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Contribuição visando a retificar a opinião pública sobre a revolução nos países subdesenvolvidos

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Internacional Situacionista


1 O papel eminentemente revolucionário da burguesia é o de ter introduzido de uma maneira decisiva e irreversível a economia na história. Senhora fiel desta economia, ela é, desde a sua aparição, a senhora efetiva – ainda que às vezes inconsciente – da “história universal”. Pela primeira vez esta cessou de ser um fantasma metafísico ou um ato do Weltgeist para tornar-se um fato material, tão concreto quanto a existência trivial de cada indivíduo. Desde o advento da produção mercantil, nada no mundo escapa ao desenvolvimento implacável deste neo-fatum, a invisível racionalidade econômica: a lógica da mercadoria. Totalitária e imperialista por essência, ela exige por terreno de ação o planeta inteiro, e por servidores a totalidade dos homens. Ali onde há mercadoria, não há senão escravos.

2 À coerência opressiva de uma classe particular para manter a humanidade na pré-história, o movimento revolucionário – produto direto e involuntário da dominação capitalista burguesa – tem oposto há mais de um século o projeto de uma coerência libertadora, obra de todos e de cada um, a intervenção livre e consciente na criação da História: a abolição real de todas as divisões em classe e a supressão da Economia.

3 Lá onde tenha penetrado – ou seja, praticamente em todas as partes do mundo – o vírus da mercadoria não cessa de derrubar as formações sócio-econômicas as mais esclerosadas, e de permitir a milhões de seres humanos de descobrir na miséria e na violência o tempo histórico da economia. Onde quer que penetre irradia o seu princípio destrutivo, dissolve os vestígios do passado, e leva ao seu extremo todos os antagonismos. Em uma palavra, acelera a revolução social. Todas as muralhas da China desmoronam com a sua passagem, mal se instala na Índia e tudo se dissolve em torno de si, e revoluções agrárias explodem em Bombaim, em Bengala e em Madras: as zonas pré-capitalistas do mundo acedem à modernidade burguesa, mas sem a base material desta. Como no caso do seu proletariado, ali também as forças que burguesia contribuiu a liberar, ou mesmo a criar, vão agora se tornar contra ela e contra os seus servidores autóctones: a revolução dos subdesenvolvidos transforma-se em um dos principais capítulos da história moderna.

4 Se o problema da revolução nos países subdesenvolvidos coloca-se de uma maneira particular, isto se deve ao desenvolvimento mesmo da história. É que, nestes países, o atraso econômico geral – mantido pela dominação colonial e pelas camadas que a apóiam -, o subdesenvolvimento das forças produtivas, impediu o desenvolvimento de formações sócio-econômicas que deveriam tornar imediatamente executável a teoria revolucionária elaborada, há mais de um século, a partir das sociedades capitalistas avançadas. A totalidade destes países, no momento em que entram em luta, ignora a grande indústria, e o proletariado está longe ser a classe majoritária. É o campesinato pobre que assume esta função.

5 Os diferentes movimentos de libertação nacional só apareceram bem depois da derrota do movimento operário, consecutiva à derrota da Revolução Russa, transformada desde o seu advento em contra-revolução a serviço de uma burocracia pretensamente comunista. Sofreram, portanto, seja conscientemente, seja com uma falsa consciência, todos os vícios e fraquezas desta contra-revolução generalizada; e, com o atraso geral auxiliando, não puderam superar nenhum dos limites impostos ao movimento revolucionário vencido. E é justamente por causa da derrota deste que os países coloniais ou semicoloniais tiveram de combater sós o imperialismo. Mas, combatendo-o só e sobre somente uma parte do terreno revolucionário total, não o expulsaram senão parcialmente. Os regimes opressivos que se instalaram em todo lugar onde a revolução de libertação nacional acreditou triunfar não passam de uma das formas sob as quais se opera o retorno do rechaçado.

6 Quaisquer que sejam as forças que os compuseram, e qualquer que seja o radicalismo das suas direções, os movimentos de libertação nacional sempre terminaram por aceder as sociedades ex-colonizadas a formas modernas de Estado, e a [pretensões de] modernização da economia. Na China, Imago pater dos revolucionários subdesenvolvidos, a luta dos camponeses contra o imperialismo americano, europeu e japonês terminou, tendo em vista a derrota do movimento operário nos anos 1925-1927, por conduzir ao poder uma burocracia no modelo russo. O dogmatismo stalino-leninista do qual ela doura a sua ideologia – recentemente reduzida ao catecismo vermelho de Mao – não é nada além da mentira, e, no melhor dos casos, da falsa consciência, que acompanham a sua prática contra-revolucionária.

7 O fanonismo e o castro-guevarismo são a falsa consciência através da qual o campesinato cumpre a imensa tarefa de livrar a sociedade pré-capitalista de suas seqüelas semifeudais e coloniais, e de aceder à dignidade nacional espezinhada sob os pés dos colonos e das classes dominantes retrógradas. O benbellismo, nasserismo, titismo ou maoismo são as ideologias que anunciam o fim destes movimentos e a sua apropriação privativa pelas camadas urbanas pequeno-burguesas ou militares: a recomposição da sociedade de exploração, mas desta vez com novos senhores e sobre a base de novas estruturas sócio-econômicas. Onde quer que o campesinato tenha lutado vitoriosamente e conduzido ao poder as camadas que dirigiam e lhe conduziam a luta, ele foi o primeiro sofrer as suas violências, e a pagar os enormes custos da sua dominação. A burocracia moderna, como a mais antiga (na China, por exemplo), edifica o seu poder e a sua prosperidade sobre a superexploração dos camponeses: a ideologia não muda nada. Na China ou em Cuba, no Egito ou na Argélia, ela representa em todo lugar o mesmo papel e assume as mesmas funções.

8 No processo de acumulação do capital, a burocracia é a realização daquilo que a burguesia era somente o conceito. O que a burguesia levou séculos para fazer, “através do sangue e da lama”, a burocracia quer realizar conscientemente e “racionalmente” no espaço de alguns decênios. Somente que a burocracia não pode acumular o capital sem acumular as mentiras: o que constituía o pecado original da riqueza capitalista é sinistramente batizado “acumulação primitiva socialista”. Tudo o que os burocratas subdesenvolvidos dizem, representam e imaginam ser o socialismo não é na realidade nada mais do que o neomercantilismo acabado. “O Estado burguês sem burguesia” (Lênin) não pode superar as tarefas históricas da burguesia: e o país industrial mais desenvolvido mostra ao menos desenvolvido a imagem do seu próprio desenvolvimento futuro. A burocracia bolchevique no poder não achou nada de melhor para propor ao proletariado revolucionário russo do que “seguir a escola do capitalismo de Estado alemão”. Todos estes poderes autodenominados socialistas não são nada mais do que uma imitação subdesenvolvida da burocracia que dominou e venceu o movimento revolucionário na Europa. O que a burocracia pode, ou é obrigada a fazer não emancipará a massa de trabalhadores, nem melhorará substancialmente a sua condição social, pois isso depende não somente das forças produtivas, mas da sua apropriação pelos produtores. De toda maneira, o que não lhes faltará para fazer, é criar as condições materiais para realizá-los ambos. A burguesia, por acaso, fez algo diverso?

9 Nas revoluções burocráticas-camponesas, somente a burocracia visa conscientemente e lucidamente o poder. A tomada do poder corresponde ao momento histórico onde a burguesia apodera-se do Estado e declara a sua independência em relação às massas revolucionárias, antes mesmo da eliminação das seqüelas coloniais, e antes de ser efetivamente independente do estrangeiro. Entrando no Estado, a nova classe se refugia na heterenomínia militante contra toda autonomia das massas. Única proprietária de toda a sociedade, ela declara-se única representante de seus interesses superiores. O Estado burocrático é nisto o Estado hegeliano realizado. Sua separação da sociedade consagra ao mesmo tempo a separação em classes antagônicas: a união momentânea da burocracia e do campesinato não é nada mais do que a fantástica ilusão através da qual todas as duas realizam as imensas tarefas históricas da burguesia desfalecente. O poder burocrático edificado sobre as ruínas da sociedade colonial pré-capitalista não é a abolição dos antagonismos de classe; não faz nada senão substituir as antigas por novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta.

10 Não é subdesenvolvido senão aquele que reconhece o valor positivo da pujança de seus senhores. A corrida para alcançar a reificação capitalista continua sendo a melhor via para o subdesenvolvimento reforçado. A questão do desenvolvimento econômico é inseparável da questão do verdadeiro proprietário da economia, do senhor real da força de trabalho; todo o resto é tagarelice de especialista.

11 Até aqui as revoluções dos países subdesenvolvidos não fizeram nada além de tentativas de imitar o bolchevismo de diferentes maneiras; a questão é, daqui em diante, de dissolvê-lo no Poder dos Sovietes.


Mustapha Khayati, 1967.


Publicado no n° 11 da Internacional Situacionista em outubro de 1967. Tradução por dada-suprareal-situ (www.geocities.com/agitatio). Revisão pelo Coletivo Gunh Anopetil



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