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A violência mundial

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O tema é a violência mundial, os acontecimentos do 11 de setembro, mas vou começar pelas torres gêmeas, as Twin Towers e sua arquitetura, pois os atentados do 11 de setembro têm a ver também coma arquitetura. Dois dos edifícios mais importantes de Nova York foram destruídos e foi uma certa arquitetura que foi atingida ao mesmo tempo que todo um sistema de valor ocidental e uma ordem mundial. Seria, pois, útil começar por uma análise histórica e arquitetônica das Twin Towers para apreender o significado simbólico de sua destruição.

Antes de tudo, por que as Twin Towers?

Por que duas torres no World Trade Center?

Todos os grandes edifícios de Manhattan tinham se contentado com o fato de se enfrentar numa verticalidade concorrente, resultando um panorama arquitetônico à imagem do sistema capitalista, uma selva piramidal, cuja célebre imagem se perfilava quando se chegava de barco pelo mar. Esta imagem mudou em 1973, com a construção do WTC. A efígie do sistema passou do obelisco e da pirâmide à carta perfurada e ao grafo estatístico e esse grafismo arquitetônico encarna um sistema não mais concorrente, mas numérico e contável, no qual a concorrência desapareceu em benefício da rede de monopólio. Paralelepípedo perfeito de 400 metros de altura, sobre uma base quadrada, vasos comunicantes, perfeitamente equilibrados e cegos - dizem que o terrorismo é cego, mas as torres também eram - monolíticos, que não se abrem mais para o exterior e são submetidos a um condicionamento artificial. O fato de existirem duas significa o fim de qualquer referência original. Se só houvesse uma o monopólio não seria perfeitamente encarnado, somente a repetição do signo põe realmente um limite definitivo ao que ele designa.

TG.jpg

A violência mundial passa também pela arquitetura

Existe uma fascinação particular nessa duplicação. Por mais altas que fossem, as duas torres significaram, contudo, um pausa na verticalidade. Elas não são da mesma raça que os arranha-céus, elas culminam no reflexo exato de uma sobre a outra. Os arranha-céus do Rockfeller Center miravam ainda suas fachas de vidro e aço numa especularidade indefinida da cidade. As torres não, elas não têm mais fachada, não têm mais rosto. Ao mesmo tempo em que desaparece a retótica da verticalidade, desaparece a retórica do espelho. Resta somente uma espécie de caixa preta, uma série fechada no número dois, como se a arquitetura, à imagem do sistema, fosse proveniente da clonagem ou do código geneticamente imutável.

Nova York é a única cidade no mundo que retraça, assim, ao longo de sua história, com uma fidelidade prodigiosa, a forma atual do sistema e todas suas peripécias. É preciso, pois, supor que o desmoronamento das torres - acontecimentos em si mesmo sem par na história das cidades modernas - prefigura uma forma de finalização dramática e por que não dizer, de desaparecimento ao mesmo tempo dessa forma de arquitetura e do sistema mundial que ela encarna. Na pura modelização informática, bancária, financeira, contável e numérica elas eram, de alguma forma, o cérebro desse sistema e, atacando-as, os terroristas atacaram o cérebro, o centro nevrálgico do sistema.

A violência mundial passa também pela arquitetura e, portanto, a contenstação violenta dessa globalização passa também pela destruição dessa arquitetura. Em termos de drama coletivo, poder-se-ia dizer que, para as quatro mil vítimas, o pavor de morrer nessas torres é inseparável do pavor de viver nelas - o pavor de viver e de trabalhar nesses sarcófagos de concreto e de aço.

Esses monstros arquitetônicos, como o centro Beaubourg, sempre exerceram - exatamente como as formas extremas de tecnologia moderna em geral - uma fascinação ambígua, um sentimento contraditório de atração e de repulsa, e, pois, em algum lugar, um desejo secreto de vê-los desaparecer. No caso das Twin Towers, acrescenta-se algo de particular: precisamente sua simetrica e sua condição de gêmeas. Há nessa clonagem e nessa simetria perfeita, é claro, uma qualidade estética mas também uma espécie de crime perfeito contra a forma, uma tautologia da forma que pode levar, por uma repercusão violenta, à tentação de quebrar essa simetria, de restituir uma assimetria e uma singularidade.

Torres 11 setembro.jpg

O desmoronamente das torres é o acontecimento simbólico mais importante

A própria destruição das torres respeitou a assimetria delas: dupla agressão com alguns minutos de intervalo. Suspense entre os dois impactos. Depois do primeiro, poder-se-ia ainda acreditar num acidente. Somente o segundo impacto assina o ato terrorista. E no acidente do Boeing, no Queens, um mês mais tarde, as televisões esperaram, ficaram ligadas ao satélite (pelo menos na França), durante quase 4 horas, à espera de um eventual segundo choque ao vivo. Como este segundo choque não se realizou, nunca se saberá se foi um acidente ou um atentado.

O desmoronamento das torres é o acontecimento simbólico mais importante. Imaginem que elas não tivessem desmoronado: de forma alguma o efeito teria sido o mesmo. A prova evidente da fragilidade da potência mundial não teria sido a mesma. As torres, que eram o emblema dessa potência, encarnam-na ainda no fim dramático que tiveram, que se assemelha a um suicídio. Vendo-as desmoronar por si mesmas, como numa implosão, tinha-se a impressão de que elas se suicidavam, em respostas aos suicídios dos aviões-suicidas.

As Twin Towers foram destruidas ou desmoronaram? Explico: as duas torres são, ao mesmo tempo, um objeto físico arquitetônico e um objeto simbólico (símbolo do poderio financeiro e di liberalismo mundial). O objeto arquitetônico foi destruido, mas é o objeto simbólico que era visado e queriam aniquilar. Poder-se-ia pensar que foi a destruição física que levou ao desmoronamento simbólico. Mas, na realidade, ninguém - nem mesmo os terroristas - contavam com a destruição total das torres. Foi, pois, desmoronamento simmbólico que levou ao desmoronamento físico e não ao contrário.

Como se a potência que possuia essas torres perdessem bruscamente toda a energia, toda força, como se essa potência arrogante cedesse bruscamente sob o efeito de um esforço intenso demais: justamente o de querer sempre ser o único modelo do mundo.

Assim, pois, as torres, cansadas de serem símbolo pesado demais para ser carregado, desmoronaram, desta vez fisicamente, totalmente. Seus nervos de aço se romperam, elas desabaram verticalmente, sem força aos olhos espantados do mundo inteiro.

Casa branca st patricks AP.jpg

Mesmo ao fracassarem, os terroristas tiveram êxito ao errar o alvo da Casa Branca

O desmoronamento simbólico fez-se, portanto, por uma espécie de cumplicidade imprevicível - como se o sistema inteiro, por causa de sua fragilidade interna, entrasse no jogo de sua propria liquidação, isto é, no jogo do terrorismo. É bastante lógico e inexorável que o poder crescente da potência exacerbasse a vontade de destruí-la. Mas, há ainda outra coiisa: de alguma forma ela é cúmplice de sua própria destruição.

Os inúmeros filmes-catástrofes dão testemunho desta fantasia, que conjuram pela imagem e pelos efeitos especiais. Mas a fascinação que exercem é o sinal de uma passagem à ação sempre próxima - a degeneração de todo sistema, inclusive a degeneração interna, sendo tanto mais forte quanto mais ele se aproxima da perfeição e do poder absoluto.

thumb|170px|left|Só se deveria construir o que fosse digno de ser destruído

Já se disse: "Deus não pode declarar a guerra a si mesmo". Pois pode! O Ocidente, na posição de Deus (de potência total divina e de legitimidade moral absoluta) torna-se suicida e declara guerra a si mesmo.

Poder-se-ia mesmo ir mais longe e dizer qye, mesmo ao fracassarem os terroristas tiveram êxito, muito além de suas esperanças, ao errar o alvo da Casa Branca - tendo êxito com as torres muito além de seus objetivos. Ao errarem o alvo da Casa Branca, eles mostraram, involuntariamente, que aqueles não era o alvo essencial, que o poder político não significava mais muita coisa no mundo e que o poder verdadeiro estava em outro lugar.

Quanto à questão de saber o que será preciso reconstruir no lugar das torres, ela é insolúvel. Simplesmente porque não se pode imaginar nada de equivalente que valha a pena ser destruído - que seja digno de ser destruído. As Twin Towers valiam a pena ser destrídas; não se pode dizer o mesmo de muitas outras obras de arquitetura. A maioria das coisas não vale nem mesmo a pena serem destruídas ou sacrificadas. Somente as obras de prestígio merecem sê-lo, porque é uma honra.

Esta afirmação não é tão paradoxal quanto parece e coloca uma questão fundamental à arquitetura: só se deveria construir aquilo que, por seu caráter extraordinário, fosse digno de ser destruído. Experimentem fazer um exercício de imaginmação em função dessa interrogação radical e vocês verão que pouca resistiria a essa hipótese extrema.

Isso coloca o que devceria ser a questão básica da arquitetura e que os arquitetos não formulam nunca: não é normal edificar e construir. Seria permanecer o caráter absolutamente anormal, insólito, problemático dessa empreitada e cuja a única desculpa seria que ela tem por abjetivo apagar-se e tornar-se invisível.

Tudo se resume no primeiro instante. Tudo encontra-se conjugado imediatamente no choque dos extremos. E se a gente escamoteia esse momento de estupefação, de admiração - imoral, decerto, mas no qual encontra-se condensado através da imoralidade da imagem, a intenção estupefaciente do acontecimento - se a gente recusa esse momento, perde-se qulquer possibilidade de se compreender. Se o peimeiro pensamento é dizer: isso é monstruoso, isso é inaceitavel, então toda a intensidade, todo o impacto do acontecimento se perdem nas consideraões políticas e morais. Todos os discursos nos afastam inapelavelmente do acontecimento e não poderemos nunca mais nos aproximarmos dele, como não podemos nos aproximar do Big Bang e do crime original.

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Habitualmente no nosso universo midiático, a imagem costuma ocupar o lugar do acontecimento

A um acontecimento único, é preciso, pois, uma reação única, imediata e sem apelo. Uma reação que utilize, de certa forma, a energia potencial do acontecimento - tudo o que segue, inclusive a guerra, não é se não uma forma de diluição, de extenuação progressiva. Daí a dificuldade de voltar indefinidamente ao comentário: é mais ou menos que pedir aos terroristas que repitam a ação em câmera lenta, com a chave na mão e com um manual de uso.

O acontecimento vem antes. O acontecimento e a imagem estão lá antes, simultaneamente, enredados. Acontecimento-imagem. Imagem-acontecimento. No nosso universo midiático, a imagem costuma ocupar o lugar do acontecimento. Ela o substitui e o consumo da imagem esgota o acontecimento por procuração. Esta visibilidade de substituição é a propria estratégia da informação - quer dizer, na realidade, a busca da ausência de informação por todos os meios.

Exatamente como a guerra atual é a procura de uma ausência de política por outros meios.

Dessa forma, a guerra do Afeganistão não é uma guerra, mas o que delas nos contam os meios de comunicação também é informação. Assim, pois, tudo se equivale, o jogo esta empatado. /o fato de que não existe informação compensa, de certa forma, o fato de que não haja guerra, numa espécie de anulação respectiva como aquela de que fala Bertolt Brecht em seus "diálogos de exilados".

Portanto, no regime normal dos meios de comunicação, a imagem serve de refúgio imaginário contra o acontecimento. É uma forma de evasão, de conjuração do acontecimento. No caso do WTC, ao contário, há superfusão dos dois, do acontecimento e da imagem, e a propria imagem transforma-se em acontecimento. Ela faz o fato enquano imagem. Por conseguinte, ela não é nem virtual nem real mas é, em si mesma, um acontecimento. Assim também, num acontecimento tão excepcional, existe a superfusão do real e da ficção.

Não há, pois, perda do real, mas ao contrário um mais real ligado a um mais que ficção e tem-se então, de certa forma, um fato simbólico total, exatamente como Mauss falava do fato social total.

Nesse estágio supremo, a imagem, assim como o acontecimento, torna-se inimaginável. Foi o que todo mundo se disse vendo os demoronamentos das torres: é inimaginável! E, verdadeiramente não há representação possível desse aconteciemto. Ele é irrepresentável por qualquer discurso ou interpretação, seja política, econômica ou psicologica. Enquanto acontecimento puro, ele está para além de tudo isso. E se ele não é representável é porque não é verdadeiramente real - ele é ao mesmo tempo não real e mais que real. Ao invés de produzir informação ou de gerar uma informação dita "real" e a sucessão linear, ininterrompida das imagens. No meio de uma torrente de acontecimentos insignificantes e de imagens banais com que nos deparamos, ele signfica um brutal congelamento da imagem, um congelamento violento do mundo, um congelamento violento na cadeia da informação.

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Um aumento de violência não é suficiente para mostrar a realidade

Assim como não há representação possivel, não há, na realidade, divulgação de tal acontecimento. Ele é, ao mesmo tempo, espetacular e clanmdestino. Não há divulgação, mas uma espécie de difração (como de um fenômeno fractal), de dislatação, de eficácia silenciosa que se tenta, é claro, diluir em todos os somentários, que são como metástases dele.

No fundo, enquanto acontecimento puro, este evento ja desapareceu (como Bin Laden!. Ele esta destinado a desaparecer num imenso trabalho político e ideologico de mistificação, que de fato é um trabalho de luto. É necessário que ele seja apagado. É necessário que todas as consequências dele sejam apagadas pelo discurso. É preciso voltar ao curso normal das coisas, do qual a guerra faz parte.

O desmoronamento das torres do WTC é inimaginável, mas isso não é o suficiente para fazer dele um acontecimento. Um aumento de violência não é suficiente para mostrar a realidade. Porque a realidade é um principio e é esse principio que esta perdido. Real e ficção são imbricados e a fascinação do atentado é antes a da imagem - as consequências dele, ao mesmo tempo jubilátorias e catastróficas, são em grande parte imaginárias.

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O real soma-se à imagem como um acréscimo de terror

Nesse caso, pois, o real soma-se à imagem como um acrèscimo de terror, como um arrepio a mais.

Não somente desperta sentimento de terror, mas além de tudo é real. Antes que a vioência do real esteja lá e que ela seja somado o arrepio da imagem, a imagem já está bem antes e a ela cola-se o arrepio do real. Algo como uma ficção a mais, uma ficção que ultrapassa a dicção. Era assim que Ballard (depois de Borges) falava em reinventar o real, como a ultima e a mais temível ficção.

Essa violência terrorista não é, pois, um enfático retorno da realidade, nem também da história. Essa violência terrorista não é "real". Ela é pior, num sentido: ela é simbólica. A violência em si pode ser perfeitamente banal e inofensiva. Somente a violência simbólica é geradora de singularidade. E nesse acontecimento singular, nesse filme-catastrofe de Manhattan, conjugam-se no mais alto grau os dois elementos de fascinação de massa do século XX: a magia branca do cinema e a magia negra do terrorismo; a luz branca da imagem e a luz negra da terrorismo.

Nesse sentido, o acontecimento é sempre o primeiro e é imprevisivel.

Dessa forma, o acontecimento de NY foi, muitas vezes, imaginado como roteiro ("Inferno na torre", entre outros) por Hollywood ou pela CIA, mas jamais foi imaginado como possível. Portanto, ele ficou sendo totalmente imprevisto. Os roteiros virtuais são capazes de esgotar todas as eventuialidades mas jamais o proprio acontecimento. Ora, reais ou eventuais, a maior parte das coisas não chegam a constituir um acontecimento. Elas faze, parte da continuidade das causas e dos efeitos. O acontecimento, no sentido proprio, faz parte da descontinuidade e da ruptura. Nesse sentido, todo o acontecimento digno desse nome é terrorista. É uma forma de passagem à ação simbólica e, por isso mesmo, fonte de uma fascinação singular. Equivalente a algo estranho que exerce atração.

Já se disse que os acontecimentos do 11 de setembro contituíam um retorno eloquente do real num mundo que se tornou virtual, com uma espécie de nostalgia pelos bons e antiogos valores do real e da história, ainda que violenta. Mas não se trata disso. Não se trata, de forma alguma, da invasão do real, mas da invasão do simbólico, da violência simbólica descrita pelo que eu chamaria da incrível permutação da morte.

Existem diferentes hipóteses possíveis sobre o terrorismo, desde a hipótese zero até aquela que chamarei de soberana. Com exceção desta, todas têm tendência a dar ao terrorismo um sentodi histórico, político, religioso, psicológico e, por isso, tendem a apagar sua singularidade.

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Esta tese (o terrorismo com sentido histórico, político, religioso e psicológico) condena o terrorismo a um gesto de impotência

A hipótese zero é que o acontecimento terrorista não tem importância particular. Ele é insignificante, não deveria ter existido e, no fundo, não existe. Foi apenas uma peripécia acidental na corrida mundial em direção ao bem e à felicidade. Esta hipótese aproxima-se da visão teologica segundo a qual o mal é apenas uma ilusão.

A segunda hipótese é que são loucos suicídas, fanáticos de uma causa pervertida, psicopátas assimiláveis aos serial Killers e, como tais, merecedores de uma eliminação pura e simples (vê-se, aliais, a sorte que lhes está reservada em Gantânamo). É a tese mais geral, de uma manipulação dos terroristas por uma potência maléfica, a tese do complô. Ela se prolonga na ideia de que o terrorismo não faz nada mais que explorar o ressentimento e o ódio de todos os povos oprimidos para justificar sua violência e sua fúria destrutiva. E esta ideia é reencontrada, mas sob uma forma inversa, na tentativa de justificar o terrorismo como expressão real do desespero dos povos oprimidos da terra inteira. Hipótese máxima, no sentido que é a última tentativa de se dar ao terrorismo uma espécie de causa objetiva e, portanto, razão histórica. Mas se a examinarmos bem, esta tese que repousa no desespero é, ela propria, desesperada. Ela condena o terrorismo a um gesto de impotência, uma confição de impotência que só representa a miséria mundial para destruí-la num gesto definitivo.

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O sistema sendo o câncer, o terrorismo é sua metástase

Aliás, se fosse preciso uma causa ou uma condição objetiva de possibilidade para o terrorismo, então a dominação do resto do mundo certamente seria uma delas, mas também a sujeição sofisticada - a nossa - a uma tecnologia integral, ao superdesenvolvimento que faz com que cada existência individual seja vista com total indiferença, senão com ódio e contratransferência. E isto nos paises superdesenvolvidos. Pode haver rejeição desse realidade virtaul esmagadora, dessa supremacia técnica e artificial, vivida como uma dominação e também como uma humilhação secreta. De certa forma, tudo isso pode ocasionar uma degeneração violenta em represália a esse excesso de realidade. No fundo, o desespero está, talvez, dos dois lados.

Pode-se reconhecer também no terrorismo uma forma de ação política e de vontade própria, uma espécie de projeto e intenção justificada de contestar a ordem do mundo. Mas o fracasso dele e sua manipulação pelo sistema é a consequencia imediata. Esta é a versão, entre outras, de Arundhati Roy, a escritora indiana que mesmo denunciando essa potência mundial denuncia, ao mesmo tempo, o terrorismo como seu irmão gêmeo, um gêmeo diabólico do sistema, sendo esse sistema o câncer e o terrorismo a metástase.

Portanto, o terrorismo é visto dessa forma como o avesso cúmplice, mecanismo de feed-back, força de oposição praticamente necessária numa dialética perversa construida pelo império, como uma máquina infernal e um movimento perpétuo. A potência do mal como regenerador da potência divina. No fundo, temos aí uma afirmação quase teologica. Pode-se ir além, imaginar que se o terrorismo não existisse, o sistema o teria inventado e enxergar nos atentados de NY, como já foi feito, um golpe da CIA. Essa dialética também é deseperada, pois supõem que nada pode contrapor-se ao sistema, que toda a degeneração e toda a violência é a priori cúmplice do curso natural das coisas, do curso inexorável da globalização. Seria negar toda a singularidade, toda a violência específica e o próprio momento do acontecimento. Seria desqualificar não somente as intenções dos atores, mas aquilo mesmo que está em jogo na ação. Seria julgar e desvalorizar a ação em relação a seu resultado, a suas consequecias ditas objetivas e jamais nela mesma em sua potência simbólica própria.

Poideríamos, aliás, inverter essa dialética e dizer que é a ordem mundial que gera sua propria degeneração e que essa potência terrorista de degeneração tira proveito da expansão do poderia do sistema para crescer também numa espécie de corrida, uma corrida contra o relógio na qual as cartas não foram dadas.

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Qual é, então, a mensagem secreta dos terroristas?

Se a pretensão do terrorismo fosse desestabilizar o Estado, como se dizia antigamente, então ela seria absurda. Levando-se em conta que a ordem mundial ou o Estado ja são de tal forma inexistentes e fontes de tal desordem e de tal desestabilização, é inutil querer fazer qualquer coisa a mais. Com essa desordem suplementar e a criação de novas medidas de segurança por toda a parte, corre-se o risco de reforçar a ordem e o controle do Estado.

Mas talvez seja esse o sonho dos terroristas? No fundo, Elas sonham com um inimigo imortal, pois se ele não existe fica mais dificil destroi-lo. Tais tautologias não se inventam, mas o terrorismo é tautológico e sua conclusão é uma espécie de silogismo paradoxal: se o Estado existisse de fato, daria ao terrorismo um sentido político. Não tendo este manifestadamente sentido nenhum - suas sonseQuências são mais ou menos nulas ou utópicas - é a prova de que o Estado não existe. É uma forma de assinar o fim da política e de zombar dela e também do fim da guerra, largamente ultrapassado hoje por um confronto assimétrico.

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A mensagem secreta, a comprensação impossível da morte

Qual é, então, a mensagem secreta dos terroristas?

Existe uma fábula de Nasreddin na qual ele é visto todos os dias passar a fronteira com mulas carregadas de sacos. Cada vez que passa, ele é revistado, inspecionam os sacos, mas não se encontra nada. E Nasreddin continua passar as fronteiras com as mulas. Muito tempo depois, perguntam-lhe o que é que ele poderia estar contrabandeando. E Nasreddin responde: "Eu fazia contrabando de mulas".

Dessa forma, a gente esta buscando toda sorte de interpretação ao ato terrorista, em termos de religião, de martírio, de vingança ou estratégia política.

O que se esconde por trás? Qual é o objetivo? Qual é o verdadeiro objeto contrabandeado?

Ora, a mensagem secreta está simplesmente, parece-me, no que nos aparece como o suicídio, a compensação impossível da morte, o desafio ao sistema pelo dom simbólico da morte como arma absoluta, de certa forma. E parece que as torres do WTC compreenderam essa mensagem e a repercutiram numa espécie de inteligência imediata, de inteligência profunda e de cumplicidade com o mal.

Para além de todas essas hipoteses, não vejo mais, com certeza, senão essa hipotese soberana - que chamo soberana no sentido em que Nietzsche falava da hipotese do devir.

(Existe a hipotese zero da inércia, a hipotese mínima da mudança, a hipotese máxima da história e a hipotese soberana do devir).

No caso do terrorismo, a hipotese soberana é a que tenta pensá-lo, para além dos executores e da violência espetacular, como a emergência de um antagonismo radical no proprio centro do precocesso de globalização, qualquer coisa irredutível, na sua singularidade, à realização integral, técnica e mental do mundo, à evolução inexorável para um mundo pronto, um mundo moldado sob o sígno de uma potência definitiva. Ou enxerga-se no terrorismo sob todas as formas uma contrapotência vital enfrentando a potência de morte do sistema - a de uma globalização sem apelo - ou vê-se nele uma potência de morte, isto é, de divisão, de degeneração, contra uma potência positiva de reconsiliação total, de um mundo cuja solução está no comércio. Portanto, uma potência de desafio e de fracasso com o que eu chamaria de uma identificação total com o mundo e que, é claro, cresce em violência e virulência, ao mesmo tempo em que o sistema aumenta seu domínio e sua coerência até um acontecimento de ruptura como o das Torres Gêmeas que, é claro, não resolve de forma alguma esse antagonismo, mas lhe dá, de uma só vez, uma dimensão simbólica.

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Nem o sistema nem o poder escapam à obrigação simbólica

A hipotese soberana é, na verdade, que o terrorismo não tem sentido, não tem objetivos e não se mede por suas consequencias reais, políticas ou históricas. E é porque ele não têm sentido - no sentido que compreendemos - que torna-se evento num mundo cada vez mais saturado de sentido, de finalidade, de eficácia. Tal é o espírito do terrorismo, sua estratégia implícita: nunca o sistema será vencido em termos de relação de forças, isso é o imaginário, eventualmente revolucionário, imposto pleo prórpio sistema, que só sobrevive porque traz sem cessar os que o atacam para o terreno da realidade próprio a ele. O que é necessário é deslocar a luta para a esfera simbólica na qual a regra é o desafio, a reversão, o lance sempre maior. De tal forma que uma morte não se possa responder senão por uma morte igual ou superior. Desafiar o sistema por um dom ao qual ele não pode responder senão por sua propria morte ou seu próprio desmoronamento. A hipotese terrorista é que o sistema se suicide comom resposta ao desafio da morte e do suicídio. Porque nem o sistema nem o poder escapam à obrigação simbólica: a de responder sob pena de perder todo prestígio.

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O que pode surgir do esfacelamento do sistema mundial

Nesse ciclo vertiginoso de compensação impossível para a morte, a do terrorista é um ponto infinitesimal, mas provoca um vazio, uma aspiração gigantesca. Em torno desse ponto infimo, todo o sistema - o do real e o da potência - se torna denso, paralisa-se, volta-se para si mesmo e afunda no abismo de sua própria eficácia. A tática do modelo terrorista é provocar um excesso de realidade e levar ao desmoronamento do sistema sob esse excesso de realidade. Todo o absurdo da situação e, ao mesmo tempo, a violência mobilizada pelo poder voltam-se contra ele, pois os atos terroristas são ao mesmo tempo exorbitante de sua própria violência e o modelo de uma violência simbólica que lheé proibida, da única violência que ele não pode exercer: a de sua própria morte.

Eis por que toda a potência visível é impotente contra a morte ínfima, mas simbólica de alguns indivíduos.

Neste sentido, o que pode surgir do esfacelamento do sistema mundial são singularidades. Ora, as singularidades não são nem positivas nem negativas. Elas não são uma altewrnativa à ordem mundial, são de uma outra escala, não obedecem a um julgamento de valor, podem, pois, ser o melhor ou o pior, o único benefício absoluto deles é destruir a totalidade. Não é possível junta-las numa ação simbólica única. Elas são o desespero de todo o pensamento único. Elas inventam seu jogo e suas próprias regras do jogo. Eu diria mesmo que a singularidade é a compensação impossível.

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O terror nãom tem finalidade, é um fenômeno extremo

A singularidade não é necessariamente volênta, pode ser sutil. Pode ser a das línguas, da linguagem, da arte, da cultura e do pensamento também, se ela não se confronta com a verdade ou com a realidade. Mas há outras singularidades, violentas, e o terrorismo é uma delas. Ele é uma singularidade porque coloca a morte em cena, que é sem dúvida sua última singularidade, a singularidade radical. Ora, no evento terrorista de NY tudo acontece em torno da morte, não somente pela irrupção da morte ao vivo - em tempo real nas telas - qua varre de uma só vez todos os simulacros de violência e de morte que nos distilam cotidianamente em doses homeopáticas, mas pelo aparecimento súbito de uma morte bem mais que real, simbolica, como sacrifício, isto é, o acontecimento absoluto e sem segfunda instancia.


O terrorismo é o ato que restitui uma singularidade irredutível ao centro de um sistema de troca generalizada. E todas as singularidades, seja ao nível da espécie, do indivíduo, das culturas, que pagaram com a morte a instalação dessa circulação mundial do comércio, regulado por uma única potência, vinga-se hoje nessa transferência terrorista da situação. Mas foi o proprio sistema que criou as condições objetivas dessa reação brutal: recolhendo para si todas as cartas, ele força o Outro a mudar o jogoe a mudar as regras do jogo. As novas regras do jogo são ferozes porque o jogo é feroz. A um sistema cuja o excesso de poder coloca um dssafio insolúvel, os terroristas respondem por um ato cujo o intercâmbio é insolúvel e impossível. Então é o terror contra o terror. Ora, o terror não é a violência. Não é uma violência real, determinada, histórica, que tem uma causa e uma finalidade. O terror não tem uma finalidade, é um fenômeno extremo, isto é, ele está para além de sua finalidade, de certa forma: ele é mais violento que a violência. Sabe-se que qualquer violência tradicional, hoje, regenera o sistema, desde que ela tenha um sentido Somente ameaça realmente o sistema a violência simbólica, a que não tem sentido e que não traz nenhuma alternativa ideologica. Ora, o terrorismo não traz em si mesmo, é evidente, nenhuma alternativa ideologica ou política. E é nisso que ele é um evento e que se faz objeto de uma jubilação particular: na passagem ao ato simbólico, jubilação que não encontramos nunca no real ou na ordem do real das coisas.

Enfim, para concluir com a reflexão sobre as torres do WTC, uma tela de proteção caiu definitivamente e nos cacos do espelho quebrado procuramos desesperadamente nossa imagem.

Marx dizia: "Um espectro, o comunismo, é hoje a obsessão da Europa". Podemos dizer: "Um espectro, o terrorismo, é hoje obsessão a ordem mundial".

E para isso há, sem dúvida, uma razão profunda: o que é insuportável é menos a infelicidade, o sofrimento ou a miséria do que a potência e sua arrogancia. O que é insuportável e inaceitável é a emergência dessa recente potência mundial.

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