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"Bandidos Vermelhos", Funcionários e Poetas

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Charles Reeve


Rb-star.png   Este texto foi originalmente publicado por Biblioteca Virtual Revolucionária.


Richard Julius Hermann Kerbs, aliás Jan Valtin, nasceu em 1905. Marinheiro, aderiu em 1923 ao KPD (partido comunista alemão, pró-bolchevique). Exemplo típico do carreirista político, Valtin subirá depressa na hierarquia: alto funcionário do partido, quadro da Komintern (III Internacional) e, enfim, agente do GPU. (policia secreta russa). A serviço dessas duas instituições, viajará pelo mundo inteiro.

Em 1933, já na clandestinidade, Valtin é preso na Alemanha. Torturado e enviado para um campo de prisioneiros, recebe da Komintern a ordem de se juntar aos nazistas e se integrar a Gestapo. Libertado, a Gestapo o manda à Dinamarca para espionar seus antigos camaradas do KPD. Preso pela G.P.U., consegue fugir e se exilar nos EUA, onde morreu, em 1951.

Sua autobiografia [1], Out of the night, foi publicada em francês com um título no mínimo paradoxal, Sans patrie ni frontières. Ora, a vida de Valtin foi totalmente devotada aos interesses de sua pátria sagrada, a Rússia bolchevique. E as fronteiras terminariam por caracterizar o personagem. Sem fronteiras, Valtin jamais teria sido Valtin!

A descrição dos métodos do partido "comunista" fez a reputação do livro entre os anti-stalinistas de todos os matizes. Hoje, porém, muitos concordam ao considerá-lo um texto da guerra fria, escrito com a intenção primária de amalgamar as duas formas de totalitarismo e justificar o sistema da democracia parlamentar. Para fazê-lo, o livro foi construído em torno de uma mentira histórica: a única oposição ao nazismo na Alemanha teria sido feita pelo partido stalinista, utilizando os mesmos métodos que seu irmão inimigo e guiado pelo princípio de que o fim justifica os meios. Martelar a idéia da semelhança dos extremos consolida o discurso justificativo do mundo tal como é e, portanto, tal como deve ser. E as verdades do testemunho de Valtin servem, assim, à mentira dominante.

Quando, em 1923, Valtin ingressou no KPD, o prisioneiro político mais célebre na Alemanha era Max Holz [2]. Holz tornou-se revolucionário nas trincheiras da primeira guerra mundial. Em 1919, membro da Liga Spartacus, de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, era um agitador itinerante do KPD. Expulso por indisciplina, Holz se juntou ao recém-fundado KAPD (partido comunista operário), que seguia uma linha antiparlamentar e anti-sindical. No sudeste da Alemanha, região fronteiriça com a Tchecoslováquia, organiza um grupo proletário armado que, juntamente com comitês de desempregados e alguns conselhos operários não reformistas, toma o poder local, abrem as prisões, expropriam os burgueses e latifundiários para financiar o partido, enfrentam o exército, os pistoleiros da social-democracia e os bandos nacionalistas em formação.

O grupo de Holz não era o único. Entre os demais, havia o grupo de Karl Platner, outro "bandido vermelho" conhecido, no qual atuavam mulheres. Em março de 1921, Holz dirigia uma das milícias operárias que agiam na Alemanha central [3]. Ao contrário de Platner, Holz era pouco estimado por seus companheiros, que o criticavam pela arrogância e autoritarismo [4]. Preso e condenado à prisão perpétua, adere ao KPD, que lhe promete uma defesa eficaz [5]. Em 1928, foi libertado. O partido, que desconfia de seu espírito rebelde, envia-o para a Rússia... trabalhar nas minas. Dissidente mais uma vez, Holz é convocado pela GPU, que mal conhece o antigo lutador do KAPD. Ele não se arrepende e ainda faz ameaças. Habituados com a obediência, os policiais russos se amedrontam, cedem e o mandam para repousar no campo. Em setembro de 1929, Holz foi "suicidado" pela GPU. Três anos depois, Platner seria assassinado pela polícia alemã, quando tentava passar para a Checoslováquia.


São anos decisivos. Em março de 1921, as greves insurrecionais (que, mais tarde, seriam conhecidas como "ação de março") eclodem na Alemanha central, governada pela social-democracia, onde a repressão patronal e policial era particularmente dura. O KAPD apóia um movimento de ação direta. Seus militantes, reagrupados nas comissões de fábrica e empresas, embora respeitando o modelo de dupla organização, partido-sindicato [6], dedicam-se à radicalizar as ações econômicas e recusam qualquer negociação com os patrões. O KPD, fiel a Moscou, se mostra indeciso, dilacerado entre sua política parlamentarista e a pressão da base [7]. Será, aliás, a última ação anticapitalista de massas em que combatem juntos, ombro a ombro, os militantes decididos dos dois partidos.

Isolados, sem perspectivas, as milícias operárias, inclusive a de Max Holz, são derrotadas e as fábricas ocupadas são retomadas pela polícia. Depois de anos (1918-1921) de uma guerra social latente [8], o fracasso da ação de março é o "retorno à normalidade" tão desejado pela social-democracia. Mais de três mil proletários revolucionários são presos, os militantes combativos expulsos das empresas e forçados à clandestinidade. As organizações comunistas radicais, o KAPD e sobretudo as Uniões Operárias são postos fora da lei, acelerando o declínio. O terreno estava livre para a linha institucional e legalista do KPD.


Desde 1920, os dirigentes da Internacional em Moscou tentavam marginalizar os comunistas que se recusavam a atuar nos sindicatos, considerados formas neutras e, portanto, fáceis de retirar da influência social-democrata e de colocar sob a direção dos revolucionários. Quando Lênin classificou esses comunistas como esquerdistas, pretendia antes de tudo criticar sua recusa do compromisso político no terreno da política burguesa, no parlamento e nos sindicatos. É a esta crítica que responde Hermann Gorter, respeitado comunista holandês, em sua Carta Aberta a Lênin [9]. Para a esquerda comunista, a extensão da tática de compromisso bolchevique à Europa ocidental asfixiava as organizações autônomas do proletariado, cujas ações eram as únicas capazes de desenvolver a consciência subversiva. Gorter e seus amigos insistiram em que a maior presença de revolucionários conscientes equivale ao menor papel dos dirigentes. Consideram que a tática dos bolcheviques implica de fato "a primazia dos dirigentes" e o oportunismo burocrático. Para a esquerda comunista, a vitória da linha bolchevique conduzirá inevitavelmente o movimento de emancipação social à derrota. Isto acontecia, cabe lembrar, em 1920-1921 !

Trotsky, encarregado por Lênin de contra-atacar, evitou responder sobre o fundamento de uma posição compartilhada por uma corrente revolucionária que era influente na Europa ocidental e na América do Norte, e optou pela ofensa pessoal. Velho método que sempre dá resultado. Conhecendo a fama de Gorter, considerado um dos maiores escritores holandeses, Trotsky o trata com condescendência como um poeta, cujo estado de espírito "se encontra infalivelmente associado ao pessimismo"[10]. No final de 1921, derrotada a ação de março e esmagada a revolta de Kronstadt, a Internacional pode alardear que a Rússia é a vanguarda do comunismo. As organizações comunistas que se situam à esquerda dos bolcheviques são, então, excluídas em nome da luta contra o sectarismo.

Referências

  1. Jean Valtin, "Sans Patrie ni Frontières", Babel, 1997. Primeira edição: Jean-Claude Lattès, 1975. As citações são da última edição.
  2. Ver sua autobiografia: Max Hölz, "Un rebelle dans la révolution", Spartacus, 1988
  3. Ver mais adiante.
  4. Franz Jung, dirigente do KAPD, o tratará como chefe de meliantes, escaravelho-torpedo - Ludd, Paris, 1993
  5. As campanhas pela libertação dos prisioneiros políticos do KPD utilizavam os meios legais, a pressão parlamentar e sobretudo a ajuda russa. Uma das formas desse « internacionalismo proletário » era a troca de prisioneiros comunistas alemães pelos alemães aprisionados na Rússia. O KAPD, por sua vez, preferia libertar os prisioneiros, sempre que possível, recorrendo à ação direta. Em 1922, Karl Plättner foi arrestado e condenado a dez anos de prisão.
  6. Uma fração das Uniões, os AAU-E, recusou esse modelo e defendeu a unificação da ação política e sindical numa só organização. Otto Rühle foi o teórico desta tendência, dita unitária e antipartido, considerada próxima dos anarco-sindicalistas. Ver Paul Mattick Jr., Modernisme et communisme antibolchévique, Oiseau-tempête, n° 4, inverno de 1998.
  7. A Komintern fez pressão para que o KPD apoiasse o movimento. A revolta de Kronstadt explodiu ao mesmo tempo, é provável que os dirigentes bolcheviques tentassem desviar a atenção dos comunistas europeus da situação na Rússia.
  8. Encontraremos uma viva descrição da atmosfera daqueles anos e da ação de março, no livro de Franz Jung e no de Max Hölz.
  9. H. Gorter, Lettre ouverte au camarade Lénine, Spartacus, 1979. A introdução e as notas de Serge Bricianer estabelecem claramente os interlocutores e alvos do debate.
  10. Trotsky, intervenção contra os delegados do KAPD, Moscou, novembro 1920. Gorter, além de sua obra poética, traduziu obras de Spinoza, Dante, Shakespeare, Goethe e Shelley. Ver o texto de Serge Bricianer, Gorter poète, anexo ao Réponse à Lénine, Spartacus, op. cit.



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