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Como para um epílogo: homo sapiens: ludens-faber-sacer-demens

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«Se vai tentar, siga em frente./ Se não, nem comece./ Isso pode significar perder namoradas, esposas, família, trabalho./ E talvez a cabeça./ Pode significar ficar sem comer por três dias./ Pode significar congelar num parque./ Pode significar cadeia./ Pode significar caçoadas e desolação./ A desolação é o presente. O resto é uma prova de vossa paciência./ Do quanto realmente quis fazer. E farei, apesar do menosprezo./ E será melhor do que qualquer coisa que possa imaginar./ Se for tentar, vá em frente./ Não há outro sentimento como esse. Ficará sozinho com os deuses./ E as noites serão quentes./ Levará a vida com um sorriso perfeito./ É a única luta que vale a pena.»
(Charles Bukowski)


Essa imagem, para mim, condensa todo problema da modernidade. Foi feita por Frida Kahlo sob o título de Meu Vestido Se Pendura Aqui:

Sem.jpg

Eis nossa encruzilhada: de um lado o homem de conhecimento, o homo demens que julgou possuir o mundo; do outro, o homem de saber, o homo sapiens que habita a invisibilidade.

A idéia de progresso baseia-se na crença em que o crescimento do conhecimento e o avanço das espécies caminham juntos – se não agora, pelo menos a longo prazo. O mito bíblico da Queda do Homem contém a verdade proibida. O conhecimento não nos torna livres. Ele nos deixa como sempre fomos, vítimas de todo tipo de loucura. A mesma verdade é encontrada no mito grego. A punição de Prometeu, acorrentado a uma rocha por ter roubado o fogo dos deuses, não foi injusta .

O homo demens criou praticamente todas as configurações geopolíticas que conhecemos hoje, pois foram uma invenção e uma imposição eurocêntrica. A Índia e o Oriente foram invenções inglesas; a África, uma invenção belga; a América Latina, uma invenção francesa. Nada disso existia antes do século XIX. Hoje é como se sempre tivessem existido. Assim como o conhecimento não existe desde sempre, mas foi uma invenção do Iluminismo.

Já o homo sapiens escorregou por entre os dedos do homo demens. Penso nos caçadores de Gevudan e nas obscuras comunidades da longa Gália; nos renhidos aldeões de Yorkshire; nas mulheres livres da Bretanha; nos plantadores de cevada anteriores à existência da Alemanha; nos maias, nos incas e nos astecas que ainda hoje vagueiam pelas Américas; penso nos pigmeus ou nos ashantis; penso se aceitaram passivamente sua forçada inclusão no mundo nacional, urbano e industrial.

Penso nos turcos, nos húngaros, nos sérvios, se aceitaram passivamente sua inclusão no mundo europeu. Penso nos americanos de diversa época (1500, 1900, 1950) se optaram por sua inclusão no universo europeu. Penso nos japoneses, nos chineses, nos árabes, nos hutus.

Em todos esses casos, a submissão se deu pela força ao modo de vida europeu e depois pela distribuição de direitos e de poder. Então, será que podemos afirmar que, quando se trata do modelo eurocêntrico, que são os homens que fazem a história?

Pelo que vimos aqui, são, não mínimo, soterrados por ela.

Ou não!

Aos poucos, no entanto, comecei a perceber que por trás daquele conformismo moribundo havia turbilhões de atividade, alguns bastante vigorosos, que alimentavam estilos de vida mais interessantes (...), de gente que, por acidente ou pura sorte, descobria maneiras de tirar proveito de certas particularidades do sistema .

O que quis fazer aqui, durante um tempo, foi não apresentar uma saída para nossos problemas, para um mundo melhor do que esse, não, não tenho essa pretensão, absolutamente.

Esse trabalho teve como fundamento político indicar que, seja no passado, seja no presente, existem e existiram muitas outras formas de sociabilidade que jamais serão completamente erradicadas, pois a dinâmica do poder, embora exaustiva, não contém o mundo todo. O homo sapiens é essa constante.

Estão aí em plena atividade as outras formas de vida, sempre plurais, sempre misteriosas, exigindo de nossa parte um olhar mais atento, uma verificação menos uniforme, ou não. Estão vibrando lá no Iêmen ou na favela da Rocinha; nas estepes da China ou entre os curtumeiros de Minas Gerais. Se houver alguma contribuição nesse conjunto caótico de textos, espero que seja do olhar para dentro, não para fora. Para que possamos refinar nossas ferramentas interiores para reinvidicar outras possibilidades de percepção.

O meu objetivo sempre foi provocar um olhar fora de foco, um desfocar ou um desfolhar, olhar oblíquo, incidental, difuso. Nesse sentido, é uma apologia da miopia, do astigmatismo e da hipermetropia.

Pois jamais o mundo será uniforme ou unidimensional. A vida é infinitamente mais rica que nossa percepção. Lembro, aqui, um poema de Pablo Neruda:

«Tu perguntas o que a lagosta tece lá embaixo...Com seus pés dourados. Respondo que o oceano sabe. E por quem a medusa espera em sua veste transparente? Está esperando pelo tempo, como tu. “Quem as algas apertam em seu abraço...” perguntas...“Mais firme que uma hora e um mar certos?” Eu sei. Perguntas sobre a presa branca do narval... E eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpoado, morre. Perguntas sobre as plumas do rei-pescador Que vibram nas puras primaveras dos mares do sul. Quero te contar que o oceano sabe isto: Que a vida em seus estojos de jóias, é infinita como a areia...

Incontável, pura; e o tempo, Entre as uvas cor de sangue... Tornou a pedra dura e lisa, Encheu a água-viva de luz...

Desfez o seu nó, soltou seus fios musicais...De uma cornucópia feita de infinita madrepérola. Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão...E de dedos habituados à longitude Do tímido globo de uma laranja. Caminho, como tu, investigando a estrela sem fim...E em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada É um peixe preso dentro do vento.»


Essa foi a idéia tecida. O sistema de poder, para alguns de nós, teve o mérito de ocultar essa riqueza, essa pluralidade, essa vastidão. Mas isso não quer dizer que essa seja a verdade.

Então essa é a verdade da história? Não, nem como diria Max Weber, uma aproximação cada vez mais fina dessa busca da verdade. A história é política e em cada presente há mudança dessa intenção, de acordo com cada um, com seu lugar, com suas intenções. Mais que isso, em cada presente existem inúmeros projetos de futuro que necessitam recontar o passado segundo sua singularidade de mudança, vibrando uma freqüência adequada nesse grande bazar que é o passado, com seus fatos e trejeitos de fatos.

Posso repetir, uma vez mais, com Samuel Johnson que dizia lá nos idos de 1763 e que me parece tão atual ainda hoje, em meu pouco refinado anacronismo, quando necessitamos tanto de quebrar certas instituições:

Não são necessárias grandes habilidades para ser historiador, uma vez que, na composição histórica, todos os grandes poderes da mente permanecem inativos. Tem os fatos na mão, de modo que não exercita a invenção. A imaginação não é empregada em elevado grau; só na medida requerida para os tipos inferiores de poesia. Certa penetração, exatidão e sentido do colorido bastarão a qualquer pessoa para a tarefa, se lhe puder dedicar a atenção necessária .

Não seria melhor que, como afirma José Ingenieros, historiador argentino, “cada geração devesse repensar a história” ?

Pedagogicamente, esse trabalho oferece algumas saídas para todos aqueles que ainda não compreenderam que o conteúdo é o maior meio da autoridade do professor e que aqui pretendi desencorajá-lo. Contudo, para os que ainda acreditam em sua necessidade, os fragmentos permitem, pelo menos, tratá-lo como um problema.

Tantas e tantas vezes ao longo deste trabalho observei a realidade visível, aquela que se apresenta pelos meios de comunicação e que é praticamente a que compartilhamos como real e tive que me esforçar bastante para continuar pensando e escrevendo.

Veja a que ponto chegamos: é confirmação da absoluta contradição com a natureza que, contemporaneamente, os velhos morram cada vez mais velhos, devido aos duvidosos benefícios medicamentosos e que os jovens morram cada vez mais jovens para os benefícios da indústria de armamentos. Não se estranhe, portanto, que esses sejam exatamente os dois setores mais rentáveis do capitalismo global.

A despeito disso, tudo parecia tão bem, a polítca democrática, a eleição do Obama, antes a do Lula, esses pobres, negros, índios e operários que ascenderam ao domínio do mundo, assim como os consumidores que acorriam às lojas em procissões intermináveis e expressões de satisfação incontida, os trabalhadores em suas fábricas limpas e higienizadas, com seus equipamentos de segurança, até mesmo os camelôs, em meio a algazarras sorridentes, todos tão felizes na televisão, inclusive as vítimas da violência que por uns dias se tornam estrelas do noticiário, enfim, tudo me dizia que eu é que estava enganado ao apontar a iniqüidade do presente.

Então eu me lembrava que estes mesmos veículos anunciam o caos do trânsito, o fim da terra pelo aquecimento global, a poluição, o consumo de remédios para emagrecer, para ficar forte, para ficar rico, pra ficar famoso, pra não ficar triste, pra dormir, para acordar, pra continuar vivo, pra ser bonito, pra ser legal, pra ser aceito, e aí me dou conta de todas as doenças da modernidade e de que provavelmente não morrerei dormindo, já velho, mas por ataque cardíaco, por câncer, no trânsito, por alguma bala perdida e que subitamente encontrará minha têmpora, em função dos ódios e sabe-se lá mais o quê ou morrerei velho, entupido de remédios de tal sorte que meu corpo não mais se decomporá no túmulo e então reconheço, novamente, que esta sociedade contemporânea está doente e que a normose, a doença que essa aparente normalidade oculta é que me motivou a escrever e esse era um combustível suficientemente energizado para eu continuar escrevendo.

Nossas expectativas são habitadas por todo tipo de normose: a do homem ideal, a da mulher ideal, a do casal ideal, a da sociedade ideal. Há um momento em que a tarefa talvez seja renunciar a esse ideal para estar livre da idealização e começar a trabalhar com o homem real, com a mulher real, com o casal real, com a sociedade tal como ela é. E a partir dessa realidade tal como ela é, novamente ser capaz de dar um passo a mais .

O exercício da prudência me obriga a uma última reflexão: ao tentar retirar a capa da dominação que nos recobre e que nos garante sobre nossa iniqüidade e despudor, restam vislumbres de nossa humanidade generosa. Esta é a razão política de meu discurso, aquilo que me move em direção à toda desconstrução, a torcer a ilusão para o outro lado, para a sombra onde habita nossa ancestralidade emergente e comunal.

Sobretudo, no lugar do homo demens que a modernidade projetou, que retirou do homo ludens seu senso de humor, que lhe impôs o fardo do trabalho (homo faber), que o consagrou na pira do sacrifício (homo sacer) e que, finalmente o enlouqueceu (homo demens), devemos cobiçar o homem sem nenhum caráter, o homem de saber, o homo sapiens, pois o homem sem herói é nossa única saída ou, nas palavras de Oesterheld, “o único herói válido é o herói grupo” .

Foi E.P.Thompson quem formulou brilhantemente o meu dilema, nesse momento em que fecho esse troço como um ciclo para não mais retornar, para esquecer que um dia me dediquei a essa profissão e a esses pensamentos que tão incidentalmente se apresentaram como um desafio para minha reflexão, nesse momento em que também eu termino meus cinqüenta anos e também com cinco, seis anos de anotações que agora podem desaparecer, qual andaimes de um prédio, pois já cumpriram sua função de lembrar:

Aqui me sento com meu estudo aos cinqüenta anos de idade, a escrivaninha e o chão empilhados com cinco anos de anotações, xeroxes, rascunhos deixados de lado, o relógio mais uma vez marcando a madrugada, e vejo-me, num instante de lucidez, como um anacronismo. Por que gastei esses anos tentando descobrir algo que, em sua estrutura essencial, poderia ser conhecido sem nenhuma investigação? .

Manual de Contra-História na Antimodernidade
Emergência: empoderamento, corrupção, democracia Como para um epílogo: homo sapiens: ludens-faber-sacer-demens Bibliografia

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