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A Luta de Classes e seus Aspectos mais Característicos nos Anos Atuais: A reemergência da perspectiva comunista

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Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista
François Martin


Este ensaio foi iniciado logo depois de maio de 68 e completado em 1972, por um amigo que trabalhara anos antes numa fábrica de sapatos sob “autogestão” (controlada pelo Estado), na Argélia. Lá, ele vivenciou como um desejo espontâneo de tomar o futuro nas próprias mãos pôde terminar numa auto-organização institucionalizada do trabalho assalariado.

Se este texto fosse escrito hoje, os fatos históricos seriam diferentes. No entanto, ele ainda mantêm uma força. O PC francês declinou, através da desindustrialização das áreas tradicionais da classe operária. Além disso, como em outros países, já não se pode mais falar de “stalinismo”. Os PC’s foram stalinistas não por amor à Rússia, mas porque o capitalismo de Estado era uma solução possível para o capital... habitualmente, com as tropas do exército vermelho em volta e a ajuda dos países “socialistas” irmãos. Com a queda da URSS, tornou-se obsoleta essa forma atrasada de capitalismo e os PC’s se transformaram em partidos sociais-democratas. O adaptável PC italiano já estava nesse caminho há muito tempo. Depois de longa resistência, o teimoso PC francês segue o seu exemplo. A velha e sinistra farsa stalinista de 60 anos foi atirada à lixeira da história, não pelo proletariado, mas pela atração fatal das mercadorias. O cartão de crédito é mais poderoso do que o macaco hidráulico. (nota de 1997, Gilles Dauvé)

A proposta original deste texto era tentar mostrar as razões fundamentais pelas quais o movimento revolucionário da primeira metade do século assumiu várias formas (partidos, sindicatos, conselhos operários) que agora não somente pertencem ao passado, como obstruem a reorganização do movimento revolucionário. Porém, só uma parte do projeto foi realizada. Não obstante, seria um erro esperar uma construção teórica completa antes de começar. O texto a seguir fornece elementos úteis para compreender as novas formas do “partido” comunista. Os acontecimentos recentes (principalmente as greves nos EUA, Inglaterra, França e Itália) mostram nitidamente que estamos entrando num novo período histórico. Por exemplo, o Partido “Comunista” Francês (P.C.F.) ainda domina a classe operária, mas está acuado. Por um longo período, o movimento de negação revolucionária ao capital foi desviado pelo P.C.F. – hoje, isso está mudando. O antagonismo entre os proletários e o capital vai se expressando cada vez mais diretamente, no nível dos fatos e ações concretas, ultrapassando a situação vigente quando a ideologia stalinista predominava na massa trabalhadora e o movimento revolucionário tinha que enfrentar o P.C.F. principalmente no campo teórico.

Hoje, os revolucionários são forçados a se opor ao capital praticamente. Novos esforços teóricos são necessários. Não basta concordar no plano das idéias; devem agir e, antes de tudo, intervir nas lutas atuais apoiando suas perspectivas. Os comunistas não têm de organizar um partido separado daquele que se afirma na práxis, em nossa sociedade. Agora e cada vez mais, eles terão de firmar suas posições de maneira que o movimento real não perca tempo em lutas inúteis e falsas. Vínculos orgânicos (produção teórica para a atividade prática) terão de ser estabelecidos entre os que pensam que estamos avançando para um conflito entre o proletariado e o capital. Este texto tenta determinar como o movimento comunista reemerge e definir as tarefas dos comunistas.

A) Maio de 1968, na FrançaEditar

A greve geral de maio de 1968 foi uma das maiores da história capitalista. Contudo, é provável que num primeiro momento, na sociedade contemporânea, esse potente movimento da classe operária não tenha criado os órgãos capazes de expressá-lo. Mais de quatro anos de luta operária comprovam isto. Em lugar nenhum podemos ver organizações indo além de um contato local e temporário. Sindicatos e partidos foram capazes de penetrar nesse vazio e negociar com os patrões e o Estado. Em 1968, alguns Comitês de Ação, de vida curta, foram a única forma de organização proletária que agiu fora dos sindicatos e partidos; os Comitês de Ação se opuseram ao que eles percebiam ser traição por parte dos sindicatos.

Seja no início da greve ou depois, na luta contra o recomeço do trabalho, milhões de trabalhadores se organizaram de alguma maneira fora e contra os sindicatos. Mas, em cada caso, essas iniciativas se evaporaram com o fim do movimento e não se tornaram um novo tipo de organização.

A única exceção foi o Comitê “inter-empresas”, que existiu desde o começo da greve no edifício da Faculdade de Letras, em Paris. Reuniu muitos proletários, indivíduos e grupos de muitas fábricas de Paris. Sua função foi coordenar ações contra o esvaziamento da greve pelo P.C.F. e a C.G.T. (confederação sindical controlada por ele). De fato, o Comitê foi o único órgão operário cuja ação ultrapassou os limites da fábrica, coordenando a solidariedade entre os trabalhadores de diferentes empresas. Como é habitual, em todas as atividades revolucionárias, o Comitê não fez publicidade de sua ação [1]. Continuou a organizar assembléias depois da greve e desapareceu, quando seus membros perceberam que ele já não era útil.

Muitos proletários logo deixaram de comparecer às assembléias. Muitos outros continuaram se encontrando. Durante a greve, a proposta do comitê foi de intensificar a luta contra as manobras dos sindicatos e partidos. Depois da greve, ele se tornou um grupo de discussão para estudar os resultados da greve e extrair lições para o futuro. Essas discussões muitas vezes tratavam do comunismo e de sua importância.

O Comitê agrupou uma minoria. Suas “assembléias gerais” diárias e suas reuniões menores permitiram que milhares de proletários se encontrassem. Mas permaneceu limitado à Paris. Nada sabemos de experiências similares em outras regiões, organizadas fora de todos os sindicatos (incluídos os sindicatos “esquerdistas”: a cidade de Nantes, no oeste da França, foi mais ou menos dominada pelos sindicatos durante a greve).

Acresce que um punhado de pessoas que compartilhavam idéias comunistas (uma dúzia, no máximo) estavam profundamente envolvidas em sua ação e funcionamento. O resultado foi reduzir ao mínimo a influência da C.G.T., dos trotskistas e maoístas. O Comitê estava fora de todas as organizações partidárias e sindicatos – tradicionais e extremistas - e tentou superar o limite da fábrica, prenunciando o que acontece desde 1968. Seu desaparecimento, depois da realização de suas tarefas, antecipou o fim das organizações que surgiram desde então, nas lutas mais características dos anos atuais.

Eis a grande diferença entre a situação atual e o que aconteceu na década de 1930. Em 1936, na França, o proletariado lutou a reboque de organizações “operárias” e pelas reformas que elas pregavam. Assim, a semana de quarenta horas e as duas semanas de férias pagas foram consideradas uma vitória real dos trabalhadores, cuja reivindicação essencial era a igualdade de condições entre os assalariados. Estas reivindicações foram impostas por uma fração da classe dominante. Hoje, a classe operária não reivindica melhoras nas suas condições de vida. Os programas de reforma apresentados pelos sindicatos e partidos se assemelham muito aos do Estado. Foi De Gaulle quem propôs a “participação”, como remédio para o que ele chamou de sociedade “mecânica”.

Parece que só uma fração da classe dominante analisou a extensão da chamada “crise da civilização” (A. Malraux). Desde então, todas as organizações - sindicatos e partidos, sem exceção - se juntaram, de uma maneira ou outra, para o grande programa de reforma. O P.C.F. incluiu a “participação real” em seu programa governamental. A central sindical C.F.D.T. prega a autogestão, que também é apoiada por grupos de extrema-esquerda defensores dos “conselhos operários”. Os trotskistas propõem o “controle operário”, como programa mínimo para um “governo operário”.

Supostamente, toda essa preocupação teria como objetivo acabar com a separação entre o trabalhador e o produto de seu trabalho. Esta é uma visão “utópica” do capital e que nada tem a ver com o comunismo. A “utopia” capitalista procura se livrar do lado mau da exploração. O movimento comunista não se exprime numa crítica formal do capital. Não quer mudar as condições de trabalho, mas sua função, substituindo a produção de valores de troca pela produção de valores de uso. Enquanto os sindicatos e partidos discutem nos limites de um mesmo programa, o programa do capital, o proletariado tem uma atitude não-construtiva. Além de suas ações políticas práticas, não “participa” do debate organizado nessa situação e não faz uma investigação teórica de suas próprias tarefas. Este é um período de grande silêncio do proletariado. O paradoxo é que a classe dominante tenta expressar as aspirações dos proletários, à sua maneira. Uma fração da classe dominante entende que as condições atuais de apropriação da mais-valia são um obstáculo para o funcionamento da economia. Seu programa é dividir a torta com uma classe operária que, “lucrando” com o capital e “participando” dele, seja mais produtiva. Estamos num ponto em que o capital almeja sua própria sobrevivência [2]. Mas, para consegui-la, terá de se livrar dos capitais parasitários, isto é, das frações que não produzem suficiente mais-valia.

Em 1936, os proletários tentaram alcançar o nível de outros assalariados. Hoje em dia, é o capital que impõe aos setores assalariados privilegiados as condições gerais de vida dos proletários. O conceito de participação implica igualdade diante da exploração imposta pelas necessidades da acumulação. Assim, a participação é um “socialismo” da miséria. O capitalismo quer reduzir os custos dos setores necessários à sua sobrevivência mas que não produzem valor diretamente.

No curso de suas lutas, os proletários entendem que a possibilidade de melhorar suas condições materiais é limitada e, sobretudo, já planejada pelo capital. A classe operária não pode mais intervir baseada num programa que realmente alteraria suas condições de vida dentro do capitalismo. As grandes lutas da primeira metade do século XX: pela jornada de oito horas, pelas quarenta horas semanais, férias pagas, sindicalismo industrial, estabilidade no emprego etc. estabeleceram um tipo de relação entre o proletariado e o capital que permitia aos operários uma certa eficiência “capitalista”. Hoje, o próprio capital impõe reformas e generaliza a igualdade de todos enquanto assalariados. E segmentos integrados da classe operária estariam dispostos a combater por objetivos intermediários, como no início do século ou na década de 1930. É óbvio, porém, que enquanto não houver uma clara perspectiva comunista não acontecerá a formação de organizações proletárias numa base comunista. Isto não quer dizer que os objetivos comunistas repentinamente se tornarão nítidos para todos. Mas a classe operária, a única que produz mais-valia, está no núcleo da crise do capitalismo e terá que se destruir, com todas as outras classes, além de simultaneamente criar os órgãos dessa autodestruição suprimindo o capitalismo. A organização comunista emergirá no processo prático de destruição da economia burguesa e de criação de uma comunidade humana mundial, tendo sido abolidas a mercadoria e a troca.

O movimento comunista tem se afirmado continuamente desde o início do capitalismo. Eis por que o capital é forçado a manter vigilância e violência constantes contra toda ameaça ao seu funcionamento normal. Desde a conspiração secreta de Babeuf, em 1795, o movimento operário enfrenta uma violência crescente e árduas lutas, demonstrando que o capitalismo é não o auge da humanidade, mas sua negação.

Ainda que a greve de maio de 1968 tenha tido apenas resultados positivos imediatos, sua força foi que ela não fez nascer ilusões duráveis. O “fracasso” de maio é o fracasso do reformismo, e o fim do reformismo permitiu lutar num nível totalmente diferente: uma luta contra o próprio capital, não contra seus efeitos. Em 1968, todo mundo pensou numa “outra” sociedade. O que as pessoas disseram raramente foi além da noção geral de autogestão. Excetuada a revolução comunista - que somente pode ser desenvolvida se o proletariado, a classe que produz mais-valia, a dirige -, todas as demais ações só podem se desenvolver e serem refletidas dentro da esfera capitalista, a do capital reformando a si mesmo.

Por trás das críticas parciais e alienadas vislumbramos o início da crise do valor, que é característica do período histórico atual. Estas idéias não vêm de lugar nenhum; elas sempre aparecem como expressões da comunidade humana que existe potencialmente em cada um de nós. Sempre que a falsa comunidade do trabalho assalariado é questionada, emerge a tendência para uma organização social em que as relações não são mais mediatizadas pelas necessidades do capital.

Desde maio de 68, a atividade do movimento comunista tende a ser crescentemente concreta.

B) Greves e Lutas Operárias, desde 1968Editar

Enquanto, nos anos posteriores à segunda guerra mundial, as greves - mesmo as mais importantes - eram mantidas sob controle e não seguidas por crises políticas e monetárias, os últimos anos têm visto uma renovação das rebeliões industriais na França, Itália, Inglaterra, Bélgica, Alemanha Ocidental, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal, Suíça... Na Polônia, os trabalhadores atacaram o quartel general do PC cantando ”A Internacional”. O processo foi o mesmo em quase todos os casos. Uma minoria inicia o movimento com seus próprios objetivos; a seguir, o movimento se espalha para outras categorias de trabalhadores na mesma empresa; as pessoas se organizam (piquetes de greve, comitês operários nos locais de trabalho, nas linhas de montagem); os sindicatos cuidam para ser os únicos a negociar com a gerência; finalmente, os sindicatos conseguem que os trabalhadores voltem ao trabalho, depois de apresentar slogans unitários dos quais ninguém gosta mas todos aceitam por causa da incapacidade de formular outros. O único movimento que foi além do estágio de greve, tal como agora existe, foram as rebeliões e greves na Polônia entre dezembro de 1970 e janeiro de 1971.

O que aconteceu, brutalmente na Polônia, só existe como tendência no resto do mundo industrial. Na Polônia, não existe um mecanismo de “compensação”, um poder capaz de amortecer a crise social. A classe dominante teve de atacar diretamente o proletariado, para manter a acumulação do capital (extração de mais-valia) em condições normais. Os acontecimentos na Polônia revelam que a crise do capital tende a se espalhar a todas as áreas industriais, e exemplificam o comportamento da classe operária no centro da crise.

O estopim do movimento foi a necessidade de defender o preço médio de venda da força de trabalho (salário). Mas o movimento avançou imediatamente para outro campo, confrontando a sociedade capitalista enquanto tal: os proletários foram forçados a atacar os órgãos de opressão. O partido e sindicato oficiais foram atacados, o edifício do partido foi destruído. Em algumas cidades, estações ferroviárias eram mantidas vigiadas para o transporte de tropas. O movimento foi forte suficiente para formar um órgão de negociação: um comitê operário para a cidade. O próprio fato de que Gierek teve de comparecer em pessoa nos estaleiros deve ser considerado uma vitória da classe operária como um todo. Um ano depois, Fidel Castro foi ao Chile para pedir aos operários das minas de estanho que cooperassem com o governo (“socialista”). Na Polônia, os proletários não enviaram delegados ao poder central para apresentar suas exigências: o governo foi até eles para negociar... a inevitável rendição dos proletários.

Face à violência do Estado, a classe operária criou seus próprios órgãos de violência. Nenhum líder antecipou a organização da revolta: foi produzida pela natureza da sociedade a revolta que tentou destruí-la. Os líderes (o comitê operário da cidade) só apareceram depois que o movimento alcançou o ponto mais alto que sua situação permitiu. O órgão de negociação é só uma expressão da percepção, por ambos os lados, de que havia apenas uma solução possível. O que caracteriza este órgão de negociação é a ausência de delegação de poder. Ele antes representa o limite externo de um movimento que, na situação atual, não pôde ir além da negociação. As reformas, mais uma vez, são propostas pelo capital, ao passo que o proletariado se expressa na recusa prática; ele deve aceitar as propostas do poder central na medida em que sua práxis ainda não é forte o suficiente para destruir a base desse poder.

A luta proletária tende a opor diretamente sua própria ditadura à do capital, a se organizar numa base diferente da do capital e, assim, a pôr a questão da transformação da sociedade em ato. Quando as condições existentes são desfavoráveis para um ataque geral, ou quando este ataque fracassa, as formas da ditadura se desintegram, o capital triunfa de novo, reorganiza o proletariado de acordo com sua lógica, desvia a violência para seus próprios objetivos e separa o aspecto formal da luta de seu conteúdo real.

Devemos nos livrar da velha oposição entre “ditadura” e “democracia”. Para o proletariado, “democracia” não significa se organizar como um parlamento, de maneira burguesa; para ele, a “democracia” é um ato de violência por meio do qual destrói todas as forças sociais que o impedem de se expressar e que o mantêm como uma classe dentro do capitalismo. A “democracia” não pode ser nada mais do que a ditadura. Isto se observa em toda greve: a forma de sua destruição é precisamente a “democracia”. Tão logo existe uma separação entre um órgão de tomada de decisões e um órgão de ação, o movimento não está mais na fase ofensiva. Está sendo desviado para o campo do capital. Opor a democracia operária à “burocracia” dos sindicatos significa atacar um aspecto superficial e ocultar o conteúdo real das lutas proletárias, que têm uma base totalmente diferente. A democracia é hoje um slogan do capital: ele propõe a autogestão de sua própria negação. Todos aqueles que aceitam esse programa propagam a ilusão de que a sociedade pode ser mudada por uma discussão geral seguida por um voto (formal ou informal) que decidirá o que fazer. Ao manter a separação entre decisão e ação, o capital tenta manter a existência das classes. Toda crítica meramente formal - isto é, que não vai até as raízes de tal separação - perpetua a divisão. É difícil imaginar uma revolução que começa com os proletários levantando as mãos para votar. A revolução é um ato de violência, um processo através do qual as relações sociais são radicalmente transformadas. [3]

Não pretendemos fornecer uma descrição das greves que tem acontecido desde 1968. Carecemos de informação, um grande número de livros e panfletos foram escritos sobre elas. Queremos destacar o que elas têm em comum, e de que maneira sinalizam um período no qual a perspectiva comunista aparecerá cada vez mais concretamente.

Nós não dividimos a sociedade capitalista em diferentes setores - “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”. É verdade que algumas diferenças podem ser observadas, mas estas não ocultam a natureza das greves, nas quais não há diferenças reais entre lutas de “vanguarda” e de “retaguarda”. O processo das greves é cada vez menos determinado por fatores locais e cada vez mais pelas condições internacionais do capitalismo. Assim, as greves e revoltas na Polônia resultaram de um contexto internacional; a relação entre Ocidente e Oriente foi a raiz desses acontecimentos em que as pessoas cantam “A Internacional” e não o hino nacional. O capital ocidental e oriental têm um interesse comum: assegurar a exploração de seus respectivos proletários. E os relativamente subdesenvolvidos capitalismos “socialistas” precisam manter uma estrita eficiência capitalista para concorrer com seus mais modernos vizinhos ocidentais.

A luta comunista começa num dado lugar, mas sua existência não depende de fatores puramente locais. Ela não se desenvolve conforme os limites de seu lugar de nascimento. Os fatores locais se tornam secundários frente aos objetivos do movimento. Se uma luta se limita a condições locais, ela é imediatamente engolida pelo capitalismo. O nível alcançado pelas lutas proletárias não é determinado por fatores locais, mas pela situação global do capitalismo. Assim que a classe que concentra os interesses revolucionários da sociedade surge, ela imediatamente busca, na sua situação, e sem qualquer mediação, o conteúdo e o objetivo de sua atividade revolucionária: esmagar seus inimigos e tomar as decisões impostas pelas necessidades da luta. As conseqüências de suas próprias ações forçam-na a ir mais longe.

Ainda há uma sociedade capitalista na qual o proletariado é somente uma classe do capitalismo, uma parte do capital, situação em que ela não é revolucionária. As máquinas dos partidos e sindicatos ainda cuidam de controlar e dirigir setores consideráveis do proletariado para os fins capitalistas (como, na França, o direito à aposentadoria aos 60 anos). As eleições gerais e muitas greves são organizadas por sindicatos para reivindicações limitadas. Todavia, é cada vez mais evidente que nas maiores greves a iniciativa não vem dos sindicatos. É dessas greves que estamos falando. A sociedade industrial não foi dividida em setores, nem o proletariado se dividiu em jovens, velhos, nativos, imigrantes, estrangeiros, especializados e não-especializados. Não nos opomos a todas as descrições sociológicas; elas podem ser úteis, mas não nos interessam aqui.

Devemos tentar estudar as rupturas proletárias para além da sociedade capitalista. Tal processo tem um centro definido. Não aceitamos a visão sociológica de classe operária porque não analisamos o proletariado sob um ponto de vista estático, mas em sua luta contra o valor, contra a existência do trabalho como mercadoria. O centro deste movimento e sua liderança devem estar na classe que produz valor. De outro modo, isso significaria que o valor de troca não existe mais e que já estamos além do estágio capitalista. De fato, o profundo significado do movimento proletário é parcialmente oculto pelas lutas na periferia, nos limites da produção de valor. Foi o caso de maio de 1968, quando os estudantes mascararam a luta real, que ocorreu em outro lugar.

De fato, as lutas periféricas (as ditas novas classes médias) são apenas um sinal da crise muito mais profunda que ainda está oculta. A reiteração da crise do valor implica, para o capital, a necessidade de racionalizar, isto é, de atacar os setores atrasados que são menos capazes de se proteger. Isto aumenta o desemprego e o número daqueles que não têm reservas. Mas sua intervenção não deve nos fazer esquecer o papel essencial jogado pelos trabalhadores produtivos na destruição do valor de troca.

C) Os Dois Aspectos mais Característicos das GrevesEditar

Por um lado, a iniciativa da greve surge dos proletários auto-organizados; por outro, a iniciativa de terminar a greve vem da fração da classe organizada em sindicatos. Estas iniciativas são conflitantes, uma vez que expressam dois movimentos opostos. Nada é mais estranho a uma greve do que seu fim. O fim de uma greve é um momento de interminável palavrório, quando a noção de realidade é superada pelas ilusões: muitas reuniões acontecem e os burocratas sindicais monopolizam a palavra; as assembléias gerais atraem cada vez menos pessoas e finalmente votam pelo reinício do trabalho. O fim da greve é um momento em que o proletariado fracassa e sucumbe ao controle do capital, é novamente atomizado e destruído como classe capaz de se opor ao capital. O fim de uma greve significa negociação, o controle do movimento, ou do que resta dele, por organizações “responsáveis” - os sindicatos. O início de uma greve significa justamente o oposto: aí, a ação do proletariado não tem nada a ver com formalismo. Os que não apóiam o movimento são empurrados para fora, sejam executivos, supervisores, trabalhadores, gerentes, comitês de base ou sindicatos oficiais. Os gerentes são aprisionados, as sedes dos sindicatos são atacadas por milhares de proletários, dependendo das condições locais. Durante a greve em Limbourg (Bélgica, inverno de 1970), a sede do sindicato foi arrasada pelos proletários. Cada ato proletário de uma luta autônoma se contrapõe à destruição do movimento. Não há lugar para “democracia”: pelo contrário, tudo é evidente, e todos os inimigos devem ser derrotados sem perda de tempo ou discussões. Uma energia considerável impulsiona a ofensiva, e parece que nada é capaz de pará-la.

Nesse estágio, parece inevitável que a energia da greve comece a se dissipar com o início das negociações. O mais importante é que esta energia parece não ter relação com as razões oficiais da greve. Se algumas dezenas de proletários levam à greve milhares de outros a partir de suas próprias reivindicações, eles o conseguem não só por causa de algum tipo de solidariedade, mas pela existência de uma comunidade imediata na prática. Devemos acrescentar o ponto mais importante: o movimento não faz qualquer exigência particular. A questão que o proletariado colocará na prática já está presente em seu silêncio. Em seus próprios movimentos, o proletariado não faz nenhuma exigência particular: é por isso que esses movimentos são as primeiras atividades comunistas de nossa época.

O que importa, no processo de ruptura com o capitalismo, é que o proletariado não mais reivindica reformas parciais e particulares. Assim, o proletariado cessa de ser uma classe, visto que não defende seus interesses de classe particulares. Este processo é diferente, de acordo com as condições. O movimento que mais avançou, na Polônia, mostrou que o primeiro passo do processo é a destruição dos órgãos capitalistas de repressão dentro do proletariado (principalmente os sindicatos); o proletariado, a seguir, deve se organizar para se proteger contra os órgãos de repressão fora do proletariado (forças armadas, polícia, milícia), e começa a destruí-los.

As condições específicas na Polônia, onde os sindicatos eram parte do aparato estatal, forçaram o proletariado a não fazer distinções entre os sindicatos e o Estado, já que não havia nenhuma. A fusão entre os sindicatos e o Estado apenas tornou evidente uma evolução que não aparece com nitidez em outros países, como França e Itália. Em muitos casos, os sindicatos ainda jogam o papel de amortecedor entre os trabalhadores e o Estado. Mas uma luta radical cada vez mais terá que atacar os sindicatos e as frações do proletariado dominadas pelos sindicatos. Foi-se o tempo em que os proletários formavam sindicatos para defender suas qualificações e o direito ao trabalho.

As atuais condições da sociedade obrigam o proletariado a não fazer qualquer reivindicação particular. A única comunidade organizada e tolerada pelo capital é a comunidade do trabalho assalariado: o capital tende a proibir todas as outras. Agora, o capital domina a totalidade das relações entre os homens. Torna-se óbvio que toda luta parcial é forçada a se inserir numa luta geral contra todo sistema de relações entre as pessoas: contra o capital. De outro modo, ela é integrada ou destruída.

Na paralisação dos ônibus e do metrô (R.A.T.P.) de Paris, no fim de 1971, a atitude resoluta dos condutores de metrô transformou a luta num movimento totalmente diferente de uma greve de uma categoria de proletários. O conteúdo do movimento não depende do que as pessoas pensam. A atitude dos condutores transformou suas relações com a gerência da R.A.T.P. e com os sindicatos, e revelou claramente a verdadeira natureza do conflito. O próprio Estado teve de intervir para forçar os condutores a recuar e aceitar a mediação dos sindicatos. Quer os condutores acreditem ou não, a greve não era mais deles; ela se tornou um assunto público e os sindicatos foram oficialmente reconhecidos como órgãos de coerção contra os trabalhadores, órgãos encarregados de restaurar a ordem normal das coisas. É impossível compreender a importância do “silêncio” do proletariado a menos que compreendamos o forte desenvolvimento do capitalismo até agora. Hoje em dia, é considerado normal que o fim da greve seja controlado pelos sindicatos. Isto não implica qualquer fraqueza por parte do movimento revolucionário. Pelo contrário, numa situação que não permite reivindicações parciais a serem alcançadas, é normal que não devam ser criados órgãos para terminar a greve. Assim, não se observa a criação de organizações proletárias que unam frações do proletariado fora dos sindicatos num programa de reivindicações específicas. Algumas vezes, grupos operários que se formam durante a luta opõem suas reivindicações às dos sindicatos. Mas suas possibilidades são destruídas pela própria situação, que não lhes permite existir por muito tempo.

Se esses grupos querem manter sua existência, eles precisam agir fora dos limites da fábrica, ou serão destruídos pelo capital. O desaparecimento desses grupos é um dos sinais da natureza radical do movimento. Se existissem como organizações, perderiam sua característica radical. Assim, eles desaparecerão e depois retornarão de um modo mais radical. A idéia de que os grupos proletários finalmente obterão êxito, depois de muitas experiências e fracassos, formando uma poderosa organização capaz de destruir o capitalismo, é similar à idéias burguesas de que uma crítica parcial gradualmente se torna radical. A atividade proletária não surge de experiências e não tem outra “memória” senão as condições gerais do capital, que a compelem a agir de acordo a sua natureza. O proletariado não acumula experiências; o fracasso de um movimento é ele mesmo uma demonstração adequada de suas limitações.

A organização comunista surgirá da necessidade prática de transformar o capitalismo em comunismo. A organização comunista é a organização da transição para o comunismo. Aqui reside a diferença fundamental entre nossa época e os períodos anteriores. Nas lutas que aconteceram entre 1917 e 1920, na Rússia e Alemanha, o objetivo era organizar uma sociedade pré-comunista. Na Rússia, as minorias revolucionárias do proletariado tentaram conquistar as outras frações, e mesmo os camponeses pobres. O isolamento dos revolucionários e as condições gerais do capitalismo tornaram-lhes impossível de imaginar a transformação prática de toda sociedade sem um programa que unisse todas as classes exploradas. Estes revolucionários foram circunstancialmente esmagados.

A diferença entre o presente e o passado decorre do grande desenvolvimento das forças produtivas e do incremento, quantitativo e qualitativo, do proletariado. Hoje, o proletariado é muito mais numeroso [4] e usa meios de produção altamente desenvolvidos. As atuais condições do comunismo foram desenvolvidas pelo capital. A tarefa do proletariado não é mais apoiar as frações progressistas do capital contra as reacionárias. A necessidade de uma transição entre a destruição do poder capitalista e o triunfo do comunismo, durante a qual o poder revolucionário cria as condições do comunismo, também desapareceu. Portanto, não há lugar para uma organização comunista como mediação entre as frações radicais e não-radicais do proletariado. O fato de que uma organização que apóia o programa comunista não consiga emergir durante o refluxo entre as maiores lutas é resultado de uma nova relação de classe no capitalismo.

Por exemplo, na França, em 1936, a reação do capital foi tal que se fez necessária uma mudança de governo antes que os trabalhadores pudessem obter o que queriam. Hoje, os governos lançam as reformas, criando situações onde os proletários se organizam para reivindicar como suas as necessidades da produção (participação, autogestão). A economia contemporânea exige cada vez mais planejamento. Tudo que está fora do plano é uma ameaça à harmonia social, sendo considerado não-social e deve ser destruído. Devemos ter isto em mente quando analisarmos greves ou tentativas de insurreição. Os sindicatos devem (a) aproveitar-se das lutas dos proletários, controlando-as; (b) opor-se a ações como sabotagem e interrupção da linha de montagem, para permanecer dentro dos limites do plano (acordos de produtividade, acordos salariais etc.).

D) Formas de Ação que não Podem Ser Recuperadas: Sabotagem e Interrupção da LinhaEditar

A sabotagem é praticada nos EUA há muitos anos e agora está se desenvolvendo na Itália e na França. Em 1971, durante uma greve nas ferrovias da França, a C.G.T. denunciou oficialmente a sabotagem e os “elementos irresponsáveis”. Diversas locomotivas foram desajustadas e algumas danificadas. Na greve da Renault, na primavera de 1971, vários atos de sabotagem danificaram veículos que estavam sendo montados. A sabotagem está se generalizando. A interrupção da linha, que já existia como fenômeno latente, agora está se tornando uma prática comum. Ela aumentou com a entrada de jovens proletários ao mercado de trabalho e a automação. É acompanhada por uma taxa de absenteísmo que causa sérios problemas para os capitalistas.

Esses acontecimentos não são novos na história do capitalismo. Novo é o contexto em que ocorrem. Eles são sintomas superficiais de um profundo movimento social e indicam um processo de ruptura com a sociedade existente. No início do século, a sabotagem foi usada como meio de fazer pressão contra os patrões e para forçá-los a aceitar a existência dos sindicatos. O sindicalista revolucionário francês Pouget examinou isso num panfleto chamado Sabotagem. Ele cita um orador proletário, num congresso operário em 1895: “Os patrões não têm o direito de contar com nossa caridade. Se eles se recusam a discutir nossas reivindicações, então é só pôr em prática a ‘operação tartaruga’ até que eles decidam nos ouvir.”

Pouget acrescenta: “Aqui está uma clara definição das táticas de sabotagem: MAU SALÁRIO, MAU TRABALHO. Esta linha de ação, usada pelos operários ingleses, pode ser aplicada na França, pois nossa posição social é similar à de nossos irmãos ingleses.”

A sabotagem era usada pelos operários contra o patrão para que este admitisse negociar com eles. Foi a maneira de conseguir liberdade de palavra. A sabotagem ocorreu num movimento que tentava incluir a classe operária na sociedade capitalista. A interrupção da linha era uma tentativa de melhorar as condições de trabalho. A sabotagem não era uma recusa rude e direta da sociedade como um todo. A diminuição do ritmo (operação tartaruga) apenas combate alguns efeitos do capitalismo. Outro estudo será necessário para examinar os limites de tais lutas e as condições de sua absorção pelo capital. A importância social dessas lutas permite considerá-las como a base do “reformismo moderno”. A palavra “reformismo” pode ser usada para designar ações que poderiam ser absorvidas pelo sistema capitalista. Se hoje elas são um estorvo à atividade normal, amanhã poderão estar ligadas à produção. Um capitalismo “ideal” poderia tolerar a autogestão das condições de produção: desde que um lucro normal é conseguido pela empresa, a organização do trabalho pode ser deixada aos trabalhadores.

O capitalismo tem realizado experimentos nessa direção, particularmente na Itália, nos EUA, na Suécia (Volvo)[5]. Na França, as organizações esquerdistas “liberais” como o P.S.U., a C.F.T.D. e a esquerda do Partido Socialista são expressões dessa tendência capitalista. Por enquanto, esse movimento não pode ser definido nem como reformista nem como anticapitalista. Esse “reformismo moderno” tem sido freqüentemente dirigido contra os sindicatos. Ainda é difícil descrever suas conseqüências para a produção capitalista. Mas podemos ver o quanto essas lutas atraem grupos de proletários que sentem a necessidade de agir fora dos limites impostos pelos sindicatos.

Mas a sabotagem é diferente. Existem dois tipos de sabotagem:

  • a que destrói o produto do trabalho ou a máquina;
  • a que danifica o produto de modo que ele não possa ser consumido.

A sabotagem, tal como existe hoje, não pode ser controlada pelos sindicatos nem absorvida pela produção. Mas o capital pode impedi-la, aperfeiçoando a vigilância. Por esta razão, a sabotagem não pode ser uma forma de luta contra o capital. A sabotagem é um reflexo do indivíduo: ele se submete a ela, como uma paixão. Embora tenha que vender sua força de trabalho, ele age como o louco comparado ao “racional” (que vende sua força de trabalho e trabalha de acordo). Esta “loucura” consiste na recusa de se transformar em força de trabalho, de ser uma mercadoria. O indivíduo se odeia como essa criatura alienada, dividida; ele quer, através da destruição, da violência, reunir um ser que só existe no e pelo capital.

Esses atos estão fora dos limites de todo planejamento econômico e, portanto, da “razão”. Com freqüência, a imprensa os define como “anti-sociais” e “loucos”: parecem ser perigosos o bastante para que o capital tente suprimi-los [6]. A ideologia cristã aceitou o sofrimento e a desigualdade social dos trabalhadores; hoje, a ideologia capitalista impõe a igualdade perante o trabalho assalariado, mas não tolera nada que se oponha ao trabalho assalariado. A necessidade que o indivíduo sente de repelir fisicamente sua transformação num ser totalmente submisso ao capital mostra o quanto esta submissão se tornou insuportável. Os atos destrutivos são parte da tentativa de abolir o trabalho assalariado como forma de comunidade social. No silêncio do proletariado, a sabotagem aparece como o primeiro balbuciar da fala humana.

As duas atividades - interrupção da linha e sabotagem - requerem um certo grau de acordo entre as pessoas que trabalham onde essas atividades são exercidas. Isto revela que, embora não apareçam organizações oficiais ou formais, existe uma rede clandestina de relações de teor anticapitalista. Esta rede é mais ou menos densa, de acordo com a importância da atividade, e desaparece com o fim da ação anticapitalista. Fora da ação prática(e, portanto,teórica)subversiva, é comum que os grupos que se formam em torno dessas tarefas se dissolvam. Com freqüência, sustentar uma ficção de “comunidade social” resulta numa atividade secundariamente anticapitalista, primariamente ilusória. Na maioria dos casos, esses grupos acabam se formando em torno de algum eixo político. Na França, núcleos de proletários se agrupam em torno de organizações como “Lutte Ouvrière”, alguns sindicatos da C.F.D.T. ou grupos maoístas. Isto não significa que minorias trotskistas, maoístas, ou do C.F.D.T. estão ganhando espaço entre os trabalhadores, senão que algumas minorias proletárias estão tentando romper o isolamento. Em todos os casos, o fim da rede e da ação anticapitalista significa a reorganização do proletariado pelo capital, como parte do capital.

Em resumo, fora de suas atividades, o comunismo não existe. A dissolução de um movimento social com conteúdo comunista é acompanhada pela dissolução de todo o sistema de relações que ele organizou. A democracia, a divisão das lutas em “econômicas” e “políticas”, a formação de uma vanguarda com uma “consciência” socialista, são ilusões do passado. Estas ilusões não são mais possíveis, à medida que um novo período se inicia. O fim das organizações - criadas pelo movimento, e que desaparecem quando o movimento acaba - não reflete a fraqueza do movimento, mas sua força. O tempo das falsas batalhas acabou. O único conflito real é aquele que leva à destruição do capitalismo.

E) A Atividade dos Partidos e Sindicatos em Face da Perspectiva ComunistaEditar

  1. No mercado de trabalho, os sindicatos cada vez mais se tornam monopólios que compram e vendem força de trabalho. Quando se unificou, o capital unificou também as condições da venda de força de trabalho. No capitalismo, o proprietário da força de trabalho não é apenas forçado a vendê-la para poder sobreviver, mas deve também se associar a outros proprietários para poder vendê-la. No retorno da paz social, os sindicatos conseguem o direito de controlar o contrato de trabalho. Na sociedade moderna, os trabalhadores são cada vez mais obrigados a se sindicalizar se querem vender sua força de trabalho. No início deste século, os sindicatos eram associações de trabalhadores que se uniram para defender o preço médio da venda de sua mercadoria. Os sindicatos não eram nada revolucionários, como foi revelado pela atitude deles na primeira guerra mundial, quando apoiaram a guerra, direta ou indiretamente. Na medida em que os proletários estavam lutando por sua existência como classe dentro da sociedade capitalista, os sindicatos não tinham função revolucionária. Na Alemanha, durante a insurreição de 1919-1920, os sindicatos se limitaram a defender seus direitos econômicos num contexto geral de luta contra o capitalismo [7]. Fora do período revolucionário, o proletariado é apenas uma fração do capital representada pelos sindicatos. Enquanto outras frações do capital (capital financeiro e industrial) estavam formando monopólios, o proletariado, enquanto capital variável, também formava o seu monopólio, do qual os sindicatos eram os gestores.
  2. Os sindicatos se desenvolveram, do fim do século XIX ao início do século XX, como organizações de defesa do trabalho qualificado. Isto ficou particularmente claro com o surgimento da A.F. L. nos EUA. Até a primeira guerra mundial (ou, melhor, até o surgimento da C.I.O., na década de 1930 nos EUA) os sindicatos cresceram apoiando-se nas frações relativamente privilegiadas da classe operária. Isto não significa que não tiveram influência nos segmentos mais explorados, mas essa influência só foi possível quando coerente com os interesses dos operários qualificados. Com o desenvolvimento da automação, a tendência é a substituição dos operários qualificados por técnicos cuja função é, também, de controlar e supervisionar as massas de proletários não-qualificados. Por isto, os sindicatos, tendo perdido importantes contingentes operários, cujas qualificações desapareceram, tentam recrutar os técnicos.
  3. Os sindicatos representam o proletariado enquanto capital variável, força de trabalho. Esta força é a única capaz de valorizar capital. Os sindicatos têm de fundir seu programa de desenvolvimento com o do capital financeiro e industrial, se pretendem manter “a sua” força de trabalho sob controle. Os representantes do capital variável, do capital sob a forma de força de trabalho, mais cedo ou mais tarde devem se juntar aos representantes das frações do capital que estão no poder. As coalizões governamentais, que reúnem a burguesia liberal, tecnocratas, grupos políticos de esquerda e sindicatos, surgem como uma necessidade na evolução do capitalismo. O capital requer sindicatos fortes, capazes de propor medidas econômicas para valorizar o capital variável. Os sindicatos não são “traidores”, no sentido de que traem os interesses do proletariado: eles são coerentes consigo mesmos e com o proletariado, quando este aceita sua natureza capitalista.
  4. Assim, torna-se compreensível a relação entre o proletariado e os sindicatos. Quando se inicia o processo de ruptura com o capitalismo, os sindicatos são imediatamente desmascarados e ultrapassados. Mas, assim que o processo termina, o proletariado não pode mais contribuir para sua reorganização pelo capital, ou seja, pelos sindicatos. Já não há ilusões “sindicalistas” no proletariado. Há apenas uma organização capitalista, isto é, “sindicalista”, do proletariado.
  5. Na Itália, o atual desenvolvimento das relações entre sindicatos e patrões ilustra o que dissemos. A evolução dos sindicatos deve ser observada com atenção. É normal que, em áreas relativamente atrasadas (do ponto de vista econômico e comparadas com os EUA), como a França e a Itália, os efeitos da modernização da economia sejam acompanhados pela tendência mais moderna do capital. O que ocorre na Itália é, de várias maneiras, uma indicação do que está amadurecendo em outros países.

A situação italiana nos ajuda a compreender a francesa. Na França, a C.G.T. e o P.C.F. reagiram hostilmente às lutas proletárias. Na Itália, porém, a C.G.I.L. e o P.C.I. foram capazes de se reciclar para a nova situação. Este é um dos motivos da diferença entre o “maio” francês e o “maio” italiano. Na França, o maio de 68 aconteceu repentinamente e dificilmente pôde ser entendido. A situação italiana evolui mais lentamente, revelando suas tendências.

A primeira fase durou da primavera de 1968 até o inverno de 1971. O elemento principal foi o surgimento de lutas proletárias autônomas, fora e contra os sindicatos e organizações políticas. Os comitês de ação proletária logo se formaram, com uma diferença fundamental: na França, os proletários foram retirados das fábricas pelos sindicatos, o que na prática fez com que se iludissem quanto aos limites da fábrica. Na medida em que a situação geral não lhes permitia ir além, desapareciam. Na Itália, contudo, desde o início, os comitês proletários foram capazes de se organizar dentro das fábricas. Nem os patrões e nem os sindicatos podiam se opor a eles. Muitos comitês se formaram nas fábricas isolados dos outros, e todos começaram a questionar o ritmo da linha e a organizar a sabotagem.

Esta foi, de fato, uma forma alienada da crítica do trabalho assalariado. A cada passo do movimento italiano, a atividade dos grupos ultra-esquerdistas foi particularmente digna de nota. Sua atividade consistiu em reduzir o movimento ao seu aspecto formal. Ocultando seu conteúdo real, criaram a ilusão de que a “autonomia” das organizações operárias era, enquanto tal, revolucionária o suficiente para ser apoiada e afirmada. Eles glorificaram todos os aspectos formais. Mas, visto que não eram comunistas, não foram capazes de expressar o movimento existente na luta contra o ritmo da linha e as condições proletárias, movimento que orientava a luta contra o trabalho assalariado.

A luta proletária, enquanto tal, não encontrou resistência. Foi o que a desarmou. Nada mais podia fazer, senão se adaptar às condições da sociedade capitalista. Os sindicatos, por seu turno, reciclaram sua estrutura para anular o movimento operário. Segundo Trentin, líder do C.G.I.L., eles decidiram organizar “uma completa transformação do sindicato e um novo tipo de democracia de base”. Reformaram suas organizações de fábrica de acordo com o modelo dos comitês “autônomos” que surgiram nas lutas recentes. A capacidade dos sindicatos de controlar o conflito industrial fez com que aparecessem como a única força capaz levar os trabalhadores a retomar o trabalho. Houve negociações nalgumas grandes empresas, como a Fiat. O resultado deu ao sindicato o direito de interferir na organização do trabalho (tempo e ritmo, normas de trabalho etc.). Em troca, a gerência da Fiat desconta a contribuição sindical do salário dos operários, como já acontecia na Bélgica. Ao mesmo tempo, sérios esforços são feitos para alcançar um acordo de união entre os maiores sindicatos: U.I.L. (socialista), C.I.S.L. (democrata cristão), C.G.I.L. (do P.C.I.).

( O exemplo italiano revela com nitidez a tendência dos sindicatos a se tornar monopólios que negociam as condições de produção de mais-valia com outras frações do capital. Abaixo, as opiniões de Petrilli, presidente da empresa estatal I.R. (Cartel do Estado), e de Trentin:

Trentin: “... o enriquecimento do cargo e a admissão de um grau de autonomia mais alto na tomada de decisões pelos grupos operários interessados (em cada fábrica) já são possíveis... Mesmo quando, devido ao fracasso do sindicato, os protestos operários levam a reivindicações ilusórias e irracionais, os operários exprimem sua recusa de produzir sem pensar, de trabalhar sem decidir; eles exprimem sua necessidade de poder.”

Petrilli: “Na minha opinião, é evidente que o sistema de linha de montagem implica um desperdício real de capacidades humanas e produz um compreensível sentimento de frustração no trabalhador. As tensões sociais resultantes devem ser encaradas realistamente como fatos mais estruturais do que conjunturais... A maior participação dos trabalhadores na elaboração dos objetivos da produção põe uma série de problemas, tendo a ver menos com a organização do trabalho do que com a definição do equilíbrio de poder dentro da empresa.”

Os programas são idênticos e os objetivos são os mesmos: o aumento da produtividade. O único problema que permanece é a distribuição do poder, que está na raiz da crise política em muitos países industriais. É provável que o fim da crise política seja acompanhado pelo surgimento do “poder operário” como poder do trabalho assalariado, sob várias formas: autogestão, coalizões “populares”, partidos socialistas-comunistas, governantes de esquerda com programas de direita, governos de direita com programas de esquerda... [8])



Referências

  1. Se tivesse, as pessoas saberiam dele como aconteceu com o Conselho para a Manutenção das Ocupações (CMDO), influenciado pelos situacionistas, ativo desde 10 maio e localizado em outro prédio universitário, dez minutos à pé tanto da Sorbonne quanto do Censier. Na sua versão de 68, a Internacional Situacionista considera o comitê de Censier como empoeirado demais para ser de real interesse.. O CMDO divulgou amplamente vários cartazes e panfletos, na França e no exterior, enquanto o comitê de Censier era mais conectado aos locais de trabalho. Mas a verdade é que ambos estavam entre os melhores aspectos radicais de 68. Descrito pela IS como “um elo, não um poder”, o CMDO decidiu se dissolver em 15 de junho. (nota de 1997. Gilles Dauvé)
  2. Conseqüentemente, o relatório do M.I.T. e o debate sobre “crescimento zero”.
  3. Eis um exemplo da direção da greve, em Paris-Nord, 1986. A assembléia decidira não bloquear as linhas para impedir que os trens circulassem. Mas, quando viram o primeiro trem saindo da estação, conduzido por gerentes médios e sob proteção policial, os grevistas imediatamente bloquearam, pouco se importando com as horas de espontânea discussão democrática. O comunismo é naturalmente o movimento da grande maioria, a longo prazo, capaz de decidir e dirigir seus atos. Neste sentido, o comunismo é “democrático”, mas ele não defende a democracia como princípio. Políticos, patrões e burocratas se aproveitam da minoria ou da maioria quando lhes interessa: assim, também, faz o proletariado. A militância proletária muitas vezes se reduz a poucos. O comunismo não é o domínio da maioria, nem o de poucos. Para debater e/ou iniciar a ação, as pessoas evidentemente tem de se unir em algum lugar. Este lugar tem sido chamado de soviete, comitê, conselho etc. Ele se torna uma instituição, contudo, quando separado do movimento, o aparato decisório prevalece sobre as ações. Esta separação é a essência do parlamentarismo. Realmente, as pessoas devem decidir por si mesmas. Mas qualquer decisão, revolucionária ou não, depende do que aconteceu antes e do que ainda está acontecendo fora da estrutura formal de decisão. Quem organiza a assembléia põe a agenda; quem levanta a questão determina a resposta; quem chama ao voto induz à decisão. A revolução não estabelece uma forma diferente de organização, mas uma solução diferente daquela do capital e do reformismo. Como princípios, democracia e ditadura são igualmente erradas: elas isolam um momento especializado e aparentemente privilegiado. A reivindicação por democracia teve seu auge na França, em 1968. Dos apoiadores aos franco-atiradores e ginasianos, cada grupo queria se juntar e livremente gerir seu próprio mundo, esperando que disso resultasse uma mudança global. Mesmo os situacionistas permaneceram no campo da democracia - numa forma conselhista, isto é, anti-estatista e além da mercadoria e do lucro, mas ainda separando meios de fins. A IS foi a expressão mais adequada de maio de 68. (nota de 1997, Gilles Dauvé)
  4. Esta afirmação de 1972 pode parecer estranha, depois de 25 anos, mas estamos seguros de que ainda é verdade. O crescente desemprego acompanha o surgimento de muitos assalariados, não só nos EUA, mas na França e mais ainda em escala mundial, onde milhões de pessoas são lançadas à miséria do trabalho moderno nas últimas décadas, como na China. Desnecessário é dizer que o “trabalho” tem um significado muito diferente. Um trabalhador assalariado africano sustenta com seu salário mais de 20 pessoas, enquanto na Europa Ocidental um assalariado sustenta 2 ou 3. (nota de 1997, Gilles Dauvé).
  5. Refere-se à transformação do sistema Taylor. A linha de montagem, em parte, já desapareceu em algumas fábricas.
  6. O dirigente oficial do PC declarou, em 1970: “Existem trabalhadores que nunca defenderemos: aqueles que quebram as máquinas ou carros que fabricaram.” (nota de 1997, Gilles Dauvé)
  7. Assim como o movimento de Delegados de Base, os Comitês Sindicalistas Revolucionários franceses e a Associação Geral dos Trabalhadores Alemã (AAUD).
  8. Como a IS quase ao mesmo tempo, este texto considerou a Itália como um laboratório de pesquisas da ação proletária e da reação capitalista. Nos anos seguintes, a Itália exibiu uma rica variedade de autonomia proletária: indisciplina, absenteísmo, assembléias no chão da fábrica e sem aviso, manifestações prévias à convocação de uma greve, piquetes selvagens, bloqueio de mercadorias... Uma característica permanente foi a recusa da hierarquia: igual aumento de salários, ausência de categorias privilegiadas, liberdade para falar... Outro aspecto, a tentativa de superar a diferença entre representação e ação (parlamento / governo: veja, acima, a nota 3) na atividade das comissões de base. Esta auto-organização foi essencial como meio de ação coletiva, mas como órgão de transformação social não obteve êxito e desapareceu com a sublevação proletária. Não por acaso, os comitês de grandes fábricas do norte da Itália só foram frouxamente conectados: resistir ao patrão pode ser uma questão local, mas reorganizar a produção e a vida social exige sair do local de trabalho. Isto é, ultrapassar os muros da fábrica e da empresa, enquanto valor acumulado do qual fazemos parte. (nota de 1997, Gilles Dauvé)


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