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A subcultura anarquista: uma crítica

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“…a ausência de imaginação necessita de modelos; ela jura por eles e vive somente por eles.”


É fácil declarar que não existe um movimento anarquista na América do Norte.

Essa declaração libera alguém de ter que examinar a natureza desse movimento e de qual a função desse alguém nele. Mas uma rede de publicações, livrarias, arranjos domésticos anarquistas, squats e correspondências conectando aqueles com perspectivas anti-estadistas certamente existe. Isso se cristalizou em uma subcultura com seus costumes, rituais e símbolos de “rebelião”. Mas pode uma subcultura criar indivíduos livres capazes de criar as vidas que eles desejam? A subcultura anarquista certamente não pode. Eu espero explorar o porquê nesse artigo.


A subcultura Anarquista certamente abrange atividade aparentemente rebelde, exploração histórica, análise social (teoria), jogo criativo e explorações em auto-libertação. Mas essas não existem como uma prática integrada com o objetivo de entender a sociedade e abrir possibilidades para que criemos nossas vidas para nós mesmos, mas sim como funções sociais, que ocasionalmente se sobrepõem, mas na maioria das vezes se separam, que funcionam principalmente para se manterem e para manter a subcultura que as criam, que em contrapartida elas criam.

Militantes politicamente corretos dominam a ação radical nessa subcultura. Eles negam a necessidade da análise social. Afinal, os assuntos já foram traçados pelos liberais de esquerda - o feminismo, liberalismo gay, anti-racismo, libertação animal, ecologia, socialismo, oposição à guerra - adicione uma pitada de anti-estadismo e, por deus, é o anarquismo! Bem, não é mesmo? Para garantir que ninguém possa duvidas de suas credenciais anarquistas, os militantes anarquistas irão certamente gritar o mais alto em manifestações, queimar algumas bandeiras e ficarão preparados para lutar com alguns policiais, fascistas e outros de partidos de esquerda sempre que possível. O que eles não irão fazer é analisar suas atividades ou suas funções como militantes para verem se eles estão realmente minando de alguma forma a sociedade ou se eles estão apenas representando suas leais oposições, reforçando-as ao reforçar o papel de dentro de seus papéis de dentro de seu espetáculo. Suas recusas de análise têm permitido que muitos deles se iludam em acreditarem que fazem parte de um movimento em massa de rebelião que deve ser convertido para o anarquismo. Mas não existe tal movimento em massa neste continente, e as atividades dos militantes são apenas uma válvula de escape em rituais de oposição que apenas reforça os seus lugares na subcultura anarquista.


Historiadores anarquistas são em sua maioria professores, editores e operadores de livrarias, interessados em manter informação disponível sobre a história anarquista. A maioria dessas pessoas é bem-intencionada, mas elas falham em aplicar análise crítica nessas histórias. A vasta maioria do material histórico anarquista parece servir ao propósito de criar mitos, criar heróis, mártires e modelos para imitar. Mas todos esses modelos falharam em criar mais do que situações anárquicas temporárias. Isso deveria, pelo menos, levar a um questionamento de como e porque eles falharam que vai além da afirmação simplista de que eles foram esmagados pelas autoridades. A falta de tal análise deixou a história anarquista amplamente inutilizável para apresentar lutas contra autoridade, e em vez disso tornando-se a mesma coisa para a subcultura anarquista do que a história da corrente predominante é para a sociedade, um mito que mantém a ordem atual das coisas.


Alguns teoristas anti-autoritários têm atacado intelectualmente as estruturas mais básicas da sociedade de uma forma que revela seus papéis em nossa domesticação. O exame dos teoristas dessas coisas até levou a alguns deles abandonarem o rótulo “anarquista”, apesar de que suas rejeições de autoridade e conexão com a subcultura pelos seus textos e suas amizades continuam com seus papéis dentro dela. E por toda a profundidade de suas explorações intelectuais, um certo nível de recusa de trabalho, roubos e um pequeno vandalismo parecem ser a soma de suas práticas. Pelo fato de que eles não exploram formas práticas de expressarem rebelião contra a totalidade da dominação reveladas por suas críticas, essas críticas perdem sua característica de vanguarda como teoria radical e se parecem mais com filosofia. Não mais sendo uma ferramenta de rebelião ativa, seu pensamento ao contrário se torna em um modo de definir a vanguarda intelectual do pensamento anarquista, um modo pelo qual se determina se uma idéia é radical o suficiente. Deste modo, a função do intelectual é perpetuada na subcultura anarquista.


Jogos criativos também foram especializados dentro da subcultura. Esquecendo a crítica que pede pela substituição da arte por jogos espontâneos, criativos e livres por todos, artistas postais, artistas de performance e “anti-artistas” reivindicam essa categoria como sendo deles, destruindo a espontaneidade e a liberdade, e valorizando a atividade como arte. Muitas das atividades dessas pessoas - festivais, leituras de poesias selvagens, sessões ruidosas de improvisação e teatro interativo - podem ser bem divertidas e valem a pena participar delas nesse nível, mas, enquadrando-as como arte, seu apelo subversivo se embota. Ao valorizar a criatividade, esses artistas fizeram ser mais importante “ser criativo” do que se divertir, e reduziram suas críticas ao nível de se algo pode ser utilizado para criar arte. O processo criativo é recuperado na forma de trabalho produtivo fazendo trabalhos de arte. Jogar é transformado em performance. Atos de fazer rodeios tornam-se espetáculos em shows de arte postal. A subversão é recuperada pela sociedade como arte. Ignorando o fato que a arte é uma categoria social e cultural, artistas anárquicos afirmam que arte opõe-se à cultura, mas suas atividades criam para eles a função de trabalhadores culturais dentro da subcultura anarquista.


Quando os situacionistas disseram que a prática revolucionária precisava se tornar terapêutica, eles não faziam idéia de que certos anarquistas norte-americanos encontrariam formas de unir essa e outras idéias situacionistas semi-digeridas em psicoterapias de new age - mas, nossa, aqueles Ianques (e Canadenses) certamente são inventivos, não são? Terapias "new age" vieram à subcultura anarquista amplamente pelos movimentos feministas, de libertação gay e movimentos relacionados. A razão dada em praticar essas terapias é o auto-descobrimento e a auto-libertação. Mas todas as psicoterapias - incluindo aquelas dos psicologistas humanistas e da “terceira força” - foram desenvolvidas para integrar as pessoas na sociedade. Quando os feministas, os liberacionistas gays e grupos similares começaram a utilizar técnicas terapêuticas, isso ajudou a integrar indivíduos em uma estrutura comum pela qual eles iriam ver e agir no mundo. Anarco-terapistas têm adaptado tais práticas como meditação, terapia de jogos, apoio e espaços separados. A meditação realmente é apenas uma forma de escape, sem o dano físico de beber ou de drogas. Ela ameniza os estresses da vida diária, mantendo-os toleráveis.


Ela pode, então, ser útil, mas não é auto-libertadora. Jogar como forma de terapia, e jogar como arte, perde sua vanguarda subversiva. Com seus parâmetros definidos, isso se torna uma liberação segura, uma válvula de escape, em vez de um rompimento real com todos os riscos envolvidos. Isso não representa um desafio à autoridade ou à ética trabalhista, porque é jogar com segurança na estrutura de utilidade produtiva e retira a energia caótica que poderia de outra forma desafiar a autoridade dentro de uma estrutura seguramente ordenada.


A terapia de grupo de apoio é uma forma especialmente traiçoeira de auto-decepção. Um grupo de pessoas reúne-se para conversar sobre um problema comum, um fardo ou opressão que eles supostamente têm em comum. Essa prática imediatamente remove o problema da realidade da vida cotidiana, de relacionamentos individuais e circunstâncias em particular, e o coloca na realidade de “nossa opressão comum” onde poderá ser então colocada em um enquadramento ideológico. Grupos de apoio são formados com um propósito particular (se não, para que formá-los?) que irá moldar como o grupo funcionará, influenciar as conclusões traçadas e moldar os participantes na moldura da ideologia do grupo. A criação de espaços separados (somente mulheres, somente gays, etc.) reforça as piores tendências da terapia de grupo de apoio, ao garantir que nenhum elemento externo possa penetrar. Os anarquistas alegremente ignoram as implicações autoritárias e de propriedade dessa prática e sua inerente intolerância, com a desculpa de que é a prática de um grupo oprimido. Todas dessas formas terapêuticas separam as pessoas de suas experiências cotidianas e as colocam em uma realidade “terapêutica” separada onde eles podem ser prontamente integrados em uma estrutura social e ideológica específica. No caso dos anarco-terapistas, é a estrutura da subcultura anarquista e a função que eles desempenham nela.


A maioria das pessoas que eu conheci na subcultura anarquista são pessoas sinceras. Eles realmente querem se rebelar contra a autoridade e destruí-la. Mas eles são produtos da sociedade, treinados a desconfiar deles mesmos e de seus desejos e a terem medo do desconhecido. Encontrar uma subcultura com papéis que eles possam se adaptar, é muito mais fácil cair em um ou mais papéis em que eles se sintam confortáveis, seguros com o conhecimento que eles são parte de um meio rebelde, do que realmente dar um passo no escuro e viver eles mesmos contra a sociedade. E esses papéis “anarquistas” ligam-se em uma estrutura social e em um modo de se relacionar amplamente com o mundo que são igualmente essenciais para a subcultura anarquista e que também necessitam ser examinados.


“Não seria um anacronismo cultivar o gosto por refúgios, certezas, sistemas?”


A estrutura da subcultura anarquista está amplamente centrada em torno de publicar projetos, livrarias, situações de vivência coletiva e ativismo radical. Esses projetos e os métodos de executá-los que reproduzem a subcultura criam os métodos de “envolvimento externo” anarquista. O que eles criam assemelha-se em muitas formas com uma seita evangélica religiosa.


A maioria dos projetos que fazem parte da estrutura da subcultura anarquista são executados coletivamente usando um processo de tomar decisões por consenso. São poucos os projetos de apenas um indivíduo que ocasionalmente tem a ajuda de amigos. (Na borda da subcultura existem inúmeros projetos de panfletos em que quase todos são projetos individuais.) Eu vou deixar para fazer uma crítica mais detalhada do consenso em um outro artigo. Por agora, é suficiente apontar que o processo de consenso requer a subjugação da vontade individual para a vontade do grupo como um todo e a subjugação do imediato para a mediação de encontros e processos de tomadas de decisão. O consenso tem uma inclinação inerentemente conservadora, porque ele cria políticas que só podem ser mudadas se todos concordarem com elas. É uma autoridade invisível na qual os indivíduos são sujeitos, o que limita a extensão em que questionam o projeto no qual estão envolvidos ou a subcultura anarquista.


Um grande número de anarquistas vive por conta própria ou com seus amantes. Mas muitos vêem a organização de uma vivência coletiva como uma melhor forma, pela simples razão de amenizar as finanças de todos (a razão da qual envolve as poucas ilusões), mas mais frequentemente para criar uma situação viva de apoio em grupo, para participar mais facilmente em um projeto comum ou para “colocar a teoria na prática”. Já tendo lidado com grupos de apoio, eu vou apenas acrescentar que viver junto em um grupo de apoio tenderá a exagerar todos os aspectos ideológicos e isoladores da terapia de grupo de apoio. Uma situação de vivência coletiva pode certamente facilitar alguns dos aspectos de compartilhar de um projeto em comum, desde o financeiro até o truque de reunir as pessoas para discutir o projeto. Isso também aumenta as chances do projeto se tornar isolador, alimentando-se dele mesmo, perdendo a entrada de informações críticas necessárias.


Mas são esses que dizem estar “colocando teoria na prática” nessas situações de vivência que estão praticando o nível mais alto de auto-decepção.


Situações de vivência em grupo podem ser possivelmente uma base para explorar novas formas de relacionar, mas a semi-permanência em tais situações tende em direção a criação de papéis sociais e estruturas, e novas explorações não são o que os grupos domésticos que conheço estão perseguindo. A separação entre teoria e prática implicada pela frase “colocar teoria em prática” é evidente na relativa semelhança dessas situações de vivência. A maioria dos anarquistas acredita que existem certos princípios que devem governar o modo que as pessoas se relacionam. Em seus coletivos de vivência, trustes de terras e squats, eles tentam viver por seus princípios. Suas situações de vivência não são explorações de teoria e prática, mas em vez disso, a submissão de indivíduos para uma estrutura social pré-concebida. Esses princípios não são postos à prova nestas situações, por causa que o grupo doméstico anarquista é uma situação isoladora, um tipo de realidade alternativa no meio do mundo. Com a exceção de squats anarquistas - o que, pelo menos, mostram-se um desafio à autoridade dos proprietários e de propriedade - estes grupos domésticos relacionam-se com o mundo de autoridades externas da mesma forma de que todos os outros fazem: pagando seu aluguel (ou imposto de propriedade) e contas, e trabalhando ou coletando auxílio-desemprego. Estes grupos domésticos não fazem nada, se chegam a fazer, em relação a minar a sociedade, mas eles oferecem uma estrutura para as pessoas viverem que mantêm suas sensações de rebeldia e a subcultura os dá um lugar seguro para expressar essa sensação.


Os vários projetos de publicações (incluindo periódicos) e livrarias são as fontes principais de história, teoria e informação para a subcultura anarquista. Até certo ponto, esses projetos têm que se ligarem no sistema capitalista e então raramente pretendem ser de natureza revolucionária. Quando eles são projetos de grupo, eles são geralmente executados por consenso na suposição absurda de que existe algo anarquístico em passar por reuniões longas e entediantes para trabalhar nos detalhes de administrar um negócio pequeno ou produzir uma revista ou um livro. Mas o aspecto desses projetos que realmente me incomoda é que eles tendem a se tornar meios de definir a estrutura de pensamento na subcultura anarquista ao invés de uma provocação para discutir e explorar a natureza da alienação e da dominação e em como destruí-las.


Em sua maior parte essa carência de provocação é inerente no que é publicado. A maioria das publicações anarquistas, sejam elas livros ou periódicos, são reimpressões de textos anarquistas antigos, histórias não críticas, recultivo de opiniões esquerdistas ou com uma pequena quantia de anti-estadismo no meio ou modernizações não críticas de idéias anarquistas ultrapassadas. Tais textos reforçam certos padrões e modelos do que significa ser anarquista sem questionar esses modelos. Até mesmos os textos que se mostram desafiadores raramente parecem evocar o tipo de discussão crítica e inteligente que poderia ser parte de uma prática radical estimulante. Em vez disso, eles também são tomados como uma fonte de padrões, modelos, modos de definir os parâmetros de revolta. Isso vem, em parte, da natureza da palavra impressa, que parece ter uma permanência que não é compatível com a natureza fluida e viva do pensamento ou da discussão. A maioria dos leitores têm dificuldade em ver além da palavra escrita a fluidez do pensamento por trás dela. Então eles reagem como se estivessem se ligando com algo sagrado - tanto o adorando ou o profanando. Nenhuma das reações me agrada, porque ambas significam que as idéias abstratas foram tornadas concretas, tornaram-se mercadorias no mercado de idéias - uma imagem reforçada pelo fato de que essas idéias são em sua maior parte encontradas à venda em livrarias.


Outro aspecto da publicação anarquista é a propaganda. Esse é o lado das propagandas anarquistas - a prova de que é amplamente apenas uma mercadoria no mercado de idéias. A maioria da propaganda anarquista é uma tentativa de criar uma imagem do anarquismo que é atraente para quem é que seja que a propaganda está almejando. Assim sendo, muita dessa literatura parece ser voltada em amenizar as mentes das pessoas, provando que a anarquia não é tão extrema, que ela não desafia pessoas; isso as reassegura, demonstrando às pessoas que elas podem continuar a terem vidas estruturadas e seguras mesmo após a revolução anarquista. Já que a maior parte da literatura anarquista, incluindo a desse tipo, é comprada ou roubada por anarquistas, eu me pergunto se isso não é apenas uma tentativa de se auto-reassegurarem, e de reforçar os modelos que definem a subcultura. As estruturas que fazem a literatura anti-autoritária disponível poderiam fornecer uma rede para uma discussão desafiante com o objetivo de criar e manter um costume realmente rebelde, mas em vez disso elas criam um esquema de modelos e estruturas para as pessoas seguirem os “princípios anarquistas” pelos quais tantas pessoas se apegam cegamente, o que reforça a subcultura anarquista.


O ativismo radical é outro aspecto da imagem pública da subcultura anarquista, especialmente a facção militante. Ela envolve amplamente a participação em manifestações esquerdistas, apesar de que ocasionalmente os anarquistas irão organizar suas próprias manifestações em um assunto específico. Um motivo por trás de muito desse ativismo é o de levar as pessoas para o anarquismo. Para conseguir isso, os anarquistas precisam se separar de uma entidade definível e se tornarem atraentes para aqueles que estão tentando converter. No momento, a maior parte do ativismo parece estar tentando atrair jovens, e particularmente, os jovens punks.


Então os anarquistas tendem a ser particularmente barulhentos e brigões em manifestações, retratando uma imagem de desafio e mostrando que os anarquistas significam “assunto sério”. Já que outros grupos, como o R.C.P. (Partido Revolucionário Comunista), também ficam brigões e desafiantes, os militantes anarquistas têm que fazer com que a distinção seja clara, denunciando estridentemente esses grupos e até entrando brigando com eles - você meio que tem de se perguntar sobre esses militantes anarquistas, se suas ações são tão similares aos golpes Maoístas de que eles têm que conscientemente se esforçar para se distinguirem. Mas o evangelicalismo não é a única razão pela qual os anarquistas participam nesses rituais de oposição. Muitos participam porque é a coisa anarquista apropriada a se fazer. Em suas mentes, “anarquista” é um papel que envolve uma atividade social específica. É uma subespécie do esquerdista que é briguenta e um pouco mais violenta que a maioria. Isso os permite separar a anarquia e a rebelião de suas vidas cotidianas. Questões como, “Essa atividade ajuda a destruir a dominação, minar o espetáculo e criar vida livre?” são irrelevantes já que o anarquismo é definido pela participação em atividades militantes, e não pela rebelião contra tudo o que fica no caminho de nossa liberdade de criar para nós mesmos as vidas que desejamos. Contanto que alguém seja ativo em manifestações do jeito certo, o alguém é anarquista, sustentando a imagem e mantendo a subcultura anarquista.


Apesar de que algumas dessas estruturas - especialmente aquelas que lidam com publicação - têm o potencial de serem parte de um desafio realmente anárquico para a sociedade, a subcultura anarquista desvia sua energia para se manter e reproduzir. A subcultura nos oferecer “refúgios, certezas, sistemas”, tendendo a nos fazer cautelosos, nos levando a abraçar o conhecido em vez de desafiar o desconhecido. Então os anarquistas e os anti-autoritários, pensando serem rebeldes, são na verdade os que definem os limites da revolta e assim os recuperam. A subcultura anarquista tem minado a anarquia, tornando-a em mais uma mercadoria no mercado ideológico e assim tornando-se em mais uma categoria da sociedade.


“A questão é precisamente se afastar, desviar, absolutamente, da regra; dar um passo da arena com entusiasmo histérico; para iludir para sempre as armadilhas preparadas pelo caminho...Longa vida ao Impossível!”


Fazer uma crítica da subcultura anarquista examinando alguns de seus papéis e de suas funções mais importantes é deixar passar sua falha mais importante - de que é uma subcultura. Subculturas constituem uma espécie específica de fenômeno social com traços particulares. Se esses traços conduzissem à rebelião, se eles fizessem as pessoas agirem por si próprias, então poderia ser possível reformar a subcultura anarquista, mas esses traços na verdade tendem à direção oposta. Têm existido tantas subculturas rebeldes, tantos boêmios, todos recuperados. Isso indica claramente que existe algo inerente em subculturas que as impede de representar um desafio real à sociedade da qual elas são parte. Deixe-me tentar examinar porque.


Para que uma subcultura possa existir, seus parâmetros devem ser definidos de uma maneira que a distingue de outros grupos na sociedade. Pelo fato de uma subcultura não ser uma entidade oficial ou legal, esses parâmetros não necessitam estar em qualquer forma prontamente definível ou oficial. Mais frequentemente, eles são a base, inerentes na natureza da subcultura, consistindo de valores compartilhados, ideais compartilhados, costumes compartilhados e de sistemas de relacionamento compartilhados. Isso significa que a participação em uma subcultura requer um certo nível de conformidade.


Isso não exclui os desentendimentos sobre a interpretação desses parâmetros - tais desentendimentos podem ser bem intensos, já que os envolvidos irão ver eles mesmos como os sustentadores dos reais valores do grupo. Mas a ameaça real para qualquer subcultura é qualquer indivíduo que recusa parâmetros.


Tal indivíduo é perigoso, sem moral, uma ameaça a todos. O que os parâmetros de uma subcultura realmente alcançam é o seu sistema de moralidade. Eles fornecem um modo da subcultura se ver como superior à sociedade em geral. Isso então cria um método para relacionar com outros pela culpa e por sentimentos de superioridade moral, duas das armas favoritas da autoridade. A existência e a manutenção de uma subcultura requerem então de uma autoridade internalizada para se manter.


A criação de parâmetros irá levar a uma intolerância daqueles que são percebidos como irrecuperavelmente fora dos parâmetros - especialmente se eles são competidores em algum nível (por exemplo, um partido comunista, um partido socialista, e similares, para os anarquistas), mas também leva a uma tolerância de todos que são percebidos como uma parte daquela subcultura. Devido as diferentes interpretações dos parâmetros da subcultura, discussões e brigas, algumas vezes até odiosas, são possíveis mas ainda existe uma certa unidade que é reconhecida e tende a manter os desentendimentos dentro de uma certa estrutura. Tal tolerância é necessária para manter a subcultura. Ela também tem o efeito de reduzir tudo a um nível de mediocridade mundana. Os extremos são permitidos somente até onde eles possam ir sem que com isso passem a ser um desafio real para a subcultura. Tato, cautela e cortesia são a ordem do dia para manter a “unidade dentro da diversidade” da subcultura. Conflitos tendem a ser ritualizados e previsíveis. Na cultura anarquista em particular, raramente existem quaisquer conflitos honestos e entusiasmados cara a cara. Em vez disso, as interações cara a cara são de cortesia e do ritual subcultural de tolerância, e com isso são, tanto quanto elas, entediantes. Aprender a relacionar por ritual, por tato, por máscaras sociais, nos deixou ignorantes de como relacionar livremente. Mas dentro desses rituais de tolerância uma subcultura não pode se manter, porque como a sociedade de forma geral, uma subcultura requer conformidade, harmonia social e a supressão de paixões individuais por sua continuada existência.


Ao se relacionar com pessoas de fora, as subculturas tendem a optar por ou um tipo de separatismo - minimizando o contado com o mundo de fora - ou um evangelismo - tentando conquistar as pessoas para a perspectiva da subcultura. Já que a subcultura anarquista é decididamente evangélica, é com isso que eu irei lidar. Todos os grupos evangélicos, desde os Batistas até os partidos comunistas, desde os Moonies até a subcultura anarquista, o são porque eles estão convencidos de que eles têm as respostas para os problemas essenciais do mundo.


Convencer os outros disso torna-se um grande motivador por trás das ações daqueles dentro de tais subculturas. Eles agem e falam de uma forma a apresentar uma imagem de auto-confiança como também um tipo de solidariedade com aqueles que eles desejam conquistar. Os indivíduos de dentro dessas subculturas não vivem por eles mesmos mas pelo ideal, pela resposta de que eles têm tanta certeza que irá curar todos. Eles vivem, ou tentam viver, de acordo com uma certa imagem, e portanto são conformistas.


Por causa da natureza das subculturas, a subcultura anarquista só pode existir ao remover a anarquia e a rebelião do terreno de nossas atuais vidas diárias e tornando-as em idéias com papéis sociais correspondentes. Ela irá louvar a “espontaneidade” enquanto define seu conteúdo e, portanto, suprimindo-a. A expressão livre de paixão e de desejos não é encorajada, e na verdade, frequentemente é o oposto. De dentro de sua estrutura, a subcultura anarquista é bem conservadora, sendo sua manutenção a sua prioridade mais alta. Cada nova exploração e experimentação é uma ameaça para sua existência e deve ser rapidamente definida, limitada e recuperada por ela. Isso explica ambas as reações absurdas e defensivas de certos anarquistas a explorações teóricas mais ousadas, como também a tendência por essas explorações de se manterem em uma realidade de teoria separada sem prática. Uma subcultura é um lugar seguro, para segurança, para encontrar papéis sociais e sistemas de relacionamentos pelo qual uma pessoa possa definir ela mesma, e não um lugar para explorações livres e encontrar o desconhecido.


A subcultura anarquista, então, não pode ser uma expressão de anarquia e rebelião vivida, mas pode somente ser o modo da sociedade de definir, limitar e as recuperar. Como crianças de uma sociedade, nós todos somos peritos em desconfiar de nós mesmos, em ter medo do desconhecido, em preferir a segurança do que a liberdade. Não é de se surpreender que nós caímos em atividades que criam e mantém uma subcultura. Mas já passou da hora de nós admitirmos que esse é apenas o nosso modo de nos adaptar na sociedade que nós dizemos odiar, de criar um nicho para nós mesmos em sua estrutura. Por que essa subcultura não é um desafio real à sociedade; ela é meramente uma leal oposição na qual suas regras - como todas as regras - são apenas um sub-sistema das regras da sociedade.


Então chegou o momento de jogar ao vento a cautela, de divergir absolutamente, como os surrealistas dizem, de todas as regras, para dar um passo da arena da subcultura anarquista - ou de derrubar a arena. Sempre existirão aqueles exigindo saber o que nós iremos por em seu lugar, mas a questão é exatamente colocar nada em seu lugar. O problema, a fraqueza destes de nós que dizem opor-se à autoridade, têm sido nossa necessidade de ter uma autoridade dentro de nossas cabeças, uma resposta, um modo de nos manter na linha. Nós não temos confiado em nós mesmos, e então nesses momentos quando a anarquia tem realmente irrompido adiante, quando a autoridade tem sido temporariamente quebrada abrindo todas as possibilidades, nós não ousamos explorar o desconhecido, para viver nossos desejos e paixões. Em vez disso nós canalizamos nossa rebelião na mera imagem da rebelião, que nos mantém seguros de jamais termos que confrontar nossos reais desejos e paixões.


A recusa de autoridade, a recusa de todas as amarras, deve incluir a recusa da subcultura anarquista, porque é uma forma de autoridade. Com esse suporte terminado, nós ficamos com nada - além de nós mesmos. Como indivíduos transitórios, em constante mudança, e apaixonados, nós nos tornamos a única base para criar nossas vidas e nos opormos à sociedade enquanto ela tenta forçar nossas vidas em seu molde. A rebelião deixa de ser um papel e em vez disso torna-se nossa recusa momento a momento em deixar que nossas vidas sejam roubadas de nós. A anarquia deixa de ser um ideal e se torna o caos que destrói a autoridade, que mina a autoridade e abre possibilidades, novas realidades de exploração para nós mesmos. Para realizarmos isso, nós devemos deixar de pensar como vítimas e começar a pensar como criadores. A paranóia negativa que permeia o modo que nós nos relacionamos com o mundo precisa de ser rejeitada para que nós possamos avaliar precisamente as forças e as fraquezas da sociedade enquanto a confrontamos em nossas vidas cotidianas e possamos miná-la inteligentemente.


Uma paranóia positiva - um reconhecimento de que a sociedade e o inferno que ela nos faz passar são aberrações e que o mundo está cheio de maravilha e beleza, que dentro dele todos os nossos desejos mais profundos e mais ainda podem ser facilmente realizados - necessita ser cultivada. Então nós iremos ousar a encarar o desconhecido, a nos relacionar livre e apaixonadamente, evitando a mera tolerância e aceitando um conflito honesto. Nós ousaremos nos opor à sociedade pela força de nossos próprios desejos, sonhos e de nossa cobiça pela vida. Nós iremos recusar respostas fáceis, sistemas e seguranças pelas prisões que elas são, preferindo a liberdade encontrada em explorar com entusiasmo o desconhecido, a aventura de descobrir o mundo de maravilhas que a autoridade tenta nos negar. O que foi negado de nós, nós devemos tomar, e nós devemos tomá-los não nos conformando em uma subcultura, mas sim mergulhando de cabeça no desconhecido, correndo o risco de deixar para trás tudo o que foi suprimido de nós não importando quão confortável seja e rebelando totalmente contra a sociedade.

“Tudo é para ser sempre e automaticamente arriscado. Sabemos, pelo menos, que o fio que encontramos no labirinto deva levar a outro lugar.”

- Esse texto apareceu originalmente no Anarchy: A Journal of Desire Armed

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