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Aprendendo com viroses

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Metáforas para o sistema e para a contraestratégia

«A vida é contágio»

Sistema como virusEditar

Flu virus.jpg
Tantas foram as metáforas com que se buscou definir o sistema capitalista - a Máquina (que exige recursos a garantir sua permanente reprodução, usando pessoas como suas peças, incansável, fria e perene); a Vitrine (onde coisas e pessoas são colocadas a exposição - e a venda - espetacular - com seu brilho plastificado isolado em meio ao vidro, vendendo um mundo que além de montagem, não se estende para o interior da edificação; o monstro faminto (devorando vidas e matéria prima, acumulando tesouros, deixando para trás restos humanos e pilhas de lixo). Nenhuma delas parece definir completamente este inimigo no seu aspecto de internalidade - e sim estamos enfrentando um inimigo interior - e assimilação do Sistema.

Sabemos que a máquina pode ser facilmente sabotada; a vitrine, pode ser quebrada em seu brilho estético, e o monstro faminto sempre terá seu calcanhar de aquiles. Mas nenhuma metáfora parece encaixar tão bem quanto a imagem do vírus. Segundo a definição da Wikipédia vírus é "uma partícula basicamente protéica que pode infectar organismos vivos. Uma forma parasita obrigatória que se aloja no interior celular se reproduzindo pela invasão e possessão do controle da maquinaria de auto-reprodução celular." Mas o que estaria no DNA do Vírus-Sistema? Qual é seu DNA, e de que forma ele se espalha? Quais são seus sintomas?

Nos termos de referenciais simbólicos o chamado "Sistema" age exatamente da mesma forma: infecta diferentes culturas, espalha suas referências as custas de tantas outras e, com o tempo, assume o controle da maquinaria em favor de sua auto-reprodução. Dessa forma busca garantir a prevalência de uma única "visão de mundo", uma única forma de interação que compreende a realidade através de um conjunto referencial específico.

Devemos então refletir sobre este conjunto referencial simbólico: cada forma cultural humana possui um conjunto de referenciais simbólicos da mesma forma que cada indivíduo biológico possui uma combinação de DNA, um conjunto de moléculas contendo informação. Esses referenciais simbólicos assim como o DNA, podem ser herdados, compartilhados e misturados. Também com o tempo e em uma relação de mutualidade com o meio este DNA encontra-se em transformação, se adaptando e mutando para outras formas segundo a necessidade ou a conveniência. É exatamente essa maleabilidade de referenciais simbólicos (assim como no DNA) que permite que às subjetividades humanas distintas sobrevivam, se modifiquem e, processualmente, deixem de ser o que são para se tornarem outra coisa, um exemplo biológico são o troodontes, pequenos dinossauros corredores e saltadores que deram origem aos pássaros, dois exemplos culturais humanos são os Vascones[1] que na Península Ibérica deram origem Bascos, ou Medos[2] que no Oriente Médio originaram os Curdos.

Virus c23.jpg

Se examinássemos uma fração desses referenciais provavelmente encontraríamos postulados como estes:

  • "O trabalho enobrece, liberta e dignifica"
  • "O homem é mal por natureza[3]".
  • "Cada pessoa se faz por si mesma e cada um é o único responsável pelo seu próprio sucesso ou fracasso".
  • "Só o consumo salva".
  • "Só você pode mudar a sua vida".
  • "Democracia é o governo do povo e a forma mais avançada de gestão humana".
  • "Não existe política fora do sistema partidário".
  • "Riqueza e sucesso profissional são sinônimos de uma vida plena".
  • "O Estado trabalha para o seu bem-estar".
  • "O Mercado existe para o seu bem-estar".
  • "Civilização é o nome dado ao estágio mais elevado das sociedades humanas".
  • "Independente de todos meios vis e das conseqüências desastrosas, desenvolvimento econômico é sempre bem vindo".
  • "O mercado global trará um futuro melhor para todos os habitantes do planeta".
  • "É impossível viver sem Estado, as pessoas são incapazes de se auto-organizarem".
  • "O governo é necessário para um mundo melhor".
  • "O homem é bom por natureza[4]".
  • "Os códigos legislativos trabalham em favor de um tempo pleno de Justiça"
  • "Tudo é como sempre foi e tudo é como sempre será".

"Infecção" é sinônimo de "colonialismo" e o grande objetivo do Vírus-Sistema é uma epidemia global generalizada. Apesar dos hospedeiros correrem risco de vida e começarem a perceber alguns sintomas como surtos de violência (aparentemente sem sentido) e caos ambiental (que por enquanto é assumido como mera inconveniência), a grande maioria permanece insensível em seu mundo fictício de constante progresso onde toda desolação deve ser ignorada.

Como alguém já disse antes nosso vírus-sistema um monstro assimilador, se alimenta do nosso imaginário, de estilos de vida, convertendo nossas referências, mesmo (e talvez principalmente) aquelas que se voltam contra ele, podem ser assimiladas, esvaziadas de conteúdo, estetizadas, produtificadas na forma de objetos de consumo a serem usados contra todo e qualquer desejo de insurreição. "Propaganda é a arma do negócio" e após o bombardeio midiático, finalmente os chineses podem se deliciar com Coca-Cola, também os indígenas devem se tornar empreendedores e logo o sonho americano estará disponível nos subúrbios de Bagdad. Os anti-sistêmicos e os sistematicamente marginalizados são chamados de volta ao centro, através de suas imagens roubadas e refeitas em pró da grande epidemia.

Virose(s)Editar

Virose.jpg
Se o vírus como uma boa metáfora ele não pode ser pensado como algo único e coeso. Não existe apenas um único vírus, mas sim diversas viroses diferentes que em diferentes contextos, apesar de serem viroses pró-sistêmicas, em certos contextos podem competir entre si sem muita consciência (ou consideração) de suas conseqüências. O Estado dos burocratas, em sua ânsia por carimbar, protocolar, controlar, cobrar, autuar, autorizar, registrar, enfim, sugar, muitas vezes acaba por infernizar do capitalista mediano às grandes corporações. Novas tecnologias acabam por fazer com que capitais voltem-se uns contra os outros: a luta das gravadoras e estúdios de cinema contra os compartilhadores de arquivo na internet e equipamentos de cópia e reprodução de informações - MP3 players, gravadores de CD e DVD - é um bom exemplo disto. Em certo sentido somos minimamente beneficiados por estes embates, resultados da força exercida pelos genes da competitividade em cada um desses vírus.

Porém, para além desse benefício, podemos ter certeza que como os escorpiões e as cobras, que evoluem lutando entre si, as viroses do capital e do estado desenvolveram uma série de estratégias de resistência um com relação ao outro. Logo, não nos parece aconselhável esperar que através de seus embates inconstantes, o capital ou estado se acabem. Lembre-se que não há esperança em nenhum dos lados, e utilizá-los em nosso benefício pode ser uma arte marcial perigosa, pois exige uma grande capacidade de interpretação, e muitas máscaras do ocultismo.

Se pudessemos analizar o "DNA" destes vírus certamente descobriríamos que eles são resultado de uma bifurcação na evolução de alguma forma de virose da dominação que é muito, muito mais antiga. Talvez seja essa ancestralidade em comum que permita que, sob qualquer ameaça, eles sessem quase todas as formas de rivalidade e trabalhem como se fossem um único organismo. A simbiose entre o estado e o capital tende a assumir as formas mais curiosas e nocivas: o fascismo do livre mercado, o estado de bem-estar capital, e também o capitalismo de Estado (que alguns ainda insistem em chamar de "socialismo") são algumas daquelas que nos são mais próximas. Seja como for, assumindo a forma que assumirem, são nossos inimigos e sempre estarão trabalhando para sua perpetuação em detrimento de toda e qualquer possibilidade de liberdade que possamos desejar - cada uma de suas formas requer estratégias diferentes, e talvez o maior erro dos revolucionários em quase todas as épocas tenha sido o apego pelas estratégias ultrapassadas, terapias que já se provaram ineficientes, geralmente sugeridas por um ou outro grande pensador.

Virus versus virusEditar

Virus g11.jpg
Na atual conjuntura o que nos resta é pensar quais são as melhores técnicas para combater a simbiose entre capital e estado na forma do fascismo do livre mercado - particularmente eu apostaria minhas fichas num contra-vírus que fosse ao mesmo tempo ocultista e para-espetacular, algo capaz de infectar os vírus pró-sistema, implodindo-os por dentro, assimilando e subvertendo seu DNA sempre que possível. Não se podemos negar que alguma coisa nesse sentido está sendo ensaiada lá fora, o prelúdio da epidemia (na epidemia) é algo que paira no horizonte e começa a tomar conta do cotidiano de alguns setores.

Dois movimentos se alternam, de um lado o ataque ocultista, do outro a visibilidade para-espetacular. Entre as táticas para-espetaculares temos religiões esquisitas (como o primitivismo por exemplo) crescendo para desespero dos engravatados, redes de Okupas se espalhando pelos continentes e grupos cada vez maiores de manifestantes reclamando a rua de formas inesperadas e criativas, a comunicação alternativa e sites anarquistas lançam outras versões da história; enquanto ocultos nas sombras hackers libertários, eco-anarquistas, guerrilheiros psíquicos e adeptos do Yomango se dispõem a atormentar capitalistas e estadistas, causando danos a sua moral desenvolvimentista ou grandes estragos às suas contas bancárias. Alardeados ou quase desapercebidos os vírus da subversão se espalham.

O espetáculo tenta invisibilizar essas ações com a mídia de massa - talvez Fátima Bernardes realmente cheire cola[5] - a era dos reality shows e das tele-revistas semanais de perfumaria com apresentadores plásticos afetados, soam cada vez mais como normalidade deturpada, até mesmo para os telespectadores mais zumbis. Nas mentes domesticadas a dúvida vêm a tona arrastada por um tsunami de verdades inconvenientes - é grande a possibilidade que um saco de merda e um democrata midiático tenham realmente o mesmo cheiro[6].

O cheiro de merda e sangue se mistura no ventilador, o espetáculo espirra em todos aqueles a quem ele não serve, em uns pela deturpação de suas imagens, em outros pela crença na imagem deturpada. Mas o objetivo esperado só é conseguido parcialmente e gera uma série de efeitos colaterais inesperado: enquanto algumas velhinhas e crianças se amedrontam, outros se sentem seduzidos pela verdade oculta pelo vírus espetacular. Talvez a expansão do Islã ortodoxo no ocidente se deva exatamente por causa da espetacularização da mídia de massas em torno destes "bárbaros e irracionais". Toda a caricatura proposta pelo espetáculo em torno dos maometanos contém uma mensagem intrigante e dissimulada, que só os desencantados são capazes de decodificar: A opção de dedicar a sua vida (e até mesmo acabar com ela) em nome de uma causa que valha a pena acreditar, é um convite que nenhuma vida esvaziada é capaz de recusar. Esta talvez seja a característica mais promissora dos vírus contra os vírus: se alastrando nos imaginários libertos, preenchendo de conteúdo vivenciável num movimento contrário ao dos vírus sistêmicos que se expandem através do esvaziamento e da mercantilização da estética, os contra-vírus da subversão oferecem um outro mundo, pleno de conteúdos vívidos, e expansível até a onde a vista alcançar.

Referências

  1. Os Vascones eram um povo antigo que, antes da chegada dos Romanos, habitava a atual Espanha, a norte do rio Ebro atual Navarra. É provável que sejam os antepassados dos Bascos da atualidade.
  2. Os medos foram uma das tribos de origem ariana que migraram da Ásia Central para o planalto Iraniano. Assentaram-se na região noroeste do atual Irã, posteriormente conhecida como Média, e, no final do século VII a.C. Diversos indícios apontam para o fato de que os medos foram os ancestrais dos curdos contemporâneos.
  3. Esta é a visão hobbesiana da essência humana, explicitada em frases que ficaram famosas, entre estas a mais notória é aquela que diz que "o homem é o lobo do homem". Tomas Hobbes, é o mesmo canalha que criou uma teoria contratualista para defender o estado absolutista em seu Leviatã, dando direitos ao monarca de decidir sobre a vida e a morte de seus súditos.
  4. Nesta afirmação se definem a visão sobre os seres humanos de dois autores clássicos do contratualismo. Tomas Morus e Jean Jaques Rousseau. Rousseau defendia a idéia de que a bondade natural do homem era deturpada pelo contrato social e Morus considerando esta natureza bondosa, afirmava que todos aqueles que se desviassem dela deveriam ser severamente punidos, mortos inclusive, em caso de adultério, considerado malévolo pelo autor.
  5. Aqui faço referência a uma das passagens de Fátima Bernardes Experiência, uma das músicas de autoria do niilista junkie midiático Rogério Skylab, escrita como forma de crítica à prostituição e à decadência dos meios informacionais televisivos no Brasil.
  6. Uma verdade inconveniente é o nome do documentário sobre aquecimento global financiado e estrelado por Al Gore (que significa Todo Vísceras), ex-candidato a presidência estadunidense (perdedor) pelo partido democrata, que pretende capitalizar para sua corrente política se tornando garoto propaganda e bom moço em ação contra o aquecimento global. Se Gore denuncia uma verdade inconveniente, esconde tantas outras atrás do seu sorriso de yuppi aproveitador envelhecido.


Textos

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