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Capítulo VII (Alegria Armada)

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Alegria Armada
Alfredo M. Bonanno


«"A vida é tão aborrecida que não há nada para fazer, a não ser gastar todo o nosso salário na última saia ou camisa. Irmãos e irmãs, quais são os vossos verdadeiros desejos? Sentarem-se no bar, com olhar distante, vazios, aborrecidos, beber um café sem sabor? Ou talvez EXPLODIR OU ATEAR FOGO EM TUDO?
(The Angry Brigade)


O grande espetáculo do capital nos engoliu a todos até ao pescoço. Atores e espectadores em alternancia. Alternamos os papéis, quer seja pasmados de boca aberta olhando para os outros ou fazendo os outros ficarem pasmados ao olhar para nós. Desmontamos do coche de vidro, mesmo sabendo que é apenas uma abóbora. O feitiço da fada madrinha iludiu a nossa consciência crítica. Agora temos de jogar o jogo. Até a meia-noite, pelo menos. A pobreza e a fome continuam a ser a forças motrizes da revolução. Mas o capital está expandindo o espetáculo. Quer novos atores em palco. O maior espetáculo do mundo continuará a nos surpreender. Cada vez mais complexo, melhor e mais bem organizado. Novos palhaços se preparam para subir a tribuna. Novas espécies de bestas selvagens serão domesticadas. Os defensores da quantidade, amantes da aritmética, serão os primeiros e ficarão cegos pelas luzes da ribalta, arrastando a necessidade das massas e as ideologias da salvação atrás deles. Mas uma coisa de que não conseguirão se livrar é da sua seriedade. O maior perigo que enfrentarão será uma gargalhada. No espetáculo do capital, o prazer é fatal. Tudo é sombrio e fúnebre, tudo é sério e ordeiro, tudo é racional e programado, precisamente porque tudo é falso e ilusório. Para além das crises, para além de outros problemas do subdesenvolvimento, para além da pobreza e da fome, a última batalha para qual o capital terá de estar preparado, aquela decisiva, é a batalha contra o tédio.

O movimento revolucionário terá também de lutar as suas batalhas. Não apenas as tradicionais contra o capital, mas algumas novas, contra si mesmo. O tédio o está atacando por dentro, causando a sua deterioração, fazendo-o asfixiante, inabitável. Vamos deixar aqueles que gostam do espetáculo do capitalismo sozinhos. Os que estão bastante satisfeitos por representar as suas partes até ao fim. Estas pessoas pensam que as reformas podem realmente mudar as coisas. Mas isto é mais uma capa ideológica do que outra coisa. Eles sabem demasiado bem que mudar bocados é uma das regras do sistema. É útil ao capital ter as coisas arranjadas um pouco de cada vez. Assim, existe o movimento revolucionário, onde não faltam aqueles que atacam o poder do capital verbalmente. Estas pessoas geram uma enorme confusão. Aparecem com grandes declarações mas já não impressionam ninguém, muito menos o capital, que, com astúcia, os usa para a parte mais delicada do seu espetáculo. Quando precisa de um solista, coloca um destes intérpretes em palco. O resultado é lastimável. A verdade é que o mecanismo espetacular das mercadorias deve ser quebrado pela entrada, o domínio do capital, nos seus centros de comando, direito ao próprio núcleo de produção. Imagina que maravilhosa explosão de prazer, que grandioso salto para a frente, que extraordinário fim incerto. Só que é difícil entrar nos mecanismos do capital alegremente, com os símbolos da vida.

A luta armada é muitas vezes um símbolo de morte. Não porque traz a morte aos chefes e aos seus servos, mas porque quer impor as estruturas do domínio da própria morte. Concebida de outro modo, ela seria realmente prazer em ação, capaz de quebrar as condições estruturais impostas pelo espetáculo mercantil, tais como o partido militar, a conquista do poder, a vanguarda. Este é a outra inimiga do movimento revolucionário. A incompreensão. A recusa de ver as novas condições do conflito. A insistência em impor modelos do passado que se tornaram hoje parte do espetáculo mercantil. A ignorância da nova realidade revolucionária está conduzindo a uma falta de consciência teórica e estratégica da capacidade revolucionária do próprio movimento. E não basta dizer que há inimigos tão a mão que é indispensável intervir imediatamente, sem olhar a questões de natureza teórica. Tudo isto esconde a incapacidade de encarar a nova realidade do movimento e de evitar os erros do passado, que têm sérias consequências no presente. E esta recusa fomenta todos os tipos de ilusões políticas racionalistas. Categorias como vingança, líderes, partidos, a vanguarda, crescimento quantitativo, apenas significam algo na dimensão desta sociedade, e tal significado favorece a perpetuação do poder. Quando olha para as coisas de um ponto de vista revolucionário, isto é, a completa e definitiva eliminação de todo o poder, estas categorias perdem o sentido. Ao nos movermos para parte alguma da utopia, contrariando a ética do trabalho, transformando-a no aqui e agora, no prazer em realização, nos encontramos numa estrutura que está longe das formas históricas de organização. Esta estrutura muda constantemente e, portanto, escapa a cristalização. É caracterizada pela auto-organização da luta contra o trabalho. Não a tomada dos meios de produção, mas a recusa da produção, através de formas organizacionais que estão constantemente a mudar. O mesmo está acontecendo com os desempregados e os trabalhadores casuais. Estimuladas pelo tédio e pela alienação, estruturas emergem na base da auto-organização.

A introdução de objetivos programados e impostos por uma organização exterior iria matar o movimento e consigná-lo ao espetáculo mercantil. A maior parte de nós está ligada a esta idéia de organização revolucionária. Mesmo os anarquistas, que recusam a organização autoritária, não a desprezam. Nesta base, todos aceitamos a idéia de que a contraditória realidade do capital pode ser atacada com meios semelhantes. Fazemos isto porque estamos convencidos que estes meios são legítimos, surgindo do mesmo campo de luta que o capital. Recusamos admitir que nem toda a gente vê as coisas da mesma maneira que nós. A nossa teoria é idêntica a prática e estratégia das nossas organizações. As diferenças entre os autoritários e nós são muitas; mas todas elas caem perante uma fé comum na organização histórica. A anarquia será alcançada através do trabalho destas organizações (diferenças substanciais apenas aparecem nos métodos de abordagem). Mas esta fé indica algo muito importante: a reivindicação da nossa cultura totalmente racionalista de explicar a realidade em termos progressistas. Esta cultura baseia-se na ideia de que a história é irreversível, assim como na capacidade analítica da ciência. Tudo isto nos faz ver o presente como a altura em que todos os esforços do passado encontram o ponto culminante da luta contra os poderes das trevas (a exploração capitalista). Consequentemente, estamos convencidos que somos mais avançados que os nossos antecessores, capazes de elaborar e colocar em prática teorias e estratégias organizacionais que são a soma de todas as experiências do passado. Todos os que rejeitam esta interpretação encontram-se automaticamente do outro lado da realidade, que é, por definição, história, progresso, e ciência. Quem quer que recuse tal realidade é anti-histórico, anti-progressista e anticientífico. Condenado sem recurso. Fortalecidos por esta armadura ideológica, vamos para as ruas. Aqui nos lançamos na realidade de uma luta que está estruturada de maneira bem diferente, por estímulos que não entram no quadro da nossa análise. Numa bela manhã, durante uma manifestação pacífica, a polícia começa a disparar. A estrutura reage, companheiros disparam também, políciais caem. Maldição! Era uma manifestação pacífica. Para que tivesse degenerado em ações individuais de guerrilha tem que ter havido uma provocação. Nada pode ir além do perfeito quadro da nossa organização ideológica pois ela não é apenas uma “parte” da realidade, ela é “toda” a realidade. Qualquer coisa para além dela é loucura e provocação. Supermercados são destruídos, lojas, armazéns de comida e de armas são pilhados, carros de luxo são queimados. É um ataque ao espetáculo mercantil na sua mais notável forma. As novas estruturas estão se movendo nessa direção. Tomam forma de repente, apenas com a mínima orientação estratégica necessária. Sem frescuras, sem longas premissas analíticas, sem complexas teorias de suporte. Elas atacam. Companheiros identificam-se com estas estruturas. Rejeitam as organizações que dão poder, equilíbrio, espera, morte. A sua ação é uma crítica das suicidas posições de esperar-para-ver destas organizações. Maldição! Deve ter havido uma provocação.

Há uma fuga dos tradicionais modelos políticos que se torna uma crítica do próprio movimento. A irônia tornase uma arma. Não encerrada num estudo de um escritor, mas em massa, nas ruas. Não apenas os servos dos patrões, mas também os líderes revolucionários se encontram em dificuldades, como resultado disso. A mentalidade do desnecessário chefe e grupo de liderança é também posta em crise. Maldição! A única crítica legítima é aquela contra os patrões, e deve concordar com as regras ditadas pela tradição histórica da luta de classes. Quem quer que se desencaminhe do seminário é um provocador. As pessoas estão fartas de reuniões, das marchas clássicas, sem sentido, de discussões teóricas que metem os cabelos em pé, de distinções sem fim, da monotonia e pobreza de certas análises políticas. Elas preferem fazer amor, fumar, ouvir música, passear, dormir, rir, brincar, matar políciais, estropiar jornalistas, matar juízes, explodir quartéis.

Maldição! A luta só é legítima quando é compreensível para os líderes da revolução. Senão, havendo o risco de que a situação possa fugir ao seu controle, deve ter havido uma provocação. Depressa, companheiro, alveja a polícia, o juiz, o patrão. Agora; antes que uma nova polícia te impeça.

Apressa-te a dizer Não, antes que a nova repressão te convença que não vale a pena dizer não, que é loucura, e que devia aceitar a hospitalidade do asilo mental.

Apressa-te a atacar o capital, antes que uma nova ideologia o torne sagrado para ti.

Apressa-te a recusar o trabalho, antes que algum novo sofista te diga novamente que “o trabalho liberta”.

Apressa-te a se divertir.

Apressa-te a te armar.


Alegria Armada
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