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Capítulo X (Alegria Armada)

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Alegria Armada
Alfredo M. Bonanno


«"A coruja levanta voo
(Provérbio ateniense)


"A coruja levanta voo". Que as ações que começam mal possam chegar a bom desfecho. Que a revolução, começada por revolucionários há tanto tempo, possa ser realizada, ainda que haja um residual desejo por paz social. O capital dará a última palavra aos das batas brancas. As prisões não durarão muito tempo. As fortalezas de um passado que sobrevive apenas nas fantasias de um ou outro velho reacionário exaltado, desaparecerão juntamente com a ideologia baseada na ortopedia social. Não mais existirão condenados. A criminalização que o capital cria será racionalizada, será trabalhada em asilos.

Quando a totalidade da realidade é espetacular, recusar o espetáculo significa estar fora da realidade. Alguém que recuse o código das mercadorias é louco. A recusa de se curvar perante o deus mercantil resultará num internamento num asilo mental. Lá o tratamento será radical. Já sem torturas ao estilo da inquisição, ou sangue nas paredes; tais coisas transtornam a opinião pública. Fazem os sempre corretos intervir, dão origem a justificações e a fazer emendas e perturbam a harmonia do espetáculo. A completa aniquilação da personalidade, considerada a única cura radical para mentes doentes, não transtorna ninguém. Desde que o ser humano na rua sinta que está rodeado pela imperturbável atmosfera do espetáculo capitalista, irá se sentir a salvo das portas do asilo, sempre a se fecharem com força na sua cara. O mundo da loucura lhe parecerá estar noutro lugar qualquer, mesmo que haja sempre um asilo disponível ao lado de cada fábrica, em frente a cada escola, por detrás de cada pedaço de terra, no meio de cada conjunto de casas pré-fabricadas.

Na nossa obtusidade crítica temos de ter cuidado para não abrir caminho aos servos civis em batas brancas. O capital está programando um código de interpretação para circular em massa. Com base neste código, a opinião pública irá habituar-se a ver aqueles que atacam a ordem patronal das coisas, ou seja, os revolucionários, como praticamente doidos. Daí a necessidade de os colocar longe, em asilos mentais. As prisões estão também racionalizando, segundo o modelo alemão. Primeiro, transformarão em prisões especiais para revolucionários, depois em prisões modelos, depois em verdadeiros tubos de ensaio para manipulação cerebral, e finalmente, em asilos mentais. O comportamento do capital não é somente ditado pela necessidade de se proteger das lutas dos explorados. Ele é ditado pela lógica do código da produção de mercadorias. Para o capital, o asilo é um local onde a globalidade do funcionamento espetacular é interrompida. A prisão voa desesperadamente para fazer isto, mas sem sucesso, bloqueada como está pela sua ideologia básica de ortopedia social.

O “local” do asilo, pelo contrário, não tem um começo nem um fim, não tem história, não tem a mutabilidade do espetáculo. É o local do silêncio. O outro “local” do silêncio, o cemitério, tem a capacidade de se fazer ouvir. Os mortos falam. E os nossos mortos falam bem alto. Podem ser penosos, muito penosos. É por isso que o capital tentará ter cada vez menos deles. E o número de “convidados” em asilos aumentará proporcionalmente. A “terra-mãe do socialismo” tem muito a ensinar neste campo. O asilo é a perfeita racionalização terapêutica do tempo livre, a suspensão do trabalho sem dano para a estrutura mercantil.

Falta de produtividade sem a sua negação. O louco não tem de trabalhar e ao não fazer, ele confirma que o trabalho é sabedoria, o oposto da loucura. Quando dizemos que a hora não é oportuna para um ataque armado ao Estado, estamos a escancarar as portas do asilo mental para os companheiros que estão levando a cabo tais ataques; quando dizemos que não é altura para a revolução, estamos apertando os fechos do colete-de-forças: quando dizemos que estas ações são objetivamente uma provocação, nós vestimos as batas brancas dos torturadoraes.

Quando o número de opositores era insignificante, as balas de canhão eram eficazes. Uma dúzia de mortos tolera-se. Trinta mil, cem mil, duzentos mil, marcariam um ponto de viragem na história, um ponto de referência revolucionário, de tão cegante claridade que despedaçaria a pacífica harmonia do espectáculo mercantil. Além disso, o capital é mais habilidoso. As drogas têm uma neutralidade que as balas não possuem. Têm o álibi de serem terapêuticas.

Que o estatuto de loucura do capital lhe seja atirado à cara. A sociedade é um imenso asilo mental. Que os termos das contra-prisões sejam deitadas abaixo. A neutralização do indivíduo é prática corrente na totalidade reificada do capital. O alisar de opiniões é um processo terapêutico, uma máquina de morte. A produção não tem lugar sem este alisar na forma espetacular do capitalismo. E se a recusa de tudo isso, a escolha do prazer frente a morte, é um sinal de loucura, é tempo de toda a gente começar a perceber a armadilha que se esconde por detrás de tudo isto. O inteiro aparato da tradição cultural ocidental é uma máquina de morte, a negação da realidade, um reino dos fictícios que agregou todos os tipos de infâmia e injustiça, exploração e genocídio. Se a recusa desta lógica está condenada como loucura, então devemos distinguir entre loucura e loucura. O prazer está se armando. O seu ataque irá submeter a alucinação mercantil, o mecanismo, a vingança, o líder, o partido, a quantidade. A sua luta esta deitando abaixo a lógica do lucro, a arquitetura do mercado, a programação da vida, o último documento no último arquivo. A sua violenta explosão esta subvertendo a ordem de dependência, a nomenclatura de positivo e negativo, o código da ilusão mercantil. Mas tudo isto deve ser capaz de se comunicar. A passagem do mundo do prazer para o mundo da morte não é fácil. Os códigos estão desfasados e acabam por se aniquilar uns aos outros. O que é considerado ilusão no mundo do prazer é realidade no mundo da morte, e vice-versa. A morte física, uma grande preocupação no mundo da morte, é menos mortificante do que é propagado como vida. Daí a capacidade do capital para mistificar mensagens de prazer. Mesmo revolucionários da lógica quantitativa são incapazes de compreender a fundo experiências de prazer.

As vezes, hesitantes, fazem aproximações insignificantes. Outras vezes, deixam-se ir com condenação, não muito diferente a do capital.

No espetáculo das mercadorias, são os bens que contam. O elemento ativo desta massa acumulada é o trabalho. Nada pode ser simultaneamente positivo e negativo, no quadro da produção. É possível defender o não-trabalho, não a negação do trabalho mas a sua suspensão temporária. Do mesmo modo, é possível defender a não-mercadoria, o objeto personalizado, mas apenas no contexto de “tempo livre”, ou seja, algo que é produzido como um hobby nos intervalos de tempo concedidos pelo ciclo produtivo. Neste sentido, está claro que estes conceitos, o não-trabalho e a não-mercadoria, são funcionais para o modelo geral de produção. Somente clarificando o significado do prazer e o respectivo significado da morte, como componentes de dois mundos opostos em luta um contra o outro, é que é possível comunicar elementos das ações de prazer sem nos iludirmos de que podemos comunicar todos eles. Alguém que comece a experimentar prazer, mesmo que numa perspectiva não diretamente relacionada com o ataque ao capital, está mais desejoso de abraçar a significância do ataque, pelo menos mais do que aqueles que permanecem amarrados a uma visão desatualizada do confronto, baseada na ilusão da quantidade.

E, portanto, a coruja poderia, ainda assim, bater asas e voar.


Alegria Armada
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