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Desastre

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Espere Resistência
CrimethInc


"Desastres aproximam as pessoas, dando-lhes um contexto e projeto em comum. Nesta atmosfera aberta e democrática que surge de repente, os indivíduos cujas vidas haviam sido anteriormente separadas se identificam uns com os outros. Este sentimento de comunidade nos oferece uma visão de um tipo diferente de comunidade, transformando a calamidade em um presságio de coisas melhores. Desastres são freqüentemente a aurora de movimentos milenários e revolucionários: em tais extremos as pessoas experimentam as amplas possibilidades da vida e conseqüentemente vão atrás delas."

― National Research Council Committee em Estudos de Desastre, Convergência de Comportamento em Desastres: Um Problema no Controle Social


Quando o mundo acabar, as pessoas sairão de seus apartamentos e encontrarão seus vizinhos pela primeira vez; elas irão compartilhar comida, estórias e companhia. Ninguém precisa ir até a lavanderia ou trabalhar; ninguém se lembra de se olhar no espelho, de se pesar na balança ou de checar os seus e-mails antes de sair de casa. Grafiteiros surgem nas ruas, estranhos se abraçam, chorando e rindo. Todo momento possui um imediatismo que antes se espalhava por meses. Fardos caem, pessoas confessam segredos e concedem perdão, as estrelas surgem sobre São Paulo; e nove meses mais tarde, nasce uma nova geração.


DESASTRE


Sim, as taxas de natalidade aumentam logo após desastres, assim como as taxas de mortalidade recuam durante eles. As pessoas não costumam morrer de velhice ― ou seja, tédio ― no meio de catástrofes*. A vida, embora precária, nunca foi tão doce e vale a pena ficar vivo. A urgência da emergência fornece o tempero que o estresse constante de baixa intensidade do nosso dia-a-dia jamais poderia.


  • - Não são também apenas as taxas de natalidade e mortalidade ― a violência doméstica diminuiu dramaticamente no Centro-Sul de Los Angeles durante os tumultos de 1992, por exemplo, e por outro lado alcança o pico no dia das finais do campeonato de futebol. Como comentou um estudante francês em Maio de 1968, que teve a oportunidade de vivenciar ambos,


"UM FIM-DE-SEMANA COMUM É MAIS SANGRENTO QUE UM MÊS DE INSURREIÇÃO."


Mas e as pessoas que morrem em desastres? É verdade que pessoas perdem suas vidas em ondas de calor, enchentes e seqüestros de avião; elas também morrem em colisões de carros, acidentes no trabalho, overdose de drogas, ataques do coração e câncer de pulmão ― e, em números sem precedentes, sozinhos e esquecidos em asilos. A coisa realmente estranha é que, como sociedade, temos uma fixação tão temerosa nos desastres, quando a vida diária é estatisticamente mais perigosa para nós; e isso, ao mesmo tempo em que os tememos, os achamos tão fascinantes. Para chegar ao fundo disto, devemos reexaminar tanto os desastres quanto o seu alegado oposto, a vida normal, e descobrir qual realmente é qual. Vamos começar a olhar os desastres do ponto de vista dissidente, através dos olhos proibidos das partes secretas de cada um de nós que sente prazer neles.


Desastre Como Interrupção

É um segredo público: desastres são empolgantes. Desafiadores como eles podem ser, nós nos tornamos vivos neles. Em nossas vidas "normais", nós nos acomodamos à pequenez que parece ser o mundo, e essa acomodação se torna ela mesma uma prisão. Desastres tiram as coisas de lugar e nos fazem questioná-las: o mundo reafirma que qualquer coisa é mesmo possível, e somos postos para fora de nossas prisões, quer estejamos prontos ou não, tremendo nas calçadas em frente às ruínas. Nesta nova situação, podemos nos tornar heróis, fazer e testemunhar milagres, sofrer tragédias ao invés de meras humilhações; ficamos completamente engajados, gratos uns pelos outros e por tudo que temos, mesmo pelo que perdemos. Perigo às vezes é bem-vindo; trocar nossos velhos medos e frustrações cansativas por outros novos e convincentes pode ser um verdadeiro alívio. No despertar de um desastre, tudo tem peso e significado ― lágrimas e risadas vêm fácil, e ninguém tem certeza do que vêm em seguida. Depois, muitos acham difícil se reajustar, a se resignarem de novo a todo aquele saber.


Desastres criam a igualdade que a lei promete mas não consegue cumprir. Quando um desastre ataca, um garotinho numa cadeira de rodas não é menos que um executivo de alto-escalão: os dois observam o arranha-céu ardendo em chamas lado a lado. Estrangeiros e rejeitados pode ser promovidos a posições de aprovação e prestígio ― de fato, eles podem ser os únicos preparados para a situação: quando o É evapora, pessoas que investiram tudo nele tem que contar com aqueles que passaram suas vidas ponderando com o Poderia Ser. Habilidades que pareciam especializadas e irrelevantes ― combater tropas de choque, sobreviver na selva ― de repente se tornam essenciais a todos, e futuros alternativos que os pragmáticos descartavam como impossíveis tomam o lugar das cadeias de causa e efeito que antes estavam ali.


Desastres tornam negociáveis os fatos sociais que formam a realidade; liberdade repentina assume o lugar das escolhas habituais. Andarilhos perdidos aprendem sozinhos como fazer fogo com um relógio de pulso, donas-de-casa levantam automóveis para resgatar crianças, comportados passageiros de aviões cometem canibalismo e são celebrados por isso. Quando as escolas estão fechadas e as estradas bloqueadas, quando tudo está indo pelos ares, não estamos mais à mercê da rotina, compromissos atrofiadores, covardia e inércia: a auto-determinação total, na nova e alienígena paisagem da reviravolta, é inescapável. Catástrofes às vezes são descritas como experiências de libertação total, por mais herege que seja essa noção na nossa sociedade que põe a segurança em primeiro lugar. Não é coincidência que o fim do mundo ao qual várias religiões tradicionais se referem é precedido de uma fase de destruição terrível: o reino do céu está depois da fumaça e dos escombros.


O fato de que a noção de um apocalipse deste tipo ― quer seja uma guerra nuclear, juízo final, ou revolução total ― é tão constante e profundo na nossa civilização sugere uma fascinação popular pelos extremos nos quais as convenções não se aplicam mais. Nossa preocupação com o perigo e com a tragédia são acompanhados de uma vontade mal-disfarçada pelo risco e pela incerteza. "O que você faria se soubesse que tem apenas vinte e quatro horas de vida?" De dentro de nossos cubículos e confessionários, só podemos visualizar a liberdade total e a vida autêntica dentro de um contexto de destruição iminente - e assim fazemos, constantemente.


Aqui no mundo das estruturas, da segurança e da rotina, só conhecemos o desastre à distância, como um espetáculo: noticiários, filmes, rumores. Estas representações servem a vários propósitos, sendo o maior deles a intimidação: eles nos mantém assustados, gratos pela proteção de nossos nobres líderes. O desastre que vemos através das telas, como a selvageria que dizem estar além dos muros da civilização, é um pesadelo no qual a vida é curta, bruta e feia. De uma forma mais reveladora, estes retratos também têm um papel econômico: eles lucram com a imensa popularidade do apocalipse ― a vida precária, através dos filmes de ação, videogames e outras coisas do gênero, está condenada a ter alta demanda em uma sociedade onde há escassez de aventura em primeira mão. No processo, eles ensinam a importante lição de que os momentos de verdade pelos quas secretamente ansiamos estão distantes, inacessíveis, talvez sejam apenas ficcionais; certamente nada que possamos participar, ou fazer acontecer. Ou seja: aqueles nobres líderes estão simplesmente nos protegendo de nós mesmos! Ou será que eles estão se protegendo?


Afinal, onde ficam os nossos líderes em uma calamidade? Transportados por jatinhos privados para se dirigir aos que estão de luto (e às câmeras), eles falam como se eles sofressem nossas próprias tragédias mais do que nós mesmos, mas não são eles que sofrem as conseqüências quando algo dá errado. Estudantes de desastres nos dizem que, enquanto um desastre pode aumentar as oportunidades para exploração, ele também reduz a motivação para tal, pelo menos entre a população que o vivencia; portanto a única exploração em condições de desastre é normalmente perpetrada por pessoas de fora, pessoas que vão atrás do lucro e tomam vantagem da situação para explorar os sobreviventes. E nossos líderes são os que mais lucram com os desastres: eles contam com eles ― mais precisamente, com o terror que pensar neles provoca ― para manter o seu poder. O desastre funciona para eles ― especialmente se nunca o vivenciamos nós mesmos mas o vemos na televisão, nos jornais, em nossos pesadelos. Na verdade, estes líderes são os únicos que nos colocam em perigo ― são as políticas deles que nos dão câncer e fazem homens-bomba quererem nos matar. Nossos protetores possuem o melhor serviço de extorsão.


Mas eles nos protegem? Antigamente derramamentos de óleo e tiroteios eram considerados desastres; hoje em dia são considerados características padrão de nossa sociedade, parte do tecido social e esperados com antecedência. Eles não são anomalias, mas rotinas. Por outro lado, interrupções reais nas quais o sistema falha, como blecautes e ameaças de bomba, ainda são descritas como desastres, quer ou não alguém morra. Já cultivados pelas vicissitudes do próprio sistema, nós responsavelmente as tememos, mas aqueles que vivenciaram tais interrupções sabem como pode ser doce quando Algo Acontece.


A qualidade essencial dos desastres como os conhecemos é a quebra com o status quo; essa é uma característica que todos eles compartilham. Não é a destruição que define um desastre: os abatedouros, suicídios e danos colaterais causados pelos Negócios Como de Costume tiram mais vidas que todas as piores catástrofes juntas, enquanto muitos desastres não causam nenhuma morte. Se as vítimas de todos os desastres se reunisse e comparadas com as vítimas da "vida normal", desastres pareceriam muito seguros, assim como o número de mortes e injustiças que resultaram por pessoas terem obedecido autoridades superam de longe os que foram causados por aqueles que violaram as leis. E ainda assim existem pessoas que têm horror a desastres enquanto exaltam as virtudes da guerra: estas, então, devem ser pessoas que têm medo da infinitude e da imprevisibilidade da vida mas se sentem em casa na ordem do oposto dela. A guerra, em particular, é um ritual seguro ― é o protetor do status quo, uma reafirmação da normalidade. Não é coincidência que o desastre do 11 de Setembro de 2001 tenha sido seguido de uma série de guerras ― e qual das calamidades no final das contas foi a mais sangrenta, especialmente se você considerar que não só os norte-americanos são seres humanos?


Então só os covardes temem desastres ― ou seja, há uma parte covarde em cada um de nós que gostaria de manter tudo familiar, qualquer que seja o custo de vidas e na vida. Isso é o medo do desconhecido em sua forma mais pura: ele projeta caos, destruição e morte em qualquer coisa que ouse sair do tom pálido das coisas comuns, projeções ainda mais irônicas pois elas só podem ser modeladas em algo que já é conhecido. Desta ironia, podemos concluir que aqueles que mais temem o desconhecido revelam neste medo que o mundo que elas conhecem é um lugar de horrores. São precisamente os aterrorizados, aqueles presos na escravidão do medo, que mais temem deixar o seu território. Os livres e destemidos, prontos para viver e bem cientes do que é impossível no dia-a-dia, dão boas-vindas a novos horizontes ― inclusive desastres.


O Desastre Como Condição Permanente


Espera ― como pode ser, que os desastres sejam o ápice da aventura, da comunidade, da própria vida? Isto significa que se realmente quisermos viver, temos que levar nossas vidas como desastruristas, quixoticamente indo atrás dos breves momentos de reviravolta que o destino dá a cada um de nós, ansiando pelas asas passageiras e emprestadas da destruição e do renascimento enquanto caminhamos com dificuldade através dos anos da rotina que nos mata pouco a pouco? Isto é prático, praticável, vale a pena? A mulher de saco cheio com as prestações do seu carro e com seu casamento realmente que tornados e tufões, ou ela apenas está desesperada por um jeito de sair dessa com honra?


Talvez nós estejamos enganados ― talvez desastres não sejam tão legais no final das contas, mas o Desastre real, o pior de todos, é o Desastre que vivemos todo dia: o vazio de nossas agendas cheias, o questionário que nos põe fora de questão, o maquinário que faz correr rios de sangue. Isso explicaria porque nos sentimos tão livres quando algo, qualquer coisa, por mais perigosa ou difícil que seja, interrompe tudo isto. Talvez a empolgação e o imediatismo que surgem em emegergências são simplesmente indicações de um retorno ao nosso estado natural, na folga que eles anunciam do acidente de trem em grande escala e em câmera lenta que é nossa sociedade. Se este é o caso, então não são os próprios desastres que são libertadores ― é, pelo contrário, uma questão de ponto de vista: um "desastre" que interrompe uma vida de restrições é vivenciado como um momento de libertação, quando essa "vida normal" é, na verdade, Desastre disfarçado.


De qualquer forma, a maioria dos desastres que nos fazem sofrer são originários desse Desastre invisível. A destruição das florestas tropicais e da camada de ozônio, holocaustos criados com armas biológicas e bombas inteligentes, até mesmo pandemias globais como a gripe suína, síndrome da vaca louca, anorexia, bulimia, depressão ― não seriam possíveis sem o Estado centralizado e o poder corporativo, e o trabalho sem significado de bilhões de pessoas que dão à luz estes desastres. Viver com o desconhecido à nossa frente e ao nosso redor, lutar somente contra os "desastres naturais" que nossos ancestrais enfrentavam, seria quase idílico depois de tudo isso.


Podemos combater o Desastre com desastre? Se parássemos de alimentar suas fornalhas com nosso trabalho duro e atenção, se parássemos de pagar tributos, o Desastre certamente sucumbiria de uma vez por todas. Se este status quo é o maior Desastre, se ele realmente é desordem e tragédia normalizados como um sistema, nenhum desastre em minúsculas poderia ser pior.


Interrompa o Desastre!


Alguns de nós já estão pondo isto em prática. Nós não vivemos no Desastre, mas em acampamentos nos seus limites ― sim, numa situação onde ocorrem desastres e dificuldades, mas nado comparado à angústia de viver na própria área do Desastre. Não acreditamos em propaganda populista sobre desastres; estamos conduzindo nossos próprios experimentos com eles. Nós não temos que esperar pelas catástrofes para aproveitar os seus benefícios ― podemos criar um desastre na hora que quisermos. E nós criamos.



O Desastre toma conta de tudo. Ou seja: o Desastre arruina tudo, ao deixar tudo intacto.

Nós contemplamos os desastres de dentro do Desastre, o seu alegado oposto. Daqui de dentro, eles parecem assustadores ― tudo parece. Quando pensamos nos desastres, nós sempre os vemos à nossa frente: um gangue de monstros depois da esquina, mantendo o futuro como refém.

Mas na verdade é o presente que mantém o nosso futuro como refém. O Desastre nos cerca, um deserto no qual vivemos dia após dia ― e é este horror, e não o desconhecido à frente mas aquilo que nos é mais banal e familiar, que nós não podemos ceder, não podemos confrontar. O que pode ser mais terrível que a garantia de que, a menos que sejamos atingidos por uma catástrofe, tudo vai seguir como está, inclusive toda injustiça e humilhação?

O Desastre é que não há desastre. Só um desastre real poderia nos salvar do Desastre, que é o desastre real.

Podemos aprender muito sobre o Desastre ouvindo o que ele diz sobre os desastres. O Desastre precisa do fantasma dos desastres para fazer o papel de mau policial para que ele seja o bom policial; mas sempre que ele tem que deixar um desastre genuíno sair da jaula, o Desastre corre um risco ― pois tão logo nós estabelecermos uma relação direta com os desastres, aquele fantasma é exorcizado. Pois no final das contas, é só o medo popular dos desastres que mantém o Desastre no poder. Quando as pessoas reconhecem que não são os desastres, mas sim o Desastre que elas têm que temer, o próximo desastre colocará um fim nele de uma vez por todas.

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