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Anarquia para as massas

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Janos Biro


No texto “Ciência moderna e anarquismo”, Kropotkin diz que o anarquismo é um movimento social não muito diferente do socialismo. Ele não nasceu da ciência ou da filosofia, mas do povo. O anarquismo sempre existiu, porque o governo, de uma forma ou de outra, sempre existiu. Esta dicotomia, necessária e inevitável, representa a simples oposição entre a autoridade sobre o povo e o poder do povo em si. Este poder do povo de se auto-governar é chamado de cooperação mútua. Para ele, essa cooperação é uma característica natural que, também por motivos naturais, uma minoria autoritária sempre combateu.


É preciso entender o que se está chamando de povo. Por povo, Kropotkin entende qualquer grupo de pessoas que existe numa sociedade, mas ele coloca num só conjunto os tribais e os civilizados, como se a massa fosse apenas um desenvolvimento da tribo, e nisso ele se iguala a Marx, Hobbes e outros. Ele coloca o anarquismo como uma revolução permanente, pois segundo ele o governo sempre existiu e sempre vai existir. Isto quer dizer que o povo sempre se opôs à autoridade, exatamente porque tem o poder de auto-governo. Kropotkin estende a cooperação mútua para as massas, ou seja, ela não é afetada pelo tamanho ou complexidade social do grupo, mas apenas pela influência da autoridade de uma minoria que quer tomar o poder do povo para si. Ele acredita que o interesse geral é criador de instituições que mantém a vida pacífica possível. São estas instituições que possibilitam a cooperação mútua, no entanto, é por considerar que elas surgem naturalmente que ele considera a cooperação mútua algo natural.


Um anarco-primitivista concordaria que a anarquia independe da ciência e da filosofia, porém entende que não é qualquer grupo humano que pode ser auto-governado, ou melhor, composto de indivíduos autônomos. Isso porque compreende que o surgimento das massas não foi natural, mas provocado pelo desenvolvimento de uma cultura de acúmulo e expansão. Se a cooperação mútua é natural, ela existe desde o primeiro ser humano, e ela se desenvolveu, como qualquer outra característica natural, por seleção natural. Se isto é verdade, então se desenvolveu para grupos pequenos, nos quais nossa espécie surgiu e viveu até muito pouco tempo. Foi só com a agricultura e com a cultura de dominação que houve a explosão populacional humana. Não havia povo, havia apenas pessoas com laços de sangue.


Para o anarco-primitivismo, a massa é ingovernável, tanto por si mesma quanto por uma minoria, porque é um resultado de um modo de vida muito recente e que não está voltado às pessoas, mas sim à produção e ao consumo. Se não havia povo não havia poder do povo para ser tomado pela minoria. O que havia era autonomia do indivíduo. O indivíduo não precisa de instituições sociais para manter sua autonomia, porque ela é pessoal e natural. É dada a ele por herança biológica: todo primata tem autonomia individual. A única maneira de impedir a autonomia é criar um conceito de interesse supra-individual, ou coletivo. O poder da minoria ou da maioria se encontrava impossibilitado porque não havia conflito entre individualidade e coletividade, e não havia conflito porque não havia conceito que separasse ambos, assim como não há separação entre ambos para outras espécies.


A cooperação mútua não é uma forma de impedir a “guerra de todos contra todos”, porque tal só pode ser feita se não há uma conciliação possível entre interesses pessoais e interesses coletivos, o que só seria possível se eles tivessem se desenvolvido com direcionamentos diferentes. A capacidade de conciliar os interesses pessoais e coletivos como um só deve anteceder as instituições que pressupõem essa separação. Esta separação não existia maior parte da história humana, e o ser humano não só não poderia manter a estabilidade populacional como provavelmente não sobreviveria. Além disso, essas coisas não poderiam se desenvolver de formas distintas se estavam sujeitas à mesma pressão seletiva. O que prejudicava o indivíduo prejudicaria a coletividade, e vice-versa.


Apenas num modo onde haja outros interesses além da sobrevivência, como o acúmulo e a expansão, o interesse coletivo pode entrar em conflito com o interesse individual, e tal conflito só pode se resolver se um dos dois ceder em nome do outro. Kropotkin, como Rousseau, acreditava que o interesse geral de um grupo poderia coincidir com o interesse individual de cada membro por conscientização, mesmo que tal grupo tivesse um tamanho e uma complexidade que não foram experimentados pela humanidade por tempo suficiente para que nós nos adaptássemos a eles, e mesmo que o modo de vida continuasse baseado no acúmulo e na expansão. Embora ambos concordassem que a superpopulação e a aglomeração de pessoas fosse um obstáculo à autonomia, eles jamais entraram numa crítica profunda das causas por trás do crescimento populacional, em geral tratando isso como algo natural e inevitável, e não uma conseqüência da exploração e do domínio sobre a natureza.


Alguns ainda diriam que a massificação independe do número de membros que uma sociedade tem, mas é apenas uma forma de relação entre membros. Tal afirmação é absurda. A massificação é um resultado da adição de quantidade, e tal não pode ser feito sem sacrificar a qualidade e sem modificar o modo de vida. Mesmo seres que vivem em grupos sociais de milhares de membros têm um limite numérico que, se ultrapassado, desestabiliza sua capacidade de coesão. Além disso, insetos e outros seres que vivem em grupos grandes evoluíram com uma estratégia reprodutiva completamente diferente da nossa. Não há no planeta nenhum mamífero de grande porte que viva em grupos grandes. Sua estratégia reprodutiva se baseia numa mortalidade baixa e uma natalidade baixa. Se houvesse alguma forma de maximizar a sobrevivência tanto para quantidade de pessoas vivas, aumentando a natalidade e diminuindo a mortalidade, quanto para a qualidade de vida, a falta de racionalidade não seria empecilho. Nossa alegada racionalidade nos permite criar tecnologias numa taxa acelerada, mas criar tecnologias não é pressuposto para qualidade de vida, como indica a igualmente crescente taxa de suicídios, depressão e dependência de drogas.


Tudo indica que não há anarquia de massas. Para defender a anarquia, devemos nos opor à massificação, não apenas no sentido de alienação das massas, mas no sentido de dinâmica populacional. Conscientizar as massas não é suficiente, e se o único interesse dessa conscientização for transferir o poder do governo para as massas, de nada terá adiantado, iremos apenas transferir o problema. Autonomia não é o poder do povo sobre o governo, é a independência de todo tipo de governo.



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