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Capítulo VI (Alegria Armada)

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Alegria Armada
Alfredo M. Bonanno


«"Enquanto fores tu próprio a fazer o lançamento, tudo é habilidade e fácil de ganhar; só se de repente te tornas o que apanha a bola que o eterna colega arremessa, para o teu centro, com toda a sua força, num daqueles arcos de grandiosos e divinos construtores de pontes: apenas aí a capacidade de ganhar força é não tua, mas de um mundo.
(Rilke)


Todos acreditamos que já experimentamos o prazer. Cada um de nós acredita que já fomos felizes pelo menos uma ez nas nossas vidas. Só que esta experiência de prazer foi sempre passiva. Nos Acontece de divertir a nós mesmo. Não conseguimos “desejar” o prazer, da mesma maneira que não podemos obrigar o prazer a aparecer, quando queremos que o faça.

Toda esta separação entre nós e o prazer depende de estarmos “separados” de nós mesmas, divididas em dois pelo processo de exploração. Trabalhamos o ano inteiro para termos o “prazer” das férias. Quando estas chegam sentimo-nos “obrigados” a “desfrutar” do fato de estarmos de férias. Uma forma de tortura como outra qualquer. O mesmo acontece para os Domingos. Um dia terrível. A rarefação da ilusão de tempo livre demonstra o vazio do espetáculo mercantil em que vivemos. O mesmo olhar vidrado e sem vida fita o copo meio vazio, a tela de televisão, o jogo de futebol, a dose de heroína, a tela de cinema, as filas de trânsito, luzes de neon, as casas pré-fabricadas que completaram a matança da paisagem. Procurar “prazer” nas profundezas de qualquer uma das representações do espetáculo capitalista seria pura loucura. Mas isso é precisamente o que o capital quer. A experiência de tempo livre programada pelos nossos exploradores é mortal. Te faz querer ir trabalhar. A vida aparente de uma pessoa acaba por preferir a morte certa. Nenhum verdadeiro prazer chega até nós a partir do mecanismo racional de exploração capitalista. O prazer não tem regras fixas que o cataloguem. Mesmo assim, devemos ser capazes de desejar prazer. De outro modo estaríamos perdidos. A procura do prazer é, portanto, um ato de vontade, uma recusa firme das condições fixas do capital e dos seus valores. A primeira destas recusas é a do trabalho como um valor. A procura do prazer pode chegar apenas através da procura do divertimento.

Assim, o divertimento significa algo diferente do que estamos habituados a considerá-lo ser na dimensão do capital. Como a tranquila ociosidade, o divertimento que se opõe as responsabilidades da vida é uma imagem artificial, distorcida, do que ele realmente é. No atual estado do conflito e das constrições relativas na luta contra o capital, o divertimento não é um “passatempo”, mas uma arma. Por um golpe de ironia, os papéis estão invertidos. Se a vida é algo sério, a morte é uma ilusão, no sentido de que, enquanto estamos vivos, a morte não existe. Agora, o reino da morte, ou seja, o reino do capital, que nega a nossa própria existência como seres humanos e nos reduz a “coisas”, parece bastante sério, metódico e disciplinado. Mas o seu apogeu possessivo, o seu rigor ético, a sua obsessão com o “fazer”, todos escondem uma grande ilusão: o vazio total do espetáculo mercantil, a inutilidade da acumulação indefinida e o absurdo da exploração.

Assim, a grande seriedade do mundo do trabalho e da produtividade esconde uma completa falta de seriedade. Por outro lado, a recusa deste mundo estúpido, a perseguição do prazer, dos sonhos, da utopia, na sua declarada “falta de seriedade”, oculta a mais séria coisa na vida: a recusa da morte. Na confrontação física com o capital, o divertimento toma diferentes formas, mesmo deste lado da cerca. Muitas coisas podem ser feitas “divertidamente”, ainda que a maioria das coisas que fazemos, fazemo-as muito “seriamente”, usando a máscara da morte que pedimos emprestada ao capital. O divertimento é caracterizado por um impulso vital que é sempre novo, que está sempre em movimento. Agindo como se estivéssemos a brincar, carregamos a nossa ação com este impulso.

Nos libertamos da morte. O divertimento faz nos sentir vivos. Nos da a excitação da vida.

No outro modelo de atuação fazemos tudo como se fosse um dever, como se “tivéssemos” que fazer. É na sempre nova excitação do divertimento, totalmente o oposto a alienação e loucura do capital, que somos capazes de identificar o prazer. Aqui reside a possibilidade de quebrar com o velho mundo e de nos identificarmos com novos objetivos e outros valores e necessidades. Mesmo que o prazer não possa ser considerado o objetivo do ser humano, ele é, indubitavelmente, a dimensão privilegiada que torna diferente o confronto com o capital, quando perseguido deliberadamente.


Alegria Armada
Capítulo V (Alegria Armada) Capítulo VI (Alegria Armada) Capítulo VII (Alegria Armada)

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