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Do Terrorismo e do Estado/Capítulo X — Do Terrorismo e do Estado

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Do Terrorismo e do Estado
Gianfranco Sanguinetti


«"Essas astúcias que sustém o Estado, passes de prestidigitação

Que chamam os profundos desígnios políticos (Como no teatro, o néscio parolo, Não se apercebendo das cordas, Pasma ante uma auréola que voa)... Mas suponham os que em plena representação A máquina, mal montada, se desconjunta, Os cenários entreabrem-se e tudo deixam ver: Logo o truque entra pelos olhos dentro! Como é simples! Que grosseira trapaça Vede pois o nó da polé!... Que pobre máquina aciona Os pensamentos dos monarcas e os planos De que misérias depende a sua Sorte!... Apavorados os campônios fogem , Tremendo ante o Prodígio inaudito...

Ei-lo! Olhai! Como todos se arrepiam e tremem !"»
( Swift, Ode ao Honorabilíssimo Sir William Temple, 1689.)


Todos os atos de terrorismo, todos os atentados que tiveram e têm poder sobre a fantasia dos homens, foram e são ou ações ofensivas ou ações defensivas. Se fazem parte de uma estratégia ofensiva, a experiência há muito demonstrou que estão sempre condenados ao malogro. Se, pelo contrário, fazem parte de uma estratégia defensiva, a experiência mostra que estes atos podem obter algum sucesso, que no entanto é momentâneo e precário. Os atentados dos palestinos e dos irlandeses, por exemplo, são atos de terrorismo ofensivo, enquanto a bomba da Piazza Fontana e o rapto de Aldo Moro são, pelo contrário, atos de terrorismo defensivo.

Contudo não é apenas a estratégia que muda, conforme se tratar de um terrorismo — ofensivo ou defensivo, mas também os estrategos. Os desesperados e os iludidos recorrem ao terrorismo ofensivo; pelo contrário, são sempre e unicamente os Estados que recorrem ao terrorismo defensivo, quer porque se encontram mergulhados numa grave crise social, como o Estado italiano, quer porque a temem como o Estado alemão.

O terrorismo defensivo dos Estados é por eles praticado direta ou indiretamente, com as suas próprias armas ou com as de outrem. Se os Estados recorrerem ao terrorismo direto, o mesmo será dirigido contra a população — como aconteceu, por exemplo, com a carnificina da Piazza Fontana, com a do Italicus, e com a de Brescia. Se, pelo contrário os Estados decidirem recorrer a um terrorismo indireto, este deverá parecer dirigido contra o próprio Estado — como, por exemplo, aconteceu com o caso Moro.

Os atentados diretamente realizados pelos corpos destacados ou pelos serviços paralelos do Estado não são usualmente reivindicados por ninguém, mas são sempre imputados e atribuídos a este ou àquele "culpado" cômodo, como Pinelliou Valpreda. A experiência provou que esse é o ponto mais fraco de um tal terrorismo, o que determina a extrema fragilidade do uso político que do mesmo se pretende fazer. É até a partir dos resultados desta experiência que os estrategos dos serviços paralelos do Estado procuram agora dar uma maior credibilidade, ou pelo menos uma menor inverosimilhança, aos seus próprios atos, quer reivindicando-os por esta ou aquela sigla de um grupo fantasma, quer fazendo-os inclusive reivindicar por um grupo clandestino existente, cujos militantes são aparentemente, e por vezes crêem-no, estranhos aos desígnios do aparelho de Estado.

Todos os grupúsculos terroristas secretos são organizados e dirigidos por uma hierarquia que permanece clandestina para os próprios militantes na clandestinidade, o que reflete perfeitamente a divisão do trabalho e dos papéis própria desta organização social: na cúpula decide-se e na base executa-se. A ideologia e a disciplina militar protegem os verdadeiros chefes de todos os riscos, e a base de toda a suspeita. Qualquer serviço secreto pode inventar uma sigla "revolucionária" e levar a cabo um certo número de atentados, que a imprensa se encarregará de propagandear, e a partir dos quais lhe será fácil formar um pequeno grupo de militantes ingênuos, que dirigirá com a maior das facilidades. No caso de um pequeno grupo terrorista espontaneamente constituído, nada demais fácil no mundo para os corpos destacados do Estado do que nele se infiltrarem e, graças aos meios de que dispõem e à extrema liberdade de manobra de que gozam, de se aproximarem da cúpula original, substituindo-a por elementos seus, quer pelo assassínio dos chefes iniciais, que regra geral se produz quando de um conflito armado com as "forças da ordem", prevenidas de uma tal operação pelos seus elementos infiltrados, quer por determinadas prisões realizadas em altura oportuna.

A partir desse momento, os serviços paralelos do Estado passam a dispor a seu bel-prazer uma organização perfeitamente eficaz, formada de militantes ingênuos ou fanáticos, que não pede outra coisa senão ser dirigida. O pequeno grupo terrorista original, nascido das ilusões dos seus militantes sobre as possibilidades de se levar a cabo uma ofensiva estratégica eficaz, muda de estratégia e nada mais passa a ser senão um apêndice defensivo do Estado, que o manobra com a maior agilidade e a melhor das seguranças, segundo as sua próprias necessidades do momento, ou segundo aquilo que julga ser as suas próprias necessidades.

Da Piazza Fontana ao rapto de Moro, o que mudou foram os objetivos contingentes, que o terrorismo defensivo atingiu, mas aquilo que nunca pode ser alterado por quem se encontra na defensiva é a meta a atingir. E a meta a atingir, desde 12 de dezembro de 1969 a 16 de março de 1978, e ainda hoje, foi sempre a mesma, que é a de fazer crer a toda a população, que já não suporta este Estado ou está em luta contra ele, que ela tem, pelo menos, um inimigo em comum com este Estado, inimigo do qual ela será defendida pelo Estado sob a condição de este não mais ser posto em causa por quem quer que seja. A população, que geralmente é hostil ao terrorismo, e não sem razão, deve assim convir que, pelo menos neste campo, ela carece do Estado, em quem deverá portanto delegar os poderes mais amplos para que ele possa enfrentar com vigor a árdua tarefa da defesa comum contra um inimigo obscuro, misterioso, pérfido, impiedoso, em suma, quimérico. Perante um terrorismo sempre apresentado como o mal absoluto, o mal em si e para si, todos os outros males, bem mais reais, passam para um segundo plano, e devem mesmo ser esquecidos; uma vez que a luta contra o terrorismo coincide com o interesse comum, essa luta torna-se o bem geral e o Estado que generosamente a conduz passa a ser o bem em si e para si. A infinita bondade de Deus não poderia sobressair e ser apreciada como convém se não existisse a malvadez do diabo.

O Estado, enfraquecido em extremo pelos ataques de que quotidianamente é alvo de há dez anos a esta parte, e com a sua economia debilitada, por um lado, devido aos ataques do proletariado e, por outro, devido à incapacidade dos seus gestores, pode assim esconder uma e outra coisas, incumbindo-se solenemente de encenar o espetáculo da sacrossanta defesa comum contra o monstro terrorista e, em nome desta piedosa missão, pode exigir de todos os seus súbditos uma porção suplementar da sua exígua liberdade, porção essa que vai reforçar o controle policial sobre o conjunto da população. "Estamos em guerra", e em guerra contra um inimigo tão poderoso que o mínimo desacordo ou conflito seria um ato de sabotagem e de deserção: o recurso à greve geral só é legítimo quando se protesta contra o terrorismo. O terrorismo, e "a emergência", dum estado de emergência e de "vigilância" perpétuas, eis os únicos problemas existentes, ou pelo menos os únicos de que é permitido e necessário ocuparmo-nos. O resto não existe, ou é esquecido, e em todo o caso silenciado, distanciado, removido para o inconsciente social, perante a gravidade da questão da "ordem pública". E, face ao dever universal da sua defesa, todos são convidados à delação, à baixeza, ao medo: pela primeira vez na história, a covardia torna-se uma virtude sublime, o medo é sempre justificado, e a única "coragem" não desprezível é a de se aprovar e apoiar todas as mentiras, todos os abusos e todas as infâmias do Estado. Como a crise atual não poupa país algum deste planeta, já não existe qualquer fronteira geográfica da paz, da guerra, da liberdade, da verdade: esta fronteira passa pelo próprio interior de cada país, e todos os Estados se armam e declaram guerra à verdade.

Fulano não acredita no poderio oculto dos terroristas? Pois melhor fará em mudar de opinião perante as tão bem filmadas imagens de três terroristas alemães prestes a embarcarem num helicóptero, e que dispõem de tanto poder que a seguir conseguiram mesmo escapar aos serviços secretos alemães, mais hábeis a filmar a sua presa do que a capturá-la.

Beltrano não acredita que cem ou duzentos terroristas são capazes de infligir um golpe mortal às nossas instituições? Pois veja o que cinco ou seis dentre eles foram capazes de fazer, em poucos minutos, a Moro e à sua escolta e admita, portanto, que o perigo que ameaça as instituições (aliás tão amadas por mais de 50 milhões de italianos) é um perigo real e terrível. E se houver ainda alguém que queira afirmar o contrário? É um cúmplice dos comunistas! Todo o mundo convirá assim que o Estado não pode deixar-se abater sem se defender: e, custe o que custar, esta defesa é um dever sagrado e imperativo para cada um de nós. E isto porque a República é pública, o Estado é de todos, cada um de nós é o Estado e o Estado é todos nós, pois todos nós gozam os as vantagens que ele nos proporciona de forma tão igualmente repartida: não será isto a democracia? E por isso o povo é soberano, mas ai dele se não a defender!

Estais convencidos? Ou, depois do caso Moro, ainda credes, pobres cidadãos em maré de crítica, que é ainda e sempre o Estado, como quando da Piazza Fontana, quem organiza os atentados? Ignóbeis suspeitas! A dignidade das instituições sente-se atingida: Zaccagnini chora, até há uma fotografia que mostra isso. Cossiga também chorou, a coisa viu-se mesmo no telejornal, e acabai de uma vez para sempre de acusar de todas as faltas e a propósito de tudo e de nada aqueles que não hesitam em sacrificar a vida de outrem em nome da defesa das nossas mui democráticas instituições. Ou será que ainda credes, pobres cidadãos, que nós os ministros, os generais, os agentes secretos do Antiterrorismo por antífrase estaríamos dispostos, nós em particular, a sacrificar Aldo Moro, esse homem de Estado notável e de sentimentos elevados, esse exemplo de verticalidade moral, nosso amigo, patrão, protetor e, quando isso se mostrou necessário, nosso defensor? [1]

É isto exatamente o que se quereria que os bons cidadãos, que nunca duvidam, que votam sempre, que pagam se não forem ricos e que em todo o caso se calam, pensassem. As suspeitas em relação ao Estado são permitidas quanto ao caso da Piazza Fontana, porque aí as vítimas eram cidadãos comuns, mas de certo também não se pretenderá suspeitar do Estado quando a vítima é o seu mais prestigioso representante! Kennedy, isso já foi há muito.

É só por isso que a agonia de Moro se prolongou tanto tempo, para que todos tivessem a possibilidade de seguir sem pressa o espetáculo completo do rapto, e a discussão simulada sobre a negociação, lendo cartas patéticas e mensagens impiedosas das fantasmagóricas Brigadas Vermelhas, que canalizaram a indignação de gente simples e dos pobres de espírito, dando assim uma tênue verosimilhança a toda a história, e uma razão de se manifestar o psicodramacoletivo, continuando a contemplação e a passividade geral a serem as regras do jogo o que é o mais importante.

Se Moro tivesse sido morto ao mesmo tempo que os seus guarda-costas, na Via Fani, toda a gente teria pensado num ajuste de contas, de que a história está repleta, entre gangs capitalistas e centros de decisão rivais — como efetivamente se passou. Neste caso, a morte de Moro seria considerada exatamente como a de Enrico Mattei[2]. No entanto, ainda ninguém reparou que se hoje qualquer grupo de poder se encontrasse, pelas suas necessidades ou pelos seus interesses próprios, na situação de ter que Eliminar um Enrico Mattei, ou um Kennedy, não o faria, é evidente, como o fez outrora; antes reivindicaria, ou faria reivindicar, de uma maneira segura e com a maior das facilidades, um tal assassínio por este ou aquele pequeno grupo terrorista secreto [3]. Eis a razão pela qual foi necessário encenar todo esse longo seqüestro, salientando ora o seu caráter impiedoso, ora o seu caráter patético, ora a "firmeza" do governo, e quando por fim se considerou que as pessoas já deveriam estar convencidas da sua origem "revolucionária" e da responsabilidade de "extremistas", só então é que os carcereiros de Moro obtiveram a luz verde para dele se desembaraçarem. E tu, Andreotti, que és menos ingênuo do que desenvolto, não me venhas dizer que tudo isto é novidade para ti e, por favor, deixa-te de falsos pudores.

A nuvem de fumo que se lançou sobre este país, no respeitante à questão de se saber se se devia negociar ou não — questão que ainda apaixona os cretinos — , era a parte da trama que melhor deveria resultar e a que, pelo contrário, mais água meteu: foi exatamente nesse aspecto que o caráter artificial de toda a maquinação, acabada de montar — nos bastidores, ressaltou ainda mais do que a encenação do conjunto do drama. A parte que recusava a negociação, ou seja, os dirigentes da DC e do PCI, recusava por saber perfeitamente que a encenação do drama previa o epílogo que efetivamente nos foi dado presenciar, e porque também sabia que, dada a situação, não deveria perder a oportunidade deparecer, una tantum, inflexível a expensas de outrem: e eis porque pudemos admirar Zaccagnini e Cossiga, Berlinguer e Pecchioli discorrendo desavergonhadamente sobre a dignidade das instituições republicanas — aliás já de si tão bem representada pelo atual presidente, Leone [4]. Os chefes da parte que recusava a negociação sabiam, além disso, que não deveriam perder a oportunidade de terem um Moro morto, que nessa altura era bem menos perigoso para eles do que um Moro vivo, pois um amigo morto vale mais do que um inimigo vivo. Com efeito, se, por hipótese, Moro tivesse sido libertado, coisa de resto impossível, os estalinistas e os democratas cristãos sabiam bem que teriam de enfrentar um homem triplamente perigoso, visto encontrar-se reforçado na sua popularidade em virtude da aventura vivida e por ter sido desacreditado de toda a maneira e feitio pelos seus amigos numa altura em que não se podia defender, sendo portanto, e a partir desse momento, um inimigo aberto dos seus amigos e dos seus ex-aliados estalinistas. Assim, e dada a situação, ninguém tem o direito de acusar Andreotti e Berliniguer,pois eles não fizeram mais do que agir consoante os seus próprios interesses; o que em todo o caso se lhes pode imputar é o terem agido tão desajeitadamente, ou seja, de modo a provocarem mais suspeitas e dúvidas do que aplausos pela sua conversão inesperada e súbita a uma inflexibilidade que, não podendo provir quer do seu caráter, quer do seu passado, quer da pretensa intenção de salvaguardar as instituições, que eles, pelas suas ações, escarnecem a todo o momento, deveria forçosamente derivar dos seus inconfessáveis interesses.

Quanto a Berliniguer em particular, não perdeu ele a oportunidade de se mostrar uma vez mais, como se toda a gente ainda não estivesse convencida disso, o homem político mais inepto do século: com efeito, desde o inicio de todo este processo tornou-se claro como cristal que o rapto de Moro era, acima de tudo, um rude golpe contra o "compromisso histórico", vibrado obviamente não pelos extremistas de esquerda — que teriam então raptado Berlinguer para o punir da sua "traição" — mas por um grupo de poder e de interesses que é irracionalmente hostil ao compromisso com os pretensos comunistas. E eu digo irracionalmente, porque uma tal política não pode em caso algum colidir com os interesses do capitalismo, mas é evidente que o diligente Berlinguer não conseguiu convencer disso a totalidade dos setores políticos, dos círculos militares, e dos grupos de poder, não obstante se dedique a esta tarefa, e exclusivamente a ela, há mais de um lustro. Assim, Aldo Moro, há muito designado como o artesão do governo de "unidade nacional", pagou o preço deste seu propósito precisamente quando acabava de conduzir a bom porto a sua nau, "de onde se tira uma regra geral, a qual jamais ou raramente falha: que o que for causa de outrem se tornar poderoso, provoca a sua própria ruína", como diz Maquiavel, e não por acaso, quando fala De principatibus mixtis, pois mista é a atual maioria de governo. Com o desaparecimento de Moro, todos os outros dirigentes políticos defensores de uma "abertura", democratas cristãos ou não, receberam uma advertência: porque os que decidiram e mandaram executar o rapto de Moro demonstraram, por esse próprio fato, que poderiam em qualquer altura fazer ainda pior. Craxi foi o primeiro a compreender isso, mas todos os outros homens políticos também o perceberam. E Berlinguer, em lugar de o denunciar logo de seguida, em vez de admitir o golpe mortal que este rapto vibrava na sua política, preferiu, uma vez mais, calar-se, simular acreditar em todas as versões oficiais, empenhar-se com zelo na caça às bruxas, incitar a população à delação, não se sabe de quem ou de quê, continuando a babular as suas próprias mentiras, apoiando a intransigência democrata cristã, e lançando invectivas contra os extremistas, na ingênua ilusão de acalmar assim os mesmos setores ocultos que haviam executado o rapto de Moro. Mas os estrategos da operação da Via Fani zombavam da boa vontade abstrata de Berlinguer contra a subversão, porque sabiam que ele sabia, e porque também sabiam que, quando se trata de verdadeira subversão, da subversão que é nociva à economia, Berlinguer não dispõe de quaisquer meios para impedir a mais ínfima ação por parte dos operários não enquadrados. Não basta querer acabar com a subversão, Berlinguer, pois é também preciso que demonstres que és capaz de acabar com ela: os louros da vontade abstrata são feitos de folhas secas que nunca foram verdes, imbecil!

Efetivamente, e como todos o puderam observar, o PCI não cessou desde então de sofrer as amargas conseqüências da sua estúpida desonestidade: durante o seqüestro, foi largamente acusado pela imprensa burguesa de ser, em última análise, o seu responsável, por ter alimentado no seio dos seus militantes toda a sorte de ilusões sobre a revolução social, obtendo esses belos resultados; a seguir perdeu as eleições; depois o abjeto Craxi (que já durante o seqüestro se inclinava para o lado dos partidários da negociação, que ele sabia impossível mas que lhe permitia diferenciar-se dos outros) passou à ofensiva, acusando os estalinistas de tudo, mas também mistificando, tudo sob brumosas querelas ideológicas, meros pretextos tanto mais risíveis quanto provenientes de um homem com a sua estatura intelectual e cultural. Mas quem perdeu foi sempre Berlinguer; e o PCI, por não querer ser combatido pelos seus aliados do governo, também desaprendeu a combater; e, acada derrota sofrida, assistia-se à cena razoavelmente cômica de Piccoli e Andreotti a acariciar a nuca de Berlinguer, recomendando-lhe que não desesperasse e, sobretudo, que continuasse assim. E, no entanto, apesar de todos estes malogros, ainda hoje os estalinistas continuam teimosamente a fingir acreditar que Moro foi morto por extremistas de esquerda: pode assim dizer-se que a interminável série de derrotas registrada pelo PCI é verdadeiramente merecida, pois este partido é nulo como "partido de luta" [5], e inexistente como "partido de governo" [6]. O que me parece menos compreensível e mais injustificado do que tudo o resto é o fato de os estalinistas se se lamentarem despudoradamente, apresentando-se sempre como vítimas, sem no entanto nunca esclarecerem de que é que são vítimas — ou seja, por um lado, da sua própria incapacidade e, por outro, das intrigas dos seus inimigos, que são muito menos incapazes e indecisos do que eles, como a operação da Via Fani, entre outras coisas, o testemunha e certifica.

Os partidários de negociação, pelo contrário, sobreviveram à sua derrota, indo buscar alguma força à fraqueza do partido antagônico, e são representados por Craxi, por razões de pura conveniência, e pela Lotta Continua, devido à estupidez extremista que impede até os seus militantes de se aperceberem que são parte integrante do espetáculo que desejavam combater e de que, muito pelo contrário, permanentemente se alimentam. Ao redor deste partido da negociação congregaram-se, naturalmente, muitos intelectuais, cuja perspicácia é conhecida e cuja profundidade de pensamento já não tem que ser demonstrada: a estas características ajunta-se, no presente caso, a mais crassa ignorância da história, de resto ainda menos perdoável em quem tem uma palavra a dizer acerca de tudo e negocia com o seu pretenso saber. Eu explico: o que une antes de mais os burgueses reacionários, as boas almas da burguesia progressista, os intelectuais na moda, os simpatizantes contemplativos da luta armada e os militantes que dela se queixam, é precisamente o fato de suporem que, em relação a Moro, e pela primeira vez em matéria de terrorismo, o Estado não mentiu; portanto, e para toda essa alta roda, o rapto foi obra de revolucionários, a propósito dos quais o lúgubre Toni Negri [7] diz que "subestimamos a sua eficácia... Estamos dispostos a fazer a nossa autocrítica", por termos "subestimado a sua eficácia". Todos são, portanto, vítimas voluntárias ou involuntárias de mais esta mentira do Estado: é certo que os extra-parlamentares e os intelectuais de esquerda admitem que o Estado continua a servir-se do terrorismo, post festum, mas não podem conceber que a ele recorra para assassinar o seu "mais prestigioso" representante. E eis porque falo de ignorância histórica: ninguém conhece, ou pelo menos ninguém se lembrou, da miríade infinita de exemplos em que Estados em crise, e em crise social, eliminaram precisamente os seus representantes de melhor reputação, com a intenção e na esperança de criarem e canalizarem uma indignação geral — mas em geral efêmera — contra os "extremistas" e os descontentes. Para não citar mais do que um dentre mil exemplos históricos, recordarei aqui que os serviços secretos czaristas, a temível Okrana, sentindo com terror, e não sem razão, o advento da Revolução de 1905, mandaram abater, em 28 de Julho de 1904, o próprio ministro do Interior, Plehve, e como isto não lhes parecia suficiente, organizaram pouco depois, a 17 de Fevereiro de 1905, o assassínio do grão duque Sergei, tio do czar, homem muito influente e chefe da circunscrição militar de Moscou.

Os atentados, bem-sucedidos, foram decididos, executados e reivindicados pela "Organização de Combate" dos Socialistas-Revolucionários, à direção da qual acabava de ascender o famoso Azev, um engenheiro na verdade engenhoso e agente da Okrana, em substituição do revolucionário Guerchuni, oportunamente preso algum tempo antes [8].

Cito este único mas admirável exemplo de provocação, pois quinhentas páginas não seriam suficientes para se citar todos os exemplos notórios do último século; escolhi-o também por a Itália de 1978 apresentar uma semelhança vaga mas real com a Rússia de 1904-1905. Em todo o caso é preciso ainda salientar que qualquer poder em dificuldades se assemelha a qualquer outro poder em dificuldades, visto que o seu comportamento e a sua maneira de proceder se assemelham sempre.

A lógica presentemente seguida pelos estrategos deste espetáculo é simples, linear e antiga; desde que não se reconheça com exatidão quais as suas dificuldades reais, e quais as contradições irremediáveis em que se debate esta velha sociedade, os encenadores do espetáculo terrorista apresentam-nos simploriamente as coisas mais contraditórias: o terrorismo de 1978 como a seqüência inevitável das revoltas proletárias de 1977, e a Piazza Fontana como o termo lógico do ardente ano de 1969. Nada poderia ser mais falso! As revoltas de 1977 são a seqüência do Outono quente, e o rapto de Moro é a seqüência da provocação da Piazza Fontana. A história avança por contrações dialéticas, mas o espetáculo, tal como filósofos escolásticos, proclama obtusamente: post hoc, ergo propter hoc, após o fato, logo em conseqüência do fato; a falta é atribuída ao fato. Em 1977, a jovem geração proletária insurgiu-se contra a sua miséria? Pois bem, em 1978 esses mesmos jovens enraivecidos raptaram Moro! E pouco importa que as Brigadas Vermelhas nada tenham a ver com as revoltas de 1977 que, pelo contrário, foram por elas acusadas de "espontaneismo": jovens proletários de 1977 eram subversivos, BVs são constituídas por jovens, logo as BVs são esses elementos subversivos de 1977. De forma alguma, senhores do governo! E vós, oficiais generais dos serviços paralelos, como vos enganais sempre, quereríeis por acaso que toda a gente fizesse como vós? E quem quer que denuncie as vossas provocações é imediatamente acusado de ele mesmo ser um provocador, pois no espetáculo a realidade encontra-se sempre às avessas.

A verdade é que, como em 1977 a vossa poltrona se pôs a tremer sob os vossos cus, senhores do governo, e a terra sob os vossos pés, vós, sim justamente vós passastes à contra-ofensiva, desta vez matando um dos vossos, e precisamente aquele dentre os vossos que vós e os vossos auxiliares secretos considerastes como o mais apto a provocar a indignação popular (ninguém teria pestanejado se Rumi', ou até Pantani, tivesse sido raptado) e também aquele dentre vós que era o mais responsável pelo atual "quadro político" que, com o podeis constatar, não agrada a todos os setores capitalistas que vós e os vossos organismos militares sois chamados a defender. Pode assim dizer-se que Moro foi o homólogo italiano de Allende, e por detrás da acusação de servir os interesses da burguesia e do capital, em lugar dos do proletariado, encontrava-se na verdade, e mal camuflada, a acusação inversa, a de não servir os interesses capitalistas da forma que certos capitalistas o teriam pretendido.

Em 16 de Março de 1978, dia da operação da Via Fani, não pude evitar pensar imediatamente em duas coisas: antes de mais no fato de finalmente os serviços secretos italianos terem sido reorganizados e já se encontrarem um tanto recuperados do caso de 12 de Dezembro de 1969 e das humilhações subseqüentes (e, também aqui, e uma vez mais, a realidade foi invertida pelo espetáculo: com efeito, atribui-se o sucesso do golpe da Via Fani à inexistência de serviços secretos). E, em segundo lugar, pensei nessa passagem do Cândido onde se afirma que "neste país é bom matar-se um almirante de tempos em tempos para assim se encorajar os outros".

Sciascia, que é o mais conhecido dos feitores italianos de Voltaire, não é certamente o mais sutil, pois esquece-se desta passagem e de toda a realidade, e perde-se nesta ou naquela frase dascartas de Moro, sem descobrir, para além desses detalhes, o conjunto dos fatos, conjunto este que nenhum detalhe observado ao microscópio pode indicar ou deixar entrever. E efetivamente ainda hoje Sciascia acredita que Craxi e os outros tinham realmente interesse ou a intenção de negociar com "os revolucionários" e indigna-se, com um estro digno de melhor causa, com a pouca amizade que os amigos de Moro por ele demonstraram, o que é um detalhe insignificante, em vez de reservar a sua indignação para o essencial — quer dizer, para o fato de com esta provocação ter sido enganado não só ele, mas toda a gente, fazendo-se passar leis de polícia, difundindo-se os hipócritas e infames apelos dos intelectuais e do papa contra o "extremismo", condenando-se à prisão perpétua cem inocentes, e por aí fora. Diz-me só isto, Sciascia: que importância pode ter para a história, ou mesmo unicamente para a verdade, o fato de Aldo Moro ter tido, entre outros, o infortúnio de se rodear de "amigos" infiéis e desonestos? Será novidade para alguém o fato de o mundo político romano ser constituído por canalhas e assassinos? Nunca leste, Sciascia, aquilo que o cardeal de Retz, um panfletário mais sutil do que tu, observou há já três séculos, ou seja, que "há muitas pessoas em Roma que se comprazem em assassinar os que se encontram por terra?" Novo Émile Zola, tu não acusas os inimigos de Dreyfus, mas os seus amigos caluniadores, tu não acusas os criminosos e os responsáveis, mas os que cometeram a simples falta de caluniar e desonrar a vítima, post festum, entre os quais abundam também cronistas do Corriere, jornal onde também escreves, e está tudo dito. E se lamentas, Sciascia, o fato de Moro ter tido os amigos que teve, porque não começas tu mesmo a dar um bom exemplo, por exemplo, deixando de confraternizar com o indecente e inqualificável Bernard-Henri Levy?

Mas dos intelectuais já disse o indizível, e é inútil acrescentar-lhe seja o que for.

Quanto aos grupúsculos de pretensões extremistas que se lançaram todos de cabeça em dissertações teológicas sobre a violência e a estratégia do terrorismo "revolucionário", apenas recordarei que a sua compreensão da realidade já deu o que tinha a dar, primeiro, no caso da Piazza Fontana, e em várias ocasiões que se seguiram, como quando aplaudiram o assassínio de Calabresi, sem se alongarem a pensar que o comissário fora eliminado pelos seus próprios patrões, para os quais se tornara embaraçoso (tinha participado na maquinação montada contra Valpreda, no assassínio de Pinelli, e ainda noutra coisa: algumas semanas antes de, por sua vez, ser morto, foi justamente Calabresi quem reconheceu Feltrinelli no cadáver irreconhecível de Segrate, coisa pela qual todos os jornais lhe gabaram a sua "memória, a sua sagacidade", etc., sem nunca algum deles ter levantado a questão de saber se se tratava de memória, de sagacidade ou então de algo totalmente diverso).

Estes extra-parlamentares alienados perdem-se sempre em tudo o que os estalinistas dizem em matéria de terrorismo, pois não sabem que o PCI apenas é capaz de mentir, e a única coisa em que nunca acreditam é na simples verdade: por exemplo, que as BVs são teleguiadas, que Moro foi eliminado pelos serviços paralelos, e que eles são uns cretinos que só servem para serem presos sempre que tal se a figura útil [9].

Os estalinistas, quando a "pista vermelha" da Piazza Fontana se desvaneceu miseravelmente e muito embora não tenham protestado por Valpreda ter permanecido encarcerado durante três anos, tiraram do saco a "pista negra", e eis que os nossos extra-parlamentares adotaram a "pista negra" e lá foram eles também a correr atrás dos estalinistas gritando "o fascismo não passará". Naturalmente, não excluo de forma alguma a possibilidade de este ou aquele fascista ter participado naquele ou naquele ato terrorista, "negro" ou "vermelho": mas esse fato não tem nenhuma importância, porque todos nós sabemos que da mesma forma que o nosso Estado se serve de fascistas notórios, empregando-os como generais, prefeitos, magistrados e comissários de polícia, também deles se serve enquanto agentes secretos, elementos infiltrados e mão-de-obra terrorista — e isto sem que este Estado e este terrorismo possam ser definidos como "fascistas".


Os estalinistas, visto não poderem ser acusados de não saberem o que é e o que não é fascista, nem de serem incapazes de distinguir o que é simplesmente policial do que é fascista, devem portanto ser acusados de haverem mentido quando afirmaram que a provocação da Piazza Fontana era de "estilo fascista" — e de haverem mentindo canhestramente, pois não disseram que "era fascista", mas sim que "era de estilo fascista". O fato de o general Miceli, hoje abertamente fascista, já o ser quando era o chefe do SID não determinou com certeza a sua ação quando dirigia os serviços secretos, pois os serviços secretos recebem ordens e executam o que os políticos determinam. Mas a mentira dos estalinistas em relação ao caso da Piazza Fontana seria canhestra mas não era certamente gratuita, visto quererem ocultar uma coisa que conheciam perfeitamente e também porque eram atacados por operários não enquadrados, e todos se lembram com que violência pretenderam, em 1969, fazer crer no fantasmagórico "perigo fascista", face ao qual poderiam reconstituir a "unidade da classe operária" sob as suas diretivas. Uma semana depois do 12 de dezembro os metalúrgicos do ramo privado, a vanguarda e o setor mais duro do movimento, foram obrigados a renunciar a todas as greves, a partir da anunciada para 19 de dezembro, e a aceitar o contrato imposto pelos sindicatos. Longo e Amendola sabiam bem que se houvessem dito a verdade de chofre, a guerra civil teria começado a 13 de dezembro de 1969, e hoje sabem bem que quem solicita ser convidado para comer a um canto da mesa do Estado, como eles o fizeram, não pode de certo dizer em voz alta que os pratos estão sujos; podem no entanto dizer em voz baixa e secretamente "os pratos estão sujos e nós sabêmo-lo, mas se vocês nos convidarem, não diremos nada a ninguém" o que na realidade se veio a passar.

Assim, e como os estalinistas se calaram em 1969, o "partido de mãos limpas" [10] teve que continuar a calar-se e a mentir acerca de todas as provocações que se seguiram e sobre os assassínios perpetrados pelos serviços secretos deste mesmo Estado de quem eles hoje exigem obter o reconhecimento pela sua omertà, e do qual querem partilhar as migalhas com os democratas cristãos.

Por um longo período, os situacionistas foram os únicos que, na Europa, denunciaram o Estado italiano como sendo o autor e o beneficiário exclusivo do terrorismo artificial moderno e de todo o seu espetáculo. E indicamos aos revolucionários de todos os países que a Itália era como que o laboratório europeu da contra-revolução, o campo de experimentação privilegiado das modernas técnicas policiais — e isto exatamente a partir de 19 de dezembro de 1969, data de publicação do nosso manifesto intitulado O Reichstag Arde [11].

A última frase desse manifesto, "camaradas não vos deixeis ficar pelo caminho", é a única coisa, sem exceção, que foi desmentida pela história: esse movimento parou precisamente nesse dia, e nem poderia ser de outra maneira, pois éram os os únicos a ter plena consciência do que significava a operação da Piazza Fontana e a dizê-lo, não dispondo no entanto de outros meios a não ser uma "poli copiadora roubada" como se esclarecia no manifesto citado [12]. Como diz o povo, "Dá Deus nozes a quem não tem dentes e dentes a quem não tem nozes": pois todos esses corajosos extra-parlamentares de então, dispondo de jornais e de folhas de couve, não dispunham de dentes, e nada publicavam de pertinente sobre esta chacina, ocupados como estavam, e estão ainda, na busca da "estratégia correta" a ser imposta ao proletariado, que para eles só serve para ser dirigido, e ainda por cima por eles!

Devido ao seu incurável complexo de inferioridade em relação à capacidade de mentir do PCI, efetivamente superior à deles, os extra-parlamentares aceitaram pois de imediato a versão dos fatos propalada pelo PCI, segundo a qual as bombas eram de "estilo fascista" e, consequentemente, não podiam ser obra dos serviços secretos deste Estado "democrático", tão democrático que nem sequer se inquieta com o que eles dizem, pois são os únicos a considerá-lo "perigoso" para o espetáculo de que são figurantes mal remunerados mas indispensáveis. A sua falsa explicação dos fatos estava, no entanto, em perfeita sintonia com a verdadeira ideologia desses grupúsculos, nessa altura, apaixonados por Mao, Estaline e Lenine, como hoje o estão por Guattari, Toni Negri e Scalzone, ou pela sua miserável "vida privada" e pelos seus ridículos "bordéis". Esses pretensos "extremistas" tal como não queriam contar a verdade e não sabiam acusar abertamente este Estado de ser o terrorista, também, não sabiam combatê-lo de forma a obter quaisquer resultados palpáveis, pois dizer essa bomba "fascista" era tão falso como dizê-la "anarquista", e todas as mentiras, por mais antagônicas que possam parecer, são sempre solidárias na sabotagem da verdade. E só a verdade é revolucionária, só a verdade é capaz de ser nociva ao poder e só a verdade é capaz de enfurecer estalinistas e burgueses. E o proletariado, sempre enganado e traído por todos, aprendeu a procurar a verdade pelos seus próprios meios, e é impermeável às mentiras, por mais "extremistas" que as mesmas se pretendam. Da mesma forma, e devido à mesma dolosa incapacidade, todos os extra-parlamentares de 1978 caíram alegremente na armadilha do rapto de Moro, "obra de camaradas que se enganam". Mas não vos apercebeis, grandes lorpas, que, também desta vez sois os únicos "camaradas que se enganam"? Porém, o vosso epitáfio, bravos extra-parlamentares, já foi composto por Dante:

Mas vós mordeis a isca tão bem, que o anzol do antigo adversário para ele vos puxa; assim, travar ou retroceder têm pouco efeito.

Vítimas da sua própria falsa consciência, que se exprime sempre na ideologia, os extra-parlamentares não podiam no entanto continuar a fugir às questões levantadas pelo terrorismo em si mesmo, no empíreo da ideologia, de uma forma totalmente metafísica e completamente abstraída da realidade coisas. E quando finalmente se fez luz sobre a verdade da matança da Piazza Fontana, depois de todas as mentiras adotadas a seu respeito se terem desmoronado uma após outra, nem as boas almas da burguesia intelectual-progressista, nem os espantalhos para pardais da Lotta Continua e similares foram capazes de, por uma única vez que fosse, colocar a questão nos seus termos reais, ou seja, escandalosos: que a República democrática não hesitou em perpetrar uma chacina quando tal pareceu útil, porque quando todas as leis do Estado se encontram em perigo, "não existe para o Estado senão uma única e inviolável lei: a sobrevivência do Estado" (Marx). Eis o que na verdade é o famoso "sentido do Estado" que se atribuía a Moro e com qual os filistinos hoje ornamentam o seu cadáver. Em dez anos, ninguém quis desencadear um "caso Dreyfus" sobre o comportamento dos nossos serviços secretos, cujos chefes entravam e saíam da prisão pela surra, na indiferença geral de todos os detentores privilegiados do "sentido do Estado", esse sublime sexto sentido com o qual se encontram dotados os nossos políticos, e que não beneficia o comum do mortais, deficientes nesse campo, com também são agora deficientes, mas de outra forma, as pessoas que se encontravam no Banco da Agricultura e que, não morrendo, apenas ficaram mutiladas. Ou haverá alguém convencido de que este misterioso "sentido do Estado" seja algo de diferente daquilo que aqui assevero ele ser? "Moro possuía o sentido do Estado" e "Berlinguer possui o sentido do Estado": se isto não quer dizer o que afirmo, então trata-se apenas de frases vazias, que eqüivalem a dizer que esta ou aquela rapariga tem "o sentido da boceta" e eu o dos meus colhões, e que Tina Anselmi [13] não faz sentido mesmo que faça sensação.

Uma vez que os extra-parlamentares primeiro não acreditam saber, depois souberam sem acreditar e, por último, acreditaram sem concluir que o próprio Estado inaugurara o terrorismo em Milão, o conjunto do país entrou numa época de aparente loucura e de aparência loucas: toda a questão do terrorismo se tornou objeto de diatribes acadêmicas e de fogosas invectivas, que conduziram uns, burgueses e estalinistas, a condenar hipocritamente o terrorismo, "independentemente da sua cor" — como se não tivessem sido eles quem o encorajara e lhe dera cobertura, atribuindo-lhe em cada ocasião a cor mais conveniente, e outros, os que se imaginavam extremistas a acalentar a idéia de que "se responde ao terrorismo de Estado pelo terrorismo proletário". E eis o que vem mesmo a calhar para os nossos serviços secretos: os primeiros pequenos grupos terroristas clandestinos, as BVs e os NAPs, acabavam de se formar, e a polícia, os carabineiros e os corpos destacados já competiam entre si com vista a serem os primeiros a infiltrar-se nestes pequenos grupos paramilitares, quer para obstar às suas ações, quer para os teleguiar, conforme as necessidades e os desiderata do momento e dos poderosos.

Assim toda a gente pôde ver como os NAP foram radicalmente aniquilados, quer prendendo seus membros para depois os exibir de forma ignóbil neste ou naquele processo, quer diretamente servindo-se dos mesmos como alvo de tiro aos pombos, um espetáculo elaborado em que as forças da ordem se exibiram para o prazer da mais repugnante das burguesias. [14]

Pelo contrário, as coisas não se passaram assim com as Brigadas Vermelhas: conhecem-se apenas dois nomes dos infiltrados nesse grupo, ou seja, Pisetta e o frade cristão Girotto, os quais, muito embora bastante grosseiros como bufos provocadores, foram capazes de fazer com que Curcio e os outros membros do que se concordou em chamar grupo histórico caíssem na armadilha, o que não admira, pois eram todos militantes sem experiência de clandestinidade, e bem pouco ferozes como terroristas. Apesar disso, as BVs nunca foram desmanteladas após terem sido decapitadas, e isto claro, não devido à prudência dos militantes que ficaram em liberdade, que não são menos ingênuos do que os seus chefes que caíram na primeira armadilha que lhes foi armada, mas por decisão dos seus novos chefes. E porque é que o Estado, já em dificuldades por outras razões, deixaria passar esta magnífica oportunidade de ter às suas ordens um organismo terrorista, possuindo uma fisionomia e uma aparência autônomas, bem infiltrado, e tranqüilamente dirigido de longe? Não creio, nem sequer minimamente, que o general Dalla Chiesa seja o gênio guerreiro de que Karl von Clausewitz falava mas leu-o de certo com mais atenção e proveito do que Curcio, e isto sem se levar em linha de conta o fato de possuir maiores meios para pôr à disposição dos seus talentos. O general Dalla Chiesa, assim como todos os seus colegas do SISDE, do SISMI e do GESIS [15], zomba abertamente de todas as proclamações dos ideólogos da luta armada sobre as suas reafirmadas intenções de "levar o ataque até ao coração do Estado", em primeiro lugar porque sabe que o Estado não tem coração, nem mesmo falando metaforicamente, e em segundo porque sabe muito bem, tal como Andreotti e Berlinguer, que o único ataque hoje capaz de provocar a morte deste Estado é exclusivamente o que consiste em denunciar as suas práticas terroristas, e em denunciá-las violentamente — como por exemplo o estou a fazer neste momento.

O general Dalla Chiesa, muito embora seja mais conhecedor da tática do que da estratégia, e ainda que confunda a estratégia com o estratagema, substituindo a arte da guerra pela astúcia, sabe no entanto perfeitamente que o terrorismo é o sucedâneo da guerra numa época em que as grandes guerras mundiais são impossíveis, ou, em todo o caso, já não permitindo mandar chacinar um proletariado por um outro em extenuantes e sanguinárias batalhas. O nosso general e os demais estrategos da alta polícia política também sabem que o terrorismo espetacular é sempre antiproletário, e que é a prossecução da política por outros meios: prossecução, naturalmente, da política antiproletária de todos os Estados. Que este Estado tenha necessidade do terrorismo artificial moderno, encontra-se provado antes de mais pelo fato de ter sido exatamente aqui, em Itália, que o mesmo foi inventado há dez anos — e sabe-se que a burguesia italiana recorre à imaginação para suprir o que lhe falta em capacidade: foi também a burguesia italiana que inventou o fascismo, que a seguir tantos sucessos registrou na Alemanha, em Espanha, em Portugal, etc., isto é, por todo o lado onde foi necessário esmagar uma revolução proletária. E o espetáculo terrorista já obteve um sucesso imediato junto do governo alemão, que não invejando a nossa situação, inveja contudo a nossa imaginação, ou seja, a dos nossos serviços secretos, da mesma forma que nos anos 20 nos invejava Mussolini, essa imaginação que permite que o nosso governo navegue na merda sem nela se afogar.

Que este Estado careça do terrorismo é, por outro lado, um fato de que cada um dos seus representantes está agora perfeitamente convicto, por experiência se não por raciocínio, e isto depois do feliz, imediato e miraculoso desenlace da operação da Piazza Fontana. A prova é a de que se não houve um "caso Dreyfus" a esse respeito, tal não foi certamente devido a esta questão ser menos escandalosa mas sim pelo fato de todos os partidos, por razões diferentes, terem compreendido que se esta bomba salvou o Estado, que cada um deles defende à sua maneira, a verdade sobre a mesma seria só por si capaz de o destruir definitivamente. E, se não houve "caso Dreyfus", isso também se deve ao fato de na nossa intelectualidade domesticada não existir nenhum Émile Zola de serviço que alguma vez tenha reclamado ou querido exigir uma conclusão verídica sobre o que se passou na Piazza Fontana: Giorgio Bocca lança pudicamente em 1970 o seu livro sobre o terrorismo e, quanto aos outros mandarins da cultura, esses sempre preferiram perante as ofuscantes chamas do incêndio do Reichstag, andar em busca de pirilampos sem, evidentemente, os achar nunca, como aconteceu com Pasolini e Sciascia, mas sempre discutindo as responsabilidades da poluição nesta desaparição, e elevando contra ela agudas lamentações, polemicando agradavelmente, sem nunca denunciar a poluição terrorista, de que são todos simultaneamente cúmplices e vítimas.

Gostaria que os serviços paralelos e os generais — que lerão atentamente "Remédio para Tudo", ou, pelo menos, o capítulo que lhes diz respeito — prestassem um pouco de atenção a duas coisas que lhes digo sobre a fragilidade da sua estratégia. Antes de mais repara bem, Dalla Chiesa, no que Clausewitz te ensinou, no capítulo que consagra à astúcia:

«Por muito que se queira imaginar generais... combatendo com dissimulação, com astúcia, com perspicácia, deve no entanto admitir-se que tais qualidades se revelam pouco na história... Não é difícil encontrar-se a razão de tal... na realidade, é perigoso ocupar prolongadamente forças consideráveis com a única finalidade de se enganar o inimigo, pois há sempre o risco de o fazer em pura perda, as mesmas forças vindo depois a faltar no momento decisivo. Esta verdade fria, que deve estar sempre presente no espírito de quem faz a guerra, desvanece nos chefes militares perspicazes todo o desejo de se empenharem no jogo duplo de uma mobilidade enganosa... Em suma, no tabuleiro estratégico as peças não possuem a mobilidade que seria a condição indispensável para que a astúcia e o estratagema fossem bem sucedidos... (a astúcia) não é nociva, a menos que subsista em detrimento de outras qualidades do coração — caso que infelizmente se verifica com grande freqüência.»


A segunda coisa a considerar, a propósito de uma estratégia que se alicerça na provocação, é velha como o mundo: Seneca já observava, e se o cito é porque, sendo o conselheiro de Nero, era sabedor em matéria de terrorismo de Estado e de provocação, que é "mais fácil não nos empenharmos nesta via do que, uma vez empenhados, a abandonarmos". À semelhança das drogas, o terrorismo artificial necessita de e exige ser administrado em doses crescentemente maciças e freqüentes, porque menor parece o mal futuro e o já feito, como diria Dante. Efetuai pois de novo os vossos cálculos, ó políticos e generais, e vereis que estão errados.

Mas se o Estado, como o demonstrei, tem necessidade do terrorismo, também carece de não ser apanhado sempre com a boca na botija, de modo a poder apresentar em seguida o belo rosto que os seus ministros, como Rumor e Tanassi, apresentaram em Catanzaro, e no que só foram igualados pelos generais Malizia, Maletti e Miceli. E que melhor ocasião, para o Estado, do que esta oferecida por um grupo como as BVs, decapitado e disponível, com os seus antigos chefes na prisão e na ignorância de tudo? No entanto observo que, mesmo se os antigos chefes estivessem em liberdade, e dado que dois infiltrados foram suficientes para os fazer cair, um só, menos rudedo que o Irmão Metralheta e do que Pisetta, teria chegado para os levar a fazer aquilo que se queria que eles fizessem, e isso sem que os referidos chefes suspeitassem do que quer que fosse. Bem sei que os infiltrados que se tornaram conhecidos até agora, assim como a maioria dos bufos provocadores em funções, não inventaram a pólvora; mas os nossos militantes clandestinos não são, com o já se viu, mais sutis do que eles. E mesmo que fossem todos Lenines, como se imaginam, seria ainda preciso ter presente que os bolcheviques foram muito infiltrados, e isto por diversas vezes: Roman Malinovski, operário e agente da Okrana, fazia parte do Comitê Central bolchevique, beneficiando da mais cega confiança por parte de Lenine e enviando para a Sibéria centenas de militantes e de dirigentes e, perante uma suspeita que lhe foi transmitida por Bukarine, Lenine respondeu que isso era "indigno de um militante consciente: se persistires, tu é que serás denunciado como traidor", segundo relatou a mulher de Lenine, Nadiejda Krupskaja. Mas Malinovski não foi um caso isolado: investigando em 1917 os arquivos secretos da Okrana, Lenine ficou não sem razão estupefato por descobrir que, dos cinqüenta e cinco provocadores profissionais oficialmente em funções, e regularmente pagos, dezessete trabalhavam no seio dos Socialistas-Revolucionários, e uma boa vintena dividia entre si o controle dos bolcheviques e dos mencheviques, e de certo não ao nível dos militantes de base! E Lenine teve a amarga surpresa de dever constatar que os provocadores eram sempre precisamente os próprios camaradas a quem ele, tão prudente e tão perito em matéria de clandestinidade, outorgava a maior confiança e a maior estima, em virtude dos serviços por eles prestados e da audácia demonstrada em várias ocasiões.

Hoje em dia, essas práticas, que na altura eram consideradas procedimentos altamente sofisticados e muito elaborados da Okrana, não passam de primitivismos: os modernos serviços paralelos do Estado, de qualquer Estado, dispõem de uma multiplicidade de meios, e de personagens de todas as classes e de todas as aparências sociais bem adestradas no manejo das armas e das idéias, muitas vezes bem mais capazes do que os ingênuos militantes, que afinal acabam por pagar as favas. A forma organizacional de partido, sempre hierárquica, é na verdade aquela que melhor se presta à infiltração e à manipulação — exatamente ao contrário do que afirma a imprensa burguesa — todos os núcleos de base, com postos de militantes clandestinos, são mantidos afastados uns dos outros e na ignorância de tudo, sem qualquer possibilidade de diálogo ou de debate, e tudo funciona perfeitamente graças à mais cegadas disciplinas e às oportuníssimas ordens dadas por uma cúpula inacessível, que geralmente se encontra alojada neste ou naquele ministério ou grupo de poder. E se em qualquer altura um provocador levanta suspeitas, acontece sempre que é providencialmente preso, transformado numa grande vedeta pela imprensa, o que o livrado perigo e lava de qualquer suspeição — preparando-o para voltar a entrar em funções, graças a uma incrível e heróica evasão; porém, acontece também freqüentes vezes aos provocadores perderem a pele neste jogo.

Eis pois mais uma razão para eu desaconselhar a todo o subversivo de boa fé a sua integração numa organização hierárquica e clandestina assumindo a forma de partido; a clandestinidade pode ser, em certas condições, uma necessidade, enquanto que qualquer hierarquia beneficia sempre e unicamente este mundo que urge destruir. Nos grupos revolucionários que dispensam a separação entre militantes e dirigentes e que se fundamentam no qualitativo, a infiltração é praticamente impossível, ou é logo descoberta:

«o único limite à participação na democracia total da organização revolucionária é o reconhecimento e a auto-apropriação efetiva, por parte de todos os seus membros, da coerência da sua crítica, coerência que deve ser provada na teoria-crítica propriamente dita e na relação entre esta e a atividade prática»
( Debord)

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Não é novidade que em vários esconderijos das BVs se tenha encontrado abundante material ultra-confidencial, provindo de organismos policiais, de comissariados e mesmo de ministérios — que estranhamente, nunca foram tomados de assalto e saqueados pelas BVs. Colocada perante fatos tão eloqüentes, a informação espetacular pretendeu sem preexplicá-los fazendo ressaltar uma vez mais a pretensa organização ultra-eficaz das terríveis BVs, e acrescentando-lhe, para melhor enquadrar este belo achado publicitário, a hipótese de estes militantes clandestinos, tão procurados mas tão tentaculares, se terem infiltrado por todo o lado, mesmo e nos comissariados. Deixem-me rir perante uma tal explicação de uma realidade tão lúgubre e tão desajeitadamente camuflada. Uma vez mais abusa-se da inteligência de cinqüenta milhões de italianos, que não são alemães prontos a deixarem-se adormecer com o biberão envenenado da televisão, do Corriere e do Unità, e os que atribuem uma tal estupidez ao comum das pessoas não fazem mais do que revelar a sua — que, por ultrapassar em tanto as medidas, já não será de certo tão comum. Uma vez mais o poder fala por contra-verdades: não foram as BVs que se infiltraram nos comissariados e ministérios, mas sim uma caterva de agentes do Estado, que provenientes de comissariados e ministérios, foram propositadamente infiltrados nas BVs, e com certeza não apenas na sua cúpula!

E se durante dez anos a grande luta sem quartel contra o monstro terrorista, luta tão glorificada em palavras, não teve por resultado nada a não ser a hipertrofia deste monstro, se o processo da Piazza Fontana na verdade ainda nem sequer começou, isto deve-se ainda ao fato, não sei se muito cômico ou muito repugnante, de aqueles que sempre estiveram encarregados dessa luta sem quartel serem os mesmos serviços secretos que sempre dirigiram e animaram o terrorismo, e certamente não devido a pretensos desvios ou corrupções mas, muito militar e simplesmente, no cumprimento de ordens recebidas. E todos os militantes que são exibidos ao público em jaulas nos tribunais, como se fossem bestas ferozes, rapazes ingênuos que sequer ver envelhecer em prisões italianas, são sempre, e sem margem para dúvidas, os menos implicados — e isto mesmo que sejam ora designados como chefes, ora como estrategos (nada mais fácil do que fazer acreditar a um ingênuo fanático que tomou efetivamente parte nesta ou naquela operação, só porque se encarregou da colocação do comunicado que a reivindicava).

E os nossos oficiais generais muito se divertem a contar as condecorações e as citações por mérito que colecionam, tanto alimentando o terrorismo, como descobrindo, no momento oportuno, os culpados do mesmo.

Neste fenômeno, que pode suscitar a indignação virtuosa dos hipócritas, não existe na realidade nada de novo, pois há já muitos séculos que o mesmo repete em épocas de corrupção e de decadência de todos os Estados. Salústio, por exemplo, que é o historiador da corrupção e da crise da República de Roma, narra que Lucius Marcius Filippus denunciou Lépido, general traidor, perante o Senado nestes orgulhosos termos:

«Eu quereria sobretudo, ó senadores, ...que os desígnios criminosos se voltassem contra os seus autores. E, pelo contrário, toda a República se acha convulsionada e confundida por provocações sediciosas, e precisamente pela ação dos que deveriam ser os primeiros a impedi-las... e vós, emitindo grunhidos de dúvida e irresolução, confiando nas palavras e nos versetos dos augures, vós desejais a paz em lugar de a defender, não compreendeis que com as vossas flácidas proclamações vos privais de toda a dignidade, e a eles de todo o medo... pois quando se recompensa celerados, não é fácil continuar-se retos em a mínima contra partida... Por conseguinte, não sei se deverei apelidar o vosso comportamento de medo, de baixeza, ou de loucura... E tu, Lépido, traidor a todos...,pretendes restabelecer por uma tal guerra a concórdia que é tornada vã pelo próprio meio através do qual foi obtida. Que impudência!...»


É precisamente isso: a paz social obtida pelo recurso ao terrorismo é tornada vã pelo próprio meio através do qual foi obtida, com a diferençade hoje em dia os impudentes serem todos os deputados da República e todos os oradores que imprecam contra o terrorismo, levando-o assim para o seio dos seus discursos e fingindo ignorar aquilo que todo o país diz desde o famoso ano de 1969. Ouçam um pouco do que afirma Leo Valiani, esse honesto Lépido moderno, que não teve vergonha de lamentar, num Corriere de Julho de 1978, as sentenças muito suaves pronunciadas contra um executante qualquer:

«(estas sentenças) encorajam os subversivos a perseverar, e a ousar cada vez mais. Não pedimos aos juizes — prossegue valentemente Valiani — que condenem quem quer que seja sem estarem, convencidos da sua culpabilidade. Mas quando a República se encontra, como neste momento, confrontada com organizações clandestinas como as que semearam a morte na Piazza Fontana... toda a indulgência em relação a pessoas que tenham militado em tais organizações subversivas é suicida.»


E que indulgência pode ultrapassar, santo nome de Deus, a de Valiani, perito em terrorismo estalinista e burguês, companheiro de viagem destes dois terrorismos e cúmplice de todas as mentiras a seu respeito, que finge ainda ignorar, e é o único em Itália, que a organização clandestina que semeou a morte na Piazza Fontana não é outra senão a do almirante Henke, que nessa altura comandava o famoso SID — o que levou a que, por decência, ou melhor, por indecência, lhe tivessem agora mudado o nome? E quererá continuar-se nestes dez próximos, anos, com as mesmas perorações de Valiani, desta vez a propósito da execução de Moro? Que parlamentar, que honorável safado, dentre os que mutuamente se acusam da sua própria indulgência, falando a torto e a direito da salvaguarda da República, ousou, até o presente, expor-se acusando e nomeando os assassinos de dez anos atrás?

O fato é que, precisamente, a salvaguarda desta República criminosa depende agora só da sua capacidade de continuar a encobrir esses assassinas e os de Moro — bem como os de Calabresi, Occorsio, Coco, Feltrinelli, Pinelli, etc.; e isto os nossos ministros e os nossos honoráveis parlamentares sabem-no muito bem, eles que continuam a calar-se para receberem novas remunerações que vão engrossar as suas já substanciais quota-partes.

O nosso regime, após o grande pavor de 1969, depositou sempre uma imensa confiança na sua alta polícia política, e na sua capacidadede encontrar sempre soluções técnicas e espetaculares para todas as questões históricas e sociais. O nosso regime está pois prestes a cometer o mesmo erro outrora cometido pelo regime czarista, que consagrou toda a sua atenção e todos os seus cuidados à construção da melhor e mais poderosa polícia secreta do mundo, como o foi a Okrana em seu tempo; isso permitiu ao czar ir sobrevivendo dia a dia e sem nada mudar por mais uma década, mas esse adiamento só veio tornar a sua queda mais violenta e mais definitiva. Como dizia um pensador burguês, Benjamin Constant, "só um excesso de despotismo pode prolongar uma situação que tende a dissolver-se, e manter sob uma única dominação classes que tudo conspira para separar... Este remédio, ainda mais nocivo do que o mal, nem por isso tem uma eficácia durável. A ordem natural das coisas vinga-se dos ultrajes que se lhe querem fazer suportar, e quanto mais violenta foi a compressão, tanto mais terrível se mostra a reação."

E em Itália, dez anos de uma tal política de alta polícia começam a fazer-se sentir, inclusive no que diz respeito aos seus efeitos nocivos e incontroláveis: o Estado continua a existir, é certo, com mais autoridade e menos reputação do que nunca, mas os seus verdadeiros adversários multiplicaram-se por todo o lado, a sua consciência cresceu e, com ela, a eficácia e a violência dos seus ataques. Nas épocas em que foi a polícia que fez a política, o que se seguiu foi sempre um desmoronamento total.

Hoje, o sinistro Craxi procura aplausos fáceis fingindo aperceber-se que na Rússia, novidade escandalosa, os delitos de opinião são considerados crimes de Estado; mas não vês, pobre Craxi, que aqui em Itália são os crimes de Estado que são considerados delitos de opinião? Será que isto não é um fato digno da tua virtuosa indignação? Ridículo Craxi! A quem é que tu queres fazer crer que a tua alma é imaculada? Tu que te pavoneias com o teu digno compadre Mitterand, julgas que já foi esquecido que Mitterand é um gangster, e que há poucos anos atrás pagou a outros gangsters para que estessimulassem um ataque contra ele? [16] Ninguém acredita em ti, Craxi, quando proclamas que sine macula enim sum ante thronum! [17] E todos vós, chefes de partido, sois como Mitterand: quando não sois vós a encomendar os atentados, mas sim um rival, calais-vos sempre, e a seguir falais da firmeza do Estado ante as vossas próprias provocações!

Que em Itália os crimes de Estado sejam considerados como simples delitos de opinião, eis o que é provado, para além de tudo o resto, pelo simples preciso fato que se seque: quando, em 1975, sob o pseudônimo de "Censor", publiquei as provas históricas, e não judiciárias, de ter sido o SID quem cometera o massacre da Piazza Fontana, todos os jornais e todos os jornalistas se referiram amplamente às minhas conclusões, mas mostraram-se muito mais escandalizados por uma personagem muito anônima, na aparência vizinha do poder, ousar acusar abertamente o SID, do que por toda a crueza do fato de o Estado ter organizado e feito executar um massacre a fim de sair indemne de uma gravíssima crise social. E o jornalista Massimo Riva exprimiu admiravelmente o pensamento de todos os seus colegas, interrogando-se no Corriere, a propósito do caso "Censor", sobre que misteriosa manobra do poder esse caso prenunciava: "Quem é que está por detrás disso? O medo de dizer publicamente a verdade? Uma advertência entre altas personagens do regime?" Não eram portanto as minhas escandalosas afirmações e conclusões que provocavam o escândalo, mas sim o meu anonimato, ou antes, o espavento criado à volta da identidade de "Censor" não servia senão para camuflar o escândalo do que eu denunciava. Se todos preferiam aventurar obtusas conjecturas sobre a minha identidade, tal não se destinava senão a evitar falar do que eu havia dito. "Uma advertência entre altas personagens do regime?":eis o nó da questão, segundo Riva e os outros, o que fez escândalo foi unicamente o fim da omertà entre os poderosos, e não os crimes cometidos por eles.

Mas o melhor, como de costume, veio de Alberto Ronchey, de quem nada nos deverá espantar a não ser o fato de ele já não conseguir espantar-nos. Ronchey opina, a propósito das minhas provas, que quaisquer que sejam as responsabilidades e intrigas do Sifar-SID e de outros corpos destacados, e apesar disso, no que diz respeito a bombas, a raptos... se se pudesse verdadeiramente acreditar num "terrorismo de Estado", estaríamos em presença de um sistema criminoso de governo, e ninguém quereria ter nada a ver com um tal poder: nem os comunistas, nem os socialistas, nem os outros[18]. O que é inacreditável não é com certeza o terrorismo de Estado, mas sim a forma de raciocinar de Ronchey; como ele próprio, os'comunistas e os socialistas têm algo a ver comum tal governo, logo, segundo Ronchey, isso constitui uma garantia suficiente de que um terrorismo de Estado não é verosímil; logo o mesmo não existe, quaisquer que sejam as responsabilidades e intrigas do SID; para se raciocinar como Ronchey, Deus, pelo contrário, é verosímil, e portanto existe. Quando se discute assim sobre o terrorismo e o Estado, fica-se com a impressão de se ter voltado às polêmicas sobre a existência de Deus e do Diabo. Serão eles verdadeiros? Existirão? E se existirem, serão verosímeis? O poeta diz bem sabiamente que Verdadeiro seria, mas verosímil nunca para quem da sua razão senhor não era.

Não consigo compreender aonde querem chegar os Ronchey com a sua lógica teológica. Eu nunca disse que os serviços secretos estavam por detrás de todos e de cada um dos atentados, uma vez que hoje em dia mesmo um cocktail Molotov ou uma sabotagem de produção são considerados atentados; o que disse, e tenho-o dito vai para dez anos, é que todos os atos terroristas espetaculares são ou teleguiados ou diretamente executados pelos nossos serviços secretos. E repare-se bem que não digo por serviços secretos, podendo pertencer a algum país longínquo ou exótico, mas pelos nossos, sim, pelos da Itália, de que já conheço o toque e o fedor, a habilidade e a falta de jeito, a engenhosidade tática e a estupidez estratégica.

Observem, por exemplo, como é que o SID chegou à operação da Piazza Fontana: por tentativas e aproximações sucessivas. Tinham decidido efetuar um massacre no seio da população, e prepararam-no com dois ensaios gerais: as bombas do 25 de abril na Feira e no banco da estação de Milão, e as bombas em comboios em Agosto do mesmo ano. Os serviços secretos prepararam assim a opinião pública com este background, que também serviu para a preparação técnica dos próprios serviços secretos.

E que ensaios gerais se fizeram para o rapto de Moro? Sim, porque também este rapto teve os seus ensaios gerais, pois os nossos serviços secretos são facilmente assinaláveis, mesmo que mudem de objetivos, pois têm sempre a mesma forma de proceder — coisa que Maquiavel não lhes perdoaria. O rapto, sem efusão de sangue, de De Martino, em 1977, já era um ensaio geral do de Moro: nos seus ensaios gerais, os serviços secretos nunca pretendem fazer correr sangue, pois também ninguém foi morto tanto em 25 de Abril como em Agosto de 1969. No entanto, o ensaio indica sempre o objetivo que virá a ser acometido: em 1969 a população, em 1977/78 um político. No próprio dia do rapto de De Martino, logo reivindicado por uma centena de grupos fantasmas, denunciei-o como um ensaio geral dos serviços secretos num cartaz impresso e difundido em Roma [19]. O segundo ensaio, que indicava bem o objetivo escolhido — ou seja, um homem político — foi a bomba, cuja publicidade foi tão bem assegurada, no gabinete do ministro do Interior da altura, Cossiga. Depois veio o golpe contra Moro e houve efusão de sangue, pois já não se tratava de um ensaio geral.

Sob o impacto das ameaçadoras revoltas dos inícios de 1977, os serviços secretos, que há dez anos estavam de sobreaviso e nunca tinham ficado inativos, começaram a movimentar-se resolutamente numa direção bem precisa; e as duas provocações citadas, que não foram as únicas que se produziram, foram no entanto aquelas que melhor indicaram qual o objetivo escolhido e qual a marcha dos acontecimentos.

Poderá pois dizer-se com segurança que o rapto de Moro era a coisa menos imprevisível do mundo, pois era a coisa menos imprevista no local onde se pode fazer tudo o que se quiser, ou seja, no poder. De início, temia-se que De Martino, amigo dos estalinistas, conseguisse chegar à presidência da República e, fazendo-o desembolsar várias centenas de milhões de liras para reencontrar o filho, destruíram-lhe a reputação de socialista; Moro foi então designado publicamente com o sucessor de Leone, apesar de menos passível de chantagem do que De Martino ou Leone, ou seja, mais perigoso porque mais forte; além disso, Moro era o responsável pelo acordo com os estalinistas e, como presidente da República, outros surgiriam com certeza. Dois e dois fazem quatro, mesmo em política; 16 de Março de 1976: o Presidente deve morrer, para se parodiar o título de um livro de Andreotti.

Seis meses depois da operação da Via Fani, quando a política anti-estalinista de Craxi prestava as suas primeiras provas, Amintore Fanfani, que na Toscânia é cognominado o Ressuscitado, lançava o seu primeiro e vigoroso ataque contra o governo, contra o secretariado da DC, contra o gabinete de emergência, contra a aproximação realizada por Moro denunciando os abusos do unanimismo, a ineficácia do equívoco governo de unidade nacional e anunciando a ultrapassagem de uma época política — obtendo aplausos dos craxistas e suscitando receios por parte dos estalinistas. Muito embora 'Fanfani seja o homem político italiano que, após Berlinguer, averbou um maior número de derrotas, tal não significa que seja um cretino: mais inteligente do que hábil, e menos avisado que engenhoso, o Ressuscitado limitou-se a tirar as conclusões políticas do caso Moro, visto o terrorismo ser a prossecução da política por outros meios.

Enquanto existir um poder separado dos indivíduos, não serão seguramente os indivíduos que lhe faltarão: nenhum funcionário do poder e do capital é insubstituível ou indispensável à manutenção do seu domínio, nem Kennedy, nem Mattei, nem Moro, nem nenhum dos que ainda estão vivos e em funções. Aquilo que, num período perturbado, se torna indispensável a um poder que não quer renovar-se, é justamente a eliminação de certos homens, quer porque estão muito comprometidos e muito queimados, como Rumor, quer porque, desejando uma renovação, por mínima que seja, suscitam alguns temores ou uma certa desconfiança em determinados setores do poder; e sabe-se que os setores mais reacionários são sempre também melhor armados. As aberturas de Moro foram interpretadas como opondo-se a certos inteteresses, e como uma concessão a uma mudança — e isto apesar de, historicamente, estas aberturas tentarem precisamente evitar toda a mudança, mas sem muita convicção e sem garantias suficientes — quer dizer, de uma maneira diferente da preconizada por uma fração do poder e por alguns militares.

Na história, qualquer poder se comporta da mesma forma que se comportaram todos os demais poderes, e à medida que a atual política policial de provocação segue o seu curso, que já demonstrei não poder ser por ela travado, amadurece também para os seus poderosos estrategos, semi-lúcidos e semi-inconscientes, mas completamente dominados pelo pavor, a necessidade de se desembaraçarem, à maneira da Máfia, de certos homens que ainda na véspera lhes eram úteis. Em tudo isto não há nada de novo, e é uma confirmação suplementar de velho princípio segundo o qual o que for causa de um outro se tornar poderoso está a arruinar-se a si mesmo; nem Moro, nem qualquer dos seus colegas impediram nunca a polícia política de, nestes dez anos, se tornar tão poderosa; nenhum protestou contra ou combateu um fenômeno que todos, ao contrário, alimentaram: Moro foi a primeira vítima de certa importância ceifada por uma tal política, mas não foi a única. Os estrategos do terror já se tinham desembaraçado de outras personagens, menos importantes mas não menos utilizadas precedentemente. Temos perante nós alguns exemplos ainda recentes: a liquidação de Calabresi, a morte longínqua e misteriosa do fascista Nardi, acusado do assassínio de Calabresi, o suicídio de um bom número de oficiais do SID, os acidentes mortais de que foram vítimas diversas testemunhas do processo da Piazza Fontana, os atentados espetaculares e simultâneos contra os magistrados Coco e Occorsio, que foram reivindicados, por uma preocupação de simetria sempre presente no espetáculo dos extremismos opostos, pelas BVs e pelos fascistas. Vale a pena observar que estes dois magistrados se tinham ocupado, e não pouco, do terrorismo: Coco havia sido encarregado do caso embrulhado e incongruente do rapto de Sossi [20], e Occorsio da encenação grandiosamente montada contra a besta humana Pietro Valpreda. Naturalmente, toda a informação falseada apresenta sempre como confirmação da versão oficial dos fatos aquilo que justamente a desmente: Coco não cedia às BVs, e por isso elas vingaram-se — não se compreende porque é que, para se vingarem, não mataram o juiz Sossi: faço um refém, e ponho-te entre a espada e a parede: se não cedes à chantagem, é a ti que te mato e não o refém: lógica ilógica, mas lógica espetacular.

Quanto a Occorsio, nos seus derradeiros tempos ocupava-se ele de um inquérito sobre os fascistas, logo estes tinham interesse em matá-lo— mas, por piedade, que ninguém se atreva a suspeitar disso. O fato de Occorsio se ter ocupado por último de fascistas, depois de tanto se ter ocupado de anarquistas, mas com tão maus resultados, deve ter sido em conseqüência de alguém lhe haver sugerido que se ocupasse de fascistas, para em seguida fazer estes reivindicaro seu assassínio, fornecendo-lhe assim uma explicação (já não era possível acusar Valpreda de também ter morto Occorsio: Valpreda é agora um culpado usado, queimado e não utilizável; se amanhã se lesse nos jornais que Valpreda matara a sogra, não haveria em Itália pessoa alguma que o acreditasse).

Os juízes que hoje se afadigam com o caso Moro são as pessoas menos invejáveis de Itália, e devem ter muito cuidado: devem, desde já, preocupar-se em não se afastarem da matéria do seu inquérito e em não desagradarem a certos setores do poder; depois, deverão estar sempre atentos a tudo, pois o Estado não quererá deixar escapar qualquer oportunidade de se desembaraçar deles, sendo fácil às BVs reivindicar em seguida a sua morte, que dessa forma seria explicada à opinião pública. E presentemente em Itália tudo o que pode ser explicado também está justificado — e mesmo que a explicação seja abusiva, torna-se, dado que ninguém a rebate, uma explicação sem apelo nem agravo, uma mentira que já não é desmentida jamais o poderá ser. Se é possível desmentí-la, ela não é desmentida, se é desmentida, não é verosímil e se não é verosímil, não existe — para falar como Ronchey. Poucas coisas, dentre as que Orwell previra no 1984, ainda não se verificaram; leiam, por exemplo, a seguinte passagem:

"Ela era, sob certos aspectos, muito mais sutil do que Winston e muito menos permeável à propaganda do Partido. Um dia, tendo ele, por acaso, feito uma alusão qualquer à Guerra..., ela surpreendeu-o dizendo com desenvoltura que em sua opinião ‘não havia guerra e que era muito provável que as bombas e mísseis, que diariamente caíam sobre Londres, fossem lançados pelo próprio governo só para manter a população num estado de terror’. Esta era uma idéia na qual ele literalmente nunca havia pensado..."

Alguns extra-parlamentares, perdidos por detrás das suas pueris ilusões e da teologia fetichista da luta armada, poderiam pretender objetar que, assim como eles crêem na luta armada, muitos outros, mais extremistas do que eles, poderiam efetivamente praticá-la e ser responsáveis por tudo, inclusive pelo rapto de Moro. Quero observar aqui que nunca duvidei, nem em público, nem em privado, da imbecilidade da globalidade dos nossos extra-parlamentares; no entanto, será bom salientar que, no que lhes diz respeito, nunca põem em dúvida o que o espetáculo conta sobre si próprio e sobre eles. Prestai apenas atenção a isto, bravos militantes alienados: se Moro tivesse sido efetivamente raptado e morto, como vós o credes, por revolucionários livres e autônomos como vos contou o Estado, daí se poderia concluir também que, pela primeira vez em dez anos, o Estado não mentia em matéria de terrorismo, o que, sendo inaudito e absurdo, é de excluir.

A triste verdade é a de, muito ao contrário, vós terdes sempre acreditado em todas as mentiras passadas, sobre Valpreda, sobre Feltrinelli, sobre as BVs, e por aí fora; até o jornal oficial dos anarquistas, Umanità Nova, se apressou a precaver-se, após os acontecimentos da Piazza Fontana, dissociando as suas responsabilidades das de Valpreda — dando assim provas de uma coragem à altura da sua inteligência.

Inúmeros militantes de extrema-esquerda acham-se muito perspicazes por terem compreendido que Pinelli não saltou pelos seus próprios meios do quarto andar do Comissariado Central, mas jamais conseguirão bater este record de perspicácia, pois, pouco tempo depois, aplaudiram os nossos serviços secretos quando estes liquidaram o comissário Calabresi. A nossa burguesia e os estalinistas, que já deram tantas provas da sua incapacidade, têm assim boas razões para se consolarem, considerando a estupidez dos seus pretensos adversários extremistas, que de certa maneira compensa a sua, mesmo que a não anule. E com efeito, nunca em dez anos, nenhum grupúsculo extra-parlamentar conseguiu ser minimamente nocivo para este Estado pois nenhum foi capaz de favorecer de qualquer forma as lutas práticas dos operários não enquadrados, e ainda menos de contribuir para o progresso da consciência teórica.

Impotentes e desajeitados, os militantes acusam hoje o Estado de ser moralmente responsável pela morte de Moro por não o ter salvo, e não por o ter morto, da mesm a forma que em 1970 o acusavam de responsabilidade moral do massacre da Piazza Fontana, não certamente por o ter ordenado, mas por não ter ordenado a prisão de alguns fascistas implicados nesse caso, pelo menos no plano jurídico. Estes políticos que se comprazem em imitar os gestos de políticos mais refinados do que eles, continuam a ignorar que a moral nada tem a ver com a política, relacionando-se antes com a ideologia justificativa de uma política, quer dizer, com todas as mentiras de que normalmente todas as políticas necessitam. Eis a razão pela qual eles falam sempre e apenas da responsabilidade moral do Estado, tornando-se assim co-responsáveis de todas as suas mentiras.

Mas tentemos por alguns instantes considerar a hipótese inverosímil de o rapto de Moro ter sido organizado e executado por subversivos. Neste caso haveria algumas questões a pôr, que são justamente as únicas que os militantes contemplativos nunca levantaram, ocupados como estão em admirar tudo aquilo de que não são capazes, ou em discordar de tudo aquilo em que não participam ou seja, tudo.

Antes de mais, seria necessário perguntar como é possível que em dois meses os subversivos não tenham sido capazes de acusar Moro de nada senão de servir os interesses da burguesia em vez dos do proletariado como se tal fosse uma particularidade de Moro, como se no Parlamento não houvesse nenhum outro culpado deste crime. O absurdo de semelhante acusação torna-a perfeitatamente incrível: Aldo Moro nunca pretendeu, ao contrário dos estalinistas e dos extra-parlamentares, fazer crer que defendia os interesses dos operários. Acusá-lo de um tal crime é a mesma coisa que acusar os ricos de não serem pobres, ou um inimigo de não ser nosso aliado. Se estes hipotéticos subversivos montaram o processo de Moro para formular uma tal acusação, mais valia terem poupado esforços matando-o na Via Fani ao mesmo tempo que os seus guarda-costas. Mas, como já o disse, por detrás desta acusação encontra-se a acusação contrária: na verdade os raptores de Moro acusavam-no de não servir satisfatoriamente os interesses da burguesia, e não, claro, de os servir em demasia.

Por outro lado, a desajeitada paródia de justiça proletária, canhestramente encenada pelos carcereiros de Moro, nem sequer tentou fazê-lo confessar a verdade sobre o massacre da Piazza Fontana, nem sobre cem outros fatos igualmente escandalosos, de que todo o homem de poder tem normal conhecimento, e que seriam altamente instrutivos para o proletariado. A propósito disso, é preciso observar que se Moro, numa das suas primeiras cartas, temia ter de falar de verdades desagradáveis e perigosas, tal não pareceu de forma alguma inquietar o governo, o que mostra que os nossos ministros não temiam nada disso, porque sabiam que não tinham nada a temer. Nas suas proclamações, os raptores de Moro nunca souberam nem quiseram dirigir-se aos operários, aos quais nunca disseram nada de interessante depois de terem afirmado com firmeza, logo após o rapto, que nada seria escondido ao povo, os carcereiros de Moro iniciaram imediatamente, por seu intermédio, uma longa correspondência secreta com todos os homens de poder da DC, para quem este golpe era uma advertência, e o seqüestro iria durar até todos se mostrarem convencidos: a primeira prova que deveriam dar do fato de estarem convencidos era justamente a de não negociar, e com efeito todos se apressaram a dá-la. As condições para a libertação do refém, que se efetuaria, oficialmente, se o Estado tivesse acertado libertar uma quinzena de militantes encarcerados, pareciam ser estabelecidas mesmo para não serem aceites, não de certo por serem inaceitáveis, mas porque, não interessando a nenhum setor do proletariado, não podiam pretender o apoio de qualquer movimento de luta espontâneo ou apenas violento a surgir no país — movimento que aliás os carcereiros de Moro nem sequer se propunham suscitar. Mas o ponto em que os raptores traíram a sua identidade de agentes do poder, e de forma assaz desajeitada, consistiu no seu vivo desejo de serem oficialmente reconhecidos por todos os poderes constituídos, do PCI à DC, e do Papa a Waldheim: este fato, só por si, prova admiravelmente que não só os raptores reconheciam a legitimidade de todos os poderes, mas que também se preocupavam em serem reconhecidos apenas por eles, e não pelo proletariado. Por sua parte, os dirigentes dos partidos também se descoseram ao admitir que este rapto tinha por objetivo dividir as forças políticas do governo, acrescentando a seguir que quanto a isso o mesmo teria fracassado, quando exatamente nisso é que o rapto foi bem sucedido: os democratas cristãos e os craxistas depressa compreenderam que deveriam separar-se, suave mas resolutamente, dos estalinistas; se os carcereiros de Moro fossem subversivos, uma tal divisão não os interessaria por certo, pois todo o subversivo sabe que a única divisão susceptível de criar a desordem é a que se deve efetuar entre exploradores e explorados — e nunca entre os diferentes partidos que no espetáculo representam tão só as diferentes forças que se empenham em perpetuar a mesma exploração, apenas mudando os seus beneficiários. Por último, se os raptores de Moro fossem subversivos, também não teriam perdido a oportunidade de o libertarem, pois Moro, caluniado por todos os seus amigos e traído pelos seus aliados da véspera, teria combatidoabertamente todos os que até à altura protegera. Ao contrário, matando-o, os organizadores do golpe da Via Fani oportunamente livraram deembaraços todos os poderes, e em particular a DC, para a qual Moro era útil morto, mas muito nocivo vivo.

Em todo o caso, se os raptores de Moro fossem subversivos, não teriam certam enteescolhido com o objetivo de negociação a liberdadede Curcio e dos outros, dando ao poder umexcelente pretexto de os m andar passear e de não«perder a honra»: se eles tivessem optado poravançar reivindicações inaceitáveis, deveriam ter exigido algo de totalmente diverso da libertação deapenas quinze detidos — e os que avançam comreivindicações inaceitáveis mantêm-se sempreatentos a que as mesmas não sejam tambémfacilm ente recusáveis, como o era a da libertaçãode alguns brigadistas. Mas os raptores de Moronão pretendiam na verdade aquilo queoficialm ente exigiam , pois aquilo que pretendiam ,sabiam não o poder exigir abertam ente, sob penade se desmascararem e hoje, já o obtiveram. Epouco antes dos raptores de Moro se teremdesembaraçado dele, todos os termos reais dechantagem se tinham invertido em relação aostermos espetaculares e oficiais da chantagem àDC; e os termos reais tinham passado a ser osseguintes: ou m udam de política, ou libertarem osMoro, e verão que será ele a mudar de política.Estando as coisas neste pé, os dirigentesdemocratas cristãos e «socialistas» sabiamentepreferiram eles, a m udar de política emdetrimento de Moro, de preferência a correrem orisco de ser Moro quem a mudasse, mas em seudetrimento. Assim vai o mundo, apesar de todosos batimentos de asas dos gansos do Capitólioque pretendem o contrário.

Toldos os nossos incapazes extra-parlamentares, deslumbrados como primitivos pelo sucesso técnico do golpe da Via Fani, não foram capazes de enxergar para além disso, considerando que quem dispunha de tantos meios e capacidades táticas certamente não as poria ao serviço de uma estratégia tão pobre e insensata como a que se quis atribuir às BVs, antes optando por servir desígnios políticos de maior envergadura. Mas os extra-parlamentares, confrontados com a eficácia operacional demonstrada na Via Fani e no que se seguiu, preferiram naturalmente atribui-la a camaradas que se enganam e não a inimigos que não se enganam e que, tranqüilamente, os enrabam a todos. Também neste caso, os nossos esquerdistas tomaram os seus desejos pela realidade, sem suspeitarem que a realidade ultrapassa sempre os seus desejos, mas não da maneira que eles desejariam. E se fossem menos ignorantes, não negligenciariam tanto, e erradamente, as capacidades dos serviços paralelos italianos: saberiam, por exemplo, que as únicas operações de guerra, de fato bem sucedidas, levadas a cabo pela Itália na última Guerra Mundial, foram operações de comandos executadas pela Marinha. Parece-me supérfluo recordar como esta brilhante tradição se transmitiu admiravelmente da Marinha de guerra aos serviços secretos, dirigidos nos seus primórdios pelo almirante Henke, que nunca foi um imbecil, e depois pelo almirante Casardi, que é ainda mais capaz — com o interregno ignominioso de um general tão pouco hábil como Vito Miceli, que com efeito veio a sucumbir à sua própria incapacidade e à prudência de Andreotti, que não tardou a aperceber-se dela. Com efeito, Andreotti não mandou prender o general Miceli por este haver sido responsável dos desvios do SID — que tinham começado muito antes, como Andreotti bem o sabia, mas precisamente porque Miceli arriscava, pela sua falta de tato, fazer saltar a tampa da grande marmita dos serviços secretos. E Andreotti mostrou-se de novo um político mais sutil do que aquilo que gostaria de dar a entender, apresentando depois seu ataque a Miceli como uma preocupação de fidelidade constitucional, ganhando assim as esperadas simpatias por parte da esquerda. O único erro de Andreotti, como de costume, foi um erro de falsa modéstia e de vaidade, pois rejubilou demasiado após a prisão de Miceli, simulando exageradamente uma ingenuidade que não possui e declarando por várias vezes que, por prudência, nunca tinha querido imiscuir-se nos serviços secretos: declaração escandalosa para um chefe de governo, mas necessária para alguém que, tendo-se imiscuído até demais, vira coisas que era melhor calar [21], mas coisas tão escandalosas a ponto de não ser possível calá-las, a não ser fingindo não desconhecê-las. E Andreotti sabe bem que o escândalo da ignorância é o preço que ele deve pagar para fingir a ignorância de certos escândalos. O que no entanto remanesce é o cômico desta fábula em que a raposa se mascara de cordeiro para melhor ser recebida no seio dos lobos.

Cumpre assinalar que, para além dos almirantes, há em Itália excelentes oficiais superiores de Carabineiros, pois não são todos como Miceli ou La Bruna, e só os Miceli e os LaBruna é que se deixam apanhar em armadilhas. Por outro lado, há um argumento mais profundo e mais dialético em favor da direção dos nossos serviços secretos: se esta época exige que certos homens pratiquem o terrorismo, também é capaz de criar os homens de quem o terrorismo necessita. E não se acredite que a operação da Via Fani foi uma obra prima sobre-humana de capacidade operacional: ainda há pouco o próprio Idi Amin Dada podia permitir-se certos sucessos técnicos, de que os pobres militantes da Lotta Continua não cessarão de se espantar.

Muito menos ingênuos do que os extra-parlamentares, um grande número de operários, que eu encontrei nas situações mais diversas, haviam concluído imediatamente que Aldo Moro, foram eles que o raptaram, o eles significando naturalmente os que detêm o poder. E pensar que tais operários ainda ontem votavam, e geralmente votavam no PCI!

A clivagem doravante irreparável que existe no país entre os que têm a palavra, os políticos, os poderosos e todos os seus lacaios, jornalistas ou outros, por um lado, e os que se encontram privados da palavra, por outro, exprime-se perfeitamente no fato de os primeiros, distanciados do comum das pessoas e protegidos pela barreira dos seus guarda-costas, já não saberem o que dizem e pensam os segundos na rua, no restaurante e nos seus locais de trabalho. E assim, as mentiras do poder alcançaram o plano tangencial, entrando numa espécie de órbita autônoma sob a ação da força centrífuga, órbita que já nada tem a ver com o país, no qual a verdade pode portanto desbravar o seu caminho com ainda mais facilidade na medida em que nenhum obstáculo a intimida ou embaraça. Ao contrário, o espetáculo tornou-se autista, ou seja, foi acometido por esse síndrome da psicopatologia esquizofrênica no qual as idéias e as ações do doente deixam de poder ser modificadas pela realidade, da qual está irremediavelmente separado, sendo compelido a viver no seu próprio mundo fora do mundo. O espetáculo, como o Rei Édipo, arrancou os olhos, e prossegue cegamente o seu delírio terrorista: como o Rei Édipo, já não quer ver a realidade e, como o presidente Andreotti, diz não querer saber nada dos serviços secretos, proclamando mesmo que tais serviços foram desmantelados e não existem há anos. Se como o Rei Édipo, o espetáculo já não quer contemplar a realidade, isso deve-se a ele apenas querer ser visto, contemplado, admirado e aceito por aquilo que pretende ser. Quer portanto ser ouvido, sem no entanto ouvir, e já nem se inquieta muito por não ser ouvido: o que parece importar mais ao espetáculo é prosseguir sem quebranto a sua paranóica jornada. No próprio momento em que é a polícia que pretende moldar a história, qualquer fato histórico é explicado pelo poder de forma policial. O investigador húngaro em psiquiatria Joseph Gabel diz que, segundo aquilo que define a concepção policial da história, a história já não é constituída pelo conjunto das forças objetivas, mas pela boa ou má ação individual em que cada acontecimento é colocado sob signo do milagre ou da catástrofe: a interpretação do acontecimento já não consiste na sua explicação histórica, mas deriva da magia vermelha ou negra. Assim, para o poder, a bomba da Piazza Fontana foi o milagre que permitiu que os sindicatos renunciassem a toda a greve e que o Estado evitasse a guerra civil: a morte de Moro, pelo contrário, anunciava um a misteriosa catástrofe que graças à habilidade e à inflexibilidade dos nossos políticos, nos foi evitada. E não tem nenhuma importância que um grande número de pessoas da plebe —para empregar uma feliz expressão do estalinista Amendola — tenha dito, como eu milhares de vezes ouvi, que "a mim, se eles matarem Moro, isso não me interessará minimamente: é um assunto que lhes diz respeito a eles". "O país resistiu, e soube reagir": conversa balofa. A única reação deste país mitológico foi a de, muito avisadamente, não acreditar em nada de tudo o que lhe contaram.

Paralelamente às explicações catastróficas ou miraculosas da história, o espetáculo atinge o ponto de já não saber sobre quem é exercido o seu domínio, deixando de abarcar a realidade e os pensamentos que deve urgentemente subjugar; e, como dizia Maquiavel, "onde menos se sabe, mais se suspeita": toda a população e, em particular, todos os jovens, tornam-se suspeitos aos olhos do poder. Ao mesmo tempo, e assim como o terrorismo artificial pretende ser o único fenômeno real, também todas as revoltas espontâneas, à semelhança das de Roma e Bolonha em 1977, se tornam, segundo esta concepção policial da história, conspirações artificialmente tramadas e manipuladas por forças ocultas, mas bem identificáveis como ainda hoje sustentam os estalinistas. Tudo o que o poder não prevê, por não o organizar, torna-se assim uma conspiração contra ele; inversamente, o terrorismo artificial, sendo organizado e dirigido pelos donos do espetáculo, é um fenômeno real e espontâneo que os mesmos donos simulam continuamente combater, pela simples razão de que é mais fácil defender-se de um inimigo simulado do que de um inimigo real. E a este inimigo real, o proletariado, bem desejaria o poder recusar-lhe o estatuto de inimigo: se os operários se pronunciam contra este terrorismo de mente, isso quer dizer que os mesmos estão com o Estado; se os operários se pronunciam contra o Estado, isso quer dizer que são terroristas, ou seja, inimigos do bem comum, inimigos públicos. E contra um inimigo público, tudo é permitido, tudo é autorizado.

Gabel afirma ainda que a concepção policial da história representa a forma mais extrema da alienação política...: o acontecimento desfavorável apenas se explica pela ação externa (a conspiração) e sentido (pelo doente) como uma catástrofe inesperada, imerecida. E destarte qualquer greve expontânea torna-se uma injúria à "classe operária", tão bem representada pelos sindicatos, e qualquer luta não enquadrada é provocadora, corporativa, injusta e imerecida. Tudo isto encaixa perfeitamente no quadro clínico da esquizofrenia autista: a sindrome da ação externa... é a expressão clínica da irrupção da dialética num mundo coisificado que não pode admitir o acontecimento a não ser como catástrofe" (J. Gabel, "A Falsa Consciência"). A irrupção da dialética não é senão irrupção da luta num mundo coisificado, que é mais exato chamar mundo espetacular-mercantil, que não pode admitir a luta, nem sequer na esfera do pensamento. Assim, esta sociedade espetacular já nem é tão pouco capaz de pensamento, qualquer pessoa que raciocine logicamente, por exemplo, não aceita a identidade entre duas coisas a não ser com base na identidade dos sujeitos; ao contrário, o espetáculo, que é paralógico, estabelece a identidade com base na identidade dos atributos, e diz isto: "o diabo é negro, o negro é diabo", ou "o judeu é mau, o mau é o judeu", como ainda "o terrorismo é catastrófico, a catástrofe é terrorismo". Com exceção do terrorismo, tudo o resto bem iria; infelizmente temos este terrorismo o que é que se há de fazer?

Enquanto eu digo "um polícia deve ter o cadastro judicial virgem, Mario Bianchi é polícia, logo tem um cadastro judicial virgem", um esquizofrênico, esse dirá "Mario Bianchi tem um cadastro judicial virgem, logo é um polícia". É assim que o espetáculo, acometido de autismo, discorre: "Os que raptaram Moro são terroristas, as BVs são terroristas, logo Moro foi raptado pelas BVs". Nenhuma identificação é demasiado abusiva para o espetáculo, a não ser uma, que é a única a não o ser, ei-la: o Estado proclama já há vários anos que combate as BVs, infiltrou-as por várias vezes sem nunca as tentar desmantelar, logo o Estado serve-se das BVs como uma fachada, pois as BVs são úteis a este Estado, logo BVs = Estado. Que o poder teme acima de tudo tal identificação, isso confessou-o de mil maneiras, como por exemplo quando inventou este slogan neurótico e infeliz: "ou com o Estado, ou com as BVs", o que eqüivale a dizer "ou comigo, ou então comigo".

Muito antes da ascensão do espetáculo, já a religião, que sempre foi um protótipo de ideologia funcional para todos os antigos poderes, havia inventado o diabo, primeiro e supremo bufo provocador, que deveria assegurar o triunfo mais completo do reino de Deus: a religião limitava-se a projetar no mundo metafísico a simples necessidade de qualquer poder concreto e real. Assim, Cícero tinha necessidade de amplificar o risco constituído por Catilina para engrandecer a sua própria glória de salvador da pátria, de forma a multiplicar os seus próprios abusos. O ser varrido da história é a única verdadeira catástrofe para todos os poderes; e cada poder, uma vez enfraquecido e sentindo a iminência dessa verdadeira catástrofe, tentou sempre consolidar-se, simulando estar empenhado numa luta desigual contra um adversário comodozinho: mas uma tal luta também foi sempre a última oração pro domo sua pronunciada por esse poder. A história está repleta de exemplos similares.

"Tal como o escândalo é necessário para a maior glória de Deus," — dizia Paul-Louis Courier — "também o são as conspirações para a manutenção da alta polícia. Concebê-las, asfixiá-las, fabricar conluios, descobri-los, tal é a grande arte do Ministério; eis o supra-sumo da ciência dos homens de Estado, a política transcendental recentemente aperfeiçoada entre nós e que a invídia inglesa quer imitar, e falsifica grosseiramente... Os ministros, desde que se saiba o que querem fazer, já não o podem ou querem fazer. Política conhecida, política falida: negócios de Estado, segredos de Estado... A decência é de rigor num governo constitucional." [22]

Courier exprimia-se assim em 1820, em plena Restauração; hoje em dia, temendo-se uma nova e mais temível revolução, utilizam-se as mesmas práticas de outrora, numa escala muito maior, para se obter uma restauração preventiva. A política transcendental de outrora é a política imanente do espetáculo, o qual se apresenta sempre, como Dante dizia de Deus, como o adversário de todos os males e, portanto, tudo o que se opõe ao espetáculo é o mal, segundo a sua lógica autista. E perante esta impiedosa restauração preventiva, perante esta infame série de provocações, de chacinas, de assassínios e de mentiras que procuram camuflar uma realidade clara como o cristal, perante tudo isto, eis que se multiplicam os estudos sociológicos sobre o terrorismo, e eis todos os jornalistas submissos e progressistas que, prezando mais a sua segurança do que a realidade do fatos, rivalizam na expressão de uma certa simpatia pela luta armada e pela clandestinidade, como alanceava o inqualificável Giorgio Bocca, sob o pretexto de isso lhe recordar a sua luta épica na Resistência. Homens como Bocca estão, por assim dizer, legitimados quando, sob o império do pavor, declaram sentir simpatia por este terrorismo, visto ganharem quatro ou cinco milhões por mês e sentirem que este terrorismo lhes garante que isso continuará a acontecer. Mas quem nada possui é enganado por estes homens, que mentem sempre, no intuito de realizarem mais facilmente as suas torpezas a cavalo nos outros: as pessoas como tu, Bocca, não se matam pois isso seria prestar-lhes demasiadas honras! Ninguém te quer ver morrer, mas, pela minha parte, podes ter a certeza que, se um dia te encontrar na rua, te ensinarei a viver, meu conas.

E agora é o advogado Giannino Guiso que nos narra as sublimidades ideológicas de Curcio, e o sociólogo Sabino Acquaviva que se desdobra em explicações grandiloqüentes sobre o terrorismo, enquanto esse pedante do Scialoja, jornalista do Espresso, disserta pretensiosamente sobre as estratégias da luta armada, todos fingindo estar a par dos negócios secretos da revolução social, e todos procurando emprestar credibilidade ao terrorismo artificial com o prelúdio da revolução: 'Vosso espanto será grande quando entenderdes que de nada em absoluto nos convenceste [23].

Apenas tenho uma coisa a dizer-vos, respeitados mistificadores: ao contrário de vós, conheci bem, durante estes treze últimos anos, uma grande parte dos revolucionários da Europa— também conhecidos de todas as polícias — que mais contribuíram, pela teoria e pela prática, para a redução do capitalismo às suas atuais condições: pois bem, nenhum deles, sem qualquer exceção, alguma vez praticou e ainda menos aplaudiu o terrorismo espetacular moderno — o que aliás me parece evidente. Não existem assuntos secretos da revolução: tudo o que hoje é secreto pertence ao poder, ou à contra-revolução. E isto, todas as polícias o sabem perfeitamente.

Mas convém que desde já fiqueis com a consciência tranqüila quanto a um ponto, senhores do governo: enquanto o vosso Estado existir, e eu for vivo, nunca deixarei de denunciar o terrorismo dos vossos serviços paralelos, custe o que custar, pois esse é precisamente o principal interesse do proletariado e da revolução social, neste momento e neste país. E isto justamente porque, como dizia Courier, política conhecida, política falida. E se este Estado criminoso quiser continuar a mentir, a matar e a provocar toda a população, será de hoje em diante obrigado a renunciar à sua máscara democrática, agindo em seu próprio nome contra os operários, e abandonando o atual espetáculo cômico em que se exibem os serviços paralelos, que vão acalentando as ilusões de alguns militantes ingênuos sobre a luta armada a fim de poderem tornar verosímeis as suas provocações, para em seguida lançarem na prisão centenas de pessoas, enquanto os nossos polícias, aguardando o advento da guerra civil, se vão exercitando no tiro aos pombos.

A partir de 1969, o espetáculo, para que se continuasse a acreditar nele, teve de atribuir aos seus inimigos ações incríveis e, para ainda ser aceite, teve de assacar aos proletários ações inaceitáveis, e assegurar-lhes seguidamente uma publicidade suficiente para que as pessoas que se deixam aterrorizar escolhessem sempre o menor dos males, ou seja, o presente estado de coisas. Quando os verdadeiros chefes das BVs ordenaram que se atirasse às pernas de pessoas desarmadas, algo mais próprio da covardia policial do que da coragem revolucionária, quando os verdadeiros chefes das BVs ordenaram tais atentados contra dirigentes industriais de segundo plano, sabiam bem o que pretendiam: atemorizar esta fração da burguesia que, por não gozar dos privilégios da grande burguesia, não possui uma consciência de classe suficiente, atraindo-a assim para o seu campo na perspectiva de uma guerra civil. A fragilidade de um tal terrorismo artificial reside porém no seguinte: quando se executa semelhante política esta torna-se também mais conhecida, e portanto melhor avaliada, e tudo o que anteriormente fizera a força dessa política faz agora a sua fraqueza, enquanto as grandes vantagens que a mesma assegurava aos seus estrategos se convertem num inconveniente de monta.

O atual presidente da República, Pertini, um homem ingênuo, teme permanente e exclusivamente o fascismo, pois não tem e senão o que conhece, mas, muito pelo contrário, deveria temer doravante o que não conhece e conhecer o mais depressa possível aquilo que hoje deve temer, já não uma ditadura aberta, mas um temível despotismo oculto dos serviços secretos, despotismo tanto mais forte quanto mais utiliza essa força para afirmar peremptoriamente que não existe. Não foi por acaso que Fanfani, de forma quase desapercebida, inventou em Setembro de 1978 um novo posto importante sem precedentes na nossa história institucional: o de conselheiro de presidente da República para problemas da ordem democrática e da segurança. E também não foi por acaso que, para desempenhar estas funções, Fanfani designou o general de divisão Arnaldo Ferrara que, no plano militar, é considerado o melhor oficial de Carabineiros e um dos melhores da Europa. Escorando o velho Pertini com o jovem general Ferrara, um homem com olhos de gelo e gostos refinados, como alguém o definiu, Fanfani não só institucionalizou uma situação de fato, sancionando o poder alcançado pelos serviços paralelos, mas também deu o primeiro passo para a concretização do seu velho sonho de uma República presidencial: Arnaldo Ferrara, esse oficial inteligente e sofisticado, que ainda recentemente se tinha escusado a dirigir o SISDE (serviço secreto do ministério do Interior) e não cedera à insistência de Andreotti para não renunciar às suas próprias ambições, esse oficial superior que "penetrou nos mais secretos segredos do Estado e dos homens que o representam — como nos assegura Roberto Fabiani — é na realidade o novo presidente da República. Além disso, Ferrara detém hoje poderes que nenhum presidente da República jamais usufruiu no passado — poderes que a sua função de conselheiro, só na aparência honorífica, lhe garantem na realidade com muito mais amplitude do que qualquer outro cargo oficial, assegurando-lhe simultaneamente uma liberdade de ação cujos limites são difíceis de determinar, mas fáceis de ultrapassar. Colocado perante um tal estado de coisas, o proletariado apenas pode optar por combatê-lo em campo aberto ou por a ele se habituar, sofrendo-lhe todas as pesadas conseqüências.

Eis pois, caso se esteja realmente interessado em sabê-lo, para que é que serviu ornar a presidência desta República com um homem acima de qualquer suspeita: nada mais, nada menos do que para esconder o seu termo, e a sua transformação indolor num Estado policial, mantendo-se porém o espetáculo das aparências democráticas. O honorável Pertini, tendo permanecido sempre à margem do seu próprio partido, e sendo talvez o único homem político que nunca deteve um poder real, sempre foi estranho às práticas dos serviços paralelos, quer dizer, é o homem que menos conhece tais práticas, e também aquele que, conseqüentemente, oferece as condições indispensáveis para que esse poder oculto o manipule sem que ele disso se aperceba. Os corpos destacados do Estado, tendo alcançado o seu presente poderio, não podem senão continuar a servir-se da mesma tática de infiltração utilizada com sucesso no caso das BVs, alargando-a hoje a todas as instituições do Estado. Nestas condições, não só o terrorismo não cessará, como ainda se incrementará tanto quantitativa como qualitativamente: e já se pode prever que se uma revolução social não vier pôr termo a esta farsa trágica, a presidência de Pertini assinalará o período mais funesto da República. E não me venham dizer que o que afirmo é muito grave, pois sei isso perfeitamente, mas também sei que calar-se, como fazem os outros, é ainda mais grave, e que o fenômeno de maior gravidade é esse a que todos assistem sem nunca o denunciar. Já nada há de secreto neste fenômeno que no entanto permanece inconfessado à consciência geral; e, como notava Bernard Shaw, "não há segredos mais bem guardados do que os que todos conhecem". E a consciência desperta sempre demasiado tarde.

Em tais condições, o primeiro dever de qualquer subversivo consciente é afastar impiedosamente das mentes chamadas à ação todas as ilusões sobre o terrorismo. Como já o disse alhures, historicamente o terrorismo nunca teve qualquer eficácia revolucionária, com exceção dos casos em que qualquer outra forma de manifestação subversiva era tornada impossível por uma repressão completa e onde uma parte importante da população proletária era levada assim a tomar silenciosamente partido pelos terroristas [24]. Mas tal já não é, ou ainda não é, o caso da atual Itália. Além disso, convém observar que a eficácia revolucionária do terrorismo foi sempre muito limitada, como o demonstra toda a história do fim do século XIX.

A burguesia, que em 1793 estabeleceu a sua dominação sobre a França graças ao terrorismo, deve pelo contrário voltar a recorrer a esta arma, num contexto estratégico defensivo, na época histórica em que o seu poder é universalmente posto em causa pelas forças proletárias que o seu próprio desenvolvimento criou. Concomitantemente, os serviços secretos do Estado burguês mascaram o seu terrorismo utilizando no momento azado os militantes mais ingênuos de um leninismo completamente desbaratado pela história — leninismo que aliás também utilizou, entre 1918 e 1921, o mesmo método terrorista anti-operário para destruir os sovietes e apossar-se do Estado e da economia capitalista na Rússia.

Todos os Estados foram sempre terroristas, mas foram-no mais violentamente quando do nascimento ou na iminência da morte. E os que hoje, quer por desespero, quer por serem vítimas da propaganda que o regime faz em favor do terrorismo apresentando-o como o nec plus ultra da subversão, contemplam com uma admiração acrítica o terrorismo artificial, tentando mesmo por vezes praticá-lo, esses não sabem que não fazem outra coisa senão competir com o Estado no seu próprio campo; e também não sabem que, no seu próprio campo, não só o Estado é o mais forte, como será sempre ele a dizer a última palavra. E tudo o que não destrói o espetáculo reforça-o: o reforço inaudito de todos os poderes estatais de controle, que teve lugar nestes últimos anos sob pretexto do terrorismo espetacular, já é utilizado contra o conjunto do movimento proletário italiano, que hoje em dia é o mais avançado e o mais radical da Europa.

Não se trata, é claro, de estar em desacordo com o terrorismo de uma forma estúpida a abstrata, como fazem os militantes da Lotta Continua, e ainda menos de admirar os camaradas que se enganam, como fazem os pretensos Autônomos que dão assim aos infames estalinistas um pretexto para preconizarem a delação sistemática — , mas sim de o julgar pelos seus resultados, de ver a quem é que ele aproveita, de dizer claramente quem pratica o terrorismo e qual o uso que dele faz o espetáculo— trata-se enfim de, uma vez por todas, se tirarem conclusões.

Obrigar todos e cada um a tomar incessantemente posição pró ou contra acontecimentos misteriosos e obscuros, na realidade pré-fabricados com essa finalidade precisa, eis o verdadeiro terrorismo; constranger toda a classe operária a pronunciar-se contra tal ou tal atentado, ao qual toda a gente, com exceção dos serviços paralelos, é alheia, eis o que permite que o poder mantenha a passividade geral e a contemplação deste espetáculo indecente, eis o que permite aos burocratas sindicais congregar sob as suas diretivas anti-operárias os trabalhadores de qualquer fábrica em luta, onde regularmente um dirigente é ferido nas pernas.

Quando Lenine, em 1921, por altura da repressão do soviete de Kronstadt, pronunciou o famoso "aqui, ou ali com uma espingarda, mas não com a oposição operária, já estamos fartos da oposição operária", mostrou-se muito menos desonesto do que um Berlinguer que diz "ou como Estado, ou com as BVs", pois não temia declarar que o seu único propósito era liquidar a oposição operária. Ora bem, a partir deste instante preciso, quem afirmar estar "com o Estado" sabe que também está com o terrorismo, a com o mais pútrido terrorismo de Estado alguma vez organizado contra o proletariado; sabe também que está com os responsáveis das mortes da Piazza Fontana, do Italicus, de Brescia, e comos assassinos de Pinelli e de cem outros, e que não nos venha mais foder o juízo, pois já estamos fartos de lágrimas de crocodilo sobre "os mártires da Via Fani", de provocações, de intimidações grosseiras, de assassínios, de prisões, da hipocrisia desavergonhada da defesa das "instituições democráticas", e de tudo o resto.

E quanto a nós, os subversivos, que justamente nos encontramos ao lado da oposição operária, e não como Estado, demonstremo-lo antes de tudo e em todas as ocasiões desmascarando sempre todos os atos de terrorismo dos serviços do Estado, ao qual abandonamos de boa vontade o monopólio do terror, tornando assim a infâmia ainda mais infame entregando-a à publicidade — à publicidade que ela merece.

Quando a nossa vez chegar não nos faltarão armas nem combates valorosos; não somos escravos do feiticismo mercantil das armas, mas obtê-las-emos logo que tal venha a ser necessário, e da forma mais simples: arrebatando-vos as vossas, generais, polícias e burgueses, pois vós possuis armas suficientes para todos os operários de Itália.

«"Não temos contemplações e não as esperamos da vossa parte. Quando chegar a nossa vez, não adoçaremos a violência"»
(Marx)

.

Mil Vias Fani e mil Piazzas Fontana não aproveitam ao capitalismo tanto quanto lhe é nociva um a única greve selvagem anti-burguesa e anti-estalinista, ou uma simples sabotagem da produção violenta e bem sucedida. Milhões de consciências oprimidas despertam e revoltam-se todos os dias contra a exploração, e os operários não enquadrados sabem perfeitamente que a revolução social não abre caminho acumulando um rasto de cadáveres — o que é uma prerrogativa da contra-revolução estalino-burguesa, prerrogativa que revolucionário algum jamais lhe disputou.

E quanto aos que se alistaram no militantismo alienado e hierárquico na época da sua bancarrota, esses não poderão tornar-se subversivos a menos que o abandonem, e unicamente se conseguirem negar na prática as condições, que o próprio espetáculo impôs, daquilo que hoje em dia é designado pelo termo vago mas justo de "dissidência" — por natureza sempre impotente.

Em Itália, quem a partir de agora não utilizara inteligência de que dispõe para compreender rapidamente a verdade que se oculta por detrás de cada mentira do Estado, será um aliado dos inimigos do proletariado. E quem ainda pretender combater a alienação por formas alienadas, pelo militantismo e pela ideologia, depressa se aperceberá que renunciou a qualquer combate real. Não serão decerto militantes quem fará a revolução social, nem os serviços secretos e a polícia estalinista quem a impedirá!



Referências

  1. Alusão à defesa dos serviços secretos efetuada por Moro no Parlamento quando estes foram acusados do golpe de Estado falhado do general De Lorenzo em 1964. (N. do T.)
  2. O poderosíssimo chefe da empresa petrolífera do Estado (ENI) morto antes de 1968, ou seja, antes do espetáculo do terrorismo. (N. do T.)
  3. Muito recentemente, o banqueiro em bancarrota Sindona, mafioso notório, não montou o seu próprio rapto nos Estados Unidos — para onde havia fugido — para se subtrair ao processo em que deveria responder pela falência do Franklin Bank? Um autoproclamado grupo "proletário" reivindicou este seqüestro, mas ninguém acreditou nisso, pois na América a imprensa ainda não se encontra tão domesticada neste domínio como na Itália. (N. do T.)
  4. Que pouco depois foi obrigado a demitir-se por se ter tornado pública a sua venalidade. (N.do T.)
  5. Divisa do PCI. (N. do T.)
  6. Divisa do PCI. (N. do T.)
  7. Posteriormente, e após a publicação deste livro, Negri pagou caro o fato de tudo ter engolido a respeito do caso Moro. (N. do T.)
  8. Guerchuni, naturalmente detido por obra de Azev, recomendou calorosamente aos seus camaradas que colocassem à frente da Organização de Combate precisamente o próprio Azev, e isso devido à coragem por este demonstrada, transportando da Suíça para a Rússia explosivos e publicações do partido, cujo Comitê Central nessa altura se encontrava no exílio em Genebra.
  9. O que também se veio a verificar após a publicação deste livro, com as vagas de prisões de 7 de abril de 1979 e, mais recentemente, as de 2 1de dezembro do mesmo ano. (N. do T.)
  10. Divisa do PCI. (N. do T.)
  11. É chegada a ocasião de aqui reproduzir, como exemplo de lucidez revolucionária, algumas passagens desse manifesto que, no período em que a repressão estava no auge se podia obter na própria Piazza Fontana e junto às principais fábricas milanesas: " ... Perante a escalada do movimento revolucionário, e apesar da ação metódica de recuperação dos sindicatos e dos burocratas da velha e da nova esquerda, o poder vê-se obrigado... a jogar desta vez a carta viciada do terrorismo... A burguesia Italiana de 1969... já não precisa dos erros dos velhos anarquistas para encontrar um pretexto para a concretização política da sua realidade totalitária, mas procura fabricar ela própria um tal pretexto, enterrando os novos anarquistas numa maquinação policial... A bomba de Milão explodiu contra o proletariado. Destinada a atingir as categorias menos radicalizadas para as aliar ao poder e a chamar a burguesia ao combate: não é por acaso que houve carnificina entre os agricultores (Banco Nacional da Agricultura) e apenas medo entre os burgueses (a bomba que não explodiu no Banco Comercial). Os resultados, diretos e indiretos, dos atentados, são a sua finalidade... Mas a burguesia italiana é a mais miserável da Europa. Incapaz hoje por hoje de impor o seu terror ativo ao proletariado, não lhe resta mais do que tentar comunicar à maioria da população o seu próprio terror passivo, o medo do proletariado. Impotente e desajeitada na tentativa de por esta forma travar o desenvolvimento do movimento revolucionário e de criar em si própria uma força que não possui, arrisca-se a perder de uma só vez essas duas possibilidades. É pois provável que as facções mais avançadas do poder (interior ou paralelas) se tenham enganado. O excesso de fraqueza conduz a burguesia italiana ao campo dos excessos policiais, porque compreende que a única possibilidade de escapar a uma agonia sem fim passa pelo risco do fim imediato da sua agonia. Assim, o poder viu-se obrigado desde o início a queimar a sua última carta política antes da guerra civil ou de um golpe de Estado de que é incapaz, a dupla carta do falso perigo anarquista (para a direita) e do falso perigo fascista (para a esquerda), com a finalidade de mascarar e de tornar possível a sua ofensiva contra o verdadeiro perigo: o proletariado. Para além disso, o solo pelo qual a burguesia tenta hoje esconjurar a guerra civil é na realidade o seu primeiro ato de guerra civil... Portanto já não se trata para o proletariado de a evitar ou iniciar, mas de a vencer. Este começou agora a compreender que não é pela violência parcial que a pode vencer, e sim pela autogestão total da violência revolucionária e conseqüente armamento geral dos trabalhadores organizado sem Conselhos Operários. (O proletariado) sabe pois que doravante deve, com a revolução, rejeitar definitiva e simultaneamente a ideologia da violência e a violência da ideologia... Camaradas, não vos deixes ficar pelo caminho... Viva o poder absoluto dos Conselhos Operários!"
  12. Em Janeiro de 1970 publicou-se "Bombas, Sangue, Capital", panfleto do Ludd, que acusava abertamente os serviços secretos de serem os autores do massacre, sendo este panfleto a única exceção à debandada geral.
  13. Democrata cristã e ministro. (N. do T.)
  14. Este espetáculo sanguinário foi oferecido a conta-gotas, mas repetidas vezes quando a polícia esperou Abatangelo defronte do Banco de Florença e matou dois dos seus camaradas; quando a irmã de Mantini foi abatida a sangue frio no seu refúgio secreto em Roma, e numa dezena de outros casos. E ainda se pretende que se acredite ser por acaso e não graças à infiltração que "la Benemerita" (Os Carabineiros— N. do T.) obteve os êxitos?
  15. Siglas de três serviços secretos oficiais, aos quais é preciso ainda acrescentar a UCIGOS e a DIGOS, polícia política, e ainda outros tão secretos que nem sequer o seu nome é conhecido.(N. do T.)
  16. Como se tratasse de um feliz acaso, enquanto este livro estava no prelo, Craxi inventou um atentado contra si próprio. (N. do T.)
  17. "Apresento-me imaculado perante o trono."Frase bíblica citada por Bossuet nas suas Oraisons Funèbres. (N. do T.)
  18. Vide A. Ronchey, Accadde in Italia, 1968-1977.
  19. Vide Aviso ao proletariado sobre os acontecimentos das últimas horas, Roma, 7 de Abril de 1977.
  20. Um outro magistrado. (N. do T.)
  21. "Cose che'l tecere è bello" (Dante)
  22. Paul-Louis Courier. Pamphlets politiques.
  23. Citação de Paul-Louis Courier em que este parafraseia um a passagem de L'École des femmes, de Molière: "Vous serez ébahi, quand vous serez ou bout, que vous ne m'aurez rien persuadé du tout." (N. doT.)
  24. Vide manifesto distribuído em 23/9/77, em Bolonha, Roma e Milão, Benvenuti nella città più libera del mondo (Bem-víndos à Cidade Mais Livre do Mundo).
Do Terrorismo e do Estado
Do Terrorismo e do Estado/Prefácio à edição portuguesa Capítulo X — Do Terrorismo e do Estado

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