreitas entre estes escritos e os documentos das fantasmagóricas BVs, ao invés do que o impertinente procurador pretende.

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Paralelamente, e enquanto as autoridades levavam a cabo esta canhestra perseguição com grande acervo de golpes baixos — que tinham porém o mérito de serem públicos e oficiais, como o são os despachos de pronúncia, as buscas, a vigilância permanente e as escutas telefônicas —, obscuras e vis personagens, facilmente identificáveis pelo seu comportamento policial, com menos escrúpulos mas sem maior sucesso, conluiavam-se na sombra com propósitos de provocação ou de intimidação. Não sendo um intelectual, nem pretendendo viver dos meus escritos, nunca aspirei a receber um reconhecimento público melhor do que este, assente no que eu próprio, por minha conta e risco, edito num país onde já ninguém ousa expor-se ao perigo de dizer às pessoas aquilo que não se quer que elas ouçam — ou seja a simples verdade sobre o terrorismo e sobre o resto.

Para uso do leitor estrangeiro, e para fazer à Itália a publicidade que ela merece, acrescento ainda que vários forasteiros foram presos na fronteira pela polícia italiana, trazidos pela força de volta a uma grande cidade e demoradamente interrogados só por possuírem um exemplar deste livro; que a magistratura também abriu um inquérito contra os que o distribuíram; e, por último, que a DIGOS, mesmo sem qualquer mandato de apreensão, arbitrariamente se locupletou com os poucos exemplares que pôde encontrar.

Desde já se anula qualquer dúvida que porventura tenha existido: eu disse a verdade. E, pelo mal que me desejam, compreendo que a minha obra é boa, pois não teria provocado um tal ódio se ninguém me tivesse escutado. Com efeito, e dentre as numerosas pessoas que leram o que escrevi, e que são de idades, condições e opiniões variadas, muitas o aprovaram, poucas dele duvidaram e nenhum a o refutou.

Após a primeira edição deste livro, sucederam-se numerosos acontecimentos que, para além de não exigirem qualquer alteração em toda a minha argumentação e conclusões, as confirmam até, tanto na sua globalidade como em relação a pormenores. Assistimos à eliminação de Alessandrini, um magistrado que se tornara um empecilho, primeiro por ter desmontado o processo fabricado da Piazza Fontana, e depois porque, horas antes da sua morte oficialmente atribuída a subversivos, interrogara um ex-chefedo SID sobre os falsos testemunhos prestados por este último e por altos funcionários como Andreotti e Rumora quando do mesmo processo. A seguir foi a vez de um discípulo de Moro, o honorável [1] Mattarella, presidente da Região Siciliana, conhecer o mesmo fim que o seu mestre, e pelos mesmos motivos, nas vésperas da formação do primeiro governo regional de compromisso entre a Democracia Cristã e o PCI. Também, e por repetidas vezes, vários polícias foram sumariamente abatidos a fim de fazer vingar sem oposição as lois scélérates [2] que ultrapassam e revogam as ainda por demais tolerantes leis fascistas, bem como a constituição republicana. Mas a mais importante de todas as novidades ocorridas no ano passado é certamente a que se segue: o PCI, vendo desaparecer com o fim de Moro a perspectiva de uma participação ativa e imediata no poder, adotou uma atitude de recuo, fazendo da sua participação ativa no espetáculo do terrorismo e da sua repressão o seu cavalo de batalha. Esta é manifestamente a principal novidade ocorrida após a saída da primeira edição deste livro, e merece a nossa atenção pois demonstra uma vez mais que os estalinistas não só sabem perfeitamente que é o poder quem dirige o terrorismo, mas também que, os que hoje em dia pretenderem o poder em Itália deverão demonstrar que sabem dirigir o terrorismo — o que é tão verdadeiro que levou um ex-ministro socialista a declarar recentemente numa entrevista: "Na Itália é com o terrorismo que se faz política".

Até 7 de Abril de 1979, o PCI contentara-se em lançar alguns estúpidos apelos rituais contra o terrorismo, com os quais retomava por sua conta, ou fingindo nelas acreditar, todas as versões oficiais dos atentados, provando assim à Democracia Cristã a sua boa vontade e a todos a sua má consciência. Mas, a partir desse dia, os estalinistas, por intermédio de magistrados a eles afetos, começaram a aproveitar a sua rica e vasta experiência de meio século na descoberta de falsos culpados, na encenação de processos falsificados e na produção de falsos testemunhos e de provas pré-fabricadas.

Assim, e como o seu duplo objetivo era de fazerem valer os seus méritos junto dos democratas cristãos e o de se verem livres de uma força política limitada mas incomodativa, pois situava-se à sua esquerda e insultava-os, os estalinistas encontraram nos Autônomos os bodes expiatórios de dez anos de assassínios, de chacinas e de terrorismo. Não houve crime cometido na década de 70 que não tivesse encontrado o seu autor na pessoa deste ou daquele Autônomo: desde homicídios insolúveis ao caso Moro, desde raptos misteriosos a roubos de obras de arte e de cavalos de corrida, tudo foi resolvido de pronto e com o por encanto, pois cada delito encontrou o seu culpado e cada culpado teve como recompensa o cárcere. O gênio da harmonia e da invenção [3] de um simples magistrado estalinista não foi de certo suficiente para se obter uma solução tão harmoniosa dos processos desta últim a década: toda a organização oculta e pública do partido foi mobilizada a fim de se provar que a Autonomia era a luta armada, e o único dirigente autônomo que — como por acaso — ficou em liberdade, o ingênuo Pifano, foi rapidamente preso na posse de um belo saco contendo dois lança-mísseis russos, de resto já obsoletos, fornecidos ao dito Pifano pela FPLP, organização palestina estalinista, e notoriamente ligada por laços de gratidão recíproca aos serviços secretos italianos, como o próprio general Miceli o reconheceu. Assim, e se até esse momento as ligações entre a Autonomia e o terrorismo não haviam podido ficar demonstradas, o zeloso Pecchíoli [4] aproveitou logo a oportunidade para, algumas horas depois, declarar orgulhosamente ao Parlamento que, perante um fato tão eloqüente, ninguém continuaria a ter o direito de duvidar que os Autônomos constituíam a direção estratégica do terrorismo, como já o sustentava, mas sem provas, o magistrado estalinista Calogero. Os pobres Autônomos, que pela sua parte nada compreendiam quer de terrorismo, quer de revolução, viram-se assim, qual presa cobiçada, no matadouro dos estalinistas e da magistratura, sem sequer saberem como nem porquê. Só nos resta desejar-lhes que a prisão seja mais proveitosa para a sua instrução do que o foi a liberdade.

Estes admiráveis métodos estalinistas de acusação nada têm de original quer quanto ao seu engenho, quer quanto à sua grosseria, pois assemelham-se bastante aos utilizados nos famosos processos de Moscovo, nos anos trinta: a única diferença é a de os Autônomos presos não terem sido declarados culpados de todos os crimes — e a incongruência de um tal procedimento jurídico não pode ser imputada aos estalinistas, pois ninguém duvida que a mesma desapareceria rapidamente caso os estalinistas controlassem o poder e pudessem, no decurso dos interrogatórios, usar os seus já comprovados e infalíveis métodos.

Para os serviços secretos e para os chefes de bando democratas cristãos, que nos últimos anos sofreram tantas humilhações judiciais — não, claro, pela honestidade dos juizes, mas antes pela sua incompetência —, estes grandiosos processos contra os Autônomos, tão habilmente montados, abrem perspectivas inesperadas e de novos campos de ação: com efeito, desde essa altura, o espetáculo do terrorismo fez imensos progressos, e se até aí conseqüências judiciais desagradáveis impediam, em certa medida, os serviços secretos italianos de irem mais longe, agora que os estalinistas mostraram ser aliados hábeis e incondicionais, há razões para crer que, como Ulisses, esses serviços abrirão "asas para loucos vôos, sempre derivando para a esquerda". [5]

Agindo assim, os burocratas do PCI não fazem nada mais do que aquilo que são capazes de fazer e incapazes de não fazer quando se encontram prestes a chegar ao poder: estes burocratas sabem perfeitamente que têm, hoje mais do que nunca, todas as razões para serem desonestos, pois é no período atual que se joga a sua missão histórica, e é natural que ponham em jogo todas as suas forças quando o que está em jogo é toda a sua fortuna [6]; para além disso possuem uma outra razão para demonstrarem sem mais delongas a sua completa desonestidade histórica, pois com certeza não ignoram que é unicamente pela sua desonestidade, e não pelas suas tão dissimuladas virtudes, que a burguesia os pode utilizar em seu serviço. E, para sermos mais precisos, os estalinistas sabem bem que devem incessantemente inventar e descobrir conspirações contra esta democracia burguesa, seja para fingir que a amam, seja para demonstrar ao mundo os perigos que a mesma correria sem eles.

Se o PCI se comporta deste modo na vida pública, também age com a mesma desprezível baixeza na sua "vida privada" nas fábricas, indicando aos patrões quais os operários "terroristas" a despedir e a denunciar à justiça do trabalho, pelo simples fato de esses operários não quererem deixar-se subjugar e praticarem o absentismo — ou seja, pelo simples fato de lutarem.

Contrariamente ao que espera o sutil Berlinguer, os patrões e os homens mais avisados da Democracia Cristã concluem inversamente que quanto mais o PCI se mostra útil sem estar no governo, tanto mais é inútil integrá-lo nele; de forma que tudo aquilo que os estalinistas fazem para de qualquer forma chegarem ao poder é precisamente o que os mantém afastados dele, com a agravante de alienar o que lhes restava de simpatia e de ilusões eleitorais. Mas este é o drama dos estalinistas, e não nos diz respeito, pelo menos enquanto se não tornarem assaz malévolos para voltarem a praticar a sua arte preferida, ou seja, o crime político. Entrementes, e quanto ao que nos interessa de momento, é preciso ainda ter presente que o terrorismo burguês e o terrorismo estalinista, que visam os mesmos objetivos, mostram-se tal com o sempre o foram, e dão à classe operária uma excelente oportunidade de reconhecer e de combater todos os seus inimigos, burocratas e burgueses.

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O servilismo ativo com que toda a intelectualidade de esquerda inicialmente tolerou, e depois fez suas, as teses acusatórias oficiais sobre o terrorismo e contra os Autônomos, poderia parecer por demais espantoso a quem quer que ignorasse que a dita intelectualidade se com portou da mesm a maneira sempre que teve a oportunidade de se comportar de outra. A versão estatal e estalinista dos fatos foi aceite ponto por ponto e, consequentemente, entregue à publicidade sem o mínimo respeito pela verdade histórica ou pela pretensa "dignidade intelectua". Aliás, é notório o papel desempenhado pelos intelectuais italianos, na sua maioria pró-estalinistas, durante este último meio século na difusão de todas as mentiras sobre o socialismo e a revolução. Hoje em dia, e como já não podem mentir sobre o "socialismo" soviético, ou chinês, ou cubano, têm que se reduzir a um a propaganda desenfreada das suas mentiras sobre a democracia burguesa, por cuja salva guarda aceitam de boa vontade todos os sacrifícios, incluindo o de dela prescindirem. Assim, foi sem protestos, e em homenagem ao fetiche das garantias democráticas, que foi aprovado o decreto governamental sobre a detenção preventiva, sobre o aumento das penas para os delitos de terrorismo, e sobre a "posse de documentos subversivos" [7], enquanto as novas disposições sobre a detenção preventiva permitem, de agora em diante, manter um acusado sob prisão por doze anos sem qualquer processo. Doravante, a magistratura italiana, cuja sabujice para com o poder nunca foi um segredo de Estado e não carece de prova, nem sequer precisará de dar-se ao trabalho de demonstrar a culpabilidade de quem quer que seja para o condenar de fato a 12 anos de prisão, e isto só para começar: a partir deste momento, a acusação coincide com a condenação, e a ficção de uma legalidade democrática na Itália chegou ao seu termo, até como simples ficção. A Itália é um a república democrática alicerçada na exploração do trabalho e em éditos de encarceramento [8].

Numa passagem da Fenomenologia o Espírito, pouco conhecida dos nossos intelectuais e relativa ao terrorismo dos governos, Hegel dizia: "O governo não pode pois apresentar-se como outra coisa senão como uma facção. O que se designa por governo é tão só a facção vitoriosa, e é precisamente no fato de ser facção que se encontra a imediata necessidade do seu declínio; e o fato de ela estar no governo torna-a inversamente facção e culpada... O ser-se suspeito substitui-se ao ser-se culpado, ou tem-se o significado e o efeito."

Quando o arbitrário já não teme apresentar-se como aquilo que sempre foi, quando o ser-se culpado ou inocente já não tem qualquer importância, pois a condenação passa a ser a única certeza, o que combate o arbitrário já não descobre razões de temer o ser culpado: condenado por condenado, antes por um crime honroso. Não nos podemos deixar governar inocentemente. E, esperando pela destruição de todas as prisões, demos ao inimigo boas razões para as encher, não certamente caindo na bem montada armadilha do terrorismo, mas antes combatendo abertamente e de todas as maneiras quem presentemente dele se serve e o pratica, ministros, políticos, patrões e polícias.

Nestes nossos dias, o jesuitismo intelectual chama "democracia" ao arbitrário, "liberdade" à liberdade de mentir, e "testemunho" à delação sistemática e obrigatória: "Sic delatores, genusho minum publico exitio repertum et ne poenisquidem unquam satis coercitum, per praemiaeliciebantur" [9], dizia Tácito que, no entanto, contrariamente aos nossos intelectuais, confessava preferir os perigos da liberdade à quietude da escravatura. Os mesmos intelectuais, depois de terem debatido dilatadamente a coragem, concluíram, orgulhosos, que hoje é preciso ter-se a coragem de se ser covarde. O raciocínio mais em voga nestes nossos tempos é simples: se se ama a democracia, é preciso defendê-la; para a defender, é preciso combater os seus inimigos; para se combater os inimigos da democracia, nenhum sacrifício é demasiado: a nobreza do fim justifica todos os meios; portanto, nenhuma democracia para os inimigos da democracia! O que não era essencialmente uma democracia deixou agora de o ser visivelmente.

E quem são então esses inimigos da democracia? Os inimigos da democracia são todos os que objetivamente a põem em perigo, os que defendem idéias incompatíveis com a mesma, e todos os que, não apoiando este Estado, apoiam objetivamente os seus inimigos. Numa palavra, os inimigos desta "democracia" são todos os que praticam a democracia.

Se em 1924, em lugar de Mussolini, houvesse esta democracia, tão sincera, tão pronta apretender-se o contrário do que efetivamente é, poderíamos ter a certeza de que se teria encontrado forma de acusar esquerdistas do assassínio de Matteotti [10], como hoje em dia sefaz em relação ao de Moro. Mas como Mussolini necessitavam anos de mentiras do que o presente Estado, também não precisava de se servir de intelectuais como Leo Valiani para que estes nos falem dos crimes do Estado com a mesma admiração de quem se pusesse a gabar as virtudes de Catão.

Bem sei que a intelectualidade italiana tem bastas razões para se sentir temerosa e ser desonesta e conheço até de cor os seus argumentos justificativos, o que me leva a nem sequer pôr a hipótese de lhe recusar a liberdadede ser desprezível. O que acho fastidioso é o fato de estes intelectuais intervirem constantemente, nos diários e semanários, a propósito do terrorismo, como se uma força obscura os impelisse a publicar as provas da sua tacanha baixeza e como se ainda fosse preciso dela convencer quem quer que seja, quando, muito pelo contrário, teriam todo o interesse em aconfinarem às suas obras, de forma a que não fosse conhecida nem dos seus contemporâneos nem da posteridade.

Por exemplo, nenhum destes grandes pensadores em matéria de terrorismo formulou, até ao presente, o mais simples raciocínio sobre o seguinte: se as fantasmagóricas Brigadas Vermelhas fossem, com o se diz, um agrupamento espontâneo de subversivos, e se Negri e Piperno fossem, como se pretende, os chefes das BVs, porque é que estas astuciosas BVs teriam deixado prender os seus chefes, que no entanto afirmam não o serem, sem mesmo procurar ilibá-los, o que, a mais não ser, permitiria recuperá-los? Se, pelo contrário, Negri e Piperno não são os chefes das BVs e nem sequer seus militantes, deveriam em toda a justiça ser publicamente declarados inocentes destas acusações pelos hipotéticos subversivos das BVs, e isto pelo menos por três boas razões: para não se deixarem atribuir abusivamente chefes sem contra tal protestarem, para não serem acusados de fazerem condenar inocentes em seu lugar e, por último, porque, estando protegidos pela clandestinidade, não incorreriam em risco algum ao declarar em inocentes os presentes acusados.

Mas como, muito pelo contrário, nada disto se produziu, havemos de concluir que os verdadeiros chefes das BVs têm, uma vez mais, o mesmo interesse que o nosso Estado em fazer crer que Negri e Piperno são os seus chefes. Esta nova convergência de interesses entre o Estado e as BVs não é nada fortuita nem extraordinária, e não pode surpreender senão os estúpidos que não se apercebem que as BVs são o Estado, ou seja, um dos seus múltiplos apêndices armados.

Ora, até estes simples raciocínios, que só por si chegariam para provar a enormidade e a fragilidade da mentira generalizada sobre o terrorismo, são muito elevados para serem formulados pelos nossos livres pensadores — tão livres que chegaram ao ponto de não pensarem mais. Pelo contrário, superam-se uns aos outros na ânsia de provarem incoerentes teorias sub-maquiavélicas, como a que pretendia demonstrar que a dissolução do Potere Operaio, ocorrida há já seis ou sete anos, fora uma simulação diabólica que deveria permitir aos seus dirigentes e militantes melhor se dedicarem à luta armada. E isto é repetido ao longo de meses sem se aperceberem que a hipótese é absurda, precisamente pelas próprias razões que a mesma invoca: se o Potere Operaio fosse na verdade uma capa para um a atividade terrorista, porque haveriam os seus chefes de renunciar a uma proteção legal tão preciosa?

A verdade é bem diferente e, como de costume, para a encontrar basta inverter a mentira desavergonhada com a qual pretendiam camuflar: não foi de certo o Potere Operaio que fingiu dissolver-se para melhor se dedicar ao terrorismo, mas sim o famigerado SID que efetuou uma dissolução fictícia para melhor fazer esquecer o seu terrorismo passado e melhor praticar o atual. Outros pensadores assalariados, de Scalfari a Bocca, raciocinam da mesma forma fraudulenta quando, embora admitindo que, conforme o demonstrei, a estratégia das BVs visa impedir o acesso do PCI ao poder, fazem derivar isto não da aversão que este partido suscita em certos setores do capitalismo italiano e dos serviços secretos, mas da aversão dos estalinista ssoviéticos pelos seus homólogos italianos. Os nossos pensadores de trazer por casa concluem pois que Moro teria sido raptado com o apoio do KGB e dos serviços secretos checoslovacos. Os capitalistas italianos, os militares e os agentes do SISDE, do SISMI, do CESIS, da DIGOS e da UCIGOS [11], da mesma forma que Carter, sentir-se-iam felizes se vissem o PCI no governo italiano, mas isso infelizmente não é possível porque os russos e o KGB não o querem: que azar! Se por detrás do caso Moro se encontra o KGB, quem se encontrará então por de trás das calinadas de Bocca e de Scalfari?

Será possível que estes indivíduos se tenham içado a tais píncaros pelas suas próprias forças?

Como quer que seja, esta curiosa e estúpida teoria, que Pertini, após a ter conhecido, se apressou a fazer sua, serve claramente para tranqüilizar a má consciência de quem quer fazer crer que este Estado, por estar em guerra com o terrorismo, não o pode dirigir.

Pela minha parte, noto com legítima satisfação que o meu livro, que inicialmente obrigou ao silêncio todos os que são pagos para falar, obrigou depois os mesmos indivíduos a espalharem-se ao comprido, propagando aos quatro ventos uma interminável série de enormidades que visava contrariar as verdades que com este livro começam a circular à solta pelo país.

Numa acepção totalmente diferente, pode, por oposição, invocar-se a Rússia, pois a Itália atual e a Rússia de Estaline são porventura os únicos Estados do mundo que se mantiveram exclusivamente graças à polícia secreta: na Rússia descobria-se por todo o lado "contra-revolucionários", e qualquer opositor era acusado de o ser; na Itália de hoje descobre-se por todo lado "revolucionários", e o mais banal dos extra-parlamentares, por muito tímido que seja, tem direito a esta acusação. Piperno, Scalzone e os outros seriam, segundo os juizes e os jornalistas, os chefes, cérebros e estrategos da revolução italiana. Defendi-os aqui enquanto inocentes, mas não me passaria pela cabeça defendê-los como revolucionários, pois não são nem culpados nem revolucionários: na realidade, todos estes autônomos não passam de políticos ingênuos, e mesmo como políticos são incompetentes e falhados — nunca se viu revolucionários almoçar com magistrados, como o fazia Negri, ou jantar conversando com um ex-ministro do gênero de Mancini, com o o fazia Piperno —, e revolucionários também não o são por mil outras razões tão evidentes que é inútil relembrá-las. A revolução italiana segue um caminho totalmente diferente e idéias totalmente diferentes, e de boa vontade dispensa tais dirigentes, tais cérebros e tais estratégias, assim como dispensa todos os que nada compreenderam do terrorismo, ou seja, da contra-revolução.

É conhecida a paixão do mais livre dos povos, o povo grego da Antigüidade, pelo enigma, por ele considerado como o Hic Rhodus, hic salta da sabedoria. Confrontado com um enigma, o sábio deveria resolvê-lo sob pena de morte: era uma luta onde o que não obtinha a vitória não podia implorar nenhuma clemência. A acreditar numa lenda referida por Heráclito, e também por Aristóteles, o mais sábio dentre os gregos, Homero, morreu de desespero por não ter sabido resolver um enigma. Quem não resolve o enigma é por ele enganado; quem se deixa enganar não é sábio; quem não é sábio morre, porque o sábio é um guerreiro que deve ou saber defender-se ou perecer, e porque trava sozinho o combate onde deve provar aquilo que vale.

Um eminente helenista observou que a formulação do enigma "encerra em si a origem remota da dialética, chamada a expandir-se sem solução de continuidade a partir da esfera enigmática — tanto segundo a estrutura do Agon como segundo a própria terminologia". Nietzsche também já havia dito que a dialética "é uma nova forma de arte do Agon grego".

Ora o terrorismo italiano é o último enigma, da sociedade do espetáculo, e só quem raciocinar dialeticamente o poderá resolver. É devido à faltade dialética que este enigma continua a enganar e a destruir todas as vítimas que este Estado sacrifica liberalmente sobre o seu próprio altar, pois é graças a este ainda não resolvido enigma que o mesmo Estado provisoriamente se mantém. É pois necessário e suficiente resolver este enigma não só para se pôr termo ao terrorismo como também para se provocar o desmoronamento do Estado italiano. Só quem nisso tiver interesse resolverá, de forma prática, este enigma. Mas quem é que tem interesse em resolver o enigma do terrorismo? Pessoa alguma, evidentemente, com exceção do proletariado, pois só o proletariado sente essa urgência e dispõe demotivos, força e capacidade necessárias para destruir o Estado que o engana e explora. O desiderato de todas as provocações destes últimos anos e da campanha pedagógica de endoutrinamento de massas que se lhe seguiu, foi o de teleguiar o pensamento das pessoas, obrigando-as a pensar certas coisas, pois com o terrorismo o Estado lançou um desafio mortal ao proletariado e à sua inteligência: os operários italianos nada podem fazer senão aceitar esse desafio, mostrando assim serem dialéticos, ou então aceitarem passivamente a inevitável derrota. Todos os que hoje falam de revolução social sem denunciar e combater a contra-revolução terrorista têm um cadáver na boca.

Tendo chegado ao cúmulo da impostura, o Estado nunca se sentiu tão seguro de si, mas também nisso se engana mais do que julga pois engana menos pessoas do que esperava, e até mesmo menos do que as que seria necessário. Mas mais particularmente este Estado desacreditado engana-se ao crer ser sempre crido, ou, por outras palavras, quando acredita que as mentiras que todos os órgãos de informação propalam sobre o terrorismo são suficientes para corromper a totalidade da população, pela simples razão de esta não ter acesso a nada de diferente. O proletariado que, como se sabe, não possui qualquer meio de se exprimir livremente, não pode assim exteriorizar sequer a sua legítima incredulidade quanto à farça tragicômica do terrorismo, a menos que cale de uma vez para sempre o bico a todos os sicofantes que falam deforma já nossa conhecida, e aos seus mandantes que são também os mandantes do terrorismo e beneficiários da exploração.

Dito isto, nunca, nem mesmo em tempo de guerra, o Estado italiano pretendeu, recorrendo a uma intoxicação sistemática, corromper tantos espíritos com tão pequenos dispêndios.

Na Itália de hoje, tudo o que é manifestamente falso, e apenas isso, encontra uma colocação, vende-se, compra-se e é fonte de lucros: a encenação e a propagação da infecção terrorista é um empreendimento colossal e rentável que dá emprego a dezenas de milhares de jornalistas, chuis, agentes secretos, homens de leis, sociólogos e especialistas de todo o calibre; "só a verdade não tem clientes", como dizia Montesquieu em tempos menos enganosos, mas tal deve-se a ela não carecer deles.

Espero que este prefácio ajude o leitor estrangeiro a compreender melhor quais as forças, quais os interesses e quais os temores que fizeram com que, numa escassa dezena de anos, a Itália se tornasse o país da mentira — e do enigma — para retomar o titulo do célebre livro de Ciliga sobre a Rússia de Estaline [12]. Nesta península berço do capitalismo moderno, sede do papado, centro do cristianismo e do euro-estalinismo, lugar privilegiado de experimentação contra-revolucionária, da Contra-Reforma às atuais ações dos serviços secretos e dos estalinistas, passando-se pelo fascismo —, onde os vestígios das glórias pretéritas atraem tantos visitantes estrangeiros, confluem hoje os dejetos pútridos da decomposição de tudo o que marcou este milênio, e toda a população se acha empestada pelos miasmas fétidos do cristianismo, do capitalismo e do estalinismo em estádio último de infecção, apoiando-se ainda uns aos outros num derradeiro instante perante a iminência ameaçadora da mais moderna das revoluções, encontrando-se todos aqui para levarem a cabo a mais desapiedada e a mais desesperada das repressões, disputando-se todos a propósito de qual o sistema mais eficaz de se condenar a história que os condenou.

Mas quaisquer que sejam as peripécias que nos esperam, a única certeza é a de que os acontecimentos obrigarão o proletariado italiano a fazer suas as palavras de Lucius Junius Brutus: "Juro nec illos nec alium quemquam regnare Romae passurum." [13]

Janeiro de 1980

Gianfranco Sanguinetti


Referências

  1. Designação de cortesia dos parlamentares Italianos (N. do T.)
  2. Em francês no original.
  3. L'estro dell'armonia e dell'Invenzione, título de um conjunto de concertos de Vivaldi.
  4. Dirigente estalinista encarregado dos "problemas de Estado", e portanto do terrorismo (N. do T.).
  5. “Ali ai folia volo, sempre acquistando daifato mancino” (Dante).
  6. Paráfrase de um título de capítulo dos Discursos, de Maquiavel: "Nunca se deverá arriscar toda a nossa fortuna sem se arriscar todas as nossas forças..." (N. do T.).
  7. A posse de documentos subversivos é passível de ser punida com 4 anos de prisão (N.do T.).
  8. Para um italiano esta frase evoca o primeiro artigo da constituição: "A Itália é um a república democrática alicerçada no trabalho" (N. do T.).
  9. "E destarte se atraem agora por recompensas os delatores, a criada pela ruína pública, e a que nem ao castigos conseguem pôr cobro". (N. do T.).
  10. Dirigente e deputado socialista assassinado pelos fascistas.
  11. Siglas de alguns serviços secretos oficiais Italianos (N. do T.).
  12. Paráfrase do título da obra de Ante Ciliga: Dez Anos no País da Mentira Desconcertante (N.do T.).
  13. "Juro que nunca deixarei governar em Roma nem estes nem quaisquer outros" (Livio).
Do Terrorismo e do Estado
Prefácio à edição francesa Do Terrorismo e do Estado/Advertência do Autor

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