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Capítulo I (Alegria Armada)

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Alegria Armada
Alfredo M. Bonanno
«"Na Paris de 1848, a revolução era um feriado sem um começo nem um fim.


Por que catzo esta criançada maravilhosa atirou nas pernas de Montanelli?[1] Não teria sido melhor se tivessem atirado na boca? Claro que teria. Mas também teria sido mais pesado, vingativo e sombrio. Deixar aleijado um monstro daqueles parece ter um efeito mais profundo e significativo, que vai para além da vingança, para além de puni-lo pelo que é de sua responsabilidade, pelo jornalista fascista e lacaio patronal que ele é.

Deixá-lo aleijado obriga-o a mancar, faz com que ele se recorde. Além do mais, aleijar é algo mais divertido e agradável do que dar um tiro na boca, com pedaços de cérebro se espalhando através dos olhos.

O companheiro que se levanta todas as manhãs e pela neblina caminha até a sufocante atmosfera da fábrica, ou do escritório, apenas para ver as mesmas caras: o patrão, o relógio, o dedo-duro da momento, o stakhanovista-com-sete-filhos-para-criar[2], sente a necessidade de revolução, de luta e de confronto físico, ainda que mortal. Mas também quer dar a si mesmo alguma alegria imediata, neste exato momento. E alimenta esta alegria em suas fantasias enquanto caminha de cabeça baixa na neblina, gasta horas em ônibus ou trens, sufoca nas idas sem sentido ao escritório ou no meio dos inúteis parafusos que servem para manter juntos os inúteis mecanismos do capital.Prazer remunerado; fins-de-semana fora ou férias anuais pagas pelo patrão é como pagar para fazer amor. Parece a mesma coisa, mas há alguma coisa faltando.

Centenas de teorias jazem empilhadas em livros, panfletos e jornais revolucionários. Devemos fazer isto, fazer aquilo, ver as coisas desta ou daquela forma, como disse um ou outra, pois eles são os verdadeiros intérpretes destes ou daqueles que vieram antes deles, aqueles em letras capitais que preenchem os sufocantes volumes dos clássicos.

Mesmo a necessidade de mantê-los ao alcance da mão é tudo parte da liturgia. Não tê-los seria mau sinal, algo a se suspeitar. De qualquer forma é conveniente mantê-los a mão em qualquer ocasião. Sendo pesados eles podem sempre ser atirados no rosto de algum chato nonsense. Uma saudável confirmação nenhum pouco nova da validade dos textos revolucionários do passado (e do presente).

Jamais existe o que quer que seja sobre alegria nestes volumes. O convento em sua austeridade não possui algo invejável em relação à atmosfera respirável em seus tomos. Seus autores, os sacerdotes da revolução da vingança e da punição, passam o tempo pesando culpa e retribuição. Ainda mais; esta gente pura de calça jeans que fez um voto de sacrifício. Primeiro, abandonaram o ambiente confortável de sua classe de origem, e depois colocaram suas habilidades a serviço dos despossuídos. Cresceram com o hábito de usar palavras que não são as suas e de fumar um em uma mesa suja e em camas desarrumadas. Portanto, devemos ao menos ouvi-las.

Sonham com revoluções ordeiras, princípios desenhados com primor, anarquia sem turbulência. Se as coisas tomam um rumo diferente, começam a gritar provocações, berrando alto o suficiente para que a polícia os escolte.

Revolucionários são pessoas devotas, a revolução não é.


Referências

  1. Indro Montanelli, jornalista, correspondente de guerra, escritor e membro do partido fascista italiano que com seu "jornalismo" defendeu ações violentas levadas a cabo por forças reacionárias em diversas guerras. Foi expulso do sindicato dos jornalistas por sua "cobertura" da Guerra Civil Espanhola. Após escrever um artigo sobre Benito Mussolini e sua amante foi preso pelos nazistas, conseguindo escapar para a Suíça. Ao fim da guerra, retornou ao periódico "Il Giornale" no qual havia trabalhado anteriormente, adquirindo grande prestígio por defender posições conservadoras. Em 6 de fevereiro de 1977 enquanto caminhava até seu escritório em Milão Montanelli levou quatro tiros nas pernas e nos joelhos. O ataque foi levado a cabo por membros da Brigada Vermelha italiana, já que ele era o grande nome por trás de uma campanha contra as células revolucionárias naquele país.
  2. Termo derivado de Alexey Stakhanov, um mineiro russo elevado a garoto propaganda da eficiência trabalhista e econômica do regime soviético, após bater o recorde de produtividade em uma mina de carvão, retirando sozinho cento e duas toneladas de carvão em menos de seis horas.


Alegria Armada
Introdução (Alegria Armada) Capítulo I (Alegria Armada) Capítulo II (Alegria Armada)

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