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Capítulo IV (Alegria Armada)

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Alegria Armada
Alfredo M. Bonanno


«"O homem desfigurado encontra sempre espelhos que o faz perfeito.
(de Sade)


Que loucura é o amor ao trabalho!

Com grande habilidade cênica, o capital teve sucesso em fazer os explorados amar a exploração, o enforcado a corda e o escravo as suas correntes. Esta idealização do trabalho tem sido a morte da revolução até agora. O movimento dos explorados tem sido corrompido pela moralidade burguesa da produção, a qual não só lhe é estranha, mas também oposta. Não é por acaso que os sindicatos tenham sido o primeiro setor a ser corrompido, precisamente devido a sua proximidade com gestão do espetáculo da produção. É tempo de opor a estética do não-trabalho a ética do trabalho. Devemos fazer frente a satisfação das necessidades espetaculares impostas pela sociedade de consumo com a satisfação das necessidades naturais da pessoa, vistas a luz da necessidade primária e essencial: a necessidade de comunismo.

Deste modo a avaliação quantitativa das necessidades é deitada abaixo. A necessidade de comunismo transforma todas as outras necessidades e respectivas pressões no ser humano. A pobreza da pessoa, a consequência da exploração, tem sido vista como a base da redenção futura. O cristianismo e os movimentos evolucionários têm andado de mãos dadas através da história. Devemos sofrer para conquistar o paraíso ou para adquirir a consciência de classe que nos conduzirá a revolução. Sem a ética do trabalho, a noção marxista de “proletariado” não faria sentido. Mas a ética do trabalho é produto do mesmo racionalismo burguês que permitiu a burguesia conquistar poder.

O corporativismo vem a superfície através da armadilha do internacionalismo proletário. Toda a gente se bate dentro do seu setor. No máximo contatam os seus semelhantes em outros países, através dos sindicatos. As monolíticas multinacionais são opostas por monolíticos sindicatos internacionais. Vamos lá fazer a revolução mas salvem a máquina, a ferramenta de trabalho, esse objeto mítico que reproduz a histórica virtude da burguesia, agora nas mãos do proletariado. O herdeiro da revolução está destinado a tornar-se o consumidor e ator principal do espetáculo capitalista de amanhã. Idealizada ao nível do conflito como beneficiária do seu resultado, a classe revolucionária desaparece na idealização da produção. Quando os explorados se vêm fechados numa classe, todos os elementos do espetacular já existem, tal como existem para a classe dos exploradores. A única maneira de os explorados escaparem do projeto globalizador do capital é através da recusa do trabalho, da produção e da economia política. Mas recusa do trabalho não deve ser confundida com “falta de trabalho”, numa sociedade que está baseada nesta, os marginalizados procuram trabalho. Não o encontram. São empurrados para guetos. São criminalizados. Então tudo isso se torna parte da gestão do espetáculo produtivo como um todo. Produtores e desempregados são igualmente indispensáveis ao capital. Mas o equilíbrio é delicado. As contradições explodem e produzem vários tipos de crise, e é neste contexto que a intervenção revolucionária toma lugar. Assim, a recusa do trabalho, a destruição do trabalho, é uma afirmação da necessidade de não-trabalho. A afirmação de que a pessoa consegue reproduzir e objetivar a si própria no não-trabalho através das várias solicitações que isto lhe estimula. A ideia de destruir o trabalho é absurda se for vista do ponto de vista da ética do trabalho. Mas como? Tantas pessoas a procura de trabalho, tantos desempregados, e vem me falar de destruir o trabalho? O fantasma Luddita aparece e aterroriza todos os revolucionários-que-leram-todos-os-clássicos. O rígido modelo do ataque frontal contra as forças capitalistas não deve ser tocado. Todos os fracassos e sofrimento do passado são irrelevantes; assim, é a vergonha e a traição. Adiante companheiros, melhores dias virão, adiante outra vez! Seria suficiente mostrar que o conceito de “tempo livre”, uma suspensão temporária do trabalho, está enterrado hoje em dia, para assustar de volta os proletários para a atmosfera estagnante das organizações de classe (partidos, sindicatos e lambe-botas). O espetáculo oferecido pelas burocráticas organizações de descanso é deliberadamente desenhado para deprimir mesmo as mais férteis imaginações. Mas isto não é mais do que uma capa ideológica; um dos muitos instrumentos da guerra total que constituem o espectáculo num todo.

A necessidade de comunismo transforma tudo. Através da necessidade de comunismo a necessidade de não-trabalho move-se do aspecto negativo (oposição ao trabalho) para o positivo: a completa disponibilidade das pessoas para si próprias, a possibilidade de se expressarem de modo absolutamente livre; soltando-se de todos os modelos, mesmo aqueles considerados fundamentais e indispensáveis como os da produção. Mas os revolucionários são pessoas obedientes e têm medo de romper com todos os modelos, incluindo o da revolução, que constitui um obstáculo a completa realização do que o conceito significa. Têm medo de se encontrarem sem um papel na vida. Alguma vez conheceste um revolucionário sem um projeto revolucionário? Um projeto que está bem definido e claramente apresentado as massas? Que tipo de revolucionário seria aquele que exigisse a destruição do modelo, do embrulho, dos próprios princípios da revolução? Ao atacar conceitos como quantificação, classe, projeto, modelo, papel histórico e outras coisas velhas deste tipo, correria o risco de não ter nada para fazer, de se ver obrigado a agir na realidade, modestamente, como toda as pessoas. Como milhões de outros que estão a construir a revolução dia a dia sem esperar por sinais de um prazo limite. E para fazer isto tu precisas de coragem. Com modelos rígidos e joguinhos quantitativos permaneces no domínio do irreal, do projeto ilusório da revolução, uma amplificação do espetáculo do capital. Ao abolir a ética da produção entra diretamente na realidade revolucionária. Até falar sobre estas coisas é difícil, pois não faz sentido mencioná-las nas páginas de uma dissertação. Reduzir estes problemas a uma análise final e completa seria errar o alvo. O melhor seria uma discussão informal capaz de fomentar a sutil magia do jogo de palavras. É uma verdadeira contradição falar de prazer seriamente.


Alegria Armada
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