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Como me Ergui dos Mortos nas Minhas Horas Vagas

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Lamed


Para que um sistema de crenças funcione como esquema interpretativo válido, é preciso acreditar nele com plena convicção. Mas isso acarreta dois problemas. De um lado, faz com que você tenda a vê-lo como o único esquema interpretativo válido, desprezando, criticando ou mandando para a fogueira todos os que não compartilham dele. Do outro, empurra-o para uma alienação abissal, já que, pelos motivos que expliquei aqui, nenhum esquema interpretativo é objetivamente verdadeiro. Ao confundir o mapa com o território, você se torna prisioneiro dos cartógrafos. E, no entanto, é impossível viver sem uma perspectiva que nos permita interpretar a nossa experiência do mundo. Como Jung argumentou muito antes do vendaval pós-moderno, aqueles que alegam não ter nenhuma visão de mundo de fato possuem uma (ou melhor, são possuídos por ela), só que inconsciente. Como escapar desse dilema? Estamos condenados à alienação e ao fundamentalismo ideológico?

Na verdade, não. O truque é acreditar num sistema de crenças sabendo que não é verdadeiro, que ele não passa de mais uma dentre uma quantidade potencialmente ilimitada de sistemas de crenças, todos eles igualmente válidos ou igualmente inválidos. É o fio de uma navalha, de onde se pode facilmente escorregar para os extremos igualmente indesejáveis da crença cega e do niilismo relativista. Mas é um fio da navalha sobre o qual é preciso correr se não quisermos que nossa consciência fique aprisionada em um túnel de realidade único e limitado.

Uma vez que você aprenda a se sentir confortável nessa corda bamba, está na hora de dar o passo seguinte, que é desenvolver a capacidade de transitar livremente entre múltiplos sistemas de crenças, de acordo com a necessidade de cada situação, mas sempre abraçando o esquema interpretativo adequado ao momento com a mesma convicção, ainda que (ou principalmente quando) eles forem incompatíveis entre si. Quer dizer que é possível ser sucessivamente agnóstico, budista, ateu, cristão, gnóstico, neoplatônico, neodarwinista, neopagão e até testemunha de jeová, se for essa a visão de mundo que dá conta melhor de um determinado conjunto de fatos em um contexto específico, sabendo, porém, que nenhuma visão de mundo pode dar conta de todos os fatos em todos os contextos.

Por fim, vem o terceiro estágio, que é combinar todos os sistemas em um metassistema. Elaborar um metassistema exige a utilização de metaconceitos que sirvam de ferramentas para integrar noções aparentemente contraditórias dos mais diversos campos de experiência. Na esfera religiosa, essa operação metaconceitual é chamada de sincretismo. Em filosofia, ela é conhecida como ecletismo. O meu metaconceito favorito, como meus Vinte Fiéis Leitores já sabem, é o arquétipo junguiano, porque ele pode ser aplicado em todos os níveis de realidade, dos processos psicológicos à física quântica, da fenomenologia religiosa às dinâmicas sociais, das artes às ciências. Mas há outros metaconceitos igualmente úteis, como os atratores estranhos da matemática do caos ou os memes de Richard Dawkins, embora a meu ver não sejam tão abrangentes quanto os arquétipos. Mas é uma questão de gosto pessoal.

Até porque, com isso, estamos de volta ao ponto de partida, ainda que numa outra esfera. É forte a tentação de pensar que os metassistemas são mais verdadeiros ou estão mais próximos da realidade do que os sistemas que eles abrangem, especialmente se você mesmo fabricou seu metassistema com suas próprias mãos. A gente gosta de valorizar nosso trabalho. Mas é claro que esse seria um erro crasso. Depois de algum tempo, se estivermos com a lição de casa em dia e praticarmos a nossa jnana yoga direitinho, começamos espontaneamente a estabelecer relações entre os metassistemas, articulando, por exemplo, arquétipos e atratores estranhos, salientando o núcleo arquetípico dos memeplex e assim por diante.

Se isso nos torna mais próximos da verdade? De jeito maneira. Esta só aparece quando juntamos todos os conceitos, metaconceitos, metassistemas e sistemas, e jogamos essa tralha toda na fogueira, deixando-a ser consumida até as cinzas pelo fogo do amor divino. Mas isso, afinal de contas, também é um metaconceito.



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