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Dádiva, simbolismo, magia e anarquia

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Guilherme Falleiros

Esse texto é uma apresentação resumida de como encarar o simbolismo alternativamente às teorias da representação com as quais estamos acostumados no pensamento cartesiano. A produção de um texto mais extenso e mais explicativo está em andamento. Caso queira saber mais a respeito, entre em contato !

Estamos acostumados a encarar o simbolismo como uma representação. Algo separado da realidade, transcendente, anti-natural. As teorias dominantes e mais difundidas dizem que os símbolos se formam através de relações da “mente” com o “mundo”, duas entidades separadas e mediadas pelos sentidos. Assim, existe uma “realidade lá fora”, “autônoma”, “objetiva”, e uma representação “subjetiva” dessa realidade. A representação e a realidade nunca são idênticas e desse desencontro brotariam grande parte das angústias modernas. Os céticos diriam ainda que essa realidade lá fora nem mesmo existe, só restando a ilusão. Ainda assim, não eliminam a dicotomia entre "subjetivo" e "objetivo", apenas ficam com um lado dela.

Contudo, a partir de teorias da dádiva de autores clássicos como Marcel Mauss e outros mais atuais como Alain Caillé, pode se pensar o simbolismo não como algo separado do mundo, mas misturado ao mundo. Como presente em vez de representante. A dádiva – presente, em duplo sentido – mistura as pessoas e as coisas, mistura as almas, os elementos, atualizando vínculos entre eles. Não é mera identidade. Mas também não é uma relação de "hierarquia" (no sentido de mando e obediência ou mesmo de causalidade) e desigualdade. É uma mistura, na qual diferenças estão presentes umas nas outras.

Essa relação de co-extensão e mistura entre espíritos, mentes, corpos, coisas, pessoas, é também associada ao que costumamos chamar, às vezes pejorativamente, de magia.

Por exemplo, a palavra simpatia, em Português, é associada tanto a uma idéia de magia quanto a uma idéia de empatia interpessoal, uma relação de compatibilidade entre pessoas, de aceitação – mas não necessariamente identidade. Quando carregamos algum objeto “simpático”, um amuleto etc., afim de cumprir uma simpatia, acreditamos que ele está dotado de forças de agentes pessoais (muitas vezes fabulosos) presentes no mundo. Esses agentes nem sempre são apenas “deuses”. A arruda, por exemplo, na sabedoria popular brasileira (e de outras partes), é uma planta dotada de forte poder pessoal.

Magia é, de certa forma, transformar o mundo conforme a vontade. Também é considerar que palavras, rituais, objetos, têm poder direto de transformação do mundo. O que isso tem a ver com simbolismo? Se considerarmos o simbolismo no sentido de mistura e presente, muitas vezes experimentamos efeitos reais (uma cura, um acontecimento improvável, o crescimento mais bonito de uma planta, a capacidade de superar desafios de uma criança ao experimentar o mundo) de transformação no mundo por aquilo que estamos acostumados – na razão cartesiana – a chamar de “sugestão”. Uma espécie de poder “psicológico” do uso de palavras, gestos, rituais, objetos, símbolos como agentes de poder ou elementos que possibilitam mais poder. Mas algo que não é somente “psicológico”, é um diálogo com as outras realidades, convencendo-as e transformando-as, transformando-nos.

Nesse sentido, simbolismo não é somente a linguagem oral e escrita, não é somente o discurso planejado, ou o “símbolo” separado das imagens e dos indícios.

Como num jogo – por exemplo, o dos cãezinhos que brincam de cabo-de-guerra ao puxar um pedaço de pano – o símbolo presente é tanto um indício de uma relação, uma figura dessa relação e também de outras relações. Como o pano usado pela brincadeira dos cachorros (mesmo os selvagens), ele indica uma amizade entre esses animais tanto quanto uma outra ação supostamente utilitária (caça?) que, no entanto, não precisa acontecer para dar sentido àquele momento. Ele tem valor por si mesmo: o jogo não necessariamente tem outra função além daquela que vemos ali, presente.

É nesse sentido que essa noção de dádiva como símbolo pode ser valiosa para a anarquia, contrariando as noções dominantes ligadas às formas de representação política burguesas. O agente político “presente” está agindo por si mesmo, e não por outros, entretanto também age vinculado a outros e suas intenções são uma mistura das intenções dos outros. Um membro de um coletivo libertário, por exemplo, que vai para um outro meio, com outras pessoas, carrega com ele um pouco (que pode ser muito!) do que as pessoas de seu coletivo original fazem, dizem e desejam. De maneira alguma ele representa todas essas pessoas, mas sim torna presente a si mesmo e um pouco delas.


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