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Bioética e as aporias da tecnociência

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Paira no ar, desde a Segunda Guerra Mundial, a expansão semântico-cultural da palavra “ética”. E, no entanto, nunca falou-se tanto em Ética, dado o mote de sua escassez nas relações pessoais e institucionais, quanto no momento. Até em lugares inusitados e suspeitos o assunto é tratado. Até no mundo da contravenção, bicheiros e traficantes falam em ética em referência a lisura de suas atividades. Os primeiros cumprem à risca o que a poule, em propriedade do jogador, indica como dados, e todo acertador recebe o que ganhou com rigor e presteza. Os que comercializam estupefacientes ilícitos mandam “justiçar” os que não pagam por seus serviços, sob a égide da Ética. Nos campos de nudismo há código de ética. Afinal, todos os freqüentadores devem apresentar-se com comportamento adequado em relação à ausência de indumentária e a forma controlada de dirigir olhares. Nos princípios da Idade Moderna, o tema não escapou a Erasmo de Rotterdam, que in De civitate morum puerilium, registrou o término da comuna medieval, na qual as pessoas conviviam, praticamente, com as mesmas entre si, durante toda vida. Com o término da comuna medieval, a convivência humana foi ampliada no universo cosmopolita, com habitantes imiscuídos por novos tipos sociais, com costumes diferentes dos moradores naturais. Assim, foi necessário educar o olhar das crianças para verem, mas, discretamente. Além da educação formal, havia a devida etiqueta para ocasiões ímpares, como a forma adequada de assoar o nariz à mesa. Ainda no circuito da expansão da palavra ética, investigam-se aspectos da ética na cama. Em 1991, sob os auspícios da Secretaria da Cultura da cidade de São Paulo, num simpósio sobre Ética, um filósofo francês tratou do tema à exaustão. Assunto tratado de modo sutil por Erasmo, no começo da Idade Moderna, ao assegurar qual a melhor forma de dois amigos viajantes, sem outras conotações, passarem a noite numa mesma cama... Contudo, o assunto deste artigo é bioética.

A palavra ética é polissêmica. Criada pelos gregos como transposição metafórica do ethos animal, que denotava, em princípio morada, covil e abrigo dos animais, uma vez transliterada, passou significar o conjunto normativo da vida em sociedade. No sentido particularizado, ética significava a constância do comportamento do indivíduo, cuja vida era regida pelo ethos como costume socialmente considerado. Na Antigüidade, havia um nexo de continuidade que transitava da ética “social” para a individual e desta para a ética política. Naquele período, ética e política eram tidas como saberes práticos.

Na Idade Moderna, com a irrupção do indivíduo, a ética esteve voltada para a realidade histórica e social dos costumes, enquanto a moral tendeu a privilegiar a subjetividade do agir ético. O pano de fundo da novidade da irrupção do indivíduo é o advento revolucionário da classe burguesa e do projeto burguês, em contraposição ao tom político-cultural hegemônico dado pela Igreja, anteriormente, na Idade Média. Descartes, calcado no princípio da autonomia da razão, será o filósofo por excelência desse novo mundo. De inspiração matemática, a filosofia cartesiana parte do ditado latino de omnibus dubitandum est, o exercício de duvidar de tudo no universo do conhecimento, que não fosse capaz de oferecer sustentação racional extremada. Assim, verdades silenciosas e crenças aleatórias, jamais questionadas deveriam ser submetidas à luz ultrabranca da razão, e, se não subsistissem à luminosidade, deveriam ser tiradas do conjunto do conhecimento. Descartes propõe a experiência do conhecer absoluto, porém sem Absoluto. Se Descartes se conteve quanto à análise da fé cristã, pois a teologia não se constituía objeto de seus estudos - por precaução frente à Inquisição -, propôs a moral provisória de alcance limitado e plena de salvaguardas, enquanto a prática da dúvida tudo devastava. No entanto, seus herdeiros filosóficos não fizeram outra coisa além de decompor criticamente as instituições éticas, religiosas, políticas e artísticas, não ficando pedra sobre pedra do conhecimento, em nome da deusa Razão e de uma pontual concepção mecanicista do homem e do mundo. Talvez neste ponto haja um engaste para o ulterior desenvolvimento da ciência, da tecnociência e da bioética.

No século XVIII, desconfiado da insuficiência e, mais que isso, do sumiço dos valores universais na ordem ética, Kant propôs um recurso à conduta moral. Escreveu: “age de maneira tal que possas também querer que a máxima de teu agir se transforme em lei universal da natureza...”[1] Kant percebera que se não subsistiam mais valores universais, a dinâmica do mundo moderno de braços, com o projeto individualista burguês, eliminara até mesmo os chamados “universais concretos”. Como seria então possível educar alguém eticamente? Como educar sem valores universais? Esta questão ecoa em alguns setores filosóficos até os dias de hoje. Em que valores apoiar e sustentar a educação, se nenhum princípio ético continha caráter universal? O chamado imperativo categórico kantiano é parte da tentativa de resposta, como se fosse possível universalizar uma conduta moral particular.

Cronologicamente mais próximo de nós, Nietzsche desconfiou de toda orientação da cultura ocidental, a partir da exacerbação dos usos da razão frente a sufocação dos instintos, sobretudo os sexuais. Segundo ele, um dos resultados do desequilíbrio e ausência de tensão necessária entre razão e instintos é o crescimento da violência e, no mesmo passo, o enfraquecimento moral das massas, a destruir a civilização e os valores considerados nobres. Para Nietzsche, esse perfurador de máscaras, a decadência moral crescente da humanidade tem duas raízes: primeira, na própria filosofia grega de Sócrates e Platão por idealizarem a distinção entre corpo e alma no homem, sendo a alma imortal, no mesmo movimento em que abandonava a concepção trágica e pagã de homem; a segunda raiz, deveu-se à publicidade e à institucionalização do cristianismo ao deslocar o homem de seu centro terrestre – animal da Terra que é – para provável vida futura, redimida a terrena pelo Filho de Deus, através do mito da ressurreição e doutrina ascética de condenação do corpo, locus de perdição da alma e fonte de pecados. Ambas as doutrinas foram geradoras de valores ressentidos, medrosos, antinaturais e anti-humanos. Tanto o platônico quanto o cristão veriam a vida – a força da vida – como uma doença. Para superar tal abismo seria necessário a operação da “transvaloração” – mudança dos valores ressentidos por valores nobres e elevados, que expressassem a ausência de medo da vida, dos instintos, da morte, das doenças, das perfídias e das paixões. A estudar a origem dos valores morais, Nietzsche descobrira que os mesmos valores escondiam - de início - coisas baixas, ligadas aos baixos instintos, que aos poucos e aos saltos foram sendo espiritualizados. Mas, destacadamente, Nietzsche proclamou a morte de Deus e todas as idealizações, num mundo em decadência moral.

Se de início a Filosofia multiplicou planos para melhor compreender a natureza e o homem, e inventou a estética, a ética, a política, a lógica de par com teorizações sobre linguagem e mito, em tempo de segmentação, o plano da Ética fragmenta-se para melhor atender demandas setorizadas. Assim, surgem de forma segmentada: a ética do discurso, empresarial, nos negócios, das relações afetivas e paterna, ensaia-se o revival da ética teleológica, e por que não, bioética, a ética da vida. Resta saber se, uma vez segmentada, a Ética continua a cumprir o caráter de ciência do ethos? Questão a ser discutida no correr do artigo. De saída, parece que a bioética poderá vir ocupar o lugar de toda Ética, mesmo correndo o risco de fragmentar-se e ser atomizada em inúmeros códigos de ética.

Idéias inovadoras ao serem lançadas à messe do progresso do espírito humano, enfrentaram obstáculos vindos das mais diversas instituições e calcados em opiniões assentadas sobre um passado em crise e em decomposição. De modo geral, as religiões e os moralismos têm sido os celeiros depositários de reações contrárias aos avanços do conhecimento e progressos da ciência, estribados em axiomas ético-religiosos, sem adentrarem os méritos da pesquisa científica. E muito por acaso, as idéias que em sua origem foram rejeitadas e perseguidas, vingaram e passaram a dar o tom político-cultural para a sociedade. Os exemplos multiplicam-se desde a Idade Moderna aos nossos dias.

Na aurora da Idade Moderna, parte da pintura de Hyeronymus Bosch (1450-1516), em sua beleza e extravagância, de tom satírico e moralizante, expressam o medo frente às possibilidades da incipiente ciência do século XVI, ainda sem método e rigor na pesquisa como os séculos posteriores conheceram. Os desenredos nos retábulos Tentação de Santo Antão, O carro de feno e Delícias do Paraíso, mostram seres nos quais a concepção medieval de natureza sagrada não permitia imaginar, mas que foram facultadas à imaginação poética, pictórica e alquímica. A propósito Dante escrevera: “a natureza é a arte de Deus“. Logo, irretorquível. Tais retábulos estão povoados de seres fantasmagóricos e monstruosos: homens com cabeça, tronco, membros aparentemente humanos, mas encapsulados por – como que – uma casca de tartaruga, peixes voadores, árvore-dragão, burros com lombo transformado em espécie de carroceria pronta para acondicionar objetos. As figuras de Bosch ilustram o imaginário acerca do paraíso judaico-cristão, da concupiscência, do juízo final e do inferno.

O suposto medo retratado por Bosch dá conta da possibilidade da natureza, saída das mãos do Criador ou daquilo que sobrou da Criação e do Paraíso, sofrer alterações, que conduziriam à uma mistura dos reinos: animal, vegetal e mineral. De certa forma, um século depois, Francis Bacon, ao classificar a história natural, incluiu a teratologia, estudo de monstros, o que parece espantar o medo expresso nas pinturas de Bosch, e escreveu: “No trabalho da natureza o homem não pode mais que unir e apartar corpos. O restante realiza-o a própria natureza, em si mesma.[2]” A afirmação é passível de dúvida frente às pretensões da tecnociência contemporânea.

Como caracteriza-se a tecnociência? Diferentemente das questões de fronteira em que os cientistas debruçam-se sobre os fundamentos da ciência, como no caso da física teórica e cosmologia, à tecnociência interessa a aplicabilidade de resultados da pesquisa científica. E um dos efeitos mais prosaicos e perturbados é a tecnicidade da vida, como se o velho mecanicismo cartesiano redivivo fornecesse, novamente, as matrizes e diretrizes do fazer ciência e sua operacionalidade. Talvez o filósofo inaugural do método científico, Francis Bacon, tenha projetado a tecnociência.

Francis Bacon, inspirador do enciclopedismo, mobilizou toda sua atividade de filósofo para o progresso do conhecimento científico moderno, desde que fundado na “indução verdadeira”[3] , e tomando em conta a premissa de que a “natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto”[4] , ao final da vida deixou inacabada a utopia Nova Atlântida. Na obra, ficaram pautados itens a serem desenvolvidos, nos quais os limites exacerbados do “reino do homem”[5] , domínio do homem sobre a natureza, são relacionados e parecem fornecer pistas para o desenvolvimento ulterior da ciência e da tecnociência. Para além do desejo de voar como os pássaros e andar sob as águas como os peixes... Vejamos os itens não desenvolvidos:

«“Prolongar a vida.

Restituir a juventude.

Retardar o envelhecimento.

Curar as doenças consideradas incuráveis.

Diminuir a dor.

Purgantes menos repugnantes.

Aumentar a força e a atividade.

Aumentar a capacidade de suportar a tortura ou a dor. (sic)

Transformar a constituição (metabolismo).

Transformar a estatura.

Transformar os traços.

Aumentar e elevar o cerebral.

Metamorfose de um corpo em outro.

Fabricar novas espécies.

Transplantar uma espécie em outra.

Instrumentos de destruição, como os de guerra e venenos.

Tornar os espíritos alegres e colocá-los em boa disposição.

Poder de imaginação sobre o corpo, ou sobre o corpo de outrem.

Acelerar o tempo, no que diz respeito às maturações.

Acelerar o tempo, no que diz respeito às clarificações.

Acelerar a putrefação.

Acelerar o cozimento.

Acelerar a germinação.

Fabricar, para a terra, adubos ricos.

Forças da atmosfera e nascimento das tempestades.

Transformar substâncias ácidas e aquosas em substâncias gordurosas e untuosas.

Produzir alimentos novos a partir de substâncias que atualmente não são utilizadas.

Fabricar novos tipos de fios para o vestuário; e novos materiais, além do papel, do vidro, etc.

Predições naturais.

Ilusões dos sentidos.

Maiores prazeres para os sentidos.

Minerais artificiais e cimentos.”[6]»


Todavia, no “Prefácio” da Instauratio Magna, Bacon, num rasgo ético-religioso, escreveu: "Que os homens considerem quais são os verdadeiros fins do conhecimento e que não o procurem nem pelo prazer da mente, nem pelo contentamento, pela conquista de superioridade em face de outros, por proveito, fama, poder ou qualquer outra dessas coisas inferiores mas para benefício e uso da vida e que o aperfeiçoem e dirijam com caridade"

Do ponto de vista do conhecimento, a humanidade tem sido conduzida - desde o século XVII - pelos ditames da ciência voltada para a descoberta das leis intrínsecas da natureza e suas derivações para a técnica, em operation. Em outras palavras, a ciência cria modelos ideais a partir da pesquisa dos fenômenos naturais e a tecnologia opera a redução das descobertas em aplicações “práticas”.Os movimentos de passagem têm balizado, genericamente, o progresso científico e técnico da humanidade, tomados como suportes fundamentais do desenvolvimento do modo de produção capitalista e progresso do conhecimento. Se por um lado o desenvolvimento material se deu ao caso, sobretudo em países industriais e pós-industrias avançados, resta saber se o custo social e o desgaste para a biodiversidade desse desenvolvimento são bons para a humanidade como um todo? A resposta por certo é negativa. A humanidade tem progredido no mesmo ritmo do ponto de vista ético? De par com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a razão instrumental voltada para a execução de tarefas desprovidas de consciência e questionamentos éticos, como faculdade cega e servil, deve ser subordinada urgentemente à capacidade humana de interrogar eticamente os fins desses (des)caminhos. Tal subordinação cabe à bioética.

Se num primeiro momento da Idade Moderna, a técnica foi tomada como força produtiva, é necessário saber se a nova técnica contemporânea aliena ou libera o cidadão para outras atividades como amizade, amor, ócio produtivo, quebra da representação e questionamento da ordem político-social, mesmo porque, é praticamente impossível acompanhar intramuros escolares os saltos da tecnociência. Se em geral esquecemos informações sem importância, em contrapartida, a chamada “memória inteligente” parece não esquecer o conhecimento deveras significativo. Neste ponto, cabe aos filósofos e educadores repensarem os conteúdos e métodos para a formação de homens superiores do ponto de vista moral, em vez de meros assimiladores cegos e mudos da tecnociência. E prescindir das técnicas de obsolescência forçada. Em outras palavras, é preciso atentar para as ortodoxias, dogmatismos e inculcações mercadológicas sedutoras no universo da tecnociência.

A herança científico-cultural é patrimônio de todos e segue por ser o que de mais pontual e inflexível o direito dos povos erigiu, juntamente com os direitos humanos. Resta saber, se todos desejam do mesmo modo o acúmulo de aquisições científicas da humanidade. E em que medida há interesse político-antropológico na seleção dessa herança? Como a cultura é extremamente dinâmica, complexa e diversificada, pode não ser correto assimilar em bloco todo passivo cultural sem adulterar conteúdos e macular interesses legítimos. Kant propusera três perguntas chaves para o encaminhamento do progresso intelectual e compreensão humana de um ponto de vista subjetivo: que posso saber? que devo fazer? o que me é permitido esperar? Se atualizadas, as perguntas devem ser reformuladas da seguinte maneira, segundo Hans Jonas: que devo ignorar? que devo me abster de fazer? do que devo ter medo? São questões que devem ser lembradas no momento de escolhas no baú da herança cultural, e para o caso da bioética, saber o que selecionar do arcabouço da tecnociência.

Hans Jonas refez os termos do imperativo categórico kantiano para o nosso tempo. Afirmou: “age de maneira tal que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de autêntica vida humana sobre a terra; ou: age de maneira tal que os efeitos de tua ação não sejam destrutivos da possibilidade de autêntica vida humana futura na terra.” Essa altura ética precisa ser aprendida e ensinada. Afinal, ninguém nasce bom ou mau, mas deve progredir moralmente.

Dada a ausência de universais consagrados até o final da Idade Média e início da Idade Moderna, um universal está em elaboração desde o século XIX: história. Qualquer cidadão, dentro da escola ou fora dela e com acesso aos meios de comunicação de massa, sabe localizar-se com precisão razoável historicamente. Sabemos quem somos, como somos, e sobretudo porque somos o que somos do ponto de vista da história. Há uma intelecção em expansão deste novo universal.

Se a história encontra-se em processo de universalização, haveria oportunidade da biologia também encaminhar-se para ela? Afinal, todos devem conhecer a vida tanto da natureza física externa ao homem quanto conhecer o corpo humano, e de posse do conhecimento do corpo decidir se acelera ou não os ritmos evolutivos naturais, se uma conduta ou uma decisão moral não é livre e plena de conhecimento não vale nada do ponto de vista ético, pois não somos mais súditos nem de reis nem de papas, como na Idade Média. Somos cidadãos com direitos e deveres cívicos, todavia governados, como queria Michel Foucault. Porém, podemos e devemos escolher com conhecimento, liberdade e responsabilidade a conduta modalizante da vida.

É possível submeter a produção da tecnociência à Ética, e, em particular, à bioética? Eis o desafio. A tecnociência per si não reúne condições e disponibilidade para produzir uma ética que interrogue os fins de sua própria produção. É o momento de declarar a autonomia da bioética em relação a seu objeto mais imediato, a tecnociência. Talvez o primeiro passo seja separar a bioética das motivações religiosas. Há falsas polêmicas em torno da operacionalidade da tecnociência. No caso da transgenia de sementes, qual é o problema, qual é a dúvida? Acaso a concepção de natureza ainda é sagrada? Ou há embutido o medo de que a natureza descontrole seus ritmos e potencialidades? O que está em questão? A concepção criacionista ou a evolucionista? Ora, é impossível negar que há um processo histórico-científico em andamento desde a filosofia natural dos modernos até a produção objetivada pela tecnociência.

As aporias da tecnociência para a bioética têm sido: eutanásia, transgenia, clonagem animal e humana, criogenia, mapeamento do genoma humano, células-tronco, direito dos animais, guerra bacteriológica, que, por serem idéias inovadoras, vingarão. Porém, não é alentador saber, que numa guerra com armamento bacteriológico, é possível atinja-se somente o filão genético do suposto inimigo. E menos alentador ainda saber que todos seremos atingidos. Supôs-se que do quadro de pesquisa teria surgido o vírus HIV, depois refutado.

Há, frente a tecnociência, possibilidade da afirmação de um ethos universalizante, a partir da bioética, num tempo em que os universais encontram-se subsumidos? O problema da intelecção da bioética deve firmar-se e impor-se, em consideração aos avanços sucessivos da biociência, principalmente, no campo da biologia. Os pesquisadores da bioética devem questionar e orientar a divulgação, feita pelos meios de comunicação de massa, de descobertas tecnocientíficas que podem redundar em melhor saúde para a humanidade, porém, a divulgação tem se dado ao caso de modo mais ou menos irresponsável. No universo dos entretenimentos, as novelas Laços de Família, O Clone, Celebridade e A cor do pecado, os temas da inseminação artificial e da clonagem têm sido abordados de maneira vulgarizada e idealizada. Alguém poderá dizer: trata-se de diversão, o sucedâneo do folhetim do século XIX, logo não deve ser levado a sério. Contudo, o fosso existente entre conhecimento científico e ignorância massiva é maior hoje que na Idade Média. Se, em passado recente, a escola boa era a que excluía o aluno tido como insuficiente em seu aprendizado, hoje a escola média finge que inclui, numericamente, mas somente alguns alunos aprendem, os outros são levados pela promoção automática, logo excluídos do conhecimento. Para grande parte da população mundial o sol ainda gira em torno da Terra.

Reportagens sucedem-se dando conta que bebês têm o sangue do cordão umbilical recolhido e armazenado de modo adequado, pois contém células-tronco, que revolucionariam o tratamento de doenças, para o momento, incuráveis: diabetes, câncer, mal de Parkinson e de Alzheimer, dentre outras mais corriqueiras. A prevenção liquida o medo das doenças e da morte. Faltaria a tecnociência resolver o desconforto das perfídias, traições, desamores... Dado o descompasso, alguns sugerem: mais Platão e menos Prozac. Quais as contribuições da tecnociência para o combate ao tédio contemporâneo, a loucura e a depressão? Andróides, replicantes, utopias negativas não são boas respostas. Na sociedade do espetáculo, sob o reino do consumismo, vivemos como queria Marcuse sob a “euforia na infelicidade”.

Por que tanto interesse de parte da “tecnobiologia” em corrigir o corpo e acelerar a evolução natural? Quais os fins da tecnociência? Desde Descartes, ao imaginar o corpo humano como uma máquina “perfeita” se funcionasse bem, e La Mettrie ao radicalizar pela concepção de “homem-máquina”, sugeriu-se ser possível corrigir a natureza humana pela viés de ajustes mecânicos finos ou grosseiros. No romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, a personagem Charles Bovary, médico papalvo, marido de Emma, opera, “mecanicamente”, um rapaz com um defeito congênito na perna, com a esperança de que a intervenção cirúrgica pudesse aliviar o que a natureza por si não aliviaria jamais. Além, de não “consertá-lo”, o paciente falece de complicações pós-cirurgia. Ora, quantas diferenças técnicas e semelhanças de concepção encontram-se em curso no fazer de Bovary e dos atuais médicos e cirurgiões – sem perder de vista o princípio que concebe o homem como “máquina”, passível de arranjos, acomodações, precipitações daquilo que a natureza não alteraria no curto período de uma existência?

No período neolítico, segundo Lévi-Strauss, a “humanidade”, na figura de nossos ancestrais, não fez outra coisa senão pesquisar a natureza, através dos sentidos. Em primeiro lugar, por interesses estéticos e de mero conhecimento, e só depois para uso prático dos vegetais, dos animais e dos minerais. Naquele período, inventou-se a cerâmica, a tecelagem, o fazer fogo e sua conservação, o cru e o cozido, o bronze, e, grandiosamente, a humanidade “domesticou” a natureza através de enxertos e cruzamentos. Em outras palavras, frutas, legumes e grãos, originais, foram adaptados ao paladar humano e os animais domesticados. No período neolítico principia a prática do reino do homem sobre o da natureza, de modo a “humanizá-la” aos seus sabores e saberes. Assim, descontado o anacronismo, pode-se afirmar que a humanidade já praticava a transgenia. E, de certa forma, a Antigüidade recebeu tudo pronto e pôde inventar conhecimentos tidos e havidos como “inúteis”: Matemática, Filosofia e entretenimentos, segundo Aristóteles.

Um problema para a bioética, de conseqüências morais e jurídicas de difícil solução, é o da escolha de doador de sêmen para inseminação artificial. Em São Paulo, corre nos circuitos em que se discute ética e declinações dela, que um médico especialista em inseminação artificial, nada prudente, aconselhou um casal que não conseguia ter filhos, que o doador de sêmen poderia ser o pai do marido. O que se deu ao caso. A nora foi fecundada, artificialmente, com sêmen do sogro. Cena seguinte toda a família em pânico, como as situações discutidas em outras bases por Lévi-Strauss nas Relações elementares de parentesco. Afinal, como o caso presente não está referido a tribo africana, em que o “pai” não é necessariamente o “genitor”, mas aquele que cria a criança. Temos que no antiexemplo paulistano, para ficarmos somente na linha patri-linear, o avô, que já era sogro foi catapultado - pela ingerência médica e eficiência da tecnociência - ao lugar de pai “natural”, no mesmo passo, o pai jurídico do ponto de vista natural é “transformado” em irmão de seu filho jurídico, embora nascido do útero da própria esposa. Sem levar-se em conta o aspecto incestuoso de todo périplo: orientação médica-fecundação-nascimento. Afinal, mesmo com mediações científicas, do ponto de vista ético, o sogro não pode ter filho com a nora. O episódio, evoca a necessidade de cada caso – no universo dos problemas que a tecnociência apresenta para a bioética - ser tratados per si, para não gerar absurdos antropológicos e complicações familiares irreconciliáveis. Em Malaise dans la procréation – Les femmes et la médicine de l’enfantement[7] , CHATEL afirma que os médicos anglo-franceses levam em conta mais o corpo da paciente do que sua subjetividade materna. E é sabido que grande parte dos bebês de proveta, logo após o nascimento, carecem de passarem por UTIs, devido a problemas de má formação de órgãos.

Se de um lado o avanço da tecnociência no campo da biologia traz progressos e promessas de felicidade imediata, de outro há inúmeros casos em que as situações se complicam. Por exemplo: pacientes com “obesidade mórbida”, que, após regimes e intervenções cirúrgicas, sentem-se deprimidas e com compulsões. Objeto de reportagem recente, alguns antidepressivos – a listagem norte-americana chega a dez – consumidos regularmente, têm induzido pacientes ao suicídio. Xenical, Prozac, Viagra para controle do peso, das paixões e da vida sexual. Numa espiral de controles, a sociedade pode “programar” - de modo superimposto - o comportamento médio dos cidadãos. Nem mesmo em The Brave World, a utopia negativa inaugural da engenharia genética, foi imaginado possíveis controles. Paradoxo maior ocorrerá se o Estado, num rasgo de socialização dos avanços tecnológicos no campo da correção do corpo, da saúde e da felicidade, oferecer quiçá, gratuitamente, tais remédios à população.[8]

Se “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”, como queria Bacon, é preciso reler Foucault, que decretou a morte do homem concebido na Modernidade[9], e perder o medo da tecnociência, sem perder de vista os rumos da bioética.


Sampa, março de 2004.


Referências

  1. KANT. Crítica da Razão Prática. “Parágrafo 7º - Lei fundamental da razão pura prática.”
  2. BACON, Francis. . Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2ª edição. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 13. (Coleção “Os Pensadores”)
  3. Em alusão à “indução vulgar”, referida a Roger Bacon e à “indução verdadeira”, Francis Bacon escreveu: “Só há e só pode haver duas vias (razões) para a investigação e para a descoberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém ainda não instaurado” BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2ª edição. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 16. (Coleção “Os Pensadores”)
  4. BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2ª edição. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 14. (Coleção “Os Pensadores”)
  5. “O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos (fenômenos) ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza: não sabe nem pode mais.” BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2ª edição. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 13. (Coleção “Os Pensadores”)
  6. OLIVEIRA, Bernardo Jefferson de. Francis Bacon e a fundamentação da ciência como tecnologia. Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 216.
  7. CHATEL, Marie-Magdeleine. Malaise dans la procréation – Les femmes et la médicine de l’enfantement. Paris: Éditions Albin Michel, 1993. CHATEL, Marie-Magdeleine. Mal-estar na procriação: as mulheres e a medicina da reprodução. Tradução Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Campo Matêmico, 1995.
  8. A propósito, conferir RIBEIRO, Renato Janine. “Novas fronteiras entre natureza e cultura”. NOVAES, Adauto (org.) O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia. das Letras, 2003, pp. 27/28.
  9. “Uma coisa em todo caso é certa: é que o homem não é o mais velho problema nem o mais constante que se tenha colocado ao saber humano... O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim próximo. Se estas disposições viessem a desaparecer tal como apareceram, ...então se pode apostar que o homem se desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto na areia.” FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 8ª edição. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 536.



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