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Dádiva versus Barganha

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Janos Biro


Acostumamos-nos a ver todas as nossas relações como trocas, sejam elas igualitárias ou não, mas nos esquecemos que as relações também podem ser vistas como simples oferendas onde nada específico está sendo pedido em troca. É o dar sem esperar receber.


Nossa relação original com a natureza não era uma troca, embora ela aconteça, era dádiva. A natureza oferece a vida, pura e simplesmente, como dádiva ou dom. A dádiva é gratuita, não gera dívida, não exige retorno, é como o carinho que pais oferecem aos seus filhos. Você não barganha com você mesmo, o que você faz para si mesmo é dádiva. Uma parte do seu corpo não negocia com a outra antes de fazer algo. Pelo mesmo motivo, a natureza não negocia com ela mesma, e a natureza é o conjunto de seres vivos, nela não existe barganha. As relações de troca começam com a separação entre consciências.


A troca envolve barganha, e numa barganha é possível sair na vantagem ou na desvantagem. Isto cria expectativas que por si só acabam gerando relações desiguais. Na relação da dádiva não cabe o conceito de produção, produto ou mercadoria. A comida não é produzida pelo trabalho, ela é dada pela natureza. O único trabalho que temos é o de aceitar e pegar o que é oferecido. Por isso não faz sentido falar em aumento da produção ou da efetividade da produção. Se você quer pegar mais, ou você precisa de mais, ou você tem outra relação com a natureza. E se os seres humanos sempre precisaram pegar mais do que pegavam há 10 mil anos atrás, como sobreviveram por 250 mil anos, sem nenhuma tecnologia “pegadora”? Obviamente pegávamos tanto quanto precisávamos. O que temos produzido é excesso, e o excesso é resultado de uma sociedade de escassez.


A natureza, por sua vez, não exige dos seres nada que eles não dêem pelo prazer de dar, ou seja, não exige retorno, nem sequer sentimental. A idéia de que "você colhe o que planta" depende do conceito de produção. Embora ela seja vista como uma versão da lei de ação e reação, o que ocorre na natureza não é tão mecânico. Os seres evoluíram com uma função para o meio que deu origem a eles. Eles não precisam se esforçar para retornar ou pagar à natureza aquilo que ela os deu. Eles o fazem tão naturalmente quanto respiram. Retribuem pelo prazer de retribuir, e não pelo dever. Por exemplo, respirar já é uma dádiva, o gás carbônico é dado à atmosfera e as plantas o respiram, mas elas já davam oxigênio antes de haver seres para respirá-lo. A natureza nos dá o que precisamos para viver e em retorno só precisamos viver. No entanto, na atual situação, até isso se tornou difícil. A civilização tem afastado o homem de sua própria humanidade, o que o impede de viver como um ser humano e exercer as funções que o ser humano tem no seu habitat.


Por função entendo funcionamento, e não emprego. Um ser não pode ser separado de sua função sem deixar de ser o que é, assim como uma chave não pode perder a função de abrir a fechadura sem perder aquilo que a caracteriza como chave, ou seja, as informações intrínsecas de sua forma e estrutura. É isso que está em jogo na civilização, estamos perdendo a forma humana, ou aquilo que Aristóteles, sem se referir à metafísica, chamaria de alma. A alma, para ele, é nossa função biológica, que se perde quando morremos, mas aparentemente também quando nos afastamos da natureza.


Doar é espontâneo e não coercitivo. Mesmo quando ocorre equilíbrio entre coisas doadas, ele ocorre sem que se perceba ou se calcule isso, O planejamento e o controle das vias de entrada e saída de matéria e energia entre o sistema humano e o não-humano inevitavelmente levará a um desequilíbrio. Nossa mente não foi feita para lidar com esse sistema complexo e dinâmico, pois ele surgiu e só se mantém pela interação flutuante e aparentemente caótica da natureza. A interferência humana provavelmente só pode comprometer o fluxo natural das coisas.


O prazer é motor da dádiva, ao contrário do dever. Por um lado o prazer de receber sem ter que dar nada em retorno é muito maior que o prazer de adquirir algo que vem com uma cobrança, ou da mera troca de algo por outra coisa de igual valor. Mesmo aquelas pessoas que acreditam no acúmulo de bens sentem prazer quando ganham algo. Numa relação comercial justa nada seria ganho, mas o prazer da negociação parece ser o lucro, o que representa aquilo que está sendo ganho por fora. No entanto este prazer depende do prejuízo de outro. O sistema tentou resolver esse problema fazendo com que a classe mais baixa desse valor a coisas diferentes. Assim, o pobre é levado a valorizar o trabalho duro, e não o dinheiro, enquanto o rico pode valorizar o dinheiro e o conforto. Isso ajuda a manter a relação em que o pobre oferece dinheiro e conforto ao rico, e o rico recebe o que quer dando trabalho e condições mínimas de felicidade ao pobre.


Numa sociedade baseada na dádiva ao invés da barganha, as necessidades são satisfeitas sem que ninguém tenha que negociar e sem que haja uma estrutura de valores controlando o conflito entre gastos e ganhos. Esta competição se torna desnecessária, e de fato a competição intra-espécie não é natural, mas cultural, e sintoma de má adaptação ao meio. Não é resultado de nossa evolução, mas sim de contingências criadas por nós para certos propósitos. Propósitos que, por mais que tenham se infiltrado profundamente na estrutura de nossa sociedade, podem e devem ser criticados.


Onde tudo é dado não há espaço para o conceito civilizado de propriedade. Pois ainda que algo tenha sido confiado a alguém, não é próprio de desta pessoa. É primeiramente uma relação entre ela e aquele que a presenteou. A relação entre o tempo presente, o presente que é dado de um para outro, o dom de alguém e o dado no sentido de fato não é acidental. A dádiva ocorre sempre no tempo presente, ela não se estende para um tempo futuro, pois isso já criaria uma dívida. Também, assim como um dom ou um talento, o que é dado só faz sentido enquanto for usado. O que não é usado está guardado para um tempo futuro, o que quebra com a presença do dado enquanto fato observável.


Algo dado só se torna propriedade quando se torna realmente próprio do ser, e não pode mais ser tirado dele por qualquer meio. Por exemplo, quando o alimento é comido se torna parte das propriedades ou atributos do ser. Ao instituir que objetos externos podem ser considerados como propriedades de uma pessoa, como uma extensão de seu ser, é como se nos tornássemos seres assimiladores. Assim, crescemos na medida em que conquistamos coisas. O conjunto de coisas que temos se torna cada vez maior, e na medida em que nossa dependência desses objetos cresce, cresce também nossa dependência de sistemas mais efetivos de acumulação, o que nos torna mais parecidos com máquinas e menos parecidos com seres vivos.


Tornamo-nos mais mecânicos que orgânicos porque, se os objetos que acumulamos fazem parte de nós, somos compostos de partes sem relação orgânica, pois objetos físicos não têm relação orgânica entre si. A relação entre objetos é mecânica, como as peças de um relógio. Também porque somos obrigados a reproduzir os comportamentos que sejam mais efetivos à acumulação, o que nos submete às regras matemáticas e econômicas que privam nossa liberdade e nossa criatividade. E por último porque se nossa extensão artificial determina nossa sobrevivência, então sobrepujamos valores orgânicos e equilibrados por valores tecnológicos, que são expansivos e insustentáveis.


Também poderíamos pensar sobre o ato de pedir, seu significado e sua origem. Pedir é a origem da pergunta. O pedir numa sociedade de dádiva é como pedir um carinho. Não é uma exigência, é antes um convite. O roubo é raro numa sociedade de dádiva, não porque haja um bom sistema de segurança ou uma moralidade superior. O roubo não ocorre porque sociedades de dádiva são sociedades de abundância. Alguém rouba porque deseja mais do que tem, e porque outro possui aquilo que ele deseja. Numa sociedade de abundância, tudo que está disponível está disponível para todos, e o que não está disponível não está disponível para ninguém. Pois o que a natureza dá, ela dá cegamente, sem privilegiar convenções humanas, como o status social. Se na civilização há classes privilegiadas, isto não ocorre por natureza, mas por divisão e distribuição dos bens dentro da estrutura da sociedade.


E esta estrutura, por si só, não é um resultado inevitável do desenvolvimento humano. Ao contrário, esta cultura nega aquilo que foi desenvolvido pela maior parte do tempo em que o homem caminha neste planeta. Se hoje vivemos numa sociedade de escassez, isso se deve em primeiro lugar à substituição da dádiva pela barganha como modelo de relação entre humanos e seres vivos, e não do desenvolvimento da espécie humana ou das relações sociais humanas, seja por fatores ambientais ou biológicos.


A dádiva é a relação primordial entre homem e natureza, deve ser colocada novamente em seu lugar se desejamos não nos afastar da natureza até nossa extinção, e isso não irá acontecer sem nos opormos à civilização como um todo.


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