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O real para além do rei


A filologia, a ciência que se coloca a estudar as línguas tem um Q de extraordinária. Para além dos pedantismos acadêmicos, ela nos permite conhecer os impactos de nossa herança linguístico-político-cultural, dimensões que para muitos estão tão naturalizadas que soam como o som da grama crescendo em nossas formas de compreender e ordenar o cosmos. Não entrarei no mérito dos exemplos ofensivos, não precisamos "clarear" as coisas para demonstrar as potencialidades racistas e machistas contidas na língua portuguesa, ativistas do movimento negro e feministas vêm fazendo isso há décadas.

Como outras línguas de matriz latina, o português explicita o papel da autoridade e do poder no estabelecimento daquilo que deve ser considerado por todos "verdade": o oficial, o autêntico, o verídico - todos eles são gêmeos siameses, sinônimos politicamente orientados daquilo que chamamos de "real". Mas afinal de contas... que diabos é o real? De onde vem essa expressão convenientemente ambígua que pode significar tanto "tudo aquilo que de fato é" quanto "tudo aquilo referente ou pertencente ao rei"? É evidente que o poder permeia a forma como falamos e pensamos em nosso cotidiano e devemos desconfiar que uma ambiguidade dessas seja tudo menos acidental.

O que vemos entre os termos "Real" (realidade) e 'Real" (referente ao rei) em questão não é nem de longe uma coincidência de significantes, como entre a "manga" (fruta), e a "manga" (da camisa). Voltemos um pouco no tempo e pensemos um instante sobre o Rei de uma época anterior mesmo ao tempo em que anarquistas corajosos e enlouquecidos derrubavam bastilhas, colunas, colocavam petróleo (e fogo em mansões burguesas) e punhais afiados em nobres corações.

Castelo.assassins.jpg

Castelo: um tipo de fortificação que a seu tempo pode garantir a permanência de realidades.

O monarca medieval surgido como uma versão barbarizada do imperador romano, era o senhor do Reino e todos que lá viviam eram seus súditos, estavam sob o peso de seu julgamento e lei.[1] Mesmo sem um poder plenamente centralizado, ele contava com a vassalagem de nobres que em seus feudos agiam eles próprios como reis. A vida de um plutocrata não é necessariamente um mar de rosas, sempre existe a possibilidade desagradável de se deparar com um semelhante político, ou seja, outro plutocrata.

Só restava uma opção ao monarca: a centralização de poder e autoridade em si, reduzindo o poder e a autoridade de outros com o intuito de evitar o surgimento de figuras de contestação. O absolutismo se instaurou com a redução do poder da nobreza, e logo as regras do jogo estariam mudadas: a realidade seria constituída de um novo sentido. Sob o peso do corpo leviatânico do monarca absolutista e pairando sobre as cabeças de todos os súditos, eis o peso da "realidade". Quem poderia ir contra ela e ousar contestar aquilo que é a vontade de deus e do rei?!

«Ao sultão Mahmud (que viveu entre os anos de 998 e 1010) um dia serviram uma iguaria por ele desconhecida, a beringela! O sultão ficou encantado e entusiasmado declarou "Trata-se de uma excelente comida!" Imediatamente um de seus súditos cortesãos levantou-se e iniciou um discurso louvando as virtudes da beringela. Mas o sultão, de tanto comer enjoou-se e, enraivecido, sentenciou: "A beringela é perniciosa!!" O mesmo súdito não titubeou e prosseguiu o seu discurso agora denegrindo o alimento. O sultão surpreendeu-se: "Não era você que a estava louvando?" O súdito foi rápido na resposta: "Perdoe-me, meu senhor, mas sou súdito de vossa majestade e não da beringela".»


Uma série de especialistas estavam sempre a postos para garantir que a realidade prosseguisse sempre da fiel a forma concebida pelo poder. Torturadores, inquisidores, militares, açougueiros e assassinos. Corpos dependurados em gaiolas, empalados em praça pública, fogueiras para os infiéis: sempre que necessário a "realidade" se tornaria "realmente" pesada para garantir a supremacia da autoridade. A conveniência da ambigüidade foi e continua sendo garantida a custo das vidas de todos aqueles que ousaram desafiar a realidade, não só do rei, mas também de outras formas de monarcas.

Não precisamos desenterrar das areias do tempo a história de algum subversivo, pensemos por um instante nas conseqüências desastrosas para o poder que a famosa descoberta de Copérnico causou. A idéia de que a Terra não era o centro da criação se mostrou a época extremamente subversiva porque carregava em si a possibilidade de uma intencionalidade bem distinta nas conseqüências dos atos da Divina Providência. Se não estávamos no centro da criação como afirmava as escrituras, talvez a descentralidade fosse um princípio divino a ser difundido também entre os "homens". Mais de um papa perdeu seu sono pensando nas conseqüências da difusão de raciocínios como este.

Demoraria ainda algumas dezenas de anos para que o poder conseguisse sobreverter o princípio do Heliocentrismo em seu favor. Logo na França teríamos gordos monarcas absolutistas, como Louis com suas roupinhas douradas, calças colantes e perucas de esvoaçantes, era o "Rei-Sol". De forma cômica esses reis moldariam ao seu redor uma "realidade" palaciesca, cheia de modismos e trejeitos de distinção, onde nobres se estapeariam por um lugar na platéia que assistiria o despertar ou o defecar do monarca.

Justiça popular.jpg

Sans-culotte fazendo justiça em detrimento do Real.

Após algumas gerações de reis embonecados, a realidade seria confrontada por uma multidão de despossuídos e famintos que estavam cansados das ruínas, sem pão nem brioches, decidiram por a prova como a realeza poderia realizar a realidade sem coroa nem cabeça. Os ares da revolta anunciavam a dança a mudança, naquele baile, quem não tivesse sapatos de polca, mas luvas de pelica, iria dançar no patíbulo com o pescoço em baixo da lâmina.

Simplício: Certo, certo, o rei nos pregou outra peça, a realidade sobreviveu ao rei por centenas de anos, nós caímos!? E agora?!

A realidade só sobreviveu ao rei porque foi herdada por outras esferas auto-instituídas de autoridade: o Estado e o "Capetalismo". Caímos sim, mas porque levamos mais de uma bela rasteira. Elas vieram em seqüências com elites substituindo elites, nobres, aristocratas e burgueses, e alguma delas inclusive, necessariamente sobrevertendo seus próprios interesses em meio aos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, princípios pelos quais tantos perderam a vida por buscar e defender e que estas vanguardas trataram de distorcer e prostituir.

Mas, deixemos de lado estas figuras de Robespierre e Chapelier (estes senhores de elites de quadra de tênis que com seus sofismas moviam os tolos e ignorantes ao seu prazer) e voltemos por um instante para aqueles bons homens e mulheres que cortaram as cabeças dos reis franceses e derrubaram a bastilha. Os Sans-Culottes, gente do povo nenhum pouco tola, trabalhadores e artesãos que se lançaram contra mosquetes e canhões em nome da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

«"Sua aparência é popular: usam calça, vestimenta de trabalho, e não calção, roupa de ostentação do aristocrata, uma camisa, uma jaqueta curta, a carmanhola; usam o barrete frígio, símbolo antigo da escravidão libertada, marcado pela insígnia nacional; usam permanentemente o sabre e o pique, porque só o homem armado pode defender a revolução contra os aristocratas, os realistas, os moderados, os intriguistas...todos esses celerados
(Adresse da la Section des Sans-culottes 1793.)

Poderíamos nos perguntar que força era aquela que representavam, que se opunha tão legítima e violentamente a 'realidade' que os violentava? A mesma força talvez que impulsionou as rebeliões libertárias na Itália ou os communards parisienses no século seguinte. A mesma força das greves gerais e das revoluções que desafiava a realidade em mais de um sentido. Se talvez também pudéssemos dar um nome para ela, juntando algumas letras formar uma outra palavra que desse conta da tarefa de simbolizar "tudo aquilo que de fato é" e ainda assim tudo o que é "contrário ao rei enquanto figura de centralidade e autoridade". Poderíamos dizer "anarcalidade"... mas sempre é bom ter em mente que as palavras não são nem de longe tão importantes como os atos.

Para acabar com a realidade não basta dizer que o rei está nu, é preciso sobretudo que ele esteja sem a cabeça.

Alguém aí sabe operar uma guilhotina?

Referências

  1. É conveniente lembrar que o papa enquanto figura política também tem origem histórica na figura do imperador romano. Depois da conversão do Império Romano ao Cristianismo pelo imperador Constantino I em 313 D.C., este passa a acumular também o cargo de Bispo de Roma, ansiando por controlar o sacerdócio, Constantino e depois seu filho implementam uma série de papas fantoches, "a sua imagem e semelhança" institucional.


Veja tambémEditar


Textos

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