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Crimidéia é um movimento?

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Dias de Guerra, Noites de Amor
CrimethInc


Caros amigos do Crimidéia: Então, vocês têm todas essas idéias legais ― por que você as desperdiçam nos ouvidos surdos do punks e outros seguidores de radicalismos mortos? Vocês não deveriam tentar formar um movimento próprio, Crimidéismo, assim como fizeram os comunistas e nudistas?


1. Resposta do NietsChe: Não.


Um Movimento é baseado numa construção ideológica: não numa convergência de desejos únicos, mas num padrão do que esses desejos devem ser ― ou, na melhor das hipóteses, um modelo pré-definido de como integrar desejos diferentes. Como tal, Movimento como conceito tem a mesma relação com a vida que buscamos como a Imagem tem com a experiência vivida: é uma representação inorgânica de uma coisa orgânica. Você não pode prender as alegrias de se sentir livre, generoso e vivo em qualquer construção social, seja nos Aventuristas Internacionais ou nos Escoteiros Maoístas, assim como você não pode tornar a paixão permanente em uma relação de amor através do casamento. As aventuras e sensações que buscamos são animais selvagens, e eles não vão ficar parados nas convenções sociais de qualquer movimento, nem mesmo para nós.


Isso não é a mesma coisa que dizer que formar associações livres na busca de nossos objetivos seja sempre auto-derrotista ― muito pelo contrário! ― mas nos devemos ficar atentos, ou então nossos grupos se tornarão Movimentos. Assim como Imagens tiram nossa atenção das coisas necessariamente invisíveis que são realmente valiosas (como por exemplo, o garoto que assiste uma poderosa performance de uma trupe teatral anarquista e associa o sentimento de libertação que eles lhe invocaram com as suas roupas extravagantes), então os Movimentos nos prendem em armadilhas ― quaisquer armadilhas, quer sejam teóricas (ideologia) ou práticas (estrutura organizacional, tradição, etc.) ― de nossa verdadeira busca, que é pela própria Vida. Não deve ser difícil para o leitor inteligente perceber exemplos de movimentos que começaram com a canalização de forças vitais e terminaram como paródias patéticas de si mesmos: na política, o Partido Comunista; nas artes, surrealismo, ou jazz, ou hardcore "emo"; na cultura, os hippies, beatniks, os punks.


Guy Debord dissolveu a Situacionista Internacional, uma organização parcialmente responsável pela quase bem-sucedida revolução francesa de 1968, logo após esta insurreição: quando as pessoas começaram a tentar se juntar a eles para estarem associados com um grupo radical tão prestigioso, ao invés de porque achavam que havia algo novo com o qual poderiam contribuir. Ele explicou que ele fez isso para prevenir a I.S. de se tornar um Movimento no sentido explicado acima ― portanto sua memória poderia manter seu peso, para ser usada como uma bomba pelas gerações futuras*. Isto serve como um bom exemplo de como podemos nos proteger nos mantendo na dianteira da inércia que se acumula em nossos esforços.


Com imagens e movimentos, é melhor sermos rápidos: mudar subitamente, subvertendo expectativas, talvez flertando de brincadeira com uma imagem ou outra (como é impossível não ter imagem: tudo parece algo), mas nunca confiar ou se comprometer. E pode ser que uma boa estratégia para evitar os efeitos que nos aleijam causados por se tornar um Movimento, e a perigosa atenção dos historiadores carreiristas (como Greil Marcus), seja fazermos nosso trabalho dentro de movimentos supostamente "mortos", como o punk rock. Ao fazer tal coisa, nos enfatizamos duas verdades que não podem ser enfatizadas o suficiente: que a Vida e a Liberdade que nós buscamos podem surgir em todo lugar, inesperadas e imprevisíveis ― se esse não for o caso, nós realmente estamos em apuros ― e nunca poderá haver um Movimento centralizado em torno da própria Vida, uma vez que ela pode estar em qualquer lugar, mas não é esperada em lugar nenhum.


  • ― Uma pena que agora, graças aos esforços avarentos de críticos culturais pagos como Greil "Herbert" Marcus (autor de Undimensional Man e Zeros in Civilization), eles finalmente se tornaram parte da História, colocados no passado e portanto se tornaram inorgânicos ― agora slogans que antes eram inspiradores e perigosos em nossas mãos plagiadoras estão datados, e o plágio que era ação criativa agora é mera repetição.



2. Resposta da Nadia: Absolutamente não.


Se história é a cadeia de eventos ― a reprodução causal, determinista de um mundo no qual tudo é previsível (ou seria, se você tivesse informação suficiente) e a magia da liberdade total é impossível ― e nossos mitos revolucionários àquele outro mundo, sobrenatural, aquele que nossos sonhos e desejos descrevem (um mundo que se manifesta somente através de música transcendental e milagres similares: fenômenos que invocam beleza e significado sem serem racionalmente explicáveis) ― então o que realmente estamos procurando são brechas para fora da história e para dentro de outro mundo. Tais brechas aparecem só de vez em quando, o maior de nossos mitos, é claro, é que nós podemos de alguma forma passar pelo seu horizonte de eventos para escapar para sempre da história num espaço sem história de total liberdade.


Um movimento é uma força histórica: uma tentativa de agir dentro da cadeia de eventos para mudar sua direção. Tais esforços obtiveram sucesso no passado, mas tal sucesso não é o que queremos. O que queremos é algo que, por sua própria natureza, nunca aconteceu antes: destruir a cadeia de eventos que nos prende, levar a história a um fim, para que um mundo inteiramente novo possa começar. Para isto ser possível, vamos precisar da convergência perfeita de forças de fora de história.


Isso não é algo que possa ser organizado por qualquer esforço de dentro do fluxo da história; na verdade não é algo que jamais possa ser organizado, mas somente acreditado, enquanto ficamos riscando fósforos e os jogando fora até que um acenda o incêndio final. A revolução total não virá como mero resultado do planejamento adequado e trabalho duro (isso não é trabalho assalariado, como você sabe!), mas como um salto de fé: fé nas possibilidades ilimitadas do que hoje parece um mundo estéril e previsível. Como tudo grandioso ou terrível na vida, ela não pode ser merecida; rejeitar os pressupostos do pensamento da economia de trocas (que tudo tem um valor de troca, e até mesmo a revolução pode ser comprada com a quantidade certa de sangue e suor) ajudará a explicar isto. Nós podemos trabalhar o dia todo pelo resto da eternidade, construindo e usando meticulosamente estratégia após estratégia, sem chegar perto da verdadeira revolução (mesmo que alcançássemos alguma falsificação malfeita, como o exemplo Chinês e Russo); ou, é tão possível, que apenas um impensado ato criativo desafiador no momento certo seja tudo necessário para começar a reação em cadeia com que sonhamos há tanto tempo.


Que tudo isto soe como baboseira acadêmica anarco-mística (o que isto é, é claro ― a liberdade não pode ser compreendida, a não ser pelo misticismo!), eis aqui um exemplo concreto (histórico!). A curta "selvageria adolescente" dos estudantes, que serve tradicionalmente para acalmar e dissipar seus impulsos e rebeliões libertinos como preparação para sua vida adulta miserável, sempre foi uma força histórica ― uma tendência facilmente explicável em termos de condições sociais, que também serve para mantê-las; mas, ao mesmo tempo, ela às vezes coexistiu com uma força não histórica: aquelas raras sensações de liberdade real e leveza que a juventude e a vida de estudante às vezes cria, um fenômeno que não pode ser descrito ou explicado de verdade em termos de história ou causa e efeito, ao qual os sociologistas podem se referir de longe mas nunca compreendem de verdade. A Internacional Situacionista, que NietzChe citou anteriormente, não tentou criar um movimento entre estudantes rebeldes; tal coisa, mesmo que se tivesse obtido sucesso em modificar os detalhes de sua alienação, nunca seria capaz de tirá-los da história (da academia, da revolta juvenil, da Civilização Ocidental, da sua falta de vida em geral, etc.) na qual estavam aprisionados. Ao invés disso, os Situacionistas foram fiéis ao seus próprios desejos por um mundo mais grandioso que qualquer coisa que pudesse se originar das tendências históricas de seu tempo, e partiram para descobrir e dar força à outras forças não históricas escondidas no mundo à sua volta; para conseguir este feito, eles tentaram criar ferramentas de teoria e análise que pudessem ser usadas para cavar uma rota de fuga que os conduzisse diretamente para fora da longa noite de história capitalista. Foi o encontro fortuito das ferramentas analíticas que eles criaram com pérolas não históricas de um punhado de estudantes aventurosos em Estrasburgo que deslanchou a avalanche de desejos incompletos que praticamente transformou todo o mundo*.


Leia tudo isto como uma metáfora se assim quiser, ou somente como uma nova forma de interpretar a história (pois para alguns de vocês, vítimas de um mundo que não admite mais nada de mágica, tudo é história); mas é assim que a verdadeira revolução acontece. Para alcançá-la, não precisamos dos planos mais infalíveis, dos movimentos mais bem organizados, dos sistemas mais bem projetados; em vez disso, cada um de nós deve ser fiel às vontades de seu coração por coisas extravagantes demais para se encaixarem neste mundo, e ir atrás delas a tal ponto que inspire os outros em suas próprias buscas. É desta alquimia que precisamos, não de mais um movimento.


  • ― Também é importante ressaltar que todos movimentos existentes na França nessa época, inclusive os supostamente mais radicais (o Partido Comunista, os sindicatos, etc.), se opuseram à insurreição desde o seu começo até sua derrocada final em suas mãos; aqueles que passaram décadas tentando trabalhar dentro do fluxo da história, investindo tudo nisso, não estavam prontos para ver tudo terminar e "deixar seu povo ir", nas palavras do velho religioso. E apesar de que as estruturas de base de alguns sindicatos ajudaram a facilitar a organização dos novos Conselhos de Trabalhadores, elas só foram úteis porque não estavam sendo utilizadas para seu propósito original; portanto a metáfora da alquimia se oferece à nós como uma forma de representar a questão de como transformar estruturas e recursos existentes na matéria-prima de um mundo completamente novo.

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