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As Aventuras da Mercadoria - Apresentação

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Le avventure della merce, As aventuras da mercadoria quer ser, sobretudo um livro introdutório, um texto didático. Desde o início dos anos noventa, a “crítica do valor” saiu do estreito círculo dos iniciados para atingir um público mais amplo, sobretudo graças aos livros de Robert Kurz . Isso vale particularmente para o Brasil. Mas, faltava um texto que reassumisse os temas essenciais da crítica do valor. Procurei, por isso, escrever um livro que não pressupõe nenhum conhecimento prévio do leitor, nem uma adesão sua a alguma idéia. Começando com a análise das relações mais elementares, que intercorrem entre aqueles que vivem numa sociedade na qual a satisfação das necessidades toma a forma de uma troca de mercadorias, conduzi, depois, lentamente a análise a níveis mais complexos. Se o leitor admitir os resultados, muito evidentes, das análises de base – que se referem à troca de poucas mercadorias -, deve depois, conseqüentemente, reconhecer também a verdade de tudo o que segue.

A contribuição de Marx para a crítica do valor

O melhor modo de seguir esta análise ainda parecia ser aquele de Marx. É por este motivo que, nas Aventuras, se empregam tantas citações de Marx – e não para fazer uma filologia marxiana. Marx contribuiu mais do que qualquer outro autor dos últimos 150 anos para nosso conhecimento da sociedade moderna. Ninguém o fez melhor do que ele, e após um breve eclipse, agora também muitos inimigos seus se inclinam novamente diante dele, como já disse Engels em seu tempo. Todavia, não é mediante uma “correta interpretação” dos seus escritos que se compreende a sociedade de hoje, mas utilizando os seus conceitos de base num contexto profundamente mudado. A “crítica do valor” não é uma enésima corrente marxista. De fato, ela individua o núcleo das idéias de Marx em sua análise crítica dos mecanismos de base da sociedade moderna: mercadoria e valor, dinheiro e trabalho abstrato. Com este Marx “esotérico”, porém, hoje mais atual do que nunca, existiu também o Marx “exotérico”, aquele que analisou uma fase histórica particular da sociedade do mercado, no qual a luta de classes desempenhou um papel central e na qual ainda era possível criticar o “capitalismo realmente existente” em nome do seu próximo estágio de desenvolvimento, ainda por vir. Este tipo de marxismo desempenhou um papel central – sob a forma de “movimento operário”, de partidos e sindicatos e Estados “operários” inteiros – no desenvolvimento do capitalismo do século XX. Com este marxismo, a critica social radical de hoje não pode ter uma relação de continuidade, nem mesmo pode absolver o próprio Marx de certos defeitos seus, sobretudo de sua adesão à ideologia burguesa do “progresso”. Mas, aquela parte da sua obra, na qual Marx critica, explícita ou implicitamente, a própria existência de mercadoria e dinheiro, de valor e trabalho, de Estado e nação, e não só sua distribuição ou gestão, permanece como núcleo de toda crítica social radical. Todas as críticas sociais de hoje, que não atribuem um papel central a esta crítica da mercadoria e do trabalho que a produz, logo revelam suas insuficiências. As Aventuras querem, pois, ser fiéis ao espírito de Marx, mas sem preocupar-se com nenhuma “ortodoxia”. Provavelmente esta é a única fidelidade possível.

Um livro sem receitas

As Aventuras se inscrevem, portanto, numa perspectiva precisa, aquela da crítica impiedosa da sociedade capitalista e de quase todas as suas presumidas oposições. Ao mesmo tempo, tem a característica de não ser um livro “militante”. Os leitores que exprimem o seu descontentamento pela falta de “perspectivas práticas” ou de “soluções” no livro, esquecem que a crítica não pode cumprir sua tarefa, se for submetida à injunção de indicar a qualquer preço receitas para o aqui e agora. Sair da sociedade da mercadoria, ou, para dizê-lo melhor, não terminar soterrados pelos destroços de sua ruína incipiente, não será fácil. O dinheiro e o trabalho abstrato não serão abolidos no próximo ano. Mas, deve continuar sendo possível, pelo menos pensar tal perspectiva. Se, em vez disso, aquelas idéias que não podem encontrar uma realização imediata – que não são bastante “realistas” – já não devem mais nem mesmo ser pensadas ou expressas, então o pensamento crítico reduzir-se-á a propostas pragmáticas para a gestão do presente, como ocorre na maior parte do movimento “alteromundista”. Exigir da teoria uma validade prática imediata equivale, na verdade, a uma sabotagem dela, mesmo se involuntária. As Aventuras enfrentam o destino da modernidade capitalista mais de longe: procuram demonstrar que as supramencionadas categorias de base, que hoje aparecem como tão evidentes que parecem fazer parte de toda possível vida humana “civilizada”, e não terem alternativa, são uma exceção na história da humanidade, sendo, ademais, extremamente danosas e nada necessárias. O livro insiste, além disso, no fato de que esta excepcionalidade das categorias capitalistas foi reconhecida não só por Marx, mas também – pelo menos em parte – por autores que partiam de pressupostos um tanto diversos.

A crítica do fetichismo

O ceticismo ante a tradicional perspectiva “militante”, com sua busca de um “sujeito revolucionário” (ou emancipatório) já constituído, é uma conseqüência da centralidade da categoria de “fetichismo” para a crítica do valor. A crítica do fetichismo da mercadoria e, mais em geral, a concepção da história como uma história de relações fetichistas, significa não conceber as relações sociais somente como relações de dominação de uma parte da população sobre a outra, mas também como dominação de estruturas impessoais sobre a sociedade inteira. Esta perspectiva não absolve os agentes da dominação de suas culpas, mas impede ver a sociedade dividida em opressores e oprimidos que, por definição, são “bons” e portadores de um projeto emancipatório. O valor não é somente uma estrutura econômica, mas também uma estrutura sociopsicológica, que se expressa na concorrência, no egoísmo, no atomismo social e na indiferença gélida para com o mundo, com os outros homens e, enfim, também consigo mesmos. Hoje, uma superação da estrutura fetichista da sociedade não pode ser concebida simplesmente como a vitória de um grupo socioeconômico sobre outro, mas deve consistir também numa profunda revisão das estruturas psíquicas individuais e coletivas, que se desenvolveram na sociedade do trabalho, da mercadoria e do valor.

A discussão sobre o conceito moderno de sujeito

Trata-se, pois, de pôr em discussão o próprio conceito moderno de sujeito. A relação que este sujeito instaura com o mundo, que vem sendo privado de toda sua qualidade e reduzido a mera matéria, parece, com efeito, uma continuação da metafísica tradicional com outros meios: divide-se sempre o mundo num reino do verdadeiro (o valor, as abstrações) e um reino do não-essencial (que, na sociedade moderna, é paradoxalmente constituído precisamente pelo mundo concreto, sobre o qual se exercita a ditadura da forma vazia). O Iluminismo tinha prometido substituir a razão às religiões e à metafísica: mas somente transformou o valor numa nova religião, como já compreendera Marx.

Publicado em IHU On-Line, Unisinos, de 12 de junho de 2006.


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