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Espere Resistência
CrimethInc


Marsh...


Isso não será fácil de ler. Quando você passa todas as horas do seu dia, exceto uma delas, em confinamento solitário, com lâmpadas fluorescentes zumbindo sobre a sua cabeça, não é fácil escrever.


Ontem aquele repórter que eu lhe contei, do mesmo tipo que o Pablo, veio aqui. Os porcos nunca me dizem quem está lá fora quando eles vêm me buscar no horário de visitação. Eu supus que fosse minha avó, e em vez disso era um gringo numa camisa engomada, seriamente tentando ser âncora de notícias da revolução.


Eles não deixaram ele entrar com papel ou caneta, mas isso não o impediu: ele era uma verdadeiro repórter investigativo, um crédito para a sua profissão. Ele queria que eu explicasse "o movimento", quando que eu queria era que alguém me explicasse alguma coisa, qualquer coisa! E devo dar uma declaração de motivos quando a minha cabeça ferve de raiva com todas declarações flutuantes do passado, as quais eu estou constantemente apresentando, com cada vez mais escárnio, como provas contra mim mesmo.


De qualquer forma eu não pude lhe contar nada, é claro. Fui educado, mas eu gostaria de ter dito algo como isto:


Eu gostaria de me rebelar muito mais do que faço. Eu gostaria que o meu ódio fosse puro novamente, não diluído e estratificado como está. Como eu amaria amar e não sentir que o faço por hábito ou dever, como eu quero sofrer de verdade com estas tragédias, não do modo vazio e ensaiado que faço! E tudo que eu disse sobre ser meu próprio mestre, como eu gostaria que uma nova paixão ou sensação me capturasse e se tornasse meu mestre!


Seria conveniente para vocês se eu me prendesse à idéias da mesma forma que os meus inimigos me trancaram nesta cela. Mas existem coisas em mim que escapam à descrição e à prescrição, e vocês têm que reconhecê-las também, caso contrário todas suas palavras sobre mundos e pessoas melhores serão em vão.


Quando vocês dizem "comunidade", eu me permito um furtivo sorriso de escárnio, porque eu não quero me esconder de mim mesmo na segurança dos seus números; eu quero estar sozinho no perigo e a agonia da solidão, que eu conheço e amo. Quando vocês falam de ação, eu adoro minha passividade, movendo-me indiferentemente através de um mundo distante, envolto nas agitação do meu próprio espírito melancólico. Eu prefiro sentar aqui num túmulo de concreto do que interpretar um papel numa falsa união.


Quando vocês celebram o romance com faixas e cerimônias, eu percebo dolorosamente quão pequena é a porção de mim que cabe nesse molde. E quando eu tento me submergir em multidões ou isolamento, repentinamente tenho vontade de ter uma companhia com quem fugir, em quem eu pudesse naufragar meu coração como um barco em um recife na busca por aquela imersão impossível pela qual os amantes anseiam, como mariposas anseiam por uma luz que as queimará. Não que eu vá ter essa chance de novo, graças à deus.


Quando vocês exaltam os bons e corajosos, tem uma parte orgulhosa e malvada de mim que é possessiva dos meus defeitos, da minha covardia, da minha estupidez, e eu quero ser fiel a esta parte também, ao invés de me partir em pedaços. Quando vocês guardam o futuro como uma resposta feliz a todas nossas preces, um demônio dentro de mim deseja que esta angústia dure para sempre, vangloriando-se de infligi-la sobre mim mesmo... já que não posso colocar minhas mãos em mais ninguém.


Tão logo eu terminar o meu pleito por aceitação, o demônio em mim afastará os seus braços abertos. Construa um paraíso para mim; e eu ainda vou me rebelar, eu farei o paraíso desmoronar ao meu redor: pois toda casa é formada de muros, e eu só me sinto completamente eu mesmo no ato de transgressão, navegando em suas asas emprestadas.


Eu sou o segredo terrível, a parte proibida que deve permanecer silenciosa, invisível, noturna, que nunca pode se revelar, e se tentar fazê-lo estará apenas traindo a si mesma. Deixem-me nas cozinhas, nos barrios e nas lavouras de milho, atrás de muros de penitenciárias e de patrulhas de fronteira; quanto mais vocês tentarem me enterrar, quanto mais vocês se comprometem com tudo que é nobre, permissível e inteligível, mais vocês precisam de mim, e mais eu sou uma parte de vocês. Ofereçam-me os cabelos mais loiros, o acento mais puro, cidadania para todos os meus parentes; e eu ainda acabarei na prisão com os ilegais que não conseguem nem ao menos falar o seu precioso inglês.


Eu queria contar a história do mais antisocial e indefensível dos homens, dar voz aos seus tesouros e tormentos desconhecidos, expor a sua desgraçada humanidade em um retrato tão persuasivo que vocês veriam a totalidade das necessidades dele como vocês vêm a totalidade das suas. Então todos os pecados imperdoáveis que ele cometeu estariam nas suas consciências, e você teriam que encontrar uma maneira de lavar o mundo da vergonha de uma vez por todas ou morrer com os intocáveis que vocês tão orgulhosamente desprezam... pois depois que vocês sentirem o gosto de todo esse rancor, auto-desprezo e malícia, vocês serão culpados também. Então não é tão humanitário da sua parte se apresentarem como anjos: seria melhor apresentar os seus defeitos em solidariedade com o resto de nós. Além disso, se é misericórdia que vocês querem oferecer, todos sabem que são só os sofredores, os mais baixos de todos, que podem ministrá-la uns para os outros. Eu prefiro ter a simpatia das prostitutas do que as boas ações de padres bisbilhoteiros.


Isto é absolvição para os excluídos e não-arrependidos, para os viciados, infectados e fracos, para aqueles que tiveram que se prostituir para sobreviver. O mundo tem que estar no sol para nós, também, ou então continuaremos a envenená-lo enquanto apodrecemos nos seus guetos e masmorras. Por um mundo que não conheça monstros, por um dia em que nós não sintamos vergonha, deixem-nos mostrar nossos rostos para reclamar a nossa parte.


Completamente fora de controle

DIEGO




Fatos e eventos parecem conspirar contra nós: apostamos nossas vidas em milagres, e os milagres não estavam acontecendo. Nós demos tudo para acreditar neles, por causa da beleza dessa crença e das coisas que ela nos tornava capaz de fazer; mas quando o mundo continuava inalterado, começamos a duvidar de nós mesmos. Em grandes testes, sempre duvidamos ― esse é o teste.


Nossos sonhos nos tratavam como nós, conseqüentemente, tratávamos uns aos outros: os momentos mais tensos nos chamando, a beleza tanto desejada, brilhando à distância ― e então quando nos distanciamos de tudo mais e procuramos abraçá-los, curvar tudo na sua busca, eles nos desprezaram, nos evitaram, nos deixaram mudos e quebrados, incompreensíveis para as multidões que nos cercavam que também estavam atrás de sonhos, porém não seus próprios sonhos.


E então, furiosos, de corações partidos, nós rejeitamos nossos sonhos loucos; mas nos seu despertar, todos os outros planos pareciam medíocres, todas esperanças pouco entusiasmantes, e um a um nós voltamos a arder e queimar novamente.

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