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Degustar o café - a geografia e o calendário da terra

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Capítulo 4


Subcomandante Marcos


(Original em Espanhol)


À terra, o indígena a vê como mãe.
O capitalista, como alguém que não possui uma”.
Dom Durito de A Lacandona.


Algumas anedotas pouco científicas.

No dia de ontem, meditando ao Sol, chegou com sua banda o Daniel Viglietti que, como todos sabem, é um cidadão da América Latina de baixo que viaja com um passaporte uruguaio e um violão subversivo. Houve música e palavras. Com ele mandamos comprimento a Mario Benedetti, outro dos culpados de frustrar minha carreira como músico de ritmos desconcertantes. O Viglietti nos contou que o recolhedor das chuvas da memória de baixo, Eduardo Galeano, esteve enfermo, mas que já estava melhor. Lhe mandamos parabéns Don Eduardo e a oferta de que, em caso de uma recaída, os atenderemos na Clínica de Oventik, onde não se abunda a medicina, mas sim a morena alegria zapatista, que não cura, mas alivia.

Não é por presunção, mas o Viglietti e eu compusemos, juntos, alguns versos para uma de suas canções e, além disso, nós tiramos um dueto, quer dizer, ele cantou e eu sustentava o caderno com as anotações. A tenienta insurgenta nos acompanhou nos coros e eu sabia todas as canções sem necessidade do caderno. Agora é hora das confissões inconfessáveis, supôs ele que eu na realidade era, por estas travessuras da geografia de baixo, um uruguaio nascido em Chiapas. Estiveram também Raúl Sendic e meu general Artigas, mas não estou autorizado a revelá-lo. E o Che se manifestou muito ligeiramente, incorporado e brincalhão sobre uns versos de sonhos e madrugada.

Quando chegamos ao momento de “A Desalambar”, Daniel nos explicou que, quando cantou pela primeira vez a seu pai, ele lhe advertiu das conseqüências de cantá-la no campo. “Sim, ao tirar o alambrado você acaba por fazer um desgarriate, Daniel, porque o que ganhou vai sair e ir a quem sabe onde, ou vai mexer”, lhe disse, mais ou menos assim.

Foi então que eu lhe contei uma pequena parte do que agora lhes conto mais extensamente:

Pelas bandas do Caracol de La Garrucha, na região da selva tzeltal (que, certamente, é onde será celebrado o Encontro das Mulheres Zapatistas com as Mulheres do Mundo, nos últimos dias deste mês de dezembro), antes do levante existiam várias propriedades, que é assim como os companheiros chamam as fazendas.

Localizadas nos melhores terrenos dos vales da selva lacandona, com água abundante, solos planos e férteis, estradas próximas, pistas de pouso privadas, estas fazendas concentravam milhares de hectares e se dedicavam quase exclusivamente à pecuária extensiva.

As grandes árvores: as ceibas, os huápacs, os cedros, os magnos, os acotes, os homiguillos, os bayalté, as nogueiras; caíram para dar passo aos bovinos que davam lucros para as associações pecuaristas, os frigoríficos de carne, os comerciantes e os governos de todos os níveis.

Os indígenas (zapatistas, não zapatistas e anti-zapatistas) haviam sido deixados de lado nas encostas de serras e nos altos das colinas, em terrenos pedregosos, sempre em inclinações anunciadas. Aí deviam fazer seus cafezais em pequenos clarões que a montanha, generosa com seus guardiões, abria de tanto em tanto em suas irregulares chateações. Os pés de milho cresciam entre pedras e espinhos, agarrando-se como podiam nas inclinadas costas que caíam do despenhadeiro, como se a montanha tivesse se cansado de estar de pé e prontamente se deixara cair, e no mais, para se assentar nas terras onde o mandão mandava e aquela de “senhor de forca e navalha” não era uma imagem literária.

Nos pequenos cafezais trabalhava toda a família. Gente de idade, homens, mulheres, meninas e meninos podavam, limpavam, secavam, alinhavam e empacotavam o café em grandes costais chamados pergamino. Para comercializa-lo, os mesmos anciões, homens, mulheres e crianças deviam carregá-lo, se tinham um pouco de dinheiro, em seus animais de carga. Mas como a pequenez também era de animais, ancião, homens, mulheres e crianças eram os animais de carga que, sobre seus ombros, levavam 30, 40 kilos de café pergamino. 2 ou 3 jornadas de 8 a 10 horas de caminho cada uma. Chegavam a margem da estrada e esperavam um carro (que é assim como se chamam os caminhões de três toneladas), que lhes cobravam o equivalente a 10 ou 15 kilos de café que haviam levado no lombo.

Ao chegar nas sedes do município, os coiotes (assim os companheiros chamam aos intermediários) cercavam os veículos e praticamente assaltavam os indígenas, mentindo sobre o peso e o preço do café, aproveitando que a castilla era pouca ou nula nestes indígenas. A constatação de que eram enganados fracassava contra o argumento do coiote: “se não queres, volte”. O pouco pago era gasto em comida e nos bordéis, que tinham na época de colheita do café sua melhor “temporada”.

De colheita em colheita de café, os indígenas, homens, mulheres e crianças, deviam trabalhar em seus milharais de montanha, e empregar-se como peões nas grandes fazendas que se faziam donas dos grandes vales que os rios Jataté e Perlas abriam por entre essas montanhas do sudeste mexicano.

Os finqueros[1], que é como os companheiros chamam os fazendeiros, seguiam um mesmo padrão para a instalação de suas possessões. A Casa Grande, quer dizer, a casa onde o finqueiro habitava os dias que estavam em suas possessões, era feita de material de construção, ampla e com grandes corredores rodeando-a. Do lado tinha a cozinha. Depois havia um amplo espaço cercado por arames farpados. Fora da cerca que demarcava os limites do espaço do “senhor”, viviam os peões com suas famílias, em casas de adobe[2], madeira e teto de palha. Ao espaço da “Casa Grande”, quer dizer, dentro da cerca de arame farpado, só podiam passar o mayoral ou capataz, e as mulheres que se encarregavam da cozinha e da limpeza da casa e das costas do senhor. Também acostumavam entrar, de noite quando a senhora do “senhor” não estava, as noivas sobre as quais o finquero exercia o chamado “direito de pernada” (que consistia no direito que o fazendeiro tinha de desvirginar a mulher antes de ser desposada).

|Eu sei que parece que estou contando uma novela de Bruno Traven ou que estou tomando um texto do final do século XIX, mas o calendário em que ocorria isto que acabo de contar marcava dezembro do ano de 1993, faz apenas 14 anos.

Os peões indígenas não só haviam colocado a cerca que os separavam do “senhor”, também cercavam os grandes pastos em que pastavam os gados que depois seriam suculentos filés e complicados guisos[3] nas mesas dos ricos de San Cristóbal de Lãs Casas, de Tuxtla Gutiérrez, de Comitán, da Cidade do México.

A cerca de arame farpado não era só para controlar o ganho do finquero. Era também, e, sobretudo, um sinal de status, uma linha geográfica que separava dois mundos: os do caxlán ou rico branco, e o do indígena.

Com métodos que dariam pena à Border Patrol e ao Minutteman, os fazendeiros criaram e aplicaram sua própria leu aduaneira: se um animal, dos poucos que tinham nos povoados, cruzasse para o lado do terreno do finquero, passava a ser de sua propriedade e o “senhor” podia fazer o que quisesse com ele: sacrifica-lo e deixa-lo aos abutres, sacrifica-lo e lava-lo à sua mesa, ferra-lo com sua marca, ou presenteá-lo ao capataz para que, por sua vez, fizesse o que quiser. Se, pelo contrário, algum animal do “senhor” cruzasse para o lado do povoado, este devia devolvê-lo ao terreno do finquero, e se sofresse algum acidente, o povoado devia pagá-lo e, além disso, devolver o animal ferido ou morto à fazenda.

Eu sei que estou me estendendo muito para assinar algo muito simples: a propriedade da terra pertencia, antes do levante, aos fazendeiros ou finqueros que, certamente, são o setor mais retrógrado dos poderosos. Se alguém quer conhecer como pensa e atua a ultra-direita reacionária, bata um papo com um finquero chiapaneco. E lhes passo um nome de um deles que, até pouco tempo, era aliado de Andrés Manuel López Obrador em Chiapas e, junto com o Croquetas Albores e o PRD, levou ao poder Juan Sabines (o que expulsou, primeiro de um bordel desmantelado e logo depois de uma bodega de café, as famílias zapatistas desalojadas faz uns meses de Montes Azules – certamente, sem que os intelectuais progressistas dissessem nenhuma palavra de protesto). O nome do finquero é Constantino Kanter, e foi o autor daquela famosa frase, dita quando o calendário marcava o mês de maio do ano de 1993: “Em Chiapas mais vale um frango que a vida de um indígena”. Mas no insistamos nele, pois é sabido que a memória de cima é seletiva e recorda ou esquece segundo o que lhe convém no calendário e na geografia.

O caso é que se passou algo. Não sei se sabem, mas se vos digo é porque parece que alguns não sabem ou têm esquecido, ou mesmo fingem como se o estivesse. Bom, o caso é que o primeiro de janeiro de 1994, milhares de indígenas se levantaram em armas contra o supremo governo. Podem até não crer nisto, mas foi aqui, nesta geografia e neste calendário. E dizem que é preciso confirmar que os que se autodenominaram “Exército Zapatista de Libertação Nacional” e que usaram máscaras para cobrir o rosto o fizeram para evidenciar que eram nada.

Segundo algumas referencias de periódicos deste calendário, os insurgentes tomaram simultaneamente 7 sedes municipais. Parece, não estou muito seguro, que uma dessas sedes municipais que caiu em mãos rebeldes foi esta soberba cidade de San Cristóbal de Las Casas.

Combateram contra o exército federal e o governo central de então, que era encabeçado por Carlos Salinas de Gortari e estava formado por vários personagens que hoje podem ser encontrados nas fileiros do PRD e da CND lopezobradorista, que os catalogou como “transgressores da lei” (seguramente por terem transgredido a lei da gravidade, porque o que está abaixo não deve levantar-se).

Lhes peço que notem que nós estamos falando de pessoas com as que temos diferenças de estratégia ou tática, ou de concepção de reforma ou revolução. Estamos falando de nossos perseguidores, de nossos carrascos, de nossos assassinos. Se tivéssemos traído nossos mortos e tivéssemos apoiado essa suposta opção contra a direita, agora estaríamos em uma “queda” e uma frustração similar às que descreveu o companheiro Ricardo Gebrim, do Movimento dos Sem Terra, do Brasil.

Esta manhã li que a aberração jurídica que, violando a constituição, permite a legalidade do fascismo (como oportunamente ressaltou ontem aqui Jorge Alonso), foi votada a favor pelos deputados de todas as tribos e correntes do PRD, incluindo aquelas afins ou dependentes de Andrés Manuel López Obrador. Odeio dizer o que os disse, mas os disse. Aqueles que passaram pelo alto, em movimentos psNdarados e em "ra deter a direita, agora est tribos e correntes do PRD, incluindo aquelas afins ou dependentes de Andrtpriedadara deter a direita, agora estão frustrados e em “queda”. Nós que levantamos intuindo o que agora se passa, temos... outra coisa.

Em fim, é algo que deverá ser investigado nas bibliotecas e nas hemerotecas, que é onde o trabalho teórico sério deve surgir. O que quero contar-lhes é o que passou também nestes calendários, mas em outra geografia que não é a das cidades, quer dizer, na geografia do campo.

Acontece que, não é muito seguro, mas há indícios de que isto foi assim, os insurgentes se prepararam com muito tempo de antecipação, e até elaboraram uns regulamentos ou memorandos que chamaram de “Leis Revolucionárias”.

Uma delas, a chamada “Lei Revolucionária das Mulheres”, já foi mencionada aqui por Sylvia Marcos[4] faz uns dias. Ela é uma investigadora séria, assim que é muito provável que, de fato, existiram (talvez, contudo existam) essas mencionadas leis.

Bom, pois outra dessas leis se chamou, ou se chama, “Lei Agrária Revolucionária”.

Ainda que nem todo teórico que se respeite o faz, eu tenho tomado o inconveniente de investigar e, assim, tenho encontrado o que os intelectuais progressistas chamam de “panfleto” e que parece um jornalzinho que os pequenos grupos radicias e marginais fazem. Se chama “O Despertador Mexicano. Órgão Informativo do EZLN”, é o número 1 (ignoro se há números posteriores) e está datado de dezembro de 1933, faz exatamente 14 calendários.

Aí encontrei isto que lhe narro e que diz a letra (respeito a redação original só para evidenciar que estes insurgentes não tinham nenhuma assessoria teórica respeitável e conhecida, e que se veja que tais planos eram meio nascidos, ou que lhes perguntaram a sua gente – pessoas sem nenhuma preparação, evidentemente – o que iam propor):


Lei Agrária Revolucionária

A luta dos campesinos pobres no México segue reclamando a terra para os que trabalham. Depois de Emiliano Zapata e contra as reformas do artigo 27 da Constituição Mexicana, o EZLN retoma a justa luta do campo mexicano por terra e liberdade. É com o fim de versar a nova partilha agrária que a revolução traz à terras mexicanas a seguinte LEY AGRÁRIA REVOLUCIONÁRIA.

Primeiro – Esta lei tem validade para todo o território mexicano e beneficia a todos os campesinos pobres e diaristas agrícolas mexicanos sem importar sua filiação política, credo religioso, sexo, raça ou cor.

Segundo – Esta lei afeta todas as propriedades agrícolas e empresas agropecuárias nacionais ou estrangeira dentro do território mexicano. Terceiro – Serão objeto de afetação agrária revolucionária todas as extensões de terras que excedam a 100 hectares em condições de má qualidade e de 50 hectares em condições de boa qualidade. Aos proprietários cujas terras excedam os limites acima mencionados serão quitado o excedente e ficarão com o mínimo permitido por esta lei, podendo permanecer como pequenos proprietários ou somar-se ao movimento campesino de cooperativas, sociedades campesinas ou terras comunais.

Quarto – Não serão objeto de afetação agraria as terras comunais, ejidales ou em posse de cooperativas populares ainda que excedam os limites mencionados no artigo terceiro desta lei.

Quinto – As terras afetadas por esta lei agrária serão repartidas aos campesinos sem terra e diaristas agrícola, que assim o solicitem, em PROPRIEDADE COLETIVA para a formação de cooperativas, sociedades campesinas ou coletivos de produção agrícola e pecuária. As terras afetadas deverão ser trabalhadas em coletivo.

Sexto – Tem DIREITO PRIMÁRIO de solicitar os coletivos de campesinos pobres sem terra e diaristas agrícolas, homens, mulheres e crianças, que certifiquem devidamente não possuírem terra alguma ou possuírem terra de má qualidade.

Sétimo – Para a exploração da terra em benefício dos campesinos pobres e diaristas agrícolas serão afetados os grandes latifúndios e monopólios agropecuários incluindo os meios de produção tais como maquinarias, fertilizantes, bodegas, recursos financeiros, produtos químicos e assessoria técnica.

Oitavo – Os grupos beneficiados com esta Lei Agrária deverão dedicar-se preferentemente à produção em coletivo de alimentos necessários para o povo mexicano: milho, feijão, arroz, hortaliças e frutas, assim como a criação de gado bovino, suíno, equíno e da apicultura, e aos produtos derivados (carne, leite, ovos, etc).

Nono – Em tempo de guerra, uma parte da produção das terras afetadas por esta lei se destinará ao abastecimento de órfãos e viúvas de combatentes revolucionários e ao abastecimento das forças revolucionárias.

Décimo – O objetivo da produção em coletivo é satisfazer primeiramente as necessidades do povo, formar nos beneficiados a consciência coletiva de trabalho e beneficio, e criar unidades de produção, defesa e ajuda mutua no campo mexicano. Quando em uma região não se produza algum bem será realizadas trocas em condições de justiça e igualdade com outra região onde se produza. Os excedentes de produção poderão ser exportados a outros países se não houver demanda nacional para o produto.

Décimo primeiro – As grandes empresas agrícolas serão expropriadas e passarão à mãos do povo mexicano, e serão administradas em coletivo pelos mesmos trabalhadores. A maquinaria das lavouras, arreios, sementes, etc. que se encontrem ociosos nas fábricas e agronegócios ou outros lugares, serão distribuídos entre os coletivos rurais, afim de fazer produzir a terra extensivamente e começar a erradicar a fome do povo.

Décimo segundo – Não se permitirão o monopólio individual de terras e meios de produção.

Décimo terceiro – Serão preservadas as zonas de florestas virgens e os bosques, e serão feitos campanhas de reflorestamento nas principais zonas.

Décimo quarto – Os mananciais, rios, lagoas e mares são propriedade coletiva do povo mexicano e serão cuidados evitando a contaminação e evitando o seu mal uso.

Décimo quinto – Em benefício dos campesinos pobres, sem terra e trabalhadores agrícolas, além da partilha agrária que esta lei estabelece, serão criados centros de comercio que comprem a preço justo os produtos que o campesino necessita para uma vida digna. Serão criados centros de saúde comunitária com todos o progresso da medicina moderna, com doutores e enfermeiras capacitados e conscientes, e com medicina gratuita para o povo. Serão criados centro de diversão para que os campesinos e suas famílias tenham um descanso digno sem botecos nem bordéis. Serão criados centros de educação e escolas gratuitas onde os campesinos e suas famílias se eduquem sem importar sua idade, sexo, raça ou filiação política, e aprendam a técnica necessária para seu desenvolvimento. Serão criados centro de construção de habitações e estradas com engenheiros, arquitetos e materiais necessários para que os campesinos possam ter uma habitação digna e bons caminhos para o transporte. Serão criados centros de serviços para garantir que os campesinos e suas famílias tenham luz elétrica, água encanada e potável, drenagem, rádio e televisão, além de tudo o necessário para facilitar o trabalha da casa, estufa, refrigerador, lavadoras, moinho, etc.

Décimo sexto – Não haverá impostos para os campesinos que trabalhem em coletivo, nem para ajudatários, cooperativas e terras comunais. DESDE O MOMENTO EM QUE SE EXPIDA ESTA LEI AGRÁRIA REVOLUCIONÁRIA SE DESCONHECE TOTAS AS DÍVIDAS QUER POR CRÉDITO, IMPOSTO OU EMPRÉSTIMOS, QUE TENHAM OS CAMPESINOS POBRES E TRABALHADORES AGRÍCOLAS COM O GOVERNO OPRESSOR, COM O ESTRANGEIRO OU COM OS CAPITALISTAS.

Com este artigo décimo sexto termina essa lei. Existem mais leis, mas não vêm ao caso, ou coisa. Faz-se notar a falta de perspectiva de modernidade destes transgressores da gramática e do bom gosto, já que não aparece nenhuma referência ao livre comércio nem às comodidades agrícolas que, deus salve o senhor Monsanto, o capitalismo traz felizmente ao mundo. Em fim, parece que nos territórios que os rebeldes chegaram a controlar se aplicou esta lei e que os finqueros foram expulsos de suas grandes propriedades e essas terras foram repartidas entre os indígenas que, contam, o primeiro que fizeram foi desfazer os cercos que protegiam as casa dos fazendeiros.

Contam também que fizeram esse atentado contra a propriedade privada cantando a lista de mesmo nome, autoria de um tal Daniel Viglietti (o mesmo que foi visto faz umas horas nesta geografia, acompanhado de gente de muito duvidosa reputação – várias pessoas presentes cobriram o rosto, o que não deixa duvida de que ocultavam algo).

Segundo rumores, anos depois os levantados criaram suas próprias formas de autogoverno e formaram o que chamam “comissões agrárias” para vigiar a partilha de terra e o cumprimento da lei.

O que sabemos é que não são poucas as dificuldades que se tem encontrado e se encontram, e que os rebeldes resolvem segundo suas próprias faculdades e meios, em lugar de recorrer a assessores, especialistas e intelectuais que lhes digam o que devem fazer, como devem e os avaliem o feito e o desfeito.

Existe outro dado, escandaloso como ele é. Segundo fontes confiáveis, que não puderam ser reveladas porque usavam mascaras, em uma madrugada qualquer, esses homens, mulheres, crianças e anciãos, descobriram seus rostos e cantaram e bailaram, sempre com ritmo que não tem catalogação conhecida. Dizem que sabiam que não eram menos pobres que antes e que apareciam-lhe em cima problemas de todos os tipos, entre eles o da morte, assim nós não sabemos o motivo, causa ou razão de sua alegria.

Segundo últimas informações, seguem dançando, cantando e rindo há 14 calendários e que dizem que é porque há outra geografia em suas terras. Isto só demonstra que são uns ignorantes, porque os mapas e cartas topográficas de INEGI não dão conta de nenhuma mudança no território desse sudeste estado mexicano de Chiapas.


A madrugada é a região mais Che Guevara dos sonhos” -Daniel Viglietti

  • Primeira pergunta: Há trocas mudanças fundamentais na vida das comunidades indígenas zapatistas?
  • Primeira resposta: Sim.
  • Segunda pergunta: Estas mudanças se deram a partir do levante do primeiro de janeiro de 1994?
  • Segunda resposta: Não.
  • Terceira pergunta: Quando foi então que se deram?
  • Terceira resposta: Quando a terra passou a ser propriedade dos campesinos.
  • Quara pergunta: Quer dizer que foi quando a terra passou à mão de quem a trabalha que se desenvolveram os processos que se podem apreciar agora nos territórios zapatistas?
  • Quarta resposta: Sim. Os avanços no governo, saúde, educação, habitação, alimentação, participação das mulheres, comercialização, cultura, comunicação e informação tem como ponto de partida a recuperação dos meios de produção, neste caso, a terra, os animais e as máquinas que estavam nas mãos dos grandes proprietários.
  • Quinta pegunta: Esta lei agraria revolucionária vigorou em todos os territórios em que os zapatistas afirmam ter controle?
  • Quinta resposta: Não. Por suas características próprias na zona de Los Altos e Norte de Chiapas este processo foi mínimo ou inexistente. Só se deu nas zonas da Selva Tzeltal, Tzotz Choj e na Selva Fronteiriça. Contudo as mudanças se estenderam a todas as zonas pelas pontes subterrâneas que unem nossos povos.
  • Sexta pergunta: Por que sempre parecem estar contentes, ainda que tenham erros, problemas e ameaças?
  • Sexta resposta: Porque, com a luta, temos recuperado a capacidade de decidir nosso destino. E isso inclui, entre outras coisas, o direito de nos equivocarmos.
  • Sétima pergunta: De onde tiram esses ritmos estranhos que cantam e dançam?
  • Sétima resposta: Do coração.

Agradecido e nos vemos na noite.

SubComandante Insurgente Marcos
San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México.
Dezembro de 2007

Referências

  1. Aquele que explora uma “finca”, uma propriedade ou posse. Pode ser traduzido como posseiros. (Nota do Tradutor)
  2. Dicionário Aurélio Século XXI: “1. pequeno bloco semelhante ao tijolo, preparado com argila crua, secada ao sol, e que também é feito misturado com palha, para se tornar mais resistente; tijolo cru”. (N.T.)
  3. Dicionário elmundo.es: Alimento refogado e cozido em salsa junto com verduras ou batatas (tradução similar). (N.T.)
  4. Diretora do Centro de Investigação Psico-etnológico Cuernavaca, México. Dedica-se à história da psiquiatria, medicina e da mulher na cultura popular pré-hispânica e contemporânea do México. Concentra-se na recuperação de práticas tradicionais de saúde que fortalecem o papel das mulheres e trabalha com grupos de mulheres indígenas e organizações no México e para além dele. (N.T.)


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