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...Todas as Estradas Nos Levam a Vagar

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Espere Resistência
CrimethInc


A administração não podia agüentar tanta exposição; eles quebraram o seu contrato com a corporação e assinaram um acordo com os trabalhadores do campus só alguns meses depois da marcha noturna. Eu saí de lá como um foguete assim que eles cederam. Cheio da empolgação da vitória e com conexões por todo país, cortesia dos meus novos amigos, eu parti atrás da minha fortuna.


Muitos de nós começam nossas histórias em nossas cabeças e têm medo de terminá-las no papel - ou começamos nossas vidas no papel e as terminamos cedo demais na terra. Nossas canções nunca são cantadas, nossas gargantas ficam mudas, o tremor de expectativa antes das cordas soarem continua e continua até o infinito; todo o mundo ecoa em silêncio, se você puder ouvir. Eu iria me vingar pelo potencial desperdiçado da minha espécie: eu iria viver a vida que eu queria, e nada iria me parar.


Embora, eu me sentisse irracionalmente culpado quando pensava no Daniel. Me divertir parecia uma traição, especialmente fazendo coisas que ele gostaria de fazer.


Eu ainda ouvia o ruído dos trilhos amplificados dentro do vagão que nos levava para fora da cidade, acelerando em um ritmo ensurdecedor até que ele soasse como trovoadas de um círculo de tambores. Um dia depois estávamos desviando das lanternas de seguranças na estação de trem na periferia de uma grande cidade, a vida tão tensa e dramática como havia sido durante o auge da nossa luta na universidade. Foi uma revelação descobrir que, por todo lado, havia gente como nós, travando lutas parecidas e indo atrás de sonhos que ressoavam com os meus. Em uma cidade eles ocuparam um grande prédio, enchendo-o de objetos descartados, numa bricolagem pós-industrial: cadeiras de cabeleireiros, aparelhos de ginástica presos no teto, portas de geladeira que se abriam para quartos. Em outras eles tinham programas que colocavam a distribuição de alimentos do Marshall no chinelo: jardins comunitários ocupados, clínicas de aborto clandestinas, grupos de direitos dos inquilinos prontos para marcharem contra os senhorios com tochas e forcados.


Em uma comunidade rural, eu andei ao alvorecer por campos em plena brotação para dançar ao redor de uma enorme fogueira com uma centena de estranhos. Você já ouviu o rugido grave de um fogo deste tamanho, faíscas e brasas acima da sua cabeça, se unindo com as estrelas? Na Europa, chegamos em uma metrópole uma noite depois que os protestos arrasaram o centro da cidade, furgões blindados da polícia patrulhavam as ruas cheias de carros queimados e lojas fechadas. Tivemos que cruzar uma barreira policial para chegar no prédio ocupado onde íamos ficar, e durante toda a noite policiais e sentinelas trocavam insultos aos berros em uma língua estrangeira; eu nunca me senti tão em casa. Lá nós vimos centros sociais que abrigavam mil pessoas nos seus auditórios, administrados por conselhos compostos por pessoas de diversas gerações, com décadas de experiência.


Eu fui de carona até o topo dos Alpes onde a terra desaparece na estratosfera e voei com um piloto holandês todo o caminho até Ljubljana, onde anarquistas e artistas ocuparam todo um bairro. Naquela noite eu sentei e conversei com velhos eslovacos sobre a vida sob o comunismo e caminhei de volta, cedo da manhã, sob uma neblina tão densa que eu não enxergava três metros à frente. Na América Latina eu andei por favelas maiores que o subúrbio onde cresci, e fiquei numa área rural ocupada de mais de 30 quilômetros; eu aprendi espanhol rapidamente pois todos falavam comigo como se eu já soubesse falar. A Rita até viajou até o Quênia para visitar os trabalhadores nas fábricas pelas quais protestamos - eu ouvi sobre tudo isto no café-da-manhã em Santiago. Uma semana depois eu estava no fronte de uma multidão ensandencida, bombas de tinta eram lançadas de trás por sobre nossas cabeças e a tropa de choque a dez metros de distância disparando tiros de aviso.


Até eu partie, não haviam estações de trem, nem centros sociais em prédios ocupados, Alpes ou favelas - eu nunca tinha ouvido falar deles, nunca pensei se eles poderiam existir. Se eu encontrasse um deles por acaso em uma viagem de negócios, eu poderia não ter passado da porta ou mesmo passado por ela sem nem me dar conta do que aquilo realmente era. Agora eu estava pronto para acreditar que tudo que eu sempre sonhei pode existir em algum lugar do mundo - assim como antes da primeira circunavegação ao redor do mundo era possível imaginar que o mundo de sonhos era um lugar físico para o qual o espíritos viajavam à noite, onde você podia chegar de dia se viajasse longe o suficiente.


É preciso um verdadeiro choque para quebrar o verniz da rotina e descobrir o mundo em que realmente vivemos. Eu imagino os astronautas pisando na terra pela primeira vez quando desembarcaram da nave que os levou às estrelas. Eu me senti presente nesses lugares desconhecidos de uma forma que eu nunca estive em locais familiares - e quando eu finalmente desci do avião no final da minha viagem, eu senti como se eu estivesse pisando na lua.



Não durou. Minha mãe e minha irmã me esperavam ansiosamente no topo da escada rolante. Era bom vê-las, mas me perturbava descobrir que enquanto eu viajava descobrindo novas extensões de possibilidades tudo em casa permanecia igual. Eu senti com terror que eu estava voltando no tempo para o momento da minha partida, para continuar dali como se tudo que tivesse acontecido no meio tempo fosse uma alucinação.


No meu curto ano de vagabundagem, alguns de meus novos amigos já tinham voltado para a configuração padrão, concluindo que realmente tinha sido "só um sonho" e se reintegrando ao mundo do qual tínhamos fugido. Eu deveria ter percebido que isto era um sinal de agouro, mas naquele momento eu estava muito ocupado conhecendo novas pessoas e partindo para novos destinos. Quando eu finalmente conversei com eles mais tarde, eles falavam do seu período de viagens como um parênteses fechado nas suas vidas e esperavam que eu fizesse o mesmo.


Mas eu estava dedicado a continuar minha pouco prática busca por aventura; eu parecia fisicamente incapaz de me resignar à vida que todos aceitavam como normal. Todos pressupunham que eu voltei porque estava exausto e duro, mas isso nunca me impediu antes. A verdade é que voltei numa missão. Eu saí de casa para fugir de tudo isso, mas enquanto eu viajava, eu descobri que "tudo isso" estava por todo lugar: em aduanas e anúncios publicitários em inglês, as já familiares redes de lanchonetes e despejos de ocupações, mulheres improvavelmente loiras em novelas e referências sutis a Hollywood no jeito dos meus amigos falarem. Esses eram os arautos de um imperialismo que iria homogeneizar o mundo todo a menos que as pessoas cavassem sob os seus calcanhares em algum lugar para impedir o seu progresso.


A cidade tumultuada que eu deixei para trás estava calma quando eu voltei, como Hamelin depois que todas as crianças foram levadas embora. Se ninguém ficasse para a trazer de volta à vida, viajantes como eu estariam condenados a vagar indefinidamente como almas penadas, traçando o mundo em busca de maravilhas, comunidade e luta sem nunca para por tempo suficiente para serem cativados. Agora que eu tinha visto protestos, centros sociais e outros milagres, eu estava determinado a levá-los para casa comigo.


Mas antes, havia um protesto a mil e quinhentos quilômetros de distância do qual eu não podia deixar de participar.

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