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A Rebelião dos Mortos

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Espere Resistência
CrimethInc


O tempo todo, nós pressupomos que ele estava apenas no início da grande narrativa da sua vida, que ele tinha tempo de sobra antes de partir nas aventuras que ele descrevia com antecedência tão apaixonadamente para mim. Só no fim que ele descobriu que eles tinha sido um personagem periférico em uma história muito diferente.


A morte estava esperando desde o início para o momento decisivo no qual mandar o seu corpo se amotinar. A tripulação abandonou os seus postos, apagaram suas lanternas, atearam fogo à embarcação e se dispersaram no vento.


Ainda tinha coisas que eu gostaria de lhe perguntar, conversar que eu esperava revisitar, mas era tarde demais. Ele havia se tornado uma memória, uma espécie de arquétipo existindo somente naqueles que ele assombrava; o mistério daquelas discussões inacabadas estava gravado no mundo para sempre. Eu ainda tinha seus e-mails na minha caixa de entrada, mas não tinha ninguém do outro lado.


O que qualquer um de nós não daria por uma audiência com um de nossos arquétipos! Alguns deles partiram para a eternidade sem nem precisar morrer.


A morte acaba com os abismos que nos separam uns dos outros ― e de nós mesmos e dos nossos passados. Ela interrompe a história que projetamos em nossas vidas, expelindo as conexões entre os momentos isolados de nossa experiência ― deixando-os aprisionados, mudos, na eternidade.


Esse vazio não apenas circunscreve a nossa existência, mas também cerca e isola todo instante, tornando-os irrevogáveis e extremamente preciosos. Nós tememos até mesmo pensar nele porque ele nos força a reconhecer que nunca poderemos voltar para nenhum único momento de nossas vidas.


Eu não havia refletido muito sobre a morte antes do Daniel morrer. Eu ainda estava em choque quando nós fomos à missa de sétimo dia. Era inquietante se sentir tão triste e ainda assim tão entorpecida, tão incapaz de de lidar com a minha tristeza. Mesmo cercada por outras pessoas de luto eu ainda me sentia isolada, sozinha nos meus pensamentos e tristeza, com nenhuma válvula de escape para o desesperador sentimento de urgência que me possuía. Se havia um momento chorar e se arrancar os cabelos, para pular em cima de uma mesa e cantar aos berros canções em sua memória, para jurar de vingar-se da sua morte absurda com nossas próprias vidas, ele havia chegado. Mas esta tarefa estava além de nós. Os rostos ao meu redor pareciam indiferentes, até mesmo entediados.


Eu não havia refletido muito sobre a morte até esse momento, apesar de que eu sempre soube que eu iria morrer, desde criança. Ou seja: Eu já estava entediada com a minha mortalidade há mais tempo do que consigo lembrar. Eu estava em negação, ou apenas tão entediada com tudo mais que isso não importava?


Na manhã seguinte, eu estava de volta ao quarto andar com uma visão do prédio idêntico do outro lado da rua, remexendo nos faxes que haviam chegado durante o fim-de-semana. Meu café-da-manhã seguia na escrivaninha, intocado, e o telefone continuava tocando. Eu nem sempre estive entediada; mesmo naquele escritório, eu sorrateiramente lia os livros que ele me emprestava e tínhamos boas conversas por telefone ou pela internet.


Uma mensagem eletrônica chegou: a máquina de café tinha quebrado e cabia a mim consertá-la. E se ele soubesse que ia morrer? Ele teria feito uma contagem regressiva até o dia fatídico, teria vivido de forma diferente? Teria ele se congelado frente a esse conhecimento horrível?


De alguma forma havia virado café por todo balcão; o pacote de sonhos estava encharcado. Eu peguei o pacote, me movi para jogá-lo fora, e congelei com ele em uma mão e um punhado de guardanapos na outra ― eu estaria encrencada se não houvessem mais sonhos, será que eu conseguiria salvar algum? ― apenas tempo suficiente para o telefone começar a tocar.


Eu deixei tocar e joguei os sonhos no lixo. E se eu soubesse com antecipação quando minha morte chegaria? Ela estava me esperando no futuro, como a de Daniel o esperava, assim como a de todo mundo. Se alguém pudesse ver o tempo de cima, olhando toda a história de uma vez só, nós pareceríamos todos mortos-vivos se movendo inconscientemente por trilhos rumo a um fim inevitável.


Isso não seria muito diferente, afinal eu já sabia o meu cronograma de trabalho de todos os dias até o final de dezembro. Dez anos atrás, um verão era uma eternidade; agora anos inteiros passavam voando em um grande borrão interrompido apenas por mortes, casamentos e outras catástrofes. Não existe observação mais lugar-comum que esta, mas até onde sei ninguém estudou ainda por que crianças e adultos vivenciam o tempo passar de forma tão diferente.


Eu desliguei a máquina de café da tomada e levei-a comigo até o elevador. Em incontáveis outros prédios, incontáveis outras secretárias estava lutando com incontáveis máquinas de café; incontáveis elevadores levavam incontáveis empregados para incontáveis banheiros; incontáveis telefones tocavam e tocavam e tocavam. Ele eram como uma manifestação física da inevitabilidade das nossas vidas e mortes, uma máquina nos empurrando a uma velocidade máxima por nossos caminhos pré-definidos. Eu apertei o botão para o último andar.


A morte é a maior das imposições sobre e ao redor da nossa liberdade, mas ela apenas formaliza as renúncias que nós mesmos fazemos, momento a momento, por todas nossas vidas. Eu imaginei todos ocupantes desses prédios comerciais se levantando num motim como as células do corpo do Daniel.


Eu desci do elevador no último andar e caminhei para o local onde o zelador às vezes vai para dar uma fumadinha. Não havia ninguém lá. Abri a janela e balancei a máquina de café pelo seu fio, onze andares acima da calçada. Eu a deixei ir. Ela encolhia à minha frente até que se ouviu um estrondo distante; um pedestre deu um pulo pra trás surpreso.


Foda-se, eu disse para mim mesma. Observem, o primeiro alvorecer que o mundo jamais viu. Esta é a rebelião dos mortos.

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