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A Propósito do Revisionismo Anarquista

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Errico Malatesta


Escreve-me um companheiro: “Depois do ato de contrição (nota: ato revisionista) do número 3, é teu dever dizer-nos claramente quais são os meios práticos a utilizar para fazer nossa revolução. Só então podemos discutir.” Um outro pede que eu “me abra”. Outros ainda esperam uma fórmula mágica que resolva todas as dificuldades. Estranha mentalidade para anarquistas!


Garanto que “ato de contrição” foi coisa que nunca fiz. Posso facilmente provar com documentos que aquilo que agora digo, andei dizendo-o durante anos; e se agora insisto nisto e outros prestam mais atenção do que antes é porque os tempos estão mais maduros, enquanto a experiência persuadiu muitos que antes se compraziam naquele belo otimismo kropotkiniano que eu chamei de “providencialismo ateu” a descer das nuvens e a ter em conta a as coisas tal qual elas são , bem diferente daquilo que gostaríamos que fossem.


Mas deixemos estas recordações históricas de interesse pessoal e vamos às questões gerais e atuais. Nós, nesta revista, tal como tantos outros companheiros de outras publicações semelhantes, nunca pretendemos ter, pronta e linda, a solução infalível e universal para todos os problemas que nos vêm à cabeça; mas, reconhecida a necessidade de um programa prático, adaptável às várias circunstância que possam apresentar-se no desenvolvimento da vida social antes, durante e depois da revolução, convidamos todos companheiros que têm idéias a expor e propostas a fazer para a elaboração do dito programa. Portanto, aqueles que acham que até agora tudo tem corrido bem e que se deve continuar na mesma linha, só têm que defender este seu ponto de vista; enquanto que os outro que, tal como nós próprios, pensam ser necessário preparar-se intelectual e materialmente para as funções práticas que competem aos anarquistas, esses, em vez de aguardarem passivamente a nossas palavras, deveriam procurar dar a sua própria contribuição ao debate que lhes interessa. Por mim, eu creio que não há “uma solução” para os problemas sociais, mas mil soluções diversas e variáveis, como diversa e variável é, no tempo, e no espaço, a vida social.


No fundo, todas as instituições, todos os projetos, todas as utopias seriam igualmente boas para resolver o problema, isto é, contentar as pessoas, se todos os homens tivessem os mesmos interesses e as mesmas opiniões e se encontrassem nas mesmas condições. Mas unanimidade de pensamentos e esta identidade são impossíveis e, na verdade, nem seriam sequer desejáveis; e, por isso, na nossa conduta atual e nos nossos projetos de futuro devemos ter presente que não vivemos, nem viveremos amanhã, num mundo povoado unicamente de anarquistas. Pelo contrário, somos e seremos ainda por longo tempo uma minoria relativamente pequena. Isolar-nos não é geralmente possível e, ainda que o fosse, seria em detrimento da missão que nos atribuímos, para não falar do nosso bem-estar pessoal. É preciso, pois, encontrar o modo entre não –anarquista da maneira mais anarquista possível e com a maior vantagem possível para a propaganda e para a atuação de nossas idéias.


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Nós queremos fazer a revolução porque acreditamos na necessidade de uma mudança radical, que não poderá ser pacífica devido à resistência dos poderes constituídos, na ordem política e na ordem econômica vigente, para criar um novo ambiente social que torne possível aquela elevação moral e material das massas que a propaganda, a educação, é incapaz de conseguir nas circunstâncias atuais. Mas não poderemos fazer uma revolução exclusivamente “nossa”, até porque não temos o consenso das massas e não queremos, ainda que o pudéssemos, impor com a força a nossa vontade, para contra os fins que acreditamos. Portanto, para sair desse circulo vicioso, devemos contentar-nos em fazer uma revolução que seja o mais “nossa” possível, favorecendo e participando, moral e materialmente, em qualquer movimento que se dirija no sentido da justiça e da liberdade; e, triunfante a insurreição, devemos trabalhar para que a revolução não pare e avance sempre na conquista de maior liberdade e maior justiça. Isto não significa “acomodar-se” aos outros partidos, empurrá-los para diante e colocar as massas diante dos vários métodos, a fim de que possam avaliá-los e escolher. Poderemos ser abandonados, traídos, como aconteceu em outras ocasiões; mas é preciso correr o risco se não se quer ficar praticamente inativo e renunciar a contribuir com a força das nossas idéias e da nossa ação para o curso da História.


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Outra observação. Existem muitos anarquistas, dos mais conhecidos e, direi mesmo, dos mais eminentes, que, ou por crerem realmente ou por julgarem útil para a propaganda, divulgaram a idéia de que a quantidade de mercadorias produzidas e existentes nos armazéns dos proprietários seria de tal maneira abundante que bastaria dispor livremente desses armazéns para satisfazer amplamente as necessidades e desejos de todos sem que, por longo tempo, devessem preocupar-se com problemas de trabalho e de produção. E, naturalmente, encontraram gente disposta a acreditar neles. Os homens têm demasiada tendência para descansar das fadigas e ignorar os perigos. Tal como os socialistas democráticos encontraram grande consenso nas massas fazendo crer que, para emancipar-se, bastava colocar o voto na urna e confiar a terceiros a própria sorte, também certos anarquistas fascinaram as massas dizendo-lhes que bastaria um dia de luta épica para depois gozarem sem esforço, ou com um esforço mínimo, o paraíso de abundância em liberdade.


Ora, isto é precisamente o contrário da verdade. Os capitalistas produzem para vender com lucro e por isso bloqueiam a produção logo que percebem uma diminuição ou anulação do lucro. Eles têm geralmente mais vantagem em manter os mercados num estado de relativa penúria; prova-o o fato de que basta uma má colheita para as coisas escassearem e faltarem realmente. Pode, pois, dizer-se que o maior dano do sistema capitalista não é tanto o exército de parasitas por ele alimentados, mas sobretudo os obstáculos colocados na produção de coisas úteis. O esfomeado, o mal-vestido fica aturdido quando passa diante dos armazéns transbordando de gêneros de toda a espécie: mas se alguém se mete a distribuir essas riquezas entre todos os necessitados verá quão pouco restaria para cada um!


O socialismo, no sentido amplo da palavra, a aspiração ao socialismo apresenta-se sob a forma de um problema de distribuição diante do espetáculo da miséria dos trabalhadores ao lado da agiotagem e do luxo dos parasita e como revolta moral contra a patente injustiça social que levou os sofredores e todos os homens de coração a procurar e a imaginar melhores modos de convivência social. Mas a realização do socialismo – seja anárquico ou autoritário, mutualista ou individualista etc. – é eminente um problema de produção. Quando as coisas faltam, é inútil tentar o melhor modo de distribuí-las e se os homens são levados a lutar entre si por um pedaço de pão, é grande o perigo de que os sentimentos de amor e fraternidade transforme-se em luta brutal pela vida.


Hoje, afortunadamente, os meios de produção existem em grande quantidade. A mecânica, a química, a agricultura etc. multiplicaram a potência produtiva do trabalho humano. Mas é necessário trabalhar e para trabalhar de forma útil é necessário saber: saber como se deve trabalhar e como se pode economicamente organizar o trabalho.


Se os anarquistas querem agir eficazmente face à concorrência dos diversos partidos, precisam aprofundar, cada um no ramo para que se sente mais inclinado, o estudo de todos problemas teóricos e práticos do trabalho útil.


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Mais. Nós não estamos mais nos tempos e nos países onde bastava a uma família um pedaço de terra, um arado, um punhado de sementes, uma vaca e umas galinhas para viver satisfeita. Hoje as necessidades multiplicaram-se e complicaram-se muito. A desigual distribuição natural das matérias-primas obriga cada aglomerado de homens a Ter relações internacionais. A própria da densidade da população torna, não só miserável, mas absolutamente impossível a vida do eremita, caso fossem muitos a ter um tal gosto.


Nós temos necessidade de receber produtos de todo o globo, queremos a escola, a ferrovia, o correio, o telégrafo, o teatro, a saúde pública, o livro, o jornal etc.


Tudo isto, que é o fruto da civilização, bem ou mal, funciona: funciona principalmente com vantagem para as classes privilegiadas, mas funciona; e os benefícios podem, com relativa facilidade, ser estendidos a todos quando for abolido o monopólio da riqueza e do poder. Queremos nós destruí-lo?


Estamos em condições de imediatamente organizá-lo de maneira melhor?


A vida social, especialmente a vida econômica, não admite interrupções. É preciso comer em cada dia, alimentar as crianças, os doentes, os incapazes; e haverá quem, após ter feito sua tarefa durante o dia, queira ir ao cinema à noite. Para responder a estas necessidades inadiáveis – deixemos o cinema para depois – é necessária toda uma organização comercial, que cumpre mal, mas de qualquer maneira cumpre, a sua função. É necessário evidentemente utilizá-la, retirando-lhe o mais possível o seu caráter explorador e açambarcador.


É tempo de acabar com aquela retórica – pois não se trata senão de retórica – que procurava encerrar todo o programa anarquista no famoso “destruir ”.


Destruir, sim (ou pelo menos tentar), todas as tiranias e todo o privilégio. Recordemos, no entanto, que o governo e o capitalismo são somente superestruturas que tendem a restringir os benefícios da civilização a um pequeno número de indivíduos e que, para aboli-los, não se pode prescindir de nenhum setor do engenho e do trabalho humano.


É, pois, bem mais aquilo que é preciso conservar do que aquilo que é preciso destruir.


Achamos que não deveremos destruir senão aquilo que possamos substituir por coisa melhor. E para isso há que trabalhar em todos os ramos para melhorar as coisas e melhorar-nos a nós próprios – recusando-nos, bem entendido, a aceitar e a cumprir qualquer função coerciva.


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Alinhei aqui algumas observações. Farei outras quando a ocasião se proporcionar. Queiram os companheiros tomá-las na conta que entenderem e, se lhes parecer bem, usem-nas como matéria de discussão. Mas, por caridade, não esperem de nós a fórmula mágica. Nós não somos, e não queremos parecer, pais eternos.



  • Publicado originalmente em Pensiero e Volontà, Roma, ano 1, nº 9, 01/05/1924.

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