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Batendo no Muro

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Espere Resistência
CrimethInc


O anúncio de que a administração estava cortando todas as relações com a indústria maquiladora marcou a divisão final de nossa precária confederação. Isto estava aparente na forma como a greve terminou e na distância cada vez maior entre grupos que empregavam táticas diferentes ― mais e mais pessoas estavam se envolvendo, mas cada vez menos elas se cruzavam. Parte da magia inicial do acampamento tinha sido a confluência de uma grande diversidade de pessoas; as alianças improváveis faziam parecer que todo o mundo estava sendo reconfigurado. E mesmo assim, depois que obtivemos sucesso em forçar a administração a parar de usar trabalho de maquiladoras e melhorar as condições de trabalho, nós acabamos nos perdendo uns dos outros ― não houve nem mesmo uma comemoração para nos reunir uma última vez.


Nós vencemos uma batalha que pensava ser impossível ― mas agora nós não éramos mais "nós" e as estruturas fundamentais que enfrentamos continuavam inabaladas. Talvez aqueles que iniciaram a campanha deviam ter tido uma visão mais ampla desde o início.


Ao invés de trabalhar com outras pessoas da região, cada grupo começou a se organizar com seus similares em outras cidades. Logo a expansão da luta correspondia a sua desintegração local, embora ninguém tivesse pensado nisso naquela hora. Esta expansão nos tornava capazes de agir numa escala mais dramática, mas também atraía uma repressão desproporcional ― essa escala era território de nossos inimigos, o espaço no qual conseguiam mobilizar suas maiores forças.


No final do ano seguinte, a atividade local tinha diminuído significativamente; todos estavam ocupados se preparando para uma manifestação que estava acontecendo do outro lado do país. Este foi o primeiro grande evento na nossa memória recente que todos concordamos ser importante; seria um campo de testes no qual veríamos se conseguiríamos trabalhar juntos nas nossas novas configurações.


Eu não via Samia desde o encontro que aconteceu depois da marcha noturna; seus amigos ficavam indo para fora da cidade e voltando, mas até onde eu sabia ela esteve fora o tempo todo. Kate e Marshall e sua turma ainda estavam por aí, apesar de raramente nos vermos. Eu fiquei meio que solitário, em parte por causa da minha idade, apesar de ter começado a trabalhar para um coletivo de mídia independente para colocar minhas habilidades em prática. Como já estava ficando de costume, a maior parte do coletivo residia em outra parte do país.


Eu cheguei na cidade menos de uma semana antes da conferência começar. A noite caiu, o tipo de noite frenética que cai nas grandes metrópolis, e a atmosfera era tensa e grandiosa. As luzes vermelhas e azuis das viaturas de polícia piscavam a cada esquina; fileiras de policiais em armaduras pretas faziam um exercício na praça próximo a equipes de trabalhadores montando barreiras de correntes e concreto. O centro tinha o ar de uma nação ocupada durante tempos de guerra. Sirenes soavam constantemente à distância; em minha nova persona como um inimigo do estado, eu esperava que cada uma delas indicasse um novo desafio para o seu controle.


Kate tinha me convidado para um encontro fechado na noite anterior ao grande dia de ação. Ela me conhecia há tempo suficiente para confiar em mim para participar de tais coisas, embora Marshal e Diego ainda me tratassem como um desdém mal disfarçado por causa da minha classe social e da minha profissão suspeita. Eu não havia transformado nossas aventuras em um livro no fim das contas, mas o estigma de ser capaz de fazê-lo ainda pairava sobre mim.


A reunião aconteceu em uma sala de aula de uma universidade local ― aqui estava a fantasia de que Marshall havia falado se transformando em humilde realidade. Um jovem fortinho em uma jaqueta de aviador preta estava de guarda na porta. Ele não me deu passagem até que eu lhe disse quem havia me convidado.


As lâmpadas fluorescentes e as paredes brancas da sala de aula contrastam com as roupas e rostos sombrios dos meus amigos. A maioria das pessoas já estava lá ― bárbaros do tipo que eu encontrei pela primeira vez na ocupação, conversando grupos de dois ou três. Eu conhecia talvez seis pessoas das três dúzias lá presentes, e dois deles só de vista.


Uma mulher alta com um ar autoritário sussurrou com o jovem da porta, e então trancou a porta e se dirigiu à sala. "Antes de começarmos, eu quero que todos toquem em alguém que eles confiam plenamente."


Todo mundo colocou suas mãos nas pessoas ao seu redor, formando uma treliça de membros que passava de fileira em fileira ― com uma exceção: Kate e os outros que eu conhecia estavam do outro lado da sala. Todos os olhos se voltaram para mim. Não ajudava o fato de eu ser uma década mais velho que todo mundo. "Eu estou com aquele pessoal ali", eu disse encabulado, gesticulando para Kate, Marshall e Diegom cujos braços estavam sobre os ombros uns dos outros.


Então fez-se uma rodada onde cada um dava seu nome e campo de atividade; Kate era Hecate, Marshall era Mars, e assim por diante. Eu expliquei que eu estava lá em nome da mídia independente, para ter certeza que haveriam fotógrafos e repórteres onde os ativistas desejassem. Outros especificavam o número de pessoas no grupo que representavam, ou o equipamento que haviam trazido: "cem discos de hóquei; trinta máscaras de gás; trinta escudos improvisados; fogos de artifício suficiente para nós e para outro grupo do mesmo tamanho; uma faixa reforçada de oito metros de comprimento, com duas dobras."


Logo ficou claro que ainda havia discordância sob que objetivos deveríamos alcançar. Algumas pessoas queriam fazer um ataque direto ao perímetro de segurança que cercava a conferência; outros achavam isso desnecessariamente perigoso. O porta-voz dos locais era totalmente pessimista: "Não podemos ir para o muro, é impossível. Eles vão atirar em nós, eles matarão todos."


Dentro do meu sexismo, eu assumi que Samia era um tipo de protegida de Marshall, mas aqui ela surgiu como líder de seu próprio contingente ― o qual, se os seus companheiros na reunião eram algum indicativo, parecia ser composto de vagabundos de olhos brilhantes dos quatro cantos da terra. Ela propôs uma alternativa: "Se não podemos ir para o muro, vamos na direção oposta com a passeata liberal, e nos separarmos para visitar o centro comercial. Eles não estarão preparados para isto."


Marshall discordou. "Eu posso quebrar o McDonald's do meu bairro a hora que eu quiser. Nós vamos para o muro. O seu tom não permitia uma discussão ou disputa.


"Mas, sério, o que impedirá que ele que eles atirem em nós?" Samia falava fora da sua vez. "Vocês sabem que a polícia tem carta branca quando somos só nós nas ruas. O verdadeiro problema é que somos só nos nesta sala! Por que não estamos nos reunindo com todos os outros grupos que sairão amanhã? Olhe os rostos nesta sala ― vocês acham que isto é representativo? O que aconteceu com as coalizões que tínhamos ano passado?"


Isto deixou Diego irado. "O que aconteceu? Por onde você esteve? Enquanto você saltitava por todo o mundo, nós estávamos lutando para manter as coisas funcionando, nós estávamos aparecendo todas as semanas para catar os grãos" Não me pergunte onde todos estão depois que você nos abandonou!"


Todos congelaram. Este era um momento crítico, quando alguém tinha que falar para acalmar os ânimos e trazer a discussão de volta ao assunto principal, mas ninguém ousou. Em vez disto, Samia retrucou: "Se você vai falar assim comigo, não é de se surpreender que eu parti! Não é de se surpreender que não tenha mais ninguém aqui!"


Várias outras pessoas começaram a falar ao mesmo tempo. "Vamos lá, não temos tempo para isto! Temos coisas sérias para decidir até amanhã..." "Vocês deveriam ter falado sobre isso antes de vir para cá!" "Jesus, lá vamos nós de novo..."


Eu parti com a fúria deseperançada daquelas que observam impotentes os seus amigos destruírem algo precioso. Não fomos a lugar nenhum. As críticas dos meus camaradas eram todas verdade, mas esse não era o ponto; eles estavam lutando uns contra os outros ao invés de atacar o nosso inimigo em comum.


Isto também havia se tornado cada vez mais comum no ano que se passou. É claro, nenhuma força externa impedia que eles reconhecessem e subjugassem este comportamento, e as vantagens de se fazer isso eram óbvias ― mas eles não conseguiam. Pode-se dizer que um animal que persiste em alguma atividade contraprodutiva não é capaz de se comportar de outra forma, um animal que observasse os meus amigos poderia dizer a mesma coisa deles. De perto, esta incapacidade se manifestava em suas infinitas justificativas, respostas defensivas à críticas, obsessão pelos erros dos outros, e esforços para tirar o crédito de antigos amigos ao invés de ouvir as suas críticas ― qualquer coisa para evitar deixar as suas inseguranças de lado e trabalhar sobre suas diferenças como adultos.


Elas foram esculpidas pelos nossos tempos tão certo quanto as améias e parapeitos doas castelos medievais foram esculpidos pelos seus. Historiadores ensinam que esses parapeitos foram inventados pelo homem, mas assim como um riacho irá erodir um penhasco em um formato que lhe acomode, foram as invenções e decisões de gerações de homens e mulheres que forçaram esses inventores a projetar os parapeitos ou morrer. Da mesma forma, meus amigos haviam sido moldados pela sua sociedade atomizada em fortalezas individualmente cercadas por muros, e era inútil esperar que eles baixassem a guarda e parassem de brigar uns com os outros.


E foi por isso que nenhuma revolução aconteceu: ninguém obteve sucesso em introduzir um novo elemento a esta equação, então ela produzia sempre os mesmos resultados. Todo coletivo acabava numa divisão destrutiva, toda aliança se rompia antes de dar frutos; Cada um de nós foi de amizade em amizade, usando-as até gastar, e então indo adiante para fazer a mesma coisa com outras. Amontoados em cidades, nosso planeta lotado com bilhões de pessoas, esta parecia uma abordagem sustentável para a vida social. Na verdade, era como liberar poluição no oceano: se apenas uma pessoa o faz, ela se dissolve inofensivamente, mas quando todos o fazem constantemente, os resultados são catastróficos. A destruição do nosso planeta é simplesmente a manifestação física da natureza descartável das nossas relações e compromissos.

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