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Bob Black/A mentira no estado... e em outros lugares

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A mentira no estado... e em outros lugares


Precisamos de uma fenomenologia da mentira. Como essência imanente e onipresente da nossa sociedade, a mentira não merece menos; e já é hora de ela ter o que merece. Vamos ser honestos, sobre a desonestidade. Como eles nos enganam? Deixe-me contar as formas.

Algumas formas de fraude , especialmente aquelas exercidas cara a cara, são altamente refinadas. Uma névoa fina desce sobre pessoas usando qualquer uma de várias expressões idiomáticas compartilhadas, que supõem estar dizendo algo quando estão apenas emitindo sinais , barulhos, que provocam reações similares. Na verdade, não passam de ruído.

A publicidade, o lenga-lenga New Age, a conversinha mole pra pegar mulher em barzinho e os jargões do marxismo são exemplos familiares. Muito mais expressão do que comunicação, na melhor das hipóteses eles dizem menos do que parecem dizer, e a melhor das hipóteses é rara, nesses casos. A maioria das "lacunas" nas fitas de Nixon não esta faltando.

A epítome da enganação consensual é a autocontradição transformada em jargão especializado, por exemplo:

Casamento aberto

Governo revolucionário

Lei e ordem

Direito ao trabalho

Teologia da libertação

Escolas livres

...e assim por diante

No outro extremo (general Jaruzelski¹, por exemplo) da engambelação sofisticada está a prevaricação pura e simples. Como cigarros, mas sem mensagens de advertência, essas mentiras costumam vir em pacotes. Políticos e padres permitem os exemplos mais claros - exemplos aos quais não podemos nos igualar. O mundo dos negócios (existe outro?) também contém ocupações inteiras de profissionais da falsidade, como vendedores e advogadosa. Há ramos, como da energia nuclear e o da "defesa", que pressupõem mais do que confundir de leve o consumidor comum: eles sapecam mentiras gigantescas sobre uma população ludibriada por questão de necessidade profissional. Ainda sim, políticos são os mentirosos ideais. É para mentir ( além de dar ordens) que nós lhes pagamos, ou melhor, que eles se pagam com nossos impostos. A diplomacia, por exemplo, é apenas, o engôdo em traje de gala. Quando dizemos que alguém esta sendo "diplomático", queremos dizer que ele está contando mentiras para aquietar algum conflito. Mas na diplomacia os governos estão lidando com monopólios da violência iguais a eles, portanto, mentem com mais cuidado do que em geral têm com as populações que controlam. Políticos freqüentemente são ambíguos, mas raramente são sutis. Por que não deixar as sutilezas de lado, quando você tem a maioria dos homens armados de um país sob seu comando?

Uma Grande Mentira original e exemplar, por exemplo, está embutida em quase toda referência pública ao "terrorismo". A verdadeira acepção da palavra é o uso de violência contra não-combatentes para fins políticos. Os esquadrões da morte na América Central ou a distribuição de "brinquedos" explosivos feitos por soviéticos a crianças afegãs, para que elas se mutilem, são exemplos. A idéia é impor a própria vontade, não pela coerção direta daqueles a serem controlados, mas infundindo neles o medo, isto é , "terror". Não há mal nenhum em ter uma palavra para denominar uma atividade que, sejam quais forem seus prós e contras, difere em alguns aspectos da guerra, do crime, da desordem civil etc.

São precisamente essas distinções que os políticos e seus seguidores acadêmicos e jornalísticos ocultam usando a palavra. Para eles, toda violência política, vandalismo ou até um mero tumulto é " terrorismo, a menos que os terroristas estejam usando uniforme. Governos , portanto, não praticam o terrorismo, haja o que houver, enquanto a violência contra o Estado e sempre terrorismo, mesmo se consistir em ataques de uma força militar contra outra. Os massacres conduzidos pelos salvadorenhos auxiliares dos EUA; os bombardeios israelenses de campos de refugiados palestinos ou o seqüestro de reféns libaneses; até o holocausto em Camboja e no afeganistão, lamentados de maneira tão hipócrita, ou os assassinatos em prisões sul-africanas, por serem todos chacinas santificadas pelo Estado, não constituem atos terroristas. O terrorismo não é tanto uma questão de destruição e morte quanto de correção indumentária. Soldados são terroristas que tiveram o cuidado de se vestir para o sucesso. Isso basta que os gerentes da opinião pública durmam tranqüilamente, embora não necessariamente tanto quanto o presidente Reagan, quando, apesar do bombardeio de pacientes psiquiátricos em Granada e do fuzilamento de operários cubanos da construção civil, ele relatou que, como de costume, dormira bem.

É notável como esse esquema é eficaz. Os outrora perseguidos sandinistas eram terroristas até o momento mágico em que suplantaram Somoza. O presidente Robert Mugabe era um "terrorista" negro até se transubstanciar em estadista Zimbabwiano. Quando xiitas tomam reféns americanos, eles são terroristas. Quando israelenses tomam reféns xiitas, trata-se de uma violação da lei internacional, talvez, motivo para uma crítica contida mas de modo algum é terrorismo. Apesar de sua crueza hipócrita, a farsa do terrorismo tem sido bem aceita. O bonequinho dos comandos em ação , aposentado por alguns anos depois da Guerra Que Não Ousa Dizer Seu Nome, está de volta. Agora ele combate terroristas.

Que as autoridades, como os autoritários que as invejam, mentem sistematicamente não é nenhuma novidade. Karl Kraus e George Orwell o disseram. Mas elas refinaram, ou ao menos aumentaram, seus embustes. Nossa complexa sociedade, baseada no consentimento por coerção, criou modos de manipulação tão avançados que a falsidade pode ser minimizada, até eliminada sem, que a verdade venha à tona. O sistema simplesmente nos inunda com informações tão triviais que chega a merecer o nome desgastado de "dados", até que os poucos assuntos de importância real sejam expulsos da mente. A escala e a estrutura da sociedade evitam que as pessoas experimentem imediatamente a ela ou umas às outras. O conhecimento é fragmentado em ilhas artificiais e confiado a especialistas endógamos. No mundo acadêmico, essas exclusividades merecem as conotações sadomasoquistas da denominação que recebem, "disciplinas".

A divisão social da mão-de-obra - estilhaçando uma vida que deveria ser experimentada integralmente em "papéis" padronizados a força -, estendida a consciência, se reproduz ao mesmo tempo que oculta sua passagem.

Regras e papéis nos tornam tão intercambiáveis quanto os bens cuja produção é a nossa destruição. Não admira que, como Karl Marx observou uma vez antes de se tornar um político, a única linguagem compreensível que temos é a linguagem das nossas posses conversando entre si. Precisamos de outra. E precisamos de ocasiões sem pressa e sem pressões para um repouso sem palavras. A revolução requer uma expressão idiomática antiidiotia que expresse o até agora indizível. O amor que não ousa dizer seu nome tem vantagens sobre o outro, caluniado por rótulos, cujo nome é tomado em vão e nunca devolvido aos seus donos legítimos.

A corrupção da linguagem promove a corrupção da vida. É na verdade o seu pré-requisito.

Um primeiro passo rumo à paz e a liberdade - impossível agora, sob a sociedade de classes e sua arma, o Estado - é chamar as coisas por seus verdadeiros nomes. Assim, a diferença entre os agentes do complexo militar-industrial-político-jornalistico e a arraia-miúda que a mídia difama como "terroristas" é apenas a diferença entre o atacado e o varejo. Guerra é assasinato.Imposto é furto. Conscrição é escravidão. Laisse-faire é totalitarismo. E (diz Debord), "num mundo realmente de ponta-cabeça, o verdadeiro é um momento falso".

NotasEditar

¹Primeiro-ministro da pôlonia de 1981 a 1985, chefe do Conselho de Estado de 1985 a 1989 e presidente de 1989 a 1990.(N. E.)

Tradução: Michele de Aguiar Vartuli


Ervadaninha.png   Este texto foi originalmente publicado por Erva Daninha.

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