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Contagem-Regressiva Para a Guerra Civil

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Espere Resistência
CrimethInc


"Têm porcos lá na frente!" Estávamos no Centro, em escuridão total, e a polícia estava do lado de fora. Eu não sabia quantos haviam ou a que distância; eles vieram depois que eu cheguei, e eu ainda não tinha arranjado um caminho através dos corpos espremidos em torno da porta lateral para dar uma olhada nas coisas.


"Algum dos locatários vai lá falar com eles! Diga a eles que este lugar não tem nada a ver com o protesto! Tentem descobrir o que eles vão fazer!"


Eu havia tentado encontrar Pablo ou qualquer pessoa ligada ao o espaço sem sucesso desde eu chegara. Eu já tinha muita sorte em ainda estar de posse da lanterna que eu usava quando ia acampar com Kate na fazenda do seu pai; todos outros estavam tateando lentamente através da escuridão tumultuada com seus celulares abertos, procurando rostos familiares na luz fantasmagórica.


Os policiais que acompanhavam a demonstração entraram em pânico no momento que a luz apagou. A maioria deles recuou e pediu instruções pelo rádio, mas o oficial perto de nós entrou na confusão e começou a usar seu spray de pimenta em todos à sua volta. A multidão recuou em pânico e fúria, e um segundo mais tarde janelas estavam sendo quebradas rua acima. Apesar de toda a minha experiência, eu perdi o rastro do Diego; na escuridão era impossível diferenciar um corredor mascarado do outro. Eu segurei o braço de uma mulher que tinha sido atingida pelo spray de pimenta e tirei ela do meio da confusão.


"Você pode me ver?"


"Sim, quero dizer, não." Ela era pequena, pouco mais velha que eu, usando um vestido floral. Uma viatura da polícia empurrou a multidão atrás de nós e ela se virou às cegas: "Fodam-se, seus FILHOS-DA-PUTA!" Para alguém que eu presumi que nunca havia estado neste tipo de situação antes, ela parecia bem composta.


"Meu nome é Marshall. Vamos para um beco, vou ajudá-la com seus olhos. Suba" ― eu coloquei meu braço em torno dos seus ombros para firmá-la e levantei-a um pouco contra o meu quadril ― "agora. Ei, alguém me consegue um pouco d'água?"


Alguém me alcançou uma garrafa d'água e encontrei a escada de uma saída de emergência, onde eu abri os seus olhos e virei água neles. Se eu fizesse a menor idéia de que as coisas iriam se desenrolar deste jeito, eu teria dito que precisaríamos de médicos, sentinelas, advogados, e cartazes reforçados como nos velhos tempos. Eu estava perdendo a prática.


Nós saímos do beco e encontramos grupos de dez e vinte pessoas vagando pelas ruas, tentando evitar a polícia. À frente, eu podia ver as luzes piscantes das suas viaturas, agourentas e ofuscantes nos muros escuros da cidade. Esta nova geração não sabia nada sobre dispersão. Eu gritava para as pessoas não nos seguirem, mas um pequeno exército nos acompanhava ao que eles devem ter pensado que era uma distância respeitosa. Depois que chegamos no Centro mais e mais pessoas chegavam atrás de nós até que a escuridão estava elétrica com vozes excitadas e energia nervosa.


A luz da minha lanterna caiu sobre alguém que eu reconheci das reuniões de planejamento. Ele não tinha um celular para iluminar o seu caminho, e isso instantaneamente me cativou; eu o imaginei como sendo do tipo que não tinha telefone ou carro porque ele tinha se atrasado nos pagamentos, não por razões ideológicas. "Você viu Diego? Ou Kate? Quem você viu? Você está bem?"


"Alto, quem está aí? Eu ouvi dizer que eles prenderam um monte de gente. Eu estou bem."


De algum lugar atrás de mim surgiu uma voz: "Marsh! Estou aqui!" Era Diego.


Aquilo foi um puta dum alívio. "Você deveria sair daqui ― isto é uma má idéia, todo mundo vindo aqui deste jeito."


"Ah, é difícil para mim levar isso a sério. É como, ah sim, eu me lembro, esta é a parte onde nós estamos encurralados no centro de convergência ― isto é muito realista!"


"É, seria preciso muito esforço para conseguirmos um treinamento como esse de propósito! Mas espero que isso sirva como experiência para esse pessoal novo..."


"Atenção todos!" Era a voz de Samia. Ela estava de pé em cima de algo, segurando uma lanterna de forma que seu rosto era uma pequena estrela no meio da escuridão. "Ouvimos no rádio que a polícia prendeu quatro pessoas. Ainda não sabemos os seus nomes. Se alguém viu pessoas sendo presas, venha até aqui."


Pessoas gritavam perguntas por toda sala: "E os policiais? Eles vão invadir?"


"Nem pensar," Diego gritou. "De forma alguma eles vão arriscar fazer isso sem saber como este prédio é por dentro, eles não sabem quantas pessoas estão aqui, eles não podem ver nada, e todo bairro está às escuras ― eles estão muito ocupados."


O seu tom me lembrou. "Diego, assim que as coisas esfriarem, temos que conversar sobre essa merda com você, Samia e todos outros. Falo sério."


"Ok, tá certo." Ele não parecia interessado.


Agora Pablo estava de pé na cadeira com a lanterna. "Se alguém aqui foi agredido ou atingido pelo spray de pimenta, eu estarei na sala de trás fazendo um vídeo. Podemos usá-lo em processos judiciais. É extremamente importante que caso você tenha sido ferido ou borrifado você dê o seu depoimento agora mesmo enquanto sua memória ainda está fresca."


Eu voltei à cozinha, onde eu vi pela última vez a mulher que chegou comigo. Haviam duas velas sobre o balcão, e nas luz trêmula ela e algumas outras pessoas haviam se despido e estavam usando a torneira para se lavar. Eles estavam molhando todo o piso, mas nas circunstâncias isso parecia insignificante. "Vocês ouviram sobre o vídeo? Se vocês quiserem dar o seu depoimento, eles estarão gravando aqui em cinco minutos." Alguém na sala da frente estava falando sobre o tratamento adequado para quem tinha sido atingido com pimenta.


Onde estava Kate? Eu sabia que ela sabia como se cuidar, mas era impossível não se preocupar. Outra pessoa estava de pé na cadeira? "Então se vocês realmente precisarem sair, saiam em pequenos grupos, um grupo de cada vez, e avisem assim que estiverem em segurança!"


"Peraí, meu celular não tá funcionando! Alguém aqui tá recebendo sinal?" Um clamor de vozes.


Alguém subiu em uma cadeira do outro lado da sala, usando seu celular como iluminação. "Olha só, todas as redondezas estão sem luz, quem quer sair e botar pra quebrar?"


Este provavelmente era eu uns anos atrás, mas agora eu só achava isso um incômodo e um risco a mais. "Não apenas quebrem vitrines," eu gritei. "Vão aos supermercados. Vocês fazem idéia de quanta comida eles vão jogar fora hoje? Se tudo isso vier para cá, toda a cidade irá comer de graça por uma semana. Podemos precisar, se isso continuar!"


Ouvi Pablo ao meu lado. "Você está bem? Viu a Kate?"


"Sim, estou bem, não, não vi. Ela está aqui, ela está bem? A propósito, obrigado por ir com a Samia. Aquilo foi incrível."


"Kate está lá na frente, negociando com a polícia. O que você acha, foi um dos nossos ou foram eles?"


"A energia elétrica? Puta merda, você acha que isso é aquela merda terrorista de novo? Eu só achei que fosse um acidente."


"É possível que seja um acidente, ou mesmo um de nós, mas também é possível que eles tenham roubado o nosso espetáculo. Temos que pensar sobre como lidar com isso. Se as ações deles superarem as nossas, então eles que vão ditar as regras e tudo o que as pessoas vão ver será governo contra terroristas, sem nenhum espaço para libertação."


As coisas estavam chegando num estágio crítico, quer nós estivéssemos prontos ou não. Alguém apertou meu braço. Era Kate.


"Você está bem?"


"Sim. E você?"


"Tô. Vem comigo, tem alguém aqui que quer te ver." Ela me levou através da multidão pela porta lateral; comparando com a escuridão total lá dentro, aqui fora havia um pouco de luz.


Era Walter. Ele era a última pessoa que eu imaginaria, especialmente no meio de tudo isso. "Cara, vocês aprontaram uma puta confusão! Eu achava que as coisas estavam loucas onde nós estamos!"


"Walt! O que você conta? O que lhe traz aqui?"


"Vou simplificar, pois posso ver que vocês estão ocupados. Você sabe que eles estavam ameaçando despejar a Ethel, e parece que eles vâo fazer isso amanhã. Nós imaginamos se vocês podiam levar alguns amigos para nos ajudar a desencorajá-los, você sabe o que eu quero dizer."


"Ah, sim, hmmm..." eu olhei para Kate iluminada pelas luzes distantes dos carros de polícia; ela ergueu as sobrancelhas e assentiu. "Você quer falar a respeito? Você é a oradora."


"Não, esse é o seu pessoal. Você deveria dizer."


"Bem..." eu hesitei. "Ok, venham comigo." Atravessamos a multidão na escuridão. Justamente Ethel! Aqueles filhos-da-mãe!


"Você sabe que hora será? Devemos ficar lá o dia todo?"


"Acho que sim. A gente nunca sabe, eles podem nem aparecer se o blecaute continuar." Walter pôs sua mão sobre o meu ombro. "Você sabe que se isso der certo, o pessoal do nosso bairro vai estar muito menos disposto a pagar aluguel."


Eu subi na cadeira e apontei a lanterna para o meu rosto. "Atenção todos!" Muitas pessoas ainda falavam; eu comecei com a voz estrondosa que eu usei na reunião da Câmara Municipal há muito tempo atrás. "ATENÇÃO TODOS! Minha amiga Ethel morou na mesma casa por mais ou menos vinte anos! Eu a visitava toda quinta-feira pelos últimos cinco anos, e ela é a pessoa mais hospitaleira e generosa que eu conheço! Alguns de vocês podem se lembrar da Ethel da greve na universidade alguns anos atrás ― talvez vocês pensassem que tínhamos ganho aquela batalha, mas ela perdeu o emprego alguns anos depois e agora os filhos-da-puta da imobiliária querem tirá-la da sua casa!"


Um silêncio respeitoso tomou conta da sala. "Eu sei que alguns de vocês têm que estar no trabalho ou na escola pela manhã, mas eu quero saber quantos de vocês irão comigo amanhã até a casa da Ethel para garantir que ninguém vai tirá-la de lá!"


Houve um bradado rouco de todos os cantos; me surpreendeu. "Sério, quantos de vocês estão vão?"


"Eu estou falando sério!" uma voz gritou. "É isso aí!" outra ecoou.


Alguém encontrou uma lamparina a óleo e a estava levando ao centro da sala; sombras imensas corriam pelas paredes altas enquanto ela se deslocava pela multidão. Eu desci da cadeira. Pela primeira vez desde que eu tinha chegado, eu podia ver os rostos das pessoas ao meu redor; todos espremidos, prontamente fazendo perguntas e sugerindo estratégias. Eu podia ver Walter, Kate, Samia, Diego e uma dúzia de pessoas mais novas; Pablo estava na sala de trás, filmando.


Só então que me ocorreu que a idéia de me matar não passava pela minha cabeça há semanas. Meus olhos encontraram os de Kate e encheram-se de lágrimas. Nós sobrevivemos.

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