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As Estruturas Elementares da Reificação

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Internacional Situacionista


Como se o velho Marx dirigisse tudo de sua tumba, a forma-mercadoria contribuiu, pela lógica do seu desenvolvimento real, para o esclarecimento e o aprofundamento da crítica da economia política. Claro, os herdeiros desta crítica fizeram de tudo teórica e praticamente, como burgueses e como burocratas, para mascará-la ou para sustentar a confusão a seu respeito afogando-a num emaranhado de sutilezas metafísicas e de argumentos teológicos. Mas o mundo continuou sem eles. Estas análises que eles se esforçam para dissimular, ele as transcreveu com uma claridade cegante na trivialidade da vida quotidiana: ele deu à teoria do fetichismo da mercadoria uma verdade objetiva e uma banalidade vivida que a colocou ao alcance de todos.

Malgrado as metamorfoses que sofreu depois de Marx, a mercadoria conservou-se como forma: uma forma revestindo produtos da atividade criativa (da práxis) que o trabalho assalariado despojou de toda humanidade; uma forma que, como fiel herdeira do velho deus judaico-cristão, adquiriu uma existência autônoma e criou o homem e o mundo a sua imagem; Uma forma que engendrou a antropologia de um indivíduo isolado que permanecia privado da riqueza de suas relações sociais. A mercadoria é a práxis do poder: não somente o princípio de dissolução da velha civilização camponesa-religiosa (da qual ela ainda persegue os fragmentos), mas um modo de representação do mundo e uma forma de ação sobre ele; ela reduziu o conjunto da realidade social ao quantificável e instaurou a dominação totalitária do quantitativo, sua extensão a todos os setores ainda não dominados da vida (cf. I.S. n°7 e 8, Banalidades Básicas).

O que parecia ser o mais concreto era na verdade o mais abstrato; uma racionalização formal, uma ilusão. Mas uma ilusão tal que, da mesma maneira e de maneira oposta às idéias revolucionárias, uma vez atingida a sua autonomia, age, como incitação à resignação, sobre o mundo real.

A sociedade dominante vai sempre em frente e transpõe novos degraus na escalada de repressão e alienação. O “Estado cibernético” suscitou assim, combinando fetichismo da mercadoria com fetichismo da obra de arte, um fetiche a sua altura: o espetáculo mercantil, projeção da totalidade da vida em uma essência hipostasiada e cristalizada, simulacro e modelo normativo desta vida. A concentração das alienações prosseguiu assim conjuntamente com a concentração do capital. O capitalismo de livre-concorrência tinha-se contentado em atormentar o homem com uma multidão de alienações particulares; reduzindo as antigas esferas separadas a uma única e mesma reificação, o capitalismo burocrático, em vias de rápida cibernetização, o congela e o coloca na vitrine.

Um tal processo não era imprevisível a não ser para o pensamento burguês, e para o natimorto pensamento estruturalista e prospectivo, que é o seu desenvolvimento. Uma análise estrutural, de fato, teria podido deduzir da forma mercadoria o conjunto da sociedade que ela produz e que a reproduz, estando a ideologia estruturalista aí incluída. Essa era completamente incapaz de realizá-lo, já que só fazia traduzir inconscientemente as estruturas do processo de reificação em curso, e as erigia em um absoluto a-histórico.

A velha obra negadora da burguesia, empreendida desde a Renascença, foi realizada mais bem do que mal e com atrasos. A sociedade unitária há muito dissolvida é substituída pelo vazio, um vazio erigido em única possibilidade. A esta micro-sociedade que se organizava ao redor de unidades reais porém restritas quantitativa e qualitativamente (vila, família, corporações, etc...), o vazio substituiu-a por um grupo de abstrações reificadas: o indivíduo, o Estado, o consumidor, o mercado, que tiram a sua realidade aparente da aparência de realidade que assumiram na nossa própria vida.

Os princípios da lógica formal (que penetraram na Cidade com os primeiros mercadores) encontram a sua realização adequada no espetáculo mercantil. O princípio de identidade é à mercadoria o que a categoria de totalidade é ao movimento revolucionário. Na estrutura da forma-mercadoria, anteriormente a sua crise de crescimento, a identidade geral das mercadorias só se obtinha através do desvio da sua identificação fictícia a um equivalente geral abstrato. Esta identidade ilusória assumida quotidianamente terminou por induzir à identidade de todas as necessidades e, logo, de todos os consumidores, e atingiu assim um certo nível de realidade. A realização integral da antiga equivalência abstrata seria o ponto culminante deste processo. O setor da produção cultural, ou a publicidade, por causa da inflação, tem cada vez mais dificuldades em diferenciar os produtos, assim anuncia e prefigura esta grande tautologia a vir.

A mercadoria, como a burocracia, é uma formalização e uma racionalização da práxis: sua redução a qualquer coisa dominável e manipulável. Sob esta dominação, a realidade social termina por reduzir-se a duas significações contraditórias: uma significação burocrática-mercantil (que em um outro nível corresponde ao valor-de-troca) e uma significação real. A burocratização do capitalismo não traduz uma transformação qualitativa interna, mas ao contrário a extensão da forma-mercadoria. A mercadoria sempre foi burocrática.

A forma mecadoria-espetacular parodia o projeto revolucionário de domínio do meio (natural e social) por uma humanidade enfim senhora de si mesma e de sua história. Ela preside a dominação de um homem isolado e abstrato por um meio que o poder organiza. Se for verdade que os homens são o produto de suas condições, basta criar condições inumanas para reduzi-los ao estado de coisas. Na organização da mercadoria ambiente, segundo o princípio de vasos comunicantes, o “homem” é reduzido ao estado de coisa, enquanto as coisas adquirem por sua vez qualidade humana. A revista “Elle” pode dar tal título a uma propaganda: “Estes móveis vivem” – sim, vivem da nossa vida mesma. O homem é o mundo do homem.

Nietzche nota na Gaia Ciência que “uma enorme preponderância de arroz na alimentação leva ao uso de ópio e narcóticos, da mesma forma que uma preponderância de batatas leva ao álcool. O que está de acordo com o fato de que os promotores dos modos de pensar narcóticos, como os filósofos hindus, preconizam um regime puramente vegetariano. Eles gostariam de transformar este regime em uma lei às massas, procurando assim despertar as necessidades que eles são capazes da satisfazer, eles e ninguém mais”. Mas numa sociedade que não consegue secretar nada além da necessidade de uma outra vida, o ópio do espetáculo mercantil não passa de uma realização paródica deste único desejo real. Pela forma-mercadoria e pelas representações que dela emanam, a sociedade do espetáculo tende a esmigalhar este único desejo fornecendo-lhe uma multidão de satisfações parciais e ilusórias. Em troca do abandono do único possível, isto é, uma outra sociedade, ela nos concede generosamente todas as possibilidades de ser outro nesta sociedade.

O espetáculo mercantil coloniza os possíveis delimitando de modo policial o horizonte teórico e prático da época. Assim como na Idade Média o quadro religioso parecia ser o horizonte instransponível no interior do qual deviam se inscrever as lutas de classe, a forma mercadoria- espetacular tende a criar-se um tal quadro, no seio do qual desenrolar-se-iam todas as lutas, já derrotadas desde o início, para a emancipação total.

Mas mesmo que a forma-mercadoria, monopolizando o conjunto do real, não tenha tido existência real senão no cérebro do burguês do século dezenove, este pesadelo de sociedade nada é senão uma ideologia vivida, uma organização da aparência que não passa de uma aparência de organização. O espetáculo, de fato, nada é senão a realização fantástica da mercadoria porque a mercadoria jamais possuiu uma realidade verdadeira; seu caráter misterioso reside simplesmente no fato de que ele remete aos homens as características da sua própria vida apresentando-as como características objetivas. O poder projeta portanto a imagem da sobrevida (sobrevivência), tal qual a permitem, integrando-lhe elementos que possuem às vezes um conteúdo libertador, sempre abertos ao possível. Por esta operação passam ao serviço da repressão, tornando a alienação mais suportável depois de tê-la adornado com flores da crítica.

Por este fato os devaneios das classes dominantes são cada vez mais legíveis para quem sabe decodificar o texto social da época: nada menos que a constituição de uma sociedade abstrata (abstrata da sociedade) onde espectadores abstratos consumiriam abstratamente objetos abstratos. Assim seria obtida a coincidência, tão desejada, entre a ideologia e o real: as representações tornando-se imagem do mundo para, no limite, substituí-lo e edificar um mundo da imagem, criado pelo poder e vendido no mercado. A representação consciente da sua vida, como produto da sua própria atividade, desapareceria então do espírito do espectador-consumidor, que não assistiria mais nada senão o espetáculo da sua própria consumação.

A concepção cibernética da superação da filosofia está de acordo com seu sonho de reconstituir, sobre a base da sociedade do espetáculo, o paraíso perdido das sociedades unitárias, enriquecendo-as de dois milênios de progresso da alienação social. Estes sonhos revelam, en passant, o caráter sabiamente escondido e mistificado destas sociedades: elas nunca tiraram a sua unidade senão da repressão. Num real inteiramente reduzido ao qualitativo, dominado integralmente pelo princípio de identidade, sem que a menor parcela de contestação venha ameaçar o seu equilíbrio, a velha verborragia filosófico-econômica tornar-se-ia de fato inútil.

Estes fantasmas encontram às vezes um embrião de realização prática, sempre exemplarmente revelador. O hospital de Richmond, na Virginia, aperfeiçoou uma “Ilha de Vida” para pacientes com queimaduras críticas. Trata-se de uma gigantesca bolha de plástico que é mantida livre de qualquer germe. No interior, os queimados, depois de uma descontaminização completa, são instalados numa atmosfera pré-esterilizada “Sem claustrofobia: a Ilha de Vida é transparente” (Paris-Match). Esperando que um conflito nuclear dê a esta obra filantrópica os clientes que ela merece, esta sociedade edifica a imagem das condições que impõe: a sobrevida (sobrevivência) no isolamento controlado.

Ainda que o espetáculo mercantil tenda a instaurar esta positividade chata e desencarnada, ele reaquece o negativo no seu próprio seio, e como toda realidade histórica ele produz ele mesmo os germes de sua própria destruição. Velha banalidade sócio-econômica, o desenvolvimento da indústria de bens de consumo em massa produz e superproduz a superprodução. Certos sociólogos chegam mesmo a compreender que com a superprodução mercantil desaparece toda diferença objetiva entre as coisas. A única diferenciação que pode ser introduzida é simplesmente subjetiva. Mas descobrir as tendências latentes à autodestruição que um tal processo encobre supera as capacidades de um sociólogo. Com o desaparecimento do valor-de-uso, a identidade geral entre as coisas passa do fantasma vivenciado à realização fantasmagórica. O valor-de-uso é portanto o nexo de realidade indispensável à eclosão e à sobrevivência do valor-de-troca. A mercadoria suprime dela mesma as suas próprias condições. Quando o sistema pode se passar da realidade, é que a realidade pode se passar sem ele. A sociedade moderna está a tal ponto prenhe de uma revolução, que ela parodia com antecipação a sua própria destruição. As engenhocas (gadgets) trabalham para o fim do mundo da mercadoria. As últimas engenhocas são os “nothing gadgets”: a máquina que não serva para nada, a máquina que se destrói ela mesma, o dólar falso para acender lareira.

Mas a mercadoria produz também os seus próprios coveiros, que não saberiam se limitar ao espetáculo da sua destruição, já que o seu objetivo é a destruição do espetáculo. Não podemos refutar as condições de existência, não podemos senão delas nos liberarmos.

Em todos os escalões da contestação prática, os gestos perfilam-se, prontos a se transformar em atos revolucionários. Mas, na ausência de um movimento revolucionário, esta contestação prática permanece no nível individual. A nostalgia da apropriação privativa foi à base da teoria da retomada individual e reduziu-a a uma simples reação contra a socialização abstrata introduzida pela forma-mercadoria. O roubo nas grandes lojas, que os psico-sociólogos dos proprietários tão justamente qualificaram de “procedimento desconhecido”, é de uma essência qualitativamente diferente. No espetáculo da abundância, os objetos ditos de consumo cessam de ser objetos de gozo para tornarem-se objetos de contemplação, cada vez mais radicalmente estranhos àqueles a quem deveriam supostamente satisfazer as necessidades. O roubo parece ser então o único modo de apropriação pelo gozo, ao contrário do “procedimento conhecido” que aparece como um modo de emprego contemplativo, uma maneira de ser possuído pelos objetos sem os gozar.

Certos sociólogos anunciaram, nas suas investigações policiais, como uma descoberta a relação existente entre os bandos de jaquetas-preta e as sociedades arcaicas. Isto não é, todavia, senão, simples e obviamente, a relação real entre uma sociedade que está aquém da mercadoria e grupos que se situam para além dela. As destruições voluntárias de mercadorias, os estraçalhamentos de vitrines, lembram as destruições sumptuárias das sociedades pré-capitalistas (com a reserva de que tais gestos vêem a sua propensão revolucionária limitada em uma sociedade onde há superprodução mercantil). Roubando mercadorias para dá-las, alguns jaquetas-preta evitam esta ambigüidade. Eles reproduzem em um nível superior a prática do dom que dominou as sociedades arcaicas e que a troca, enquanto formalização das relações sociais sobre a base de um medíocre nível de desenvolvimento das forças produtivas, veio arruinar. Eles encontram assim uma conduta ainda melhor adaptada a uma sociedade que se define a si mesma como sociedade da abundância, e iniciam praticamente a sua superação.

No curso das insurreições passadas, os gestos os mais espontâneos, aqueles que os feitores do poder qualificaram de cegos, eram, definitivamente os mais revolucionariamente clarividentes. Para citar apenas um exemplo tirado da atualidade mais recente, os insurgentes de Los Angeles atacaram diretamente o valor-de-troca espetacular que servia de cenário a sua escravidão; eles tomaram de assalto o céu do espetáculo. Ao mesmo tempo em que destruíam as vitrines e incendiavam os supermercados, esboçavam em campo uma restituição do valor-de-uso: “Um negro carregando num carrinho de mão uma geladeira roubada, abre-a e tira dela bifes e algumas garrafas de uísque” (L’Express).

Se for verdade que, até aqui, as revoluções geralmente perderam o seu tempo vestindo-se com despojos de festas antigas, o inimigo que elas pareciam ter esquecido sempre soube lembrar-lhes dos gestos que deveriam ter realizado há muito tempo. Isto que se toma por gestos de desespero exprime unicamente o desespero não os ter realizado mais cedo. Estes gestos, as próximas revoluções deverão encontrá-los imediatamente e realizá-los sem demora; enquanto destruição do espetáculo mercantil eles são portadores da esperança de uma construção livre da vida. Tratar-se-á então de reivindicar como propriedade do homem todos os tesouros espoliados em benefício do céu do espetáculo; de desviá-los (détourner) no sentido da verdadeira vida. Chamar-nos-ão destruidores do mundo da mercadoria, não seremos senão os construtores de nós mesmos.


Jean Garnault, 1966.


Publicado no n° 10 da Internacional Situacionista em março de 1966. Tradução por dada-suprareal-situ (www.geocities.com/agitatio). Revisão pelo Coletivo Gunh Anopetil


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