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Capítulo V (Alegria Armada)

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Alegria Armada
Alfredo M. Bonanno


«"As noites de verão são árduas. Dorme-se mal em quartos pequenos. É a Noite da Guilhotina.


Os explorados também encontram tempo para se divertir. Mas o seu divertimento não é prazer.

É um ritual macabro. Uma morte lenta. Uma suspensão do trabalho com o objetivo de aliviar a pressão da violência acumulada durante a atividade de produção. No mundo ilusório das mercadorias, o divertimento é também uma ilusão. Imaginamos que estamos brincando, quando o que estamos realmente fazendo é repetir monotonamente os papéis que nos foram atribuídos pelo capital. Quando ficamos conscientes do processo de exploração, a primeira coisa que sentimos é um desejo de vingança, a última é prazer. A libertação é vista como a reposição de um equilíbrio que tinha sido abalado pela perversidade do capitalismo, não como a vinda de um mundo de divertimento que vem ocupar o lugar do mundo de trabalho. Esta é a primeira fase do ataque aos chefes. A fase de consciência imediata. O que nos fere são as correntes, o chicote, os muros das prisões, as barreiras sexuais e raciais. Tudo deve vir abaixo. Assim, nos armamos e ferimos o adversário, para fazer pagar pela sua responsabilidade. Durante a noite da guilhotina as bases para um novo espetáculo são colocadas. O capital recupera força: primeiro as cabeças dos chefes caem, depois as dos revolucionários. É impossível fazer a revolução apenas com a guilhotina. A vingança é a antecâmara do poder.

Qualquer pessoa que queira se vingar requer um líder. Um líder que os conduza a vitória e reponha a justiça ferida. E quem quer que seja que grite por vingança quer ficar na posse daquilo que lhe foi retirado. Direitos a abstração suprema, a apropriação dos excedentes. O mundo do futuro deve ser um em que toda as pessoas trabalhem. Ótimo! Assim teremos imposto a escravidão a todas as pessoas, com a exceção daqueles que a fazem funcionar e que, precisamente por isso, se tornam os novos patrões. Aconteça o que acontecer, os chefes devem “pagar” pelos seus erros. Muito bem! “Carregaremos” a ética Cristã do pecado, julgamento e correção para a revolução. Assim como os conceitos de “dívida” e “pagamento”, claramente de origens mercantis. Tudo isso é parte do espetáculo. Mesmo quando ele não é gerido pelo poder diretamente, pode facilmente ser monopolizado. A inversão de papéis é uma das técnicas de teatro. Talvez seja necessário atacar usando as armas da vingança e castigo num dado momento na luta de classes. O movimento pode não possuir quaisquer outras. Deste modo esse será o momento da guilhotina. Mas os revolucionários devem estar conscientes das limitações de tais armas. Não se devem iludir a si mesmos nem a outros. Dentro do quadro paranóico de uma máquina racionalizadora como o capitalismo, o conceito da revolução da vingança pode até tornar-se parte do espetáculo, visto que ele se adapta constantemente. O movimento de produção parece surgir graças a bênção da ciência econômica, mas na realidade é baseado na antropologia ilusória da separação de tarefas. Não há prazer no trabalho, mesmo que ele seja autogestionado. A revolução não pode ser reduzida a uma simples reorganização do trabalho. Não somente a isso. Não há prazer no sacrifício, na morte e na vingança. Tal como não há prazer em nos contarmos. A aritmética é a negação do prazer.

Qualquer pessoa que deseje viver não produz morte. Uma aceitação provisória da guilhotina conduz a sua institucionalização. Mas ao mesmo tempo, qualquer pessoa que ame a vida não abraça o seu explorador. Isso significaria que é contra a vida em benefício do sacrifício, da auto-punição, do trabalho e da morte. No cemitério do trabalho, séculos de exploração acumularam uma grande montanha de vingança. Os líderes da revolução sentam-se no topo desta montanha, impassivelmente. Estudam a melhor maneira de obter lucro dela. Assim, a espora da vingança deve ser direcionada contra os interesses da nova casta no poder. Símbolos e bandeiras. Slogans e análises complexas. O aparato ideológico faz tudo o que é necessário.

É a ética do trabalho que torna isto possível. Alguém que se delicie no trabalho e queira tomar os meios de produção não quer que as coisas vão em frente cegamente. Eles sabem por experiência que os patrões tiveram uma forte organização do seu lado de modo a fazer a exploração funcionar. Eles pensam que uma semelhante organização forte e perfeita fará a libertação possível. Faz tudo ao teu alcance; a produtividade deve ser salva a todo o custo. Que embuste. A ética do trabalho é a ética Cristã do sacrifício, a ética dos patrões graças a qual os massacres da história se sucederam uns aos outros com preocupante regularidade. Esta gente não consegue compreender que seria possível não produzir excedentes, e que uma pessoa se podia também recusar a fazê-lo. Que é possível defender a vontade de alguém para não produzir, e assim lutando contra ambas as estruturas econômica e ideológica dos patrões, que penetram a totalidade do pensamento ocidental. É essencial perceber que a ética do trabalho é a base do projeto revolucionário quantitativo. Argumentos contra o trabalho não fariam sentido se fossem feitos por organizações revolucionárias com a sua lógica de crescimento quantitativo. A substituição da ética do trabalho pela estética do prazer não significaria um fim da vida, como tantos preocupados companheiros entendem. A pergunta “o que vamos comer?” alguem poderia simplesmente responder “o que produzirmos”. Só que a produção não mais seria a dimensão na qual o humano se determina, pois isso aconteceria na esfera do divertimento e do prazer.

Uma pessoa poderia produzir como algo separado da natureza, e então juntarmo-nos a ela como algo que é a natureza em si mesmo. Portanto, seria possível parar a produção a qualquer momento, quando já houvesse o suficiente. Apenas o prazer será incontrolável. Uma força desconhecida das larvas civilizadas que povoam a nossa era. Uma força que irá multiplicar o impulso criativo da revolução um milhar de vezes. A riqueza social do mundo comunista não é medida numa acumulação de excedentes, mesmo que passe a ser gerida por uma minoria que se auto-denomina o partido do proletariado. Esta situação reproduz o poder e nega a própria essência de anarquia. A riqueza social comunista advém do potencial de vida que aparece após a revolução. A acumulação qualitativa, não quantitativa, deve substituir a acumulação capitalista. A revolução da vida toma o lugar da revolução meramente econômica, o potencial produtivo toma o lugar da produção cristalizada, o prazer toma o lugar do espetáculo. A recusa do mercado espetacular de ilusões capitalistas criará outro tipo de troca. De uma troca quantitativa fictícia a uma realmente qualitativa. A circulação de bens não se irá basear em objetos nem na sua ilusionista reificação, mas no significado que os objetos têm para a vida. E este deve ser um significado de vida, não de morte. Assim, estes objetos serão limitados ao preciso momento em que são trocados, e a sua significação irá variar de acordo com as situações em que isto toma lugar. O mesmo objeto poderia ter “valores” profundamente diferentes. Será personificado. Nada a ver com a produção como a conhecemos hoje, na dimensão do capital. A própria troca terá um significado diferente quando for vista através da recusa de produção ilimitada. O trabalho libertado não existe. O trabalho integrado (manual-intelectual) não existe. O que existe é a divisão do trabalho e a venda da força de trabalho, i.e., o mundo capitalista da produção. A revolução é a negação do trabalho e a afirmação do prazer. Qualquer tentativa de imposição da idéia de trabalho, de “trabalho justo”, de trabalho sem exploração, de trabalho “auto-gestionado”, onde é suposto os explorados reapropriarem-se totalmente do processo produtivo sem exploração, é uma mistificação. O conceito da auto-gestão da produção é válido apenas como forma de luta contra o capitalismo, na verdade não pode ser separado da ideia de auto-gestão da luta. Se a luta for extinta, a auto-gestão torna-se nada mais do que a autogestão da exploração pessoal. Se a luta for vitoriosa, a autogestão da produção torna-se supérflua, pois após a revolução a organização da produção é supérflua e contrarevolucionária



Alegria Armada
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