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Anarquia e Movimento Anarquista

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Luigi Biondi


«Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo»


Anarquismo (do grego antigo an-arke = contrário à autoridade) é o nome que se dá a uma teoria que prega uma sociedade sem governo, na qual se vive em harmonia, não por submissão à lei, nem por obediência à autoridade, mas por acordos livres estabelecidos entre os diferentes grupos de homens e mulheres, livremente constituídos por território ou profissão, para a produção, o consumo e para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Em uma sociedade anárquica as associações voluntárias que estarão presentes em todos os campos da atividade humana, adquirirão uma extensão maior, que substituirá o Estado em todas as suas funções. Elas constituirão uma rede composta por uma infinita variedade de grupos e de federações de todos os tipos e graus: locais, regionais, nacionais e internacionais, para todos os objetivos possíveis: produção, consumo e intercâmbio, comunicações, serviços sanitários, educação, proteção mútua, defesa do território, etc. mas também para satisfazer necessidades científicas, artísticas, literárias e de relações sociais.

Numa sociedade como esta, organizada de forma anarquista, o homem não será limitado na sua capacidade de trabalho produtivo por um monopólio capitalista apoiado pelo Estado, nem se limitará por medo do castigo (a repressão policial), ou por obediência a entidade metafísica (a religião). O homem agirá seguindo a sua própria razão, podendo alcançar o desenvolvimento pleno de todas a suas potencialidades, intelectuais, artísticas e morais, sem ser obrigado a trabalhar para os monopolistas. Poderia assim alcançar a plena individualização que não é possível sob o sistema de individualismo capitalista atual, nem sob o sistema de socialismo de Estado coletivista.

Os autores anarquistas consideram, além disso, que a sua concepção não é uma utopia, mas que é realizável: (...) o progresso da técnica moderna, que simplifica maravilhosamente a produção de todos os elementos necessários para a vida, o crescente espírito de independência e a rápida expansão da iniciativa livre e do livre pensamento em todos os campos de atividade (incluindo as que antigamente se acreditavam atributo exclusivo do Estado e da Igreja) reforçaram a tendência da sociedade humana ao não-governo.

No que se refere às suas concepções econômicas, os anarquistas acreditam que o sistema de propriedade privada da terra e a produção capitalista que tem como objetivo o lucro, representam um monopólio que vai ao mesmo tempo contra os princípios de justiça e contra os de utilidade. Os anarquistas consideram o sistema salarial e a produção capitalista um obstáculo para o progresso. Porém, assinalam também que o Estado sempre foi, e continua sendo, o principal instrumento para que poucos proprietários monopolizem a terra e para que os capitalistas se apropriem de um volume totalmente desproporcionado do excedente acumulado da produção.

Os anarquistas, portanto, enquanto combatem o atual monopólio da terra e o capitalismo, combatem com a mesma energia o Estado, que é o apoio principal do sistema. Não combatem esta ou aquela forma de Estado, mas o Estado em si, tanto o monarquista quanto o republicano. Tendo sido sempre a organização do Estado (na história antiga como na moderna), o instrumento para assentar os monopólios das minorias dominantes, não pode ser utilizada para a destruição destes monopólios. Os anarquistas consideram, portanto, que entregar ao Estado todas as fontes principais da vida econômica (a terra, as minas, as ferrovias, os bancos, os seguros, etc.) assim como o controle de todos os ramos da indústria, além de todas as funções que acumula já em suas mãos (educação, religiões apoiadas pelo Estado, defesa do território, etc.), significaria criar um novo instrumento de domínio. O capitalismo de Estado de tipo socialista só aumentaria os poderes da burocracia e do capitalismo. Ao contrário, o verdadeiro progresso está na descentralização, tanto territorial como funcional, no desenvolvimento do espírito local e da iniciativa pessoal e na federação livre do simples ao complexo, ao invés da hierarquia atual que vai do centro à periferia.

Os anarquistas, reconhecem que, como toda evolução natural, a lenta evolução da sociedade é seguida às vezes pela evolução acelerada chamada revolução, e acreditam que a era das revoluções ainda não se concluiu. Nos períodos de lenta evolução, todavia, dever-se-ia reduzir os poderes do Estado formando organizações em todos os vilarejos e cidades ou comunidades de grupos locais de produtores e consumidores, assim como federações regionais ou internacionais destes grupos.


Os anarquistas se opõem, segundo os princípios expostos, a participar da organização estatal atual e a apoiá-la e infundir-lhe sangue novo. Não pretendem constituir, e convidam os trabalhadores a não fazê-lo, partidos políticos que concorram a eleições para parlamentos. Portanto, desde a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1866), os anarquistas procuraram propagar suas idéias diretamente nas organizações operárias, e induzi-las a uma luta direta contra o capital, sem depositar fé alguma na legislação parlamentar.

Com estas palavras o revolucionário russo Piotr Kropotkin (1842 –1921), explicava em 1905 na Enciclopédia Britânica a teoria anárquica, os objetivos e a atuação do movimento anarquista, do qual ele era um dos maiores expoentes e teóricos (a sua obra mais importante foi A Conquista do Pão, considerada a obra anarquista mais lida entre os militantes).

No mesmo período, em 1907, outro pensador e político anarquista, o italiano Errico Malatesta (1853-1932) explicava de forma semelhante, no folheto Anarchia, o que os anarquistas queriam, defendendo desta forma a idéia anárquica, e criticando os que a consideravam somente um sinônimo de desordem:

Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "em governo", isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituída. Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tornasse meta de um movimento, a palavra "anarquia" foi usada universalmente para designar desordem e confusão. (...) Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vida social. (...) Portanto, para nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. (...) Se acrescentamos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentamos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. (...) Quando esta opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra “anarquia”, justamente por significar “sem governo”, será o mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total".

Os dois trechos evidenciam quais foram (e ainda hoje são) os fundamentos da teoria e do movimento anarquista:

a) Comunismo: isto é, gestão coletiva de todos os bens e abolição de todo tipo de propriedade (da terra, como capitalista industrial). Comunismo anarquista é um “sistema de socialismo sem governo”;

b) Antiestatalismo: abolição de todo tipo de Estado (incluindo o de tipo socialista), considerado como a coluna da exploração capitalista e de todas as desigualdades;

c) Anti-clericalismo e ateísmo: a Igreja, como o Estado, não é somente o fruto das relações de exploração capitalista, mas uma instituição que sustenta, apóia e cria estas relações;

d) Revolução: chegar-se-á a sociedade comunista anárquica através das revoluções;

e) Ação Direta: é a preparação da revolução final que abolirá o Estado e a propriedade através de insurreições, motins e greves gerais contra a exploração capitalista, contra o Estado e suas autoridades, e contra o poder da Igreja;

f) Anti-parlamentarismo: pregando a revolução e a ação direta, e sendo contrários a todo tipo de hierarquia e ao Estado, os anarquistas são também contrários à formação de partidos que participem de eleições. Nunca poderá existir um partido anarquista;

g) Federação: a nova sociedade anárquica será auto-organizada por grupos confederados entre eles, sem nenhuma hierarquia, no nível local, regional, do local de trabalho e até formar uma grande federação internacional de todos os povos. O movimento anarquista em luta para chegar a uma sociedade anarquista também se auto-organizará em grupos de afinidade confederados, por serem contrários à luta partidária eleitoral;

h) Liberdade Individual: o homem tem que ser livre e, portanto, prega-se a abolição de todo tipo de hierarquia na sociedade e a observação de um comportamento pelo qual os únicos limites da ação de

cada um são a consideração em relação ao respeito da individualidade dos outros: a solidariedade entre indivíduos iguais. Além disso o indivíduo deve se libertar de suas idéias antigas e repressivas sobre as relações de amor e as superstições religiosas. Conseqüentemente os anarquistas são


favoráveis ao amor livre e a uniões sentimentais baseadas somente no amor e no respeito mútuo e não no casamento.

Embora nascidos paralelamente ao movimento marxista e socialista, e muitas vezes colaborando com este (com o qual os anarquistas tinham algo em comum, como o objetivo de chegar a uma sociedade comunista), os anarquistas tem algumas grandes diferenças em relação aos socialistas e comunistas, que nasceram das idéias de Marx (1818-1883).

Em primeiro lugar, o anarquismo não tem um único grande teórico (como foi Marx para o movimento socialista e comunista); em segundo lugar, os anarquistas não acreditam que à sociedade futura comunista tenha que se chegar através de um período intermediário chamado de ditadura do proletariado; em terceiro lugar eles destacam o papel do Estado na exploração capitalista, isto é, acreditam que o estado burguês não é uma expressão da economia burguesa e portanto do sistema de exploração capitalista, mas que o Estado tem um valor negativo em si próprio e que é ao mesmo tempo causa e efeito da sociedade capitalista. Enfim, diferentemente do marxismo que considerava que a classe dos proletários urbanos (os operários) fosse a classe revolucionária, para os anarquistas não havia uma classe predestinada a fazer a revolução: todos os explorados e excluídos, fossem eles camponeses, artesãos, ou operários fariam a revolução anárquica.

O primeiro teórico que utilizou a palavra anarquia, dando a ela um sentido positivo foi o francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), cujas obras mais importantes são: O que é a propriedade?, A filosofia da miséria, e O princípio federativo. Segundo ele, a propriedade era um furto, não era uma instituição legítima da sociedade, e baseava-se em um ato de violência. Preconizava, portanto, uma sociedade futura, que ele chamara de anárquica, na qual a propriedade e seus maiores defensores, a Igreja e o Estado, teriam desaparecido, e os homens teriam se organizado espontaneamente para suprir as suas necessidades sem precisar de hierarquia, mas confederados em grupos de produtores organizados segundo regras mutualistas, isto é de ajuda mútua. As idéias de Proudhon encontraram um espaço considerável entre muitos artesãos e operários franceses. Durante a Comuna de Paris (1871), por exemplo, os proudhonianos constituíram a maioria dos artesãos e operários que apoiaram ou participaram diretamente do governo revolucionário parisiense.

Outro importante anarquista da época foi Mikahil Bakunin (1814-1876) que não deixou uma obra teórica fundamentando o anarquismo mas escreveu, todavia, uma infinidade de artigos em vários jornais anarquistas, propagandeando o ideal anárquico de uma sociedade sem classes, sem Estado, sem religião e sem propriedade privada, gerida coletivamente no respeito mútuo. Bakunin foi o político anarquista mais ativo no século XIX. Ele nasceu na Rússia em 1814, mas viveu grande parte de sua vida participando e promovendo motins e revoltas em várias outras partes da Europa, sobretudo na França e Itália, até que morreu na Suíça, em 1876. Em 1868 participou da recém fundada AIT - Associação Internacional dos Trabalhadores (também chamada de Primeira Internacional), da qual, todavia, é expulso com o resto de seus seguidores anarquistas em 1872, no Congresso da AIT, em Haia, na Holanda. Isto porque, os anarquistas, entraram em choque com os socialistas marxistas (o próprio Marx e Engels tinham fundado a AIT, em 1864) por causa de suas idéias em relação ao Estado e suas contrariedades a formar um único partido operário organizado hierarquicamente, além de se recusarem a obedecer às decisões da maioria socialista.

Pregando a resistência e oposição ao Estado e à religião e a liberação total do indivíduo, os anarquistas elaboraram uma pedagogia que pretendia libertar de fato o indivíduo de suas crenças e comportamentos de submissão ao Estado, o capital e a igreja. Esta educação anarquista, que devia formar o homem novo, foi elaborada sobretudo baseando-se nas idéias do educador espanhol Francisco Ferrer (1859-1909) que criou toda uma rede de escolas chamadas de Escolas Racionais ou Racionalistas, nas quais ensinava-se matérias científicas e humanas seguindo os princípios democráticos e anti-clericais. Por causa desta sua atividade, Ferrer foi aprisionado e morto pelo Estado espanhol em 1909.

Como já dissemos, o movimento anarquista se estruturou em grupos de afinidade. Isso significa que os anarquistas se juntavam entre eles em grupos organizados segundo afinidades, isto é, seguindo interesses ou objetivos comuns, tendo assim grupos locais de propaganda, sindicais, educativos, recreativos de teatro, música e até futebol (por exemplo, em 1917 havia um clube anarquista de futebol sediado em Santos, que disputava o campeonato paulista, cujo nome era Libertário F. C.). Frequentemente, havia grupos que desenvolviam atividades as mais variadas. Os grupos eram federados a nível nacional, formando as chamadas Federações Libertárias ou Federações Anarquistas, sendo as mais famosas e numerosas as da Espanha e Itália. Estas organizações não tinham uma estrutura de tipo partido mas agiam nacionalmente e, às vezes, internacionalmente, sem observar uma ordem estratégica ditada pelos líderes eleitos. Depois das assembléias, nas quais eram tomadas


as decisões democraticamente segundo o princípio da maioria e da minoria, esta não era obrigada, depois, a seguir as decisões tomadas pela maioria.

Em relação à atividade sindical, os anarquistas seguiam comportamentos variados, sendo esta questão um dos problema de divisão no interior do movimento anarquista:

a) Muitos, de fato, liderados por Malatesta, achavam que a participação nos sindicatos de ofício ou de categoria deveria ser fundamental, mas todavia não podia substituir a ação dos anarquistas na sociedade como um todo: o sindicato era um lugar importante, mas não o único, no qual os anarquistas deveriam intervir fazendo propaganda dos princípios anárquicos. Claramente, eles deveriam participar das greves, mas deveriam tender a transformá-las em insurreições e revoltas gerais contra o Estado, sem se limitarem as greves parciais. Além disso, os libertários, ao recusarem todo tipo de hierarquia, eram contrários à organização sindical, uma vez que quase todos os sindicatos se estruturavam em organizações nas quais havia quem decidia e mandava e quem obedecia, ainda que seus líderes fossem eleitos democraticamente;

b) Uma parte dos anarquistas, todavia, aderiu a uma tendência chamada sindicalismo de ação direta ou sindicalismo revolucionário que via a sociedade futura sendo organizada por grupos sindicais de produtores (operários ou camponeses) e que pregava como meio de luta a greve geral. Neste caso, obviamente, estes anarquistas participavam das eleições internas necessárias à organização do sindicato, muitas vezes recebendo um salário como presidentes ou conselheiros das ligas de ofício. Embora criticados por outros anarquistas, eles achavam que os libertários deveriam conquistar os sindicatos para liderá-los segundo os princípios da anarquia e da greve geral, em contraposição aos socialistas, que lideravam na Europa e no mundo a maioria das confederações sindicais. Os anarquistas que participaram desta visão sindicalista revolucionária foram tantos que muitas vezes esta tendência de luta sindical foi chamada frequentemente (mas não corretamente) de anarco-sindicalismo. De fato, na França, o mais importante líder sindical e fundador do movimento sindical francês era um anarquista: Fernand Pelloutier (1867-1901). Também na Argentina, a principal central sindical do país até os anos trinta do século XX, a FORA (Federación Obrera Regional Argentina), era em grande parte controlada por militantes e líderes sindicais anarquistas.

Em relação aos períodos anarquistas, a história do movimento anarquista no mundo atravessou alguns períodos principais, durante os quais um aspecto de suas estratégias prevalecia sobre os outros, que todavia não desapareceram completamente:

a) o período chamado Internacionalista (aproximadamente 1860-1880) durante o qual os anarquistas participaram (de 1868 a 1872) junto com os marxistas, da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Agiam sobretudo em pequenos grupos como vanguardas revolucionárias promovendo e participando de levantes e revoltas urbanas e tiveram um papel ativo na França na Comuna de Paris e na fundação das primeiras organizações mutualistas e de classe segundo as idéias proudhonianas;

b) o período chamado Terrorista (aproximadamente 1880-1900) no qual prevaleceu dentro do movimento anarquista a corrente inidividualista ou stirneriana - do filósofo alemão Max Stirner (1806-1856) teórico da libertação total do indivíduo, que considerava eficaz o assassinato de expoentes do Estado como soberanos, presidentes da república, generais. Durante este período os anarquistas, em atos individuais, mataram vários monarcas e presidentes, como por exemplo o rei da Itália Humberto I, a imperatriz da Áustria-Hungria, o presidente da república francesa Sadi-Carnot;

c) o período das Organizações (aproximadamente a partir de 1890) durante o qual o individualismo foi gradualmente abandonado e, dedicou-se sobretudo à organização e formação de grupos políticos anarquistas e à participação em sindicatos;

d) o período da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), durante estes anos, pela primeira vez, os anarquistas chegaram a participar do governo de uma nação, o que trouxe a eles vários problemas, sendo que os libertários reivindicavam a destruição total do Estado. Mas como a Espanha estava numa guerra civil, a Federação Anarquista Ibérica (FAI), participou ativamente da defesa da República Espanhola contra os franquistas nacionalistas, porque ela contrastava o domínio religioso da Igreja Católica e tinha destruído o velho Estado monarquista antidemocrático. Além disso, os anarquistas esperavam transformar a Espanha numa república organizada segundo os princípios voluntaristas e libertários do anarquismo. Neste período, aliás, a principal central sindical espanhola era justamente a anarco-sindicalista CGT.

O anarquismo se difundiu na Europa sobretudo depois da atividade de Bakunin e de Proudhon, que encontraram na França, na Espanha e na Itália vários seguidores. O movimento anarquista, que tinha núcleos, grupos, sindicatos e federações em todos os países da Europa, fixou-se sobretudo na Europa latina (Espanha, Itália, França e Portugal), mas grupos consistentes existiam também na Holanda,


Bélgica, Suiça e Rússia. Os historiadores acham que a maior difusão nestes países deveu-se ao fato de que o anarquismo era uma teoria que expressava melhor a resistência de artesãos a se proletarizar nas cidades como operários, e a perder sua independência como trabalhadores autônomos. Além disso, o anarquismo era o movimento que mais atuava contra o poder da igreja e que mais consideravam os camponeses como agentes revolucionários. E dado que os países da Europa do sul e a Rússia eram países ainda pouco industrializados (portanto com uma camada muito ampla de trabalhadores urbanos artesãos e com a maioria dos trabalhadores sendo camponeses) e eram países onde a igreja católica e a ortodoxa (na Rússia) tinham terras e poder político, o anarquismo se apresentava como um movimento mais próximo das exigências de transformação da sociedade. A França também, embora fosse um país industrializado, ainda contava com um número elevado de artesãos e operários especializados. Entre os integrantes mais importantes do anarquismo nestes países destacamos, na Espanha, Buenaventura Durruti (1896-1936), na Itália, Errico Malatesta (1853-1932), reconhecido por Kropoktin como a figura mais importante de todo o movimento anarquista internacional na primeira parte do século XX, Pietro Gori (que atuou na segunda metade do século XIX e início do XX) e Luigi Fabbri (que atuou do final do século XIX até toda a primeira metade do século XX); na França, a professora Louise Michel (1830- 1905), que participou ativamente da Comuna de Paris e o sindicalista Pierre Monatte (que atuou aproximadamente entre final do século XIX e início do XX).

Todavia, o movimento anarquista teve uma certa expansão também entre os trabalhadores dos Estados Unidos. Neste país, os anarquistas contaram com muitos militantes, entre os quais lembramos os Mártires de Chicago, condenados a morte em 1887 por terem participado de uma greve na qual alguns policias foram mortos (este greve, que foi feita no dia Primerio de Maio, deu origem ao dia do trabalhador, para lembrar sempre dos que morreram, como os anarquistas mortos em 1887, para a obtenção de condições de vida e de trabalho mais dignas); a feminista de origem judia lituana Emma Goldman (1869 –1940); e os imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, mortos em 1927 na cadeira elétrica, injustamenteacusados de terem matado alguns policiais numa fábrica.

Também na América Latina o anarquismo teve uma difusão notável, sendo considerado como a base fundadora do movimento operário e de movimentos sociais (anticlericalismo, feminismo e novas pedagogias) em vários países sul-americanos, sobretudo no Brasil, na Argentina, Uruguai e Chile.

Em grande parte, o anarquismo se difundiu a partir da década de 90 do século XIX na América do Sul graças a imigração de muitos trabalhadores vindos da Europa do sul, que contava com um número notável de anarquistas. Todavia, as idéias anarquistas tinham-se difundido também graças à leitura de obras e jornais anarquistas que alguns intelectuais e profissionais liberais latino-americanos costumavam ler. Foi o caso, por exemplo, do escritor mineiro Avelino Fóscolo (1864 –1944) autor do romance social Vulcões e da feminista Maria Lacerda de Moura (1887 - 1945), cuja primeira obra foi escrita em 1919. Ao mesmo tempo, muitos imigrantes não chegaram em seus novos países americanos já como atuantes libertários, mas passaram a integrar o movimento somente na América do Sul.

Tanto no Brasil como na Argentina e Uruguay, a maioria dos militantes anarquistas era de origem italiana: portanto, cidades que contavam com uma maioria de trabalhadores italianos, como Buenos Aires, Rosário, Montevidéu e São Paulo, também contavam com muitos grupos de anarquistas povenientes da Itália. Mas muitos imigrantes de outros países também integraram o movimento anarquista sul-americano, especialmente os espanhóis e os portugueses (a maioria dos militantes anarquistas da cidade de Santos, por exemplo, que entre 1890 e 1940 era considerada a cidade com mais anarquistas no movimento operário, eram espanhóis ou portugueses).

Portanto, foi no Estado de São Paulo, que mais se espalhou o movimento anarquista no Brasil, graças à grande presença de artesãos e operários de origem italiana e espanhola, e parcialmente portuguesa. Os italianos, em particular, constituíam cerca de 70% dos filiados aos vários grupos anarquistas que surgiram entre 1895 e 1920 nas várias cidades paulistas, a partir obviamente da capital. Os anarquistas italianos de São Paulo, inclusive, conseguiram editar um semanário libertário ininterruptamente de 1904 a 1914, com uma tiragem que chegou em alguns períodos a 5.000 cópias semanais: este jornal era o La Battaglia. Calcula-se que em 1909 existiam pelo menos seis grupos anarquistas de língua italiana somente na cidade de São Paulo, além dos grupos nos quais participavam indiferentemente imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e brasileiros natos. Também os sindicatos que nasceram em São Paulo nesta época, eram compostos por muitos anarquistas seguidores das ideías de ação sindical direta: tanto na FOSP (Federação Operária de São Paulo), como na FOLS (Federação Operária Local de Santos) ou na Liga Operária de Campinas ou de Ribeirão Preto. Junto com estes grupos, quase todos de bairros ou sindicais, havia em São Paulo também as Escolas Modernas Libertárias que seguiam a pedagogia de Ferrer, como a escola do


professor João Penteado (1877-1965). Havia inclusive um grupo formado somente por mulheres o Grupo das Jovens Idealistas, que tiveram um papel importante durante a grande greve geral de 1917.

Todos os grupos anarquistas organizavam festas, bailes, encenações de teatro e piqueniques populares, com o fim de arrecadar dinheiro para os grupos e jornais de propaganda, além de permitir aos afiliados e aos simpatizantes de se socializarem nos bairros populares das cidades paulistas.

Entre os militantes libertários mais famosos deste início de século XX em São Paulo contamos com os italianos Oreste Ristori, Gigi Damiani, Alessandro Cerchiai, Angelo Bandoni, Matilde Magrassi, os irmãos Gattai (um deles, Francesco era o pai da Zélia Gattai, viúva de Jorge Amado); com os portugueses Neno Vasco e Adelino Tavares de Pinho e com os espanhóis Rodolfo Felipe, Florentino de Carvalho (cujo nome verdadeiro era Primitivo Raimundo Soares), e Antonia Soares. Mas, o mais famoso de todos foi com certeza Edgard Leuenroth (1881 - 1968), filho de alemães, que tomou parte de várias greves e motins e publicou por décadas o periódico anticlerical A Lanterna, no qual encontravam espaço muitos dos anarquistas que escreviam em língua portuguesa e que atuavam em São Paulo.

Todavia, também no Rio de Janeiro houve atividade e militância anarquistas importantes, tanto de imigrantes como de brasileiros natos (ainda que não tenha chegado aos níveis de São Paulo), graças à presença de vários grupos, dentre os quais, o mais importante, o Aliança Anarquista, além da atuação fundamental de muitos anarquistas na Federação Operária do Rio de Janeiro. Anarquista carioca, foi também na sua juventude Astrojildo Pereira (1890 -1965), que nos anos 20 aderiu ao marxismo-leninismo e fundou no Brasil o Partido Comunista. Grupos libertários surgiram também em Belo Horizonte e várias cidade de sul de Minas, em Porto Alegre, Curitiba, Recife e Belém.

O Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp, tem o melhor acervo na América do Sul para estudar o movimento anarquista no Brasil, mas também na Argentina e Uruguai. Ao mesmo tempo, graças à presença de muitos militantes libertários imigrados, o acervo do AEL permite complementar a história dos movimentos anarquistas de muitos países como Itália, Espanha e Portugal, sendo que muitos destes militantes voltaram à sua terra depois de anos de atividade no Brasil.

O AEL, de fato, contém um número imenso de periódicos libertários brasileiros (microfilmados ou em original), tanto em língua italiana como em língua portuguesa entres os quais se destacam, para o período 1890-1920: O Amigo do Povo, A Plebe, A Lanterna, A Vida, La Battaglia, La Propaganda Libertaria, Alba Rossa, A Guerra Sociale outros nos quais a participação dos anarquistas foi notável, como A Voz do Trabalhador, A Lucta Proletária, O Chapeleiro.

Além disso, o AEL guarda toda uma série (também numerosíssima) de opúsculos, folhetos e livros anarquistas editados no Brasil em várias línguas, como em outros países, em grande parte provenientes da vasta e importante biblioteca particular do militante brasileiro Edgard Leuenroth, o que permite traçar um quadro amplo da atuação dos anarquistas em terras brasileiras.



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