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Diga não ao escapismo

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Desista da TV e não banque o avestruz!


Ações em direção ao nada
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"Os que tentam sair da Máquina preenchem funções de recreativos marginais - hippies, yogues, etc." - P.M., Bolo`Bolo


Ode to bon scott.jpg
Em tempos difíceis, não há nada tão cômodo (e nada tão comum) quanto a síndrome do avestruz. Ela consiste que esconder a cabeça no buraco e acreditar (ou pelo menos torcer) que todo o resto do corpo está em segurança. O avestruz sabe que o predador se aproxima, tem uma mínima consciência de que vai virar comida (e depois merda), mas tudo o que consegue fazer é se enganar.


São tantas e tão variadas as formas que assume a síndrome de avestruz que seria necessário o mesmo número de caracteres existentes na Wikipédia somente para listá-las. Em termos políticos essa síndrome é contemporaneamente chamada de escapismo.


É impossível definir o momento de origem do escapismo. Diante dos exemplos trazidos pela etologia, podemos concluir que talvez ele seja mais antigo que a própria humanidade. Os registros mais antigos sobre o escapismo estão entre os antigos gregos. A Grécia foi o palco de um dos maiores escapistas de todos os tempos, Diógenes de Sínope (413 a.C. – 323 a.C.), o cínico. Portador de idéias bem interessantes e um sarcasmo fora do comum, Diógenes nada (ou muito pouco) fazia para que suas reflexões se materializassem ou impactassem no mundo do lado de fora de sua mente. Sua postura indolente contra o poder poderia agradar muitos de nós, mas triste é o fato de sua fama resultar de seu costume peculiar de se masturbar em público e viver boa parte de sua existência dentro de um barril. Apesar de mostrar seu descontentamento através do escárnio, Diógenes assumiu um papel tão submisso diante do Sistema-Máquina da cidade-estado de seu tempo, quanto os escapistas contemporâneos em nossa própria conjuntura. Os homens de seu tempo o transformaram numa espécie de figura folclórica divertida, para todos os fins, outro divertido marginal recreativo.


"Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!" Diógenes de Sínope, ao ser repreendido por punhetear em praça pública.


Recreação é uma das facetas escapista: os Yogue indianos do mesmo modo que os Faquírs árabes - com suas camas de pregos, espadas enroladas nos pênis, braços levantados por décadas, cabeças enfiadas em buracos (e coisas do gênero) - entretêm às populações da baixa Ásia já há milênios. Tudo bem fundamentado num conjunto de crenças que pretende demonstrar o prevalecimento da espiritualidade sobre o mundo corpóreo, legitimando a imolação e a busca da santidade pela contemplação, desprezando a vida. Se retirar da sociedade, viver de esmolas e dos restos dos passantes, ser o centro das atenções em praça pública, e dessa forma capitalizar simbolicamente mostrando a potência de seu espírito, de sua força de vontade quando comparada a espiritualidade e a força de vontade alheia. O oriente está cheio destes escapistas e eles entretiveram gente simples por séculos, um papel bem atuante distraindo o povo enquanto impérios suntuosos e nações poderosas foram erguidas sobre as suas costas. É de senso comum na Índia o fato de todo Yogue ser um guru em potencial e como todo guru quer mais é expandir sua esfera de influência e com o advento dos meios de telecomunicação não demorou muito para a ladainha misticalóide atrair multidões nos quatro cantos do mundo. Logo os místicos Yogues indianos estavam inspirando os hippies (também escapistas bem conhecidos) e doutrinando velhinhas endinheiradas e adeptos da macrobiótica. A chegada do espetáculo Yogue ao ocidente também deu origem a um dos exercício de relaxamento preferido das camadas pretensamente saudáveis (ou semi-esclerosadas) da classe média, a Yoga. Se religião é de fato o ópio do povo, os Yogues e os faquírs os mais espetaculares traficantes.


Outros escapistas históricos foram os poetas e escritores do romantismo piegas do século XIX. Em meio a suas crises de tuberculose e punheterismos - haja mão para tanto amor platônico - os românticos daquele período viam o mundo real como uma eterna frustração comparado com seus idealismos, seus tantos sonhos sobre os quais também pouco faziam para que se concretizassem. Escapar era a grande solução - se embriagar em tavernas, sozinho ou com outros fujões, chorar em público, desmaiar e desejar a morte - os românticos foram grandes mestres da arte de pagar mico e este, de fato, foi o motivo para que muitos deles morressem virgens e imaculados.


Em nossa sociedade o escapismo assumiu atributos de uma série de estilos de vida.


NO MORE SONGS BY THE FOOL.jpg
O workaholic também enfia sua cabeça em um buraco, neste caso o buraco é o próprio mundo do trabalho. Geralmente sua vida privada está entre o tédio e a nulação, suas relações e afinidades são praticamente inexistentes, e enquanto o mundo desaba ao seu redor, o Workaholic só quer saber de trabalhar um pouco mais. Esquecer do resto do mundo e suas crises, para o Workaholic o trabalho é um refúgio, tirar seu trabalho é implodi-lo já que sem ele, o workaholic se torna um nada.


Para as torcidas - de futebol, classicamente, na América Latina, mas também em outros lugares - o que importa é que seu time seja campeão. Normalmente os torcedores fanáticos possuem trabalhos miseráveis, problemas familiares e vivem empoleirados em subúrbios cubiculares onde todo dia é dia de tentar se alienar. As condições em que vivem pouca importa para eles, já que possuem em sua frente o buraco para enfiar a cabeça chamado estádio de futebol. Quando estão nos estádios, gritam, bradam por justiça, por guerra, por força, por garra, por determinação. Pelo estádio se sentem livres para gritar aquilo que deveriam fazer fora dele, livres de uma vida de frustrações deixada de lado pelo grito de gol que renderá muitas conversinhas de corredor onde quer que seja.


É algo como o avestruz que, se sentindo num mundo insuportável, põe a cabeça no buraco e berra nele, indiferente aos berros sufocados que naquele momento outros avestruzes estejam dando em uma situação bem parecida.


O estádio de futebol é realmente um fenômeno fantástico. Nele podemos notar de forma notória que os torcedores berram por aquilo que crêem no mundo de fora. Nacionalismo em dias de jogos da seleção, racismo contra jogadores negros (como já se viu em torcidas do São Paulo ou do Juventude de Caxias do Sul), racismo as avessas em prol de times historicamente negros (como do Inter de Porto Alegre), bairrismo (de novo no São Paulo e mais fortemente no Grêmio de Porto Alegre, que inclusive canta em espanhol como uma forma escapista de protestar contra sua condição de brasileiro). Os torcedores inclusive exigem valores supostamente morais de seus clubes, como a técnica em alguns times (e aqui vemos incutido um elogio à tecnocracia e a cultura da eficiência, inclusive sendo o valor moral mais pregado pelas grandes mídias, que consideram o bom futebol aquele não violento e cheio de técnica, como se o espetáculo fosse uma transfiguração da própria máquina em catarse sistêmica), a violência e a dita raça de outros (que a mídia condena, por temer visivelmente que tais valores fujam do campo e se joguem contra a máquina), a beleza e a plasticidade (que a mídia elogia, embora tema que o lúdico tome conta da vida cotidiana), etc.


o rato de balada

Garlando's.jpg
Entre os típicos niilista alternativo, o junkie é aquele que recorre à "remédios" pouco ortodoxos - de calmantes não reconhecidos pela OMS à estimulantes que transformam qualquer um em uma sorridente líder de torcida - tudo conseguido em alguma boca ou quebrada do bairro: que miríade de formas fantásticas é capaz de se travestir o consumo. Depois de 'feita a mão' liga-se o botão 'foda-se' e viaja por paraísos artificiais (que normalmente são advogados pelo junkie sob o belo argumento da droga ser natural). Afinal de contas o junkie paga suas próprias contas (impostos e consumos) e ninguém tem nada a ver com isso, (certo?). No trem das conseqüências, ninguém é uma ilha por mais que se cerque de ilusões por todos os lados. Todo o potencial transformador e criativo de um junkie se resume e se consome no ato de cambalear num mundo cambaleante na calçada do centro da cidade ou na cobertura de algum amigo riquinho. Neste admirável tempo de novos escapismos, seja qual for, para muitos a droga é o SOMA. Só resta a pergunta: é possível que um escapista atravesse as portas da percepção. A resposta realmente não importa, o que importa é que entre a realidade e o dopping, se você é um junkie, optou pelo dopping, logo sua realidade cotidiana provavelmente é um imensa sucessão de momentos sacais que desafiam a cada instante sua vontade de existir. Será a fuga o melhor remédio?


"...meio grama para uma folga de meio dia, um grama para um fim de semana, dois gramas para uma viagem ao suntuoso Oriente, três para uma eternidade sombria na Lua." Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo


O telespectador é possivelmente o avestruz que já aceitou sua impotência perantente o mundo. Ele não berra mais no buraco e nem quer achar minhocas cor-de-rosa voadoras dentro dele. Ele simplesmente quer achar um buraco confortável, que sua cabeça não doa, que dê pra respirar gostoso e que tenha um buraquinho onde no fundo se enxerga a bunda daquela avestruz gostosa. Ele, inclusive, já aceitou que sequer comer aquela avestruz gostosa conseguirá, pois isso só é possível para os avestruzes que possuem mais penas e buracos mais luxuosos. Assim, o telespectador aceita que outros possuam buracos mil vezes maiores que o dele, aceita que ele jamais terá o prazer sexual que deseja, aceita que sua comida será eternamente o bagaço e se contenta em contemplar, passivo em seu buraco, os desejos satisfeitos de outros avestruzes.



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