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Acreditando em Milagres

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Espere Resistência
CrimethInc


Apesar de todas nossas alegações do contrário, a revolução ainda era um mero conceito para nós, um futuro fantasiado: a revolução social, quando finalmente colocaríamos em prática todas essas abstrações sobre transformar tudo; a revolução pessoal, quando finalmente viveríamos como se a vida estivesse acabando um minuto de cada vez. Convocando ações de massa em nome da libertação total, nós ainda temíamos confessar nossos problemas e desafios pessoais uns para com os outros; vandalizando anúncios publicitários de dietas, denunciando propaganda patriarcal nós ainda não conseguíamos aceitar os nossos próprios corpos e desejos. Todas essas declarações de guerra e fábulas sobre insurreição, talvez fossem apenas besteiras e absurdos: tais idéias brotam das necessidades psicológicas daqueles que as vendem pelo menos tanto quanto brotam de qualquer reflexão sobre o que é desejável ou possível. Olhando para trás, parece que precisávamos estar num amor não-recíproco com algum evento apocalíptico ― assim como muitos de nós não amávamos, coincidentemente, uns aos outros ― pelo menos tanto quanto nós realmente desejávamos ou esperávamos. Essa espera encheu tudo de significado, mas também tornou tudo suportável ― depois que todos sentimos que tudo era insuportável, e mesmo assim continuamos insistindo.


No final das contas, encontramos formas de sobreviver: nós, que nós orgulhávamos de nossa intransigência, que tínhamos passados por momentos em que parecia a velha ordem estava ruindo e juramos defendê-los e estendê-los ou morrer tentando, nós também encontramos maneiras de suportar o tempo e nos perder na rotina, embora fosse uma rotina de resistência. Desenvolvemos nossos próprios rituais para comemorar os fantasmas das insurreições passadas ― e lentamente, famintos por algo tangível para continuar, começamos a confundir essas formalidades com a própria libertação.


Enquanto isso, aquele que tinham vivido todas suas vidas sob o peso do trabalho, do aluguel e dos gêneros, que achavam que essas injustiças fossem forças inescapáveis da natureza, ainda viviam a resistência como uma forma de libertar-se da realidade, um choque de sistema, da mesma forma que eu o fazia quando eu fui pro campus pela primeira vez em busca do acampamento. O mais perto que eles chegaram da libertação foi admirar as estrelas durante um blecaute, compartilhar recursos depois de um ciclone, interromper uma cerimônia de casamento ou uma assembléia na escola. Se eles pararam por aí, foi falta de imaginação, não uma falha de caráter: por mais doces que fossem esses momentos, era impossível imaginar qualquer coisa além deles. Talvez fosse preciso despertar, como eu, felizmente, o fiz, sob constelações diferentes, cercado de belos estranhos, para estar pronto para investir em diversão, risco e revolta como um meio de vida. Mas não existiam terras estrangeiras o suficiente para acomodar todos: tínhamos que conjurá-las aqui, de alguma forma, em solo conhecido.


Eu vinha me dizendo isso há anos sem ir até o fim. Toda vez que eu chegava a esta conclusão, acabava sendo muito difícil de conjurar e muito fácil de fugir. Talvez algum dia eu estivesse esperando de boa fé pela revolução, mas eu não estava mais convencido de que ela se aproximava. Eu estava errado ao deixá-la para os outros; eu não podia ajudar ninguém a romper com a realidade se eu mesmo não acreditava que era possível. Se nenhum momento crucial de transformação estava vindo, cabia a mim trazer ao presente as coisas que eu desejava.


Eu não penso mais que a revolução é um objetivo para o futuro; agora eu a vejo como algo que já está acontecendo, um ponto de ruptura. É o limiar sobre o qual as pessoas passam a acreditar em milagres, por falta de um mundo melhor ― e, nesse estado de graça, se descobrem capazes de mudar coisas que pareciam imutáveis. Mais cedo ou mais tarde elas retornam desta fronteira, mesmo que eles voltem como revolucionários dedicados, e é pior para nós que somos sobrecarregados de revolucionários que não acreditam mais em milagres! Você tem que ser um verdadeiro romântico, um maníaco que confia mais em contos de fadas que na realidade, para ficar por mais tempo além desse horizonte, ainda mais para esperar que todos se juntem a você lá. Mas isso, acreditar no inacreditável, é o que é preciso para realizar nossos sonhos, é o que torna tais sonhos possíveis.


O fato de que alguns de nós persistirem de um dia para o outro, acreditando em milagres em um mundo que nega toda magia e mistério, é em si mesmo um milagre: e uma prova de que podemos, de fato, fazer qualquer coisa.




O primeiro passo era ajeitar as coisas com meus velhos amigos e descobrir quais ainda tinham disposição para lutar. Então eu imaginei que reconvocaríamos as tropas, abrir um centro social como aquele que tinha começado com a ocupação. Eu sempre quis essas coisas, mas eu finalmente estava pronta para assumir responsabilidade por fazê-las acontecer. Também não havia tempo a perder, todos diziam que havia outra guerra se aproximando.


Eu fui até Kate da forma que Marshal veio até mim, disposta a responder pelas minhas ações e fazer o que eu podia para reconquistar a sua confiança. Eu temia pelo pior, as pessoas freqüentemente perdoam os erros dos seus parceiros enquanto culpam os parceiros dos seus parceiros, mas ela fez um esforço para ser simpática. Conversamos por muito tempo. Eu não esperava que as coisas entre nós fossem iguais ao que eram antes por alguns meses, talvez anos, mas pelo menos estávamos conversando.


Depois eu procurei Rita, que acabara de se mudar de novo para a cidade. Eu não havia visto muito ela desde a marcha até o muro. Eu descobri que ela estava morando com Sherry, outra amiga daquela época.


Depois que paramos de nos ver regularmente, Rita esteve entre aqueles que começaram a se preparar para o colapso industrial; ela fez uma mudança dramática de ativismo ambiental convencional para um tipo de sobrevivencialismo apocalíptico. A última vez que passamos algum tempo juntas, ela estava vivendo no campo, aprendendo a identificar plantas comestíveis e a preparar peles de animais.


Você pode imaginar minha descrença quando eu encontrei um condomínio gigante no endereço que ela me deu. Eu chequei duas vezes o papel amassado no meu bolso e olhei em volta só para garantir antes de prender minha bicicleta na cerca de metal. Com certeza, seus nomes estavam na lista ao lado do porteiro eletrônico: Rita McKean, Sherry Lechleidner, B2.


Ela apertou o botão e me encontrou à porta. Sherry estava na cozinha atrás dela, fazendo café ao lado de uma geladeira de inox novinha em folha.


Eu não consegui me segurar: "Como você consegue pagar esse lugar? É tão chique."


"Uma palavra: crédito! Mas eu também consegui um emprego no campus. É uma porcaria, mas é melhor que a pobreza! No final das contas todo aquele negócio de ONG foi bom para o meu currículo."


Isso foi inesperado, meu eu não deixei isso me abalar. O próprio Pablo não tinha feito coisas legais quando trabalhava para um jornal corporativo?


Rita me levou à sala de estar e me indicou um pufe em formato de coração; Sherry se juntou a ela no sofá. Depois que nos atualizamos um pouco, eu comecei a falar.


Ela não me deixou ir muito longe. "Sami, não estou interessada em nada deste tipo agora."


Eu estava incrédula. "Espera, me escuta! Não me diga que você gosta de estar de volta a um escritório!"


"Estar em um escritório é horrível, com certeza, mas, honestamente, é muito mais fácil de tocar a minha vida sem me sobrecarregar. Eu realmente estava num beco sem saída."


Sherry assentiu vigorosamente. "Todo aquele negócio de ativismo, você não acha que é só uma forma de se tornar infeliz, um álibi para adiar o fato de aceitar a realidade?"


"Mas e todas as pessoas que não podem trabalhar em escritórios?" Aquilo não era mesmo o que eu queria dizer. Eu estava frustrada, falando coisas batidas.


"Você realmente acha que alguma das coisas que fizemos ajudou eles?"


"Bem, em primeiro lugar, a greve..."


"Claro, mas eu sei que você irá concordar que só uma mudança fundamental no sistema econômico poderia fazer uma verdadeira diferença. Uma grande mudança como essa está totalmente fora das nossas mãos. Eu apenas admito isso."


"Você acha que o que fazemos não importa?"


Sem respirar, com uma mistura de submissão e orgulho, Rita me contou: ela tinha perdido seu idealismo, e com ele o seu comprometimento com a luta. Durante a conversa que se seguiu, com cada vez mais entusiasmo, as duas se referiam a esta perda como se ela representasse uma transição importante a um novo estágio da vida, talvez até mesmo para um plano de consciência mais elevado. Elas falaram sobre isso, pra resumir, da mesma forma que adolescentes confessam que perderam sua virgindade.


Quando elas passaram a reclamar sobre ter que preencher suas declarações de imposto de renda novamente, eu tive que morder o meu lábio. Eu queria dizer: "Então, vocês finalmente cresceram, né? Não se preocupem, ouvi dizer que, de qualquer jeito, a primeira vez não é muito boa! Mas mais cedo ou mais tarde, vocês vão se acostumar com isso, e no tempo certo, vão até mesmo começar a gostar!"


"A gostar... do quê?" elas respondiam na minha imaginação.


"DE SEREM FODIDAS!"


Saí bufando pela rua, batendo meu tornozelo no pedal da bicicleta no intervalo de alguns passos, tentei chegar no fundo da minha raiva. Rita tinha sido uma boa amiga, uma das poucas com quem eu mantive contato desde os meus dias de secretária. Eu e ela passamos pela mesma evolução depois daquele infame encontro na Câmara Municipal. Então me senti abandonada, este era um aspecto das coisas.


Rita havia desistido de esperar pelas grandes mudanças que ela queria ver, assim como eu: mas da parte dela, isto significava que não havia motivo para fazer nada exceto as coisas que ela tinha que fazer para ser como todo mundo da sua classe. As calotas polares podem derreter, o mundo pode acabar, mas ela chegaria ao seu destino com ar-condicionado central, lançando poluentes no céu com o resto deles. Ela estava exatamente ela havia começado, onde ambas havíamos começado, onde eu estaria se eu não fosse tão imprática. Não é de se surpreender que eu tenha levado isso para o lado pessoal.

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