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Daniel Lima - lançando um raio de Consciência Multiplex?

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Ricardo Rosas

Afrofuturismo



Um[1] dos grandes estudiosos da cultura afro-diaspórica do século passado, o norte-americano W. E. B. Dubois, via na cultura e no pensamento negro de sua época o que ele chamou de “consciência dupla”, uma sensação estranha, “essa sensação de estar sempre a se olhar com os olhos de outros” [2]. Este mundo, segundo Dubois, que não concede a ele uma verdadeira consciência de si, permitindo-lhe se ver por meio da revelação do outro mundo, pois que sendo americano e negro, comparte uma duplicidade, duas almas, dois pensamentos, duas forças irreconciliáveis. Talvez esquizofrência demais em sua veracidade antecipatória, a idéia da “consciência dupla” de Dubois não vingou em estudos do começo do século vinte, sua época, mas veio a ter destacada receptividade em nosso atual momento de estudos pós-coloniais, de realidades virtuais e pós-estruturalismo. A noção de consciência dupla tem algo a dizer num tempo em que movimentos identitários começam a ser confundidos com lutas por nichos específicos de mercado e onde já se fala de uma idéia de pós-identidade.

Coluna II 5.jpg

Como a teoria queer nos estudos gays e lésbicos, que questiona o binômio heterossexual x homossexual, a hipótese da consciência dupla também questiona uma noção de identidade única, propondo uma versatilidade que é aquela mesma da árdua e difícil adaptação dos cidadãos negros em um mundo pós-escravidão. Ela também gerou de certa forma uma teoria que tem cada vez mais ganho adeptos em estudos voltados para a etnia negra. Baseando-se em diversas facetas da cultura negra mais popular, ou pop mesmo, como a prática do signifying (afirmar uma coisa querendo dizer justamente o seu oposto), ou mesmo as aparições bizarras e subversoras de ficção científica em diversas produções da cultura negra contemporânea, seja na música negra em geral, do jazz ao hip-hop, ao techno, ao drum´n´bass, ou em manifestações como o grafite, essa teorização tem sido chamada de afrofuturismo. Em princípio pouco convencional, o afrofuturismo envereda pela transdiciplinaridade e atravessa campos tão díspares quanto a ficção, a cibernética, a música ou o cinema. Um de seus teóricos mais destacados na atualidade é Paul D. Miller, o DJ Spooky, que lançou em 2004 o livro Rhythm Science, onde, entre outras coisas, leva o conceito da consciência dupla a uma etapa posterior defendendo a tese de que na verdade já não se viveria uma consciência dupla, mas uma consciência multiplex.

Num contexto em que cada vez mais imergimos e somos definidos pelos dados que nos cercam, nesta cultura de fluxos informativos e dispersão de identidade, “afirmar uma consciência multiplex não é negar a opressão racial que inspirou o interesse inicial de Dubois pela dualidade”[3]. Antes, trata-se de um reconhecimento de padrões subjacentes ao próprio processo social, informacional, cultural em que se deu a inserção de uma população segregada cujas dualidades sobrepostas formam camadas onde ambientes deengenharia social, múltiplos fios narrativos e a identidade como uma cifra social são tropos numa cultura onde a cidade centrifuga conflitos culturais, exclusões e onde a “ciência rítmica” da música negra adiciona diversas camadas de complexidade, seja pela cultura do DJ, do hip-hop ou pela prática do sampling.

E por que tratar de todas essas questões de consciência, afro-diaspórica, dupla ou multiplex, quando o objetivo aqui é abordar o trabalho de um artista como Daniel Lima? Talvez por que esta exposição trate de temas afro-diapóricos, talvez até por que Daniel, sendo ele mesmo um filho dessa diáspora, não se prenda aos ditames identitários de descendente dessa diáspora, nem pela recuperação de uma suposta raiz afro, nem mesmo sequer por algum exemplo mais abstrato de uma consciência dupla. Talvez então por que possamos encontrar em seu trabalho certos tipos de inserção, de interferência semiótica que violam e subvertem certos conceitos nos quais identidade, narrativa, tecnologia e informação podem se embaralhar e confundir.

Poderíamos acompanhar isso em alguns trabalhos anteriores do artista, como em Scribe e Pichação Laser, onde realizava pichações virtuais com laser portátil, transferindo a linguagem das ruas, o grafite e a pichação para outros espaços e com um suporte tecnológico incomum no seu equivalente de rua.

Outra de suas primeiras intervenções se dá na alteração ou substituição dos adesivos em escadas do metrô, onde, no que se lia: “ATENÇÃO! Segure-se sempre aos corrimãos” ou “ATENÇÃO! Segure as crianças pelas mãos”, coloca adesivos com a mensagem “ATENÇÃO! Segure sempre a minha mão”.

Daniel tem igualmente tomado parte de algumas iniciativas coletivas e, juntamente com Daniela Labra, Fernando Coster e André Montenegro fundou o grupo A Revolução Não Será Televisionada, cujos programas em vídeo, exibidos dois anos atrás na TV USP, efetuavam uma colagem de experimentos de vídeo-arte com certo sabor político ativista e cujo fio central era a narrativa em off de um guerrilheiro urbano com dúvidas existenciais. Com alto impacto visual e estético, os programas da “Revolução...” subvertiam a estética sedutora da MTV, por exemplo, numa intencionalidade política impensável para a citada emissora de videoclipes. Com seu arsenal de imagens, a “Revolução...” participou igualmente do festival Mídia Tática Brasil em março de 2003 (tendo Daniel, juntamente com Graziela Kunsch, como programador e curador dos trabalhos de vídeo-ativismo então exibidos no festival), e do festival Latinidades do SESC Pompéia, onde o grupo apresentou um “Território de Anti-Espetáculo”.

Ainda em 2003, Daniel viria a apresentar um trabalho em Roterdam, na exibição Gear Inside, onde se pendura na extremidade de uma ponte pênsil da cidade justamente no momento em que ela se ergue para a passagem de um navio. “Tudo que está no alto é como o que está embaixo. Tudo o que está embaixo é como o que está no alto” é o título do trabalho e frase repetida pelo artista durante a ação, numa referência ao Hermes Trimegistro cantado por Jorge Ben. Trabalho aparentemente sem sentido, a intervenção lembra as ações do brasileiro Alex Villar, residente em Nova York, cujo enfoque é ocupar espaços, intermezzos arquitetônicos não permitidos ao público, no questionamento do confinamento e da vigilância contemporânea. Aqui, igualmente, a ação de Lima invade um espaço de uso, sem propósito aparente, tendo chegado a chamar a atenção da polícia local.

No final de 2003, na VIII Bienal de Havana, Daniel mais uma vez violou certos protocolos fechando uma praça gradeada da cidade à noite com correntes e cadeados nas portas de entrada e saída, para evidenciar o controle. Os “agentes”, responsáveis pela guarda da praça, foram trancados lá dentro, sendo obrigados, eles mesmos, a fazerem um “ponto de fuga” para o local. A ação foi filmada pelo artista e, como clímax, Daniel, com seu irmão DJ de hip-hop Eugênio Lima e o produtor musical Noizyman realizam uma festa-espetáculo com muito hip-hop e imagens da violação-intervenção no telão. A ação faz parte de uma série denominada Sem Saída.

Outra de suas ações, aparentemente sem sentido, foi uma série de fotos chamada Blitz, onde pede a policiais para o fotografarem sorridente junto com outros policiais, série que mais tarde, em tamanho grande, viria a ser exibida na fachada do 7º Batalhão da PM em São Paulo. Dada a conhecida truculência dos policiais paulistanos para com indivíduos de origem negra, a peça não deixa de ter um certo fundo irônico que o sorriso amarelo de Daniel não esconderá.

Mas foi também a mesma truculência dessa polícia com a população negra que motivou uma das últimas ações realizadas por Lima, em 2004. Por ocasião do evento Zona de Ação no SESC Paulista, ele e seu grupo “A Revolução...”, juntamente com ativistas do movimento Frente 3 de Fevereiro se juntaram numa série de ações e intervenções questionando o racismo policial. A “Zona de Ação” terminou numa verdadeira performance de teatro e hip-hop que encenava entre outras coisas, o assassinato do jovem advogado negro Flávio Sant´Ana pela polícia militar de São Paulo.

Daniel também não abandonou suas pesquisas com raio laser. Tendo apresentado a primeira versão do trabalho com luz Coluna Infinita no Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte, foi no festival Sonarsound SP, em 2004, que realizou a sua Coluna Infinita II - Opostos, onde faz uma ponte, mesmo que virtual (ou só em laser) entre a favela e o centro financeiro paulistano, unindo, num só feixe, o Instituto Tomie Ohtake com a zona sul paulistana, mais especificamente a comunidade de Paraisópolis. Da mesma forma, a Coluna Laser III Mar pretende se perder no mar na direção da África, saindo do Solar do Unhão para a Baía de Todos os Santos.

Ponte virtual, cruzando séculos de separação e diáspora, a coluna de laser pode quem sabe sofrer aqui uma certa comparação com aquelas torres de luz que, no ground zero novaiorquino, pretendem substituir as torres gêmeas. Afinal, não foram vários “onze de setembro” que vitimaram a população negra na história das Américas? Ainda que utópica, uma ponte de laser quem sabe uniria uma história fragmentada, seqüestrada por invasores alienígenas, numa diáspora mais que forçada.

Em nossa época de simulações e duplicações, de sampling e revisões, Daniel Lima não se prende em identidades fixas, não cultiva raízes mas antes remixa técnicas, em ações desestabilizadoras de conceitos. Nele, como em outros contemporâneos seus, talvez possamos ver antes um estilhaçamento da identidade, e não sua defesa cega. Como pensa Kodwo Eshun, um dos luminares da teoria afrofuturista, o afrofuturismo “desestabiliza o que as pessoas pensavam que a identidade negra fosse, o que a identidade pop e identidade cultural fossem”[4]. Talvez devamos, também no caso de Daniel, antes ver a identidade como uma flutuação intermitente, como um foco de vetores diversos que se cruzam numa consciência multipolar, multiplex.


Referências



Rizoma.png   Este texto foi originalmente publicado por Rizoma.net.


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